Oi Gisele,

Só agora que eu consegui ver o vídeo e as mensagens. Semana intensa... 
Muito bacana, parabéns! Acho que você consegue falar de um modo muito claro 
e inteligível ao grande público sobre coisas tão profundas que fazem nós 
aqui da lista (os supostos especialistas) pensarmos e discutirmos e 
eventualmente divergirmos sobre os assuntos que você aborda. Isso, no meu 
entender, é o melhor indicador possível da alta qualidade dos seus vídeos. 
Parabéns!!

Sobre sua pergunta final 

 > Será que qualquer raciocínio ou juizo esdrúxulo pode ser suportado por 
alguma lógica especifica?

a minha resposta trivial é: SIM.
Mas isso não tem importância nenhuma, porque obter uma lógica “bonitinha" 
que justifique um mal raciocínio, não o torna bom. A lógica NÃO ATRIBUI 
valor a um raciocínio. Ela, no máximo, RECONHECE o valor de um raciocínio.
Os lógicos não são legisladores nem mesmo juízes dos bons raciocínios. Os 
lógicos são meros cronistas, repórteres.

A lógica enquanto disciplina funda-se na aposta de que é possível 
reconhecer um bom raciocínio através de uma relação formal entre as 
premissas e a conclusão do argumento que corresponde à sua expressão 
linguística: a relação de consequência.

Mas quando um raciocínio é bom? Sem muita filosofia, um raciocínio é bom 
quando a conclusão a que se chega está fortemente justificada pelas 
premissas de que se parte. O tipo de “força” que a lógica procura, pelo 
menos em suas abordagens ortodoxas, é a força máxima, a infalibilidade. Um 
raciocínio é bom, do ponto de vista lógico, quando ele é infalível. Quando 
não é possível que a conclusão não seja verdadeira quando as premissas são.

Quando a gente cria, modifica, inventa, altera uma lógica, a gente está 
criando, modificando, inventando, alterando uma relação formal específica 
entre sentenças que constitui-se em uma definição específica de uma relação 
de consequência. Mas o mais importante, o objetivo para fazer isso, sempre 
tem que ser que esta relação de consequência seja um instrumento confiável 
para reconhecer os bons raciocínios.

Acontece que o critério do que é um bom raciocínio não é formal. A 
infalibilidade de um raciocínio não parece depender das especificações 
formais da(s) relação(ões) de consequência dada(s) pela(s) lógica(s). A 
lógica é uma disciplina meio esquizofrênica. Ela estuda uma coisa para 
reconhecer outra.

Criar um sistema formal para justificar um argumento qualquer nos dá uma 
relação formal entre sentenças. Ok. Mas eu não diria que nos dá uma Lógica. 
A gente só vai ter uma Lógica se esta relação formal se mostrar um 
instrumento confiável para reconhecer os bons raciocínios--os infalíveis, 
em uma abordagem ortodoxa.

O limite, que você se pergunta, de até onde podemos ir com nossa liberdade 
de lógicos para criar sistemas e justificar argumentos esdrúxulos, não está 
na lógica, está fora dela, como bem disse o Cassiano. Neste sentido, a 
lógica é muito mais parecida com as ciências naturais do que com a 
matemática. Os físicos, por exemplo, podem criar belíssimas teorias 
explicativas e matematicamente perfeitas diferentes sobre os limites do 
cosmos, sobre universos paralelos, sobre o que havia antes do big bang,… 
enquanto elas não forem empiricamente testáveis, elas não são Física. São 
apenas belíssimas teorias especulativas.

Só que ao contrário do que acontece com a Física e demais ciências 
naturais, o mundo real não basta como árbitro para decidir se um argumento 
é bom ou não. Ele é apenas uma das infinitas interpretações que precisa ser 
levada em consideração.

Para saber se é ou não possível as premissas de um argumento serem 
verdadeiras e a conclusão ser falsa, não basta vasculhar o mundo real. Para 
saber isso precisamos DETERMINAR quais situações (estados de coisas) podem 
existir (são concebíveis) e quais não podem existir (são inconcebíveis).

Essa determinação do que PODE ser real e do que NÃO PODE ser real não é 
empírica nem objetiva. É filosófica. É metafísica. Então, divergir sobre 
lógica é divergir sobre os aspectos mais gerais da realidade, é divergir 
sobre o que é aceitável e o que é inaceitável.

Minha definição poética de lógica é: a lógica é a disciplina que estuda o 
limite mais permissivo do que é aceitável, concebível como parte da 
realidade. A lógica nos dá o limite mais amplo possível para nossa 
imaginação de como o mundo pode ser. Tudo o que estamos dispostos a 
conceber deve caber na lógica. Para além da lógica está o inconcebível, o 
incomunicável.

Saudações,
Daniel.
-----
Departamento de Filosofia - (UFRN)
http://danieldurante.weebly.com

++++++++++

Esperemos que não, mas falta agora alguém fazer um vídeo explicando essa 
questão.

O problema é que não sei como explicar essa questão, pra qual eu nem
tenho resposta ainda :P
Acho que dá pra ficar horas discutindo isso, mas vamos matar de tédio
quem estiver assistindo... Fiquei pensando se existe uma resposta
pragmática pro público geral. Se alguém tiver alguma idéia, será bem
vinda!

Na  verdade, o ponto fundamental é que quase todas as lógicas não-clássicas 
ou alternativas acabam validando menos  juízos do que a lógica standard

Mas isso não é absolutamente claro, e merece ser melhor avaliado.

Se a liberdade for total, como pregavam os nossos antepassados
não-clássicos, a gente não precisa sequer se comprometer com a lógica
clássica, né? (ou com os axiomas tarskianos de consequência...)

