Muito bom Gisele, o video está excelente!
Itala

Em sáb., 19 de jun. de 2021 às 21:22, Daniel Durante <[email protected]>
escreveu:

> Oi Gisele,
>
> Só agora que eu consegui ver o vídeo e as mensagens. Semana intensa...
> Muito bacana, parabéns! Acho que você consegue falar de um modo muito claro
> e inteligível ao grande público sobre coisas tão profundas que fazem nós
> aqui da lista (os supostos especialistas) pensarmos e discutirmos e
> eventualmente divergirmos sobre os assuntos que você aborda. Isso, no meu
> entender, é o melhor indicador possível da alta qualidade dos seus vídeos.
> Parabéns!!
>
> Sobre sua pergunta final
>
>  > Será que qualquer raciocínio ou juizo esdrúxulo pode ser suportado por
> alguma lógica especifica?
>
> a minha resposta trivial é: SIM.
> Mas isso não tem importância nenhuma, porque obter uma lógica “bonitinha"
> que justifique um mal raciocínio, não o torna bom. A lógica NÃO ATRIBUI
> valor a um raciocínio. Ela, no máximo, RECONHECE o valor de um raciocínio.
> Os lógicos não são legisladores nem mesmo juízes dos bons raciocínios. Os
> lógicos são meros cronistas, repórteres.
>
> A lógica enquanto disciplina funda-se na aposta de que é possível
> reconhecer um bom raciocínio através de uma relação formal entre as
> premissas e a conclusão do argumento que corresponde à sua expressão
> linguística: a relação de consequência.
>
> Mas quando um raciocínio é bom? Sem muita filosofia, um raciocínio é bom
> quando a conclusão a que se chega está fortemente justificada pelas
> premissas de que se parte. O tipo de “força” que a lógica procura, pelo
> menos em suas abordagens ortodoxas, é a força máxima, a infalibilidade. Um
> raciocínio é bom, do ponto de vista lógico, quando ele é infalível. Quando
> não é possível que a conclusão não seja verdadeira quando as premissas são.
>
> Quando a gente cria, modifica, inventa, altera uma lógica, a gente está
> criando, modificando, inventando, alterando uma relação formal específica
> entre sentenças que constitui-se em uma definição específica de uma relação
> de consequência. Mas o mais importante, o objetivo para fazer isso, sempre
> tem que ser que esta relação de consequência seja um instrumento confiável
> para reconhecer os bons raciocínios.
>
> Acontece que o critério do que é um bom raciocínio não é formal. A
> infalibilidade de um raciocínio não parece depender das especificações
> formais da(s) relação(ões) de consequência dada(s) pela(s) lógica(s). A
> lógica é uma disciplina meio esquizofrênica. Ela estuda uma coisa para
> reconhecer outra.
>
> Criar um sistema formal para justificar um argumento qualquer nos dá uma
> relação formal entre sentenças. Ok. Mas eu não diria que nos dá uma Lógica.
> A gente só vai ter uma Lógica se esta relação formal se mostrar um
> instrumento confiável para reconhecer os bons raciocínios--os infalíveis,
> em uma abordagem ortodoxa.
>
> O limite, que você se pergunta, de até onde podemos ir com nossa liberdade
> de lógicos para criar sistemas e justificar argumentos esdrúxulos, não está
> na lógica, está fora dela, como bem disse o Cassiano. Neste sentido, a
> lógica é muito mais parecida com as ciências naturais do que com a
> matemática. Os físicos, por exemplo, podem criar belíssimas teorias
> explicativas e matematicamente perfeitas diferentes sobre os limites do
> cosmos, sobre universos paralelos, sobre o que havia antes do big bang,…
> enquanto elas não forem empiricamente testáveis, elas não são Física. São
> apenas belíssimas teorias especulativas.
>
> Só que ao contrário do que acontece com a Física e demais ciências
> naturais, o mundo real não basta como árbitro para decidir se um argumento
> é bom ou não. Ele é apenas uma das infinitas interpretações que precisa ser
> levada em consideração.
