Tradução da parte do texto que estava faltando. Tentei me manter fiel ao texto original o máximo que deu, em algumas palavras foi preciso adaptar algo que se enquadrasse melhor na nossa língua. Mas sugiro a leitura de todo o texto do Zizek, melhor que esse recorte com interferência não pontuada do Zader. Não gosto desse tipo de jornalismo, confunde o que é opinião do Zizek e do Zader mesmo. Como o texto do Zizek tá bem legal (não sendo contra ou a favor, acho que tem um ponto de vista interessante), vou tentar traduzir o restante dele. Só não garante ele pra hoje mesmo.
Abraços,
Mateus

"Ninguém precisa ser o Vilão"

Desde 2001, Davos e Porto Alegre tem sido as cidades gêmeas da globalização: Davos, o exclusivo "resort" suíço onde a elite global de administradores, estadistas e personalidades da mídia se encontram para o Fórum Econômico Mundial sob forte proteção policial, tentando convencer a nós (e a eles mesmos) que a globalização é o melhor remédio para ela mesma; Porto Alegre, a cidade brasileira subtropical onde se reune a contra-elite do movimento anti-globalização, tentando nos convencer (e a eles mesmos) que a globalização capitalista não é nosso destino inevitável – e que, assim como prega o slogan oficial, "um outro mundo é possível". Entretanto, parece que as reuniões de Porto Alegre de alguma forma perderam sua impetuosidade -  nós ouvimos falar menos e menos sobre elas com através dos últimos anos. Para onde foram as estrelas de Porto Alegre?

Algumas delas, ao menos, se mudaram para Davos. O tom dos encontros em Davos agora é ditado predominatemente pelo grupo de empreendedores que ironicamente se auto-intitulam como "liberais-comunistas" (ou comunistas-liberais) e que não mais aceitam a oposição entre Davos e Porto Alegre: eles afirmam que nós podemos ter o bolo global capitalista (prosperando como empreendedores) e comer ele (abraçando as causas anti-capitalistas de responsabilidade social, preocupação ecológica, etc). Não há necessidade de Porto Alegre: ao invés disso, Davos pode se tornar Porto Davos.


On 7/20/06, banto <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
BLOG DO EMIR

Zizek contra Bill Gates

O ensaísta esloveno Slavoj Zizek os chama de "liberal comunistas" –
incluindo na mesma categoria também a George Soros, aos executivos de
Google, da IBM, de Intel, entre outros – que têm no editorialista do New
York Times, Thomas Friedman, um dos seus escribas de plantão. A palavra
chave desses tipos é smart. "Ser smart, é ser dinâmico e nômade, inimigo
da burocracia centralizada; acreditar no diálogo e na cooperação contra
a autoridade central; apostar na flexibilidade contra a rotina; na
cultura e no saber contra a produção industrial; privilegiar as trocas
espontâneas e a autopoïese (a capacidade de um sistema de se
auto-engendrar) contra as hierarquias rígidas."

Bil Gates é a melhor imagem do que ele chama de "capitalismo sem
fricções" ou da sociedade pós-industrial, com o "fim do trabalho", etc.,
etc. Ele busca projetar a imagem de um "marginal subversivo", um antigo
hacker que tomou o poder e se disfarçou de executivo respeitável para
seguir fazendo a mesma coisa de sempre.

No entanto sua doutrina é uma versão pós-moderna da "mão invisível" de
Adam Smith, em que o mercado e a "responsabilidade social" não se
contradizem, podem ser conciliados para o interesse de todos. Nas
palavras de Friedman, não é mais preciso hoje ser um canalha para fazer
negócios: a colaboração com os assalariados, o diálogo com os
consumidores e o respeito pelo meio ambiente são as chaves do sucesso.

Olivier Malnuit fez uma lista dos dez mandamentos dos
libreais-comunistas na revista francesa Technikart, que consistem no
seguinte:

1. Você concederá tudo (internet com acesso livre, fim dos direitos de
autor); você só cobrará os serviços adicionais, o que basta para te
tornar rico.