Nada me impede, em princípio, de chamar de "OU" aquilo que outra
pessoa chama de "E", e dizer que sou capaz de concluir que B é o caso
sempre que A-OU-B é o caso. :-x


Exatamente. Acho que é claro que não podemos ter liberdade total, mas
onde colocar o limite? O "bom senso" parece ser um começo, mas essa
noção está cada vez mais elástica.

Parece que o mundo anda (cada vez mais) cheio de coisas esdrúxulas!

De fato!

Abraços,
Giselle


Em segunda-feira, 14 de junho de 2021 às 11:25:39 UTC-3, Cassiano Terra 
Rodrigues escreveu:

> Bons dias, camaradas, 
> Espero q esta encontre a todxs bem. 
> eu vi o vídeo da Giselle e achei excelente, parabéns, Giselle e obrigado 
> pelo vídeo. 
> Sob pena de parecer redundante e insuficiente, vou apenas acrescentar um 
> ponto, já q a Giselle falou em pragmático. 
> A lógica não vai resolver esse problema, até onde consigo perceber. Não há 
> nada de menos universal ou faltoso nos algoritmos, mas existe uma dimensão 
> de uso real da linguagem, na qual as asserções são feitas. Pois o q 
> significa (digamos assim) cada algoritmo não é decidível a priori, mas 
> apenas em circunstâncias práticas ou pragmáticas de uso efetivo. Se há um 
> princípio do contexto proposicional, há um princípio do contexto 
> inferencial no qual as proposições se inserem, e inferências são usadas por 
> agentes reais (não digo só humanos). Os medievais tinham uma teoria das 
> obligationes, cuja função é até hoje pouco elucidada, podia ser um jogo 
> apenas ou até menos q isso. Mas de toda forma, sem uma teoria da asserção 
> (aliás, muito em voga até o Tractatus de Wittgenstein, Frege, Peirce e até 
> Heidegger elaboraram teorias da asserção; até Deleuze tem uma!) não vejo 
> como responder satisfatoriamente à questão. O meu palpite é q sim, 
> raciocínios esdrúxulos podem ser sustentados especificamente. Mas a questão 
> é q raciocínios não acontecem no vácuo, em vazios ou ocos existenciais. 
> Saudações, 
> cass.
>
> On Monday, June 14, 2021 at 10:05:46 AM UTC-3 jmstern wrote:
>
>> Caros Redistas: 
>> Como fazer para Contar o numero de "coisas" em um conjunto eh algo tao 
>> basico, que esta (quase) no mesmo nivel da Logica. Pois bem: 
>> A primeira vez que alguem pensou em Contar o Numero de "Coisas" em um 
>> conjunto conforme a estatistica de Fermi-Dirac ou de Bose-Einstein, isto 
>> dever ter parecido um raciocinio muito esdruxulo...  
>> Mas ai, o laboratorio mostrou que esdruxulas eram as nossas 
>> pre-concepcoes sobre como o universo deveria ou nao-deveria se comportar, e 
>> o cosmos seguiu o seu caminho, contando as "Suas" coisas do jeito que Ele 
>> achava por bem que deveria contar :-) 
>> Nossas Logicas ou tecnicas de contagem tiveram que se ajustar ao 
>> universo, revogados todos os pre-julgamentos e as disposicoes em contrario. 
>> ---Julio Stern  
>>
>> ------------------------------
>> *From:* Giselle Reis <[email protected]>
>> *Sent:* Sunday, June 13, 2021 2:32 PM
>> *To:* Joao Marcos <[email protected]>
>> *Cc:* Walter Carnielli <[email protected]>; Marcos Silva <
>> [email protected]>; logical logical <[email protected]>
>> *Subject:* Re: [Logica-l] Coletivo Logica Viva: Existe apenas uma lógica 
>> certa? 
>>  
>> Ois,
>>
>> Obrigada pelas mensagens :)
>>
>> > > E a pergunta que ela deixa é ótima: Será que qualquer raciocínio ou 
>> juizo esdrúxulo pode ser suportado por alguma lógica especifica?
>> > >
>> > > Esperemos que não, mas falta agora alguém fazer um vídeo explicando 
>> essa questão.
>>
>> O problema é que não sei como explicar essa questão, pra qual eu nem
>> tenho resposta ainda :P
>> Acho que dá pra ficar horas discutindo isso, mas vamos matar de tédio
>> quem estiver assistindo... Fiquei pensando se existe uma resposta
>> pragmática pro público geral. Se alguém tiver alguma idéia, será bem
>> vinda!
>>
>> > > Na  verdade, o ponto fundamental é que quase todas as lógicas 
>> não-clássicas ou alternativas acabam validando menos  juízos do que a 
>> lógica standard
>> > >
>> > > Mas isso não é absolutamente claro, e merece ser melhor avaliado.
>> >
>> > Se a liberdade for total, como pregavam os nossos antepassados
>> > não-clássicos, a gente não precisa sequer se comprometer com a lógica
>> > clássica, né? (ou com os axiomas tarskianos de consequência...)
>> >
>> > Nada me impede, em princípio, de chamar de "OU" aquilo que outra
>> > pessoa chama de "E", e dizer que sou capaz de concluir que B é o caso
>> > sempre que A-OU-B é o caso. :-x
>> >
>>
>> Exatamente. Acho que é claro que não podemos ter liberdade total, mas
>> onde colocar o limite? O "bom senso" parece ser um começo, mas essa
>> noção está cada vez mais elástica.
>>
>> > Parece que o mundo anda (cada vez mais) cheio de coisas esdrúxulas!
>>
>> De fato!
>>
>> Abraços,
>> Giselle
>>
>> -- 
>> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" 
>> dos Grupos do Google.
>>
>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
>> envie um e-mail para [email protected].
>> Para ver esta discussão na web, acesse 
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