>
> Para saber se é ou não possível as premissas de um argumento serem
> verdadeiras e a conclusão ser falsa, não basta vasculhar o mundo real. Para
> saber isso precisamos DETERMINAR quais situações (estados de coisas) podem
> existir (são concebíveis) e quais não podem existir (são inconcebíveis).
>
> Essa determinação do que PODE ser real e do que NÃO PODE ser real não é
> empírica nem objetiva. É filosófica. É metafísica. Então, divergir sobre
> lógica é divergir sobre os aspectos mais gerais da realidade, é divergir
> sobre o que é aceitável e o que é inaceitável.
>
> Minha definição poética de lógica é: a lógica é a disciplina que estuda o
> limite mais permissivo do que é aceitável, concebível como parte da
> realidade. A lógica nos dá o limite mais amplo possível para nossa
> imaginação de como o mundo pode ser. Tudo o que estamos dispostos a
> conceber deve caber na lógica. Para além da lógica está o inconcebível, o
> incomunicável.
>
> Saudações,
> Daniel.
> -----
> Departamento de Filosofia - (UFRN)
> http://danieldurante.weebly.com
>
> ++++++++++
>
> Esperemos que não, mas falta agora alguém fazer um vídeo explicando essa
> questão.
>
> O problema é que não sei como explicar essa questão, pra qual eu nem
> tenho resposta ainda :P
> Acho que dá pra ficar horas discutindo isso, mas vamos matar de tédio
> quem estiver assistindo... Fiquei pensando se existe uma resposta
> pragmática pro público geral. Se alguém tiver alguma idéia, será bem
> vinda!
>
> Na  verdade, o ponto fundamental é que quase todas as lógicas
> não-clássicas ou alternativas acabam validando menos  juízos do que a
> lógica standard
>
> Mas isso não é absolutamente claro, e merece ser melhor avaliado.
>
> Se a liberdade for total, como pregavam os nossos antepassados
> não-clássicos, a gente não precisa sequer se comprometer com a lógica
> clássica, né? (ou com os axiomas tarskianos de consequência...)
>
> Nada me impede, em princípio, de chamar de "OU" aquilo que outra
> pessoa chama de "E", e dizer que sou capaz de concluir que B é o caso
> sempre que A-OU-B é o caso. :-x
>
>
> Exatamente. Acho que é claro que não podemos ter liberdade total, mas
> onde colocar o limite? O "bom senso" parece ser um começo, mas essa
> noção está cada vez mais elástica.
>
> Parece que o mundo anda (cada vez mais) cheio de coisas esdrúxulas!
>
> De fato!
>
> Abraços,
> Giselle
>
>
> Em segunda-feira, 14 de junho de 2021 às 11:25:39 UTC-3, Cassiano Terra
> Rodrigues escreveu:
>
>> Bons dias, camaradas,
>> Espero q esta encontre a todxs bem.
>> eu vi o vídeo da Giselle e achei excelente, parabéns, Giselle e obrigado
>> pelo vídeo.
>> Sob pena de parecer redundante e insuficiente, vou apenas acrescentar um
>> ponto, já q a Giselle falou em pragmático.
>> A lógica não vai resolver esse problema, até onde consigo perceber. Não
>> há nada de menos universal ou faltoso nos algoritmos, mas existe uma
>> dimensão de uso real da linguagem, na qual as asserções são feitas. Pois o
>> q significa (digamos assim) cada algoritmo não é decidível a priori, mas
>> apenas em circunstâncias práticas ou pragmáticas de uso efetivo. Se há um
>> princípio do contexto proposicional, há um princípio do contexto
>> inferencial no qual as proposições se inserem, e inferências são usadas por
>> agentes reais (não digo só humanos). Os medievais tinham uma teoria das
>> obligationes, cuja função é até hoje pouco elucidada, podia ser um jogo
>> apenas ou até menos q isso. Mas de toda forma, sem uma teoria da asserção
>> (aliás, muito em voga até o Tractatus de Wittgenstein, Frege, Peirce e até
>> Heidegger elaboraram teorias da asserção; até Deleuze tem uma!) não vejo
>> como responder satisfatoriamente à questão. O meu palpite é q sim,
>> raciocínios esdrúxulos podem ser sustentados especificamente. Mas a questão
>> é q raciocínios não acontecem no vácuo, em vazios ou ocos existenciais.
