como este assunto me interessa de perto (o das 'diversas' tecnologias), vou
comentar em cima do comentario e das classificacoes tecnologicas.
> Na primeira parte do texto, dedicada à tecnologia, Gell argumenta que
> a "tecnologia" não se limita às ferramentas, mas também envolve os
> conhecimentos necessários para desenvolvê-las e utilizá-las , assim
> como o contexto social (redes de relações) que possibilita a produção,
> reprodução e transmissão desse conhecimento.
Concordo, pois a tecnologia, no meu ponto de vista, deve ser encarada como
fenomeno e nao como fato dado, objetivo.Esta' inserida em um feixe de
representacoes e interpretacoes, onde as subjetividades postas nos artefatos
tecnologicos (dai' a nocao de que sao sempre politicos) definem o seu uso e
e(in)volucao. Ainda, nao vejo diferenca essencial entre ferramentas e
maquinas. Todas as definicoes de uma se aplicam a outra. E' so' testa-las
conceitualmente que voce nao vera' o que as separa.
> Com isso, Gell argumenta que existe tanta tecnicidade na construção de
> um machado quanto na construção de uma flauta, sendo ambos igualmente
> instrumentos e, portanto, elementos numa seqüência técnica.
Aqui acho estranho pois machado e' instrumento, ferramenta ou maquina'?
> Gell propõe então uma classificação das capacidades tecnológicas humanas
em
> três categorias:
>
> (1) Tecnologia de Produção: aquilo que normalmente se entende por
> tecnologia, relacionado com a sobrevivência objetiva (Gell considera
>
esta categoria livre de controvérsias, e por isso não dedica mais que
> um parágrafo a ela).
Livre de controversias? Toda afirmacao e toda ciencia esta' sujeita a
criticas e controversias, senao seria dogma religioso. E' verdade que o
velho barbudo Marx quase esgotou este tema, mas e' bem cedo ainda para
tirarmos conclusoes. Ha cada vez mais mercadorias produzidas e disponibi-
lizadas, mas a questao da sobrevivencia dos agrupamentos humanos esta'
bem longe de ser resolvida.
>
> (2) Tecnologia de Reprodução: aqui Gell coloca as relações de
> parentesco e de domesticação (de animais e de humanos, na forma da
> educação).
Levi-Strauss trabalhou bem a fundo isto. Mas acho bem interessante pois
esta ligada a formacao inicial das redes sociais, ou como costumo dizer: a
familia
e' a rede1, pois somos_nascemos inseridos nela e criados como sujeitos
a partir de suas relacoes intrinsecas. A educacao pode realmente estabelecer
pontos conectivos
onde criaremos diversificadas e complexas redes cognitivas.
>
> (3) Tecnologia de Encantamento: trata-se do conjunto de "armas
> psicológicas" que permitem aos humanos controlarem uns aos outros e
> entre as quais Gell situa aquilo que entendemos por "arte".
>
Ou Tecnologias do Poder-Saber, no sentido desenvolvido por Foucault. Mas ao
contrario do que ele coloca, penso que a arte nao controla, pois liberta. O
processo de que cada um sempre vera' alem do que o artista pensou
representar, nos da' esperanca de que novos sentidos engendrarao outros, em
uma espiral recorrente. Os textos de Borges que o digam. Alem do que humanos
controlam humanos que desejam ser controlados e nem sempre pelo encantamento
ou pela magia. O Saber-poder assume inumeras formas, quantas forem
necessarias para se adaptar e reproduzir-se.
Esta ilusao de ciborgues que criamos esta' bem mais detalhada neste texto do
Pedro. Vale a pena ler para quem se interessa em contribuir para a
discussao:
http://sarava.org/wiki/cteme/uploads/Main/Transe.pdf
PS: O site do Pedro mudou para
http://sarava.org/wiki/cteme/Main/PedroPeixotoFerreira ,
onde tem textos bem interessantes.
mbraz
Em 02/03/07, mbraz <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> nem deu para abrir o pdf ...:(
>
> mbraz
>
> Em 02/03/07, Felipe Fonseca<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> > alguém aqui chegou a ler esse texto?