2. Você mudará o mundo, em lugar de se contentar em vender coisas.

3. Você será super simpático: você terá o sentido do compartilhamento e
da responsabilidade social.

4. Você será criativo: privilegiará o design, as novas tecnologias, as
ciências.

5. Você dirá tudo: não terá segredos, se sacrificarás ao culto da
transparência e da livre circulação da informação; toda a humanidade
deve colaborar e dialogar.

6. Você não trabalhará nunca: os empregos fixos de 9 a 17 horas não são
para você, você se dedicará à comunicação smart, dinâmica, flexível.

7. Você voltará à escola: praticará a formação permanente.

8. Você será uma enzima: não contente de trabalhar para o mercado, você
criará novas formas de colaboração social.

9. Você acabará pobre: você redistribuirá suas riquezas aos que têm
necessidade, pois você não poderia jamais gastar.

10. Você será o Estado: as empresas devem trabalhar como parceiras do
Estado.

Os liberais-comunistas são pragmáticos que detestam a ideologia. Não há
mais classe operária explorada, há apenas problemas concretos a
resolver: a fome na África, o destinos das mulheres muçulmanas, a
violência fundamentalista. O que mais adoram os liberais-comunistas são
as "crises humanitárias", em que eles podem dar o melhor de si mesmos.
Ao invés de diagnosticar a exploração colonial e imperialista nas crises
da África, busca-se a melhor maneira de resolver concretamente cada
problema: colocar os indivíduos, os governos e as empresas a serviço do
interesse geral, fazer com que as coisas aconteçam ao invés de ficar
esperando tudo dos Estados, abordar a crise de uma forma criativa e
original.

Eles se consideram os verdadeiros "cidadãos do mundo", que vivem o tempo
todo preocupados com o destino do planeta. Se inquietam com o populismo,
o fundamentalismo, o terrorismo. As raízes profundas dos problemas do
mundo estão na pobreza e no desespero que produzem o terrorismo
fundamentalista. Eles não estão a fim de ganhar dinheiro, mas de mudar o
mundo – e de passagem, se enriquecer ainda mais. Bill Gates
transformou-se – ou foi transformado – no maior benfeitor a história da
humanidade. Ele demonstra todos os dias seu amor pelo próximo
consagrando centenas de milhões de dólares à educação, à luta contra a
fome e a pobreza.

Mas, para distribuir riquezas, é preciso ganhá-las – ou, como diriam os
liberais-comunistas: tê-las criado. Essa é a questão de fundo. Para
conseguir esses fundos, a empresa privada é de longe a forma mais
eficiente diante dos métodos ineficientes dos Estados centralizados e
coletivistas. Taxando as empresas, regulando suas atividades, o Estado
se choca com sua própria razão de ser: tornar a vida melhor para o maior
número de pessoas, ajudar os que necessitam. Isso daria sentido à sua
vida, eles não querem ser máquinas de produzir lucros. Por isso também
eles são adeptos da espiritualidade, da meditação não-confessional. Eles
fazem da responsabilidade social e da gratidão seu credo: são os
primeiros a reconhecer que a sociedade os favoreceu incrivelmente, o que
lhes permitiu juntar grandes fortunas, daí sua obrigação de promover um
retorno para a sociedade, ajudando as pessoas a terem oportunidades de
seguir um caminho similar. Eles dão com uma mão o que ganharam com a
outra. Soros, por exemplo, usa a metade do seu tempo em especular, a
outra em atividades "humanitárias", que buscam compensar, em parte, os
efeitos negativos da sua especulação. Bill Gates também tem duas caras:
de um lado, um homem impiedoso, que esmaga ou compra seus concorrentes
para criar um quase-monopólio. Por outro, o grande filantropo, que
recorda: "De que adiante ter computadores, se as pessoas não têm o que
comer?"

Na oposição entre essas duas caras – smart e non smart -, a idéia mestra
é a de deslocalizar, exportando a face escondida (e indispensável) da
produção para os paises da periferia – non smart -, com a
super-exploração e a degradação do meio ambiente.

Assim Zizek se opõe a Bill Bates e os seus "liberais-comunistas".

(O artigo original foi publicado pela London Review of Books.)

fonte:
http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=11646


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