>> Saudações,
>> cass.
>>
>> On Monday, June 14, 2021 at 10:05:46 AM UTC-3 jmstern wrote:
>>
>>> Caros Redistas:
>>> Como fazer para Contar o numero de "coisas" em um conjunto eh algo tao
>>> basico, que esta (quase) no mesmo nivel da Logica. Pois bem:
>>> A primeira vez que alguem pensou em Contar o Numero de "Coisas" em um
>>> conjunto conforme a estatistica de Fermi-Dirac ou de Bose-Einstein, isto
>>> dever ter parecido um raciocinio muito esdruxulo...
>>> Mas ai, o laboratorio mostrou que esdruxulas eram as nossas
>>> pre-concepcoes sobre como o universo deveria ou nao-deveria se comportar, e
>>> o cosmos seguiu o seu caminho, contando as "Suas" coisas do jeito que Ele
>>> achava por bem que deveria contar :-)
>>> Nossas Logicas ou tecnicas de contagem tiveram que se ajustar ao
>>> universo, revogados todos os pre-julgamentos e as disposicoes em contrario.
>>> ---Julio Stern
>>>
>>> ------------------------------
>>> *From:* Giselle Reis <[email protected]>
>>> *Sent:* Sunday, June 13, 2021 2:32 PM
>>> *To:* Joao Marcos <[email protected]>
>>> *Cc:* Walter Carnielli <[email protected]>; Marcos Silva <
>>> [email protected]>; logical logical <[email protected]>
>>> *Subject:* Re: [Logica-l] Coletivo Logica Viva: Existe apenas uma
>>> lógica certa?
>>>
>>> Ois,
>>>
>>> Obrigada pelas mensagens :)
>>>
>>> > > E a pergunta que ela deixa é ótima: Será que qualquer raciocínio ou
>>> juizo esdrúxulo pode ser suportado por alguma lógica especifica?
>>> > >
>>> > > Esperemos que não, mas falta agora alguém fazer um vídeo explicando
>>> essa questão.
>>>
>>> O problema é que não sei como explicar essa questão, pra qual eu nem
>>> tenho resposta ainda :P
>>> Acho que dá pra ficar horas discutindo isso, mas vamos matar de tédio
>>> quem estiver assistindo... Fiquei pensando se existe uma resposta
>>> pragmática pro público geral. Se alguém tiver alguma idéia, será bem
>>> vinda!
>>>
>>> > > Na  verdade, o ponto fundamental é que quase todas as lógicas
>>> não-clássicas ou alternativas acabam validando menos  juízos do que a
>>> lógica standard
>>> > >
>>> > > Mas isso não é absolutamente claro, e merece ser melhor avaliado.
>>> >
>>> > Se a liberdade for total, como pregavam os nossos antepassados
>>> > não-clássicos, a gente não precisa sequer se comprometer com a lógica
>>> > clássica, né? (ou com os axiomas tarskianos de consequência...)
>>> >
>>> > Nada me impede, em princípio, de chamar de "OU" aquilo que outra
>>> > pessoa chama de "E", e dizer que sou capaz de concluir que B é o caso
>>> > sempre que A-OU-B é o caso. :-x
>>> >
>>>
>>> Exatamente. Acho que é claro que não podemos ter liberdade total, mas
>>> onde colocar o limite? O "bom senso" parece ser um começo, mas essa
>>> noção está cada vez mais elástica.
>>>
>>> > Parece que o mundo anda (cada vez mais) cheio de coisas esdrúxulas!
>>>
>>> De fato!
>>>
>>> Abraços,
>>> Giselle
>>>
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>


-- 
Prof. Dr. Itala M. Loffredo D'Ottaviano
Full Professor in Logic and the Foundations of Science
Centre for Logic, Epistemology and the History of Science
University of Campinas

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