Miguel Afonso Caetano wrote:
Stalker,

Às vezes parece que as minhas alucinações não são suficientes para
acompanharem as tuas ;-)

Em 27/11/06, Stalker escreveu:

> Tal como o Steven Johnson, acredito que "Tudo o Que é Mal faz Bem",
> com conta, peso e medida. Será possível virtualizar a violência?
> Imaginem uma espécie de um Grand Theft Favela, multi-jogador,
> open-source, onde tudo se pode comprar e vender em reais, dólares ou
> euros, possibilitando a criação de Zonas Autónomas Temporárias
> Virtuais. Seria a transformação absoluta do capital e da violência -
> os dois sustentáculos do capitalismo - em abstracções.
(Hã? Acaso o capital foi outra coisa que a abstração em metástase? Veja
a alavancagem e os derivativos, esquizo-abstrações indefinidamente
recursivas!

Bem, mas parece que agora chegámos a um processo de abstracção total
ou meta-abstracção: quando os gringos gastam mais de 600 mil dólares
por dia a comprar "roupa", "automóveis" e "poderes especiais" no
Second Life (http://secondlife.com/whatis/economy_stats.php) para os
seus avatares, eles estão a utilizar capital - uma abstração - para
comprar símbolos que só têm valor e só adquirem sentido naquele
espaço.
É assombroso, sendo fantasmagórico!

(Os Ymaginários, nesse plano, são bem mais concretos do que os dólares se tornaram...)

Já a violência, como todo ato de sentido (violência além de ação bruta,
é vetor de ameaça, retaliação, etc.) é ato e é enunciação. Nunca
consegue ser totalmente abstrata, nem totalmente não-semiósica.)

Não concordo, mas prontos. Para mim, existe uma diferença abismal
entre um miúdo armado de uma infra-vermelhos que dispara para uma
multidão e um miúdo com um joystick que se limita a apontar sobre
pixeis animados.
Não, eu tava falando só do infante armado de fusil. Mesmo nesse caso, não há mera geração bruta de acontecimentos: há ameaças, há vendettas.

Claro. Não acho que quaquer simulação de violência possa ser dita violenta. É puramente sígnico, mesmo q não puramente representacional. Não vejo o metralhador digital como qualquer perigo (a não ser para seu próprio sono...). Dizem q a exposição à imagens de violência não causa nada, mas constrói um horizonte de expectativas de tolerância à violência... eu tenho minhas duvidas, porque todo o dispositivo (conceito namodíssima na akademia brasileira... eu prefiro "situação") de recepção e inter-reação (não há interação mesmo) cibernética gera esse tipo de desengajamento existencial. (Uma vez vi uma batida de carros e fiquei esperando o replay... o uso de máquinas semióticas molda os automatismos da percepção)
Para além disso, eu vejo também a violência como uma
forma de combater o tédio - talvez por isso eu goste tanto do "Fight
Club"/ "Clube de Combate"...
Clube da Luta, no português americano


Sinceramente, prefiriria que fosse Grand Theft Planalto, multijogador no
Congresso nacional, com venda de emendas, trafico de influência,
assassinatos políticos, esquemas internacionais de tráfico de drogas,
armas e pessoas, lavagem de dinheiro.

Interessante, mas não teria sucesso... Jogos de estratégia nunca foram
um grande êxito de vendas.
Ué e o assassinato político? Bom, podemos colocar outros módulos de pistolagem, grilagem, desocupações forçadas repressão armada a manifestações populares... achas q ficaria mais emocionante?


Ah, Caetano, você concordou com a crítica ao filme, mas tá propondo um
CidADDe de Deus: os crimes não vem do morro, vem dos gabinetes.

Na verdade, depois de ver o filme fiquei mesmo atraído pela ideia de
poder assumir a pele de um daqueles miúdos da favela durante umas
horas num jogo de computador ou consola tipo MMORPG, banda sonora com
Funk Carioca, etc. Pode ser politicamente incorrecto, mas foi isso que
me apeteceu
Arte envolve apetecimentos e desapetecimentos. Deixemos a correctness para a teoria política, né?
No entanto, acho que, como eu disse antes, muita gente
comum partilharia dessa mesma aspiração. Porque senão não haveria
tantas pessoas a jogarem Grand Theft Auto e Counter Strike. Porque
senão não haveria um tipo chamado Mataleone que teve a ideia brilhante
de criar um mapa de uma favela do Rio para o CS. Tem mais: vejam esta
entrada a gozar na Desciclo.pedia:
http://desciclo.pedia.ws/wiki/Grand_Theft_Auto:_Rio_de_Janeiro. Os
screenshots fabulosos são assinados pelo mesmo Mataleone. Vejam também
esta animação em flash a gozar:
http://www.newgrounds.com/portal/view/146701. Os gráficos são pobres,
mas a história está bem conseguida.

É que, dado o investimento financeiro cada vez maior em universos
virtuais, não acho que seja muito descabido imaginar um cenário
relativo a um futuro próximo - três-quatro anos - como este:
lan-houses brasileiras equipadas com ecrãs plasma cheias de miúdos
participando em jogos abertos como o Second-Life ou num outro
verdadeiro game open-source instaurando aos poucos uma economia
virtual paralela, marginal: "traficando", "roubando", "matando",
construindo favelas virtuais.

Conheces o trabalho de Hélio Oiticica na Mangueira? A favela já é uma virtualidade, nenhum conjunto urbanístico se faz e se refaz em tal velocidade, cresce, é destruída pelos programas de "revitalização" e "urbanização", aproveita tudo que sobra de como material de construção...

Isso também daria um jogo: ocupar um terreno baldio, construir um barraco, montar uma boca-de-fumo (ou uma creche comunitária...)

"Seja marginal, seja herói" cai como uma luva. Só que a "anti-arte ambienta" se tornaria "anti-ciber-arte imersiva"
Podemos olhar para este cenário numa
perspectiva moralista se adoptarmos os mesmos cânones com que julgamos
a nossa conduta e a dos outros na vida real. Ou podemos ver aí
possibilidades de fuga aos ditames que nos constrangeram até agora...
na onda de uma TAZ.



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note;quoted-printable:"Da =C3=A1gua estagnada se espera o veneno" (W.Blake) 
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