A questão pedagógica do Anderson Nakano sobre validade dedutiva me suscitou 
a seguinte questão filosófica que pode interessar também a outros membros 
da lista: Instâncias da identidade podem de fato cumprir papel entinemático 
em argumentos dedutivamente válidos?

Definindo um pouco os termos da conversa: é razoável analisar 'entinema' 
simplesmente como 'premissa subentendida'. Assim, no argumento

1) Todos os seres humanos são mortais,
2) Logo Sócrates é mortal.

me parece pacífico dizer que 'Sócrates é ser humano' é um entinema (pois é 
uma premissa implícita) desse argumento, para a generalidade das pessoas 
que usam o argumento (1)=>(2). (Vale notar aqui como o conceito de entinema 
é agente-baseado: algo pode ser um entinema para alguém que usa certo 
argumento. Se a demonstração de um teorema só vale sob certas condições e o 
demonstrador não está ciente disso, então o seu argumento não é válido 
entinematicamente. Ele é simplesmente inválido, ainda que possa ser 
melhorado.)

Por outro lado, nós poderíamos nos questionar: as próprias normas da lógica 
(aquilo que pode ser formalizado com axiomas e regras de transformação em 
um sistema dedutivo) são também entinemas dos argumentos onde operam? Há 
razões para pensar que não. Nesse sentido, pode-se considerar os exemplos a 
la Lewis Carroll que nos mostram que adicionar as normas que determinam a 
validade de um argumento ao próprio argumento como premissas os modificam 
sem os tornar mais completos.

Esse é também o caso das instâncias de identidade? No caso da identidade 
trivial (a=a) certamente, sim. A inferência válida

3) j é F
4) Logo, j é F.

não se torna mais completa com a adição da premissa 'j=j'. Logo, essa 
identidade não é uma premissa implícita do argumento (3)=>(4).

É claro, o caso mais controverso (desde Frege) é o da identidade 
informativa (a=b). No caso do argumento

5) Hesperus é um planeta
6) Logo, Phosphorus é um planeta.

é preciso adicionar a premissa 'Hesperus=Phophorus' para que ele se torne 
válido? Acho que aqui as coisas dependem um pouco da nossa teoria da 
referência. Se assumimos uma concepção segundo a qual o conteúdo de nomes 
próprios é meramente a sua referência, então H=P é também uma instância do 
príncípio de auto-identidade, ainda que nós não possamos sabê-lo a priori. 
(vê-se aqui novamente uma possível independência entre analiticidade e 
aprioridade a qual eu já havia aludido na conversa com o Anderson).

Enfim, acho que a questão que estou propondo aqui pode também ser formulada 
assim: quais são as consequências para o eventual caráter entinemático das 
identidades (informativas) que se pode inferir de uma teoria da referência 
direta dos nomes próprios? Nunca tinha pensado a respeito desses problemas 
exatamente nesses termos, e por isso agradeço pela provocação do Anderson.

Abraços
Bruno

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