Caro Enrique,

Acho que o grande problema da cultura de pesquisa no Brasil é grande ênfase
em números. A minha impressão depois de um pouco mais de um ano de volta ao
Brasil é que os problemas que você cita vem do processo exagerado de
avaliação de pesquisadores através de métodos objetivos mas ineficazes,
e.g., Qualis. Os pesquisadores precisam publicar caso contrário não
conseguem financiamento. A preocupação é tamanha com números que
pesquisadores acabam não discutindo muito os problemas científicos que eles
estão tratando (e suas soluções), mas ficam presos a comentários como:

"Qual o Qualis desta revista/conferência?", "Eu consegui este ano XX
publicações em Revistas A1.", "Ele é pesquisador PQ."...

Esta impressão foi relatada também por especialistas em Ciência da
Computação convidados pela Capes para avaliar os processos de como
formentar e fazer pesquisa em Computação no Brasil. O relatório se encontra
no link abaixo:

http://www.capes.gov.br/images/stories/download/avaliacao/Relat%C3%B3rio_sem_acomp-2012_02_comp.pdf

A minha opinião é que você não deve ficar impressionado com números nem
deixá-los dominar a sua pesquisa. Apesar dos números Qualis, etc, serem
importantes para conseguir financiamento, eles não devem guiar a nossa
pesquisa. Boa pesquisa vai gerar bons artigos, que por sua vez vão te
motivar a pesquisar novos problemas. Os números virão naturalmente.

Abraços,

Vivek

2013/9/16 Enrique Fynn <[email protected]>

> Me graduei recentemente em ciencia da computação pela UFU
> (universidade federal de uberlandia), acompanho a lista, nunca escrevo
> pois não tenho nada a acrescentar. comecei o mestrado agora, também em
> computação e quero sair, não aguento mais.
>
> Estou aqui por que o que me levou a fazer computação foi a lógica, no
> ensino médio comecei a estudar com o livro do sr. César Mortari
> (Introdução à lógica), aquilo abriu minha mente, aquilo era ciência,
> fui adquirindo cada vez mais livros. Até que entrei na universidade.
>
> Quando entrei na universidade me preparei psicologicamente para
> frequentar as bibliotecas, mergulhar no conhecimento, discutir a
> lógica dos estóicos, lógicas informais, filosofia das lógicas, etc.
>
> Já no 2o período encontrei um professor que me orientou em um projeto
> de pesquisa, logo implementei os algoritmos que me foram pedidos, uma
> coisa tão especializada, que acredito que só eu, o orientador e três
> ou quatro pessoas trabalhavam com isso, não me impediu de continuar,
> eu fazia por que gostava (e por que não havia nada mais o que fazer
> para ganhar os trocados da bolsa de IC).
>
> Agora percebo o quão errada as coisas que fiz foram, deixei, diante
> dos meus olhos acontecer isto:
> a) Esconder resultados para publicar em outros lugares.
> b) Colocar nome no artigo de conjugue que não fez nada.
> c) Publicar os mesmos resultados em diversas revistas diferentes,
> mudando poucas palavras.
>
> Eu contribui para o retrocesso, para a corrupção de valores, o que eu
> fiz está muito longe de ser ciência, é exatamente o contrário,
> gostaria de voltar no tempo e fazer diferente. Mas agora eu vejo que
> não só eu fiz isso, todos fazem isso (pelo menos na UFU/Faculdade de
> Computação), todos professores que respeitava no início fazem isso.
>
> Eu nunca quis um título, tudo que eu queria era estudar o que eu
> gostava de estudar e agora eu sinto que me violentaram, me estupraram
> mentalmente, e tentam-me todo dia à corrupção, já cansei de ouvir "Faz
> isso para conseguir logo seu título", isso é universidade?!
> Quis sair do país, talvez o problema está aqui e lá fora se faça
> ciência de verdade. Mas não, o que vejo é corrupção, em todos níveis.
> Em todos os lugares.
>
> O modus operandi é:
> Pegue um problema obscuro que ninguém sabe muito sobre e que não terá
> nenhum impacto teórico ou aplicação:
> a) Mude parâmetros heurísticos.
> b) Teste em casos que você tem certeza que o problema vai se sair bem
> c) Publique em n periódicos, mudando algumas frases
>
> Isso é ciência?
>
> Agora no mestrado... Comecei a pesquisa, logo me deu uma coceira na
> garganta, uma sensação de déjà vu... Estava eu fazendo as mesmas
> coisas do que na graduação? Sim. E vai ser assim no doutorado e quando
> acabe o doutorado as minhas forças já vão ter se esgotado, vou abraçar
> um tema. Ficar com ele até ficar velho e inoperante, mesmo que esse
> tema seja ultrapassado, inútil e ridículo. Eu vou me odiar o resto da
> vida. E este não é o caminho que eu quero seguir.
>
> O que fazer então? Eu não sei. Sinceramente, trabalhar em empresas é
> frustrante, na universidade é frustrante... A vida me deixa sem
> escolhas. =/
>
> Não posso acabar fazendo algo que eu lutei tanto para condenar,
> abolir, e eu sou só um pequeno peixe na maré e no cardume de
> corrupções, falta dinheiro para investir nos pequenos peixes, por que
> o sistema todo fomenta a corrupção e as pessoas dispostas a
> contribuírem são poucas e tem de muitas vezes mendigar aos grandes
> tubarões que nada fazem e tudo comem.
>
> Peace;
> Fynn.
> --
> "Even a stopped clock is right twice a day"
>
>
> On 16 September 2013 20:49, Adolfo Neto <[email protected]>
> wrote:
> >
> http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2013/09/o-que-e-um-pesquisador-do-cnpq.html
> >
> > Adolfo Neto
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