> >
> > http://www.geocities.com/ppf75b/gell.pdf
> >
> > f
> >
> > On 7/17/06, Felipe Fonseca <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
> > >
> > >
> > > ---------- Forwarded message ----------
> > > From: Thiago Novaes
> > > Date: Jul 17, 2006 12:19 PM
> > > Subject: [submidialogia] Gell - Technology and Magic
> > >
> > > opa
> > >
> > > arrumando a casa, deparei-me com o mail que segue,
> > > do pedro, q estudava doc na unicamp, interessado nas
> > > questoes de tecnologia e seus aspectos xamanisticos...
> > >
> > > acho sobretudo relevante a tentativa de classificar, que
> > > pode inspirar-nos, quem sabe, em criacoes vindouras.
> > >
> > > abs
> > >
> > > 9s
> > >
> > > ---------- Forwarded message ----------
> > > From: Pedro Ferreira
> > > Date: Aug 25, 2005 5:16 PM
> > > Subject: Gell - Technology and Magic
> > >
> > > Saudações,
> > >
> > >
> > >
> > > Gostaria de indicar a leitura de um texto de Alfred Gell que considero
> > > de extrema relevância para pesquisadores de temas relacionados à
> > > tecnologia. "Technology and Magic" foi publicado em 1988 e sintetiza
> > > (em 4 páginas) de maneira clara e direta temas que Gell desenvolveria
> > > posteriormente em seus livros e artigos. Quem se interessar pode
> > > baixar o texto neste link:
> > > http://www.geocities.com/ppf75b/gell.pdf
> > >
> > >
> > >
> > > Não é possível concordar com tudo o que o autor diz, mas este é, sem
> > > dúvida, um texto que merece ser debatido (coisa que me interessa).
> > > Ofereço a seguir uma síntese do texto.
> > >
> > >
> > >
> > > =========================
> > >
> > > Em "Technology and Magic", Gell propõe uma relação produtiva entre
> > > tecnologia – definida como "a busca de objetivos difíceis através de
> > > meios indiretos" – e magia – definida como um "procedimento técnico
> > > ideal".
> > >
> > >
> > >
> > > Na primeira parte do texto, dedicada à tecnologia, Gell argumenta que
> > > a "tecnologia" não se limita às ferramentas, mas também envolve os
> > > conhecimentos necessários para desenvolvê-las e utilizá-las , assim
> > > como o contexto social (redes de relações) que possibilita a produção,
> > > reprodução e transmissão desse conhecimento. Quanto ao adjetivo
> > > "técnico", Gell o define como "um certo grau de desvio na realização
> > > de algum objetivo", como uma "ponte" mais ou menos complicada entre
> > > certos elementos dados e um objetivo a ser alcançado por meio de uma
> > > exploração muito específica das propriedades desses elementos. Assim,
> > > "o grau de tecnicidade é proporcional ao número e à complexidade dos
> > > passos que ligam os dados iniciais ao objetivo final", sendo a
> > > estrutura formada por todos esses "passos" o "sistema" da tecnologia.
> > > Com isso, Gell argumenta que existe tanta tecnicidade na construção de
> > > um machado quanto na construção de uma flauta, sendo ambos igualmente
> > > instrumentos e, portanto, elementos numa seqüência técnica. Gell
> > > propõe então uma classificação das capacidades tecnológicas humanas em
> > > três categorias:
> > >
> > > (1) Tecnologia de Produção: aquilo que normalmente se entende por
> > > tecnologia, relacionado com a sobrevivência objetiva (Gell considera
> > > esta categoria livre de controvérsias, e por isso não dedica mais que
> > > um parágrafo a ela).
> > >
> > > (2) Tecnologia de Reprodução: aqui Gell coloca as relações de
> > > parentesco e de domesticação (de animais e de humanos, na forma da
> > > educação).
> > >
> > > (3) Tecnologia de Encantamento: trata-se do conjunto de "armas
> > > psicológicas" que permitem aos humanos controlarem uns aos outros e
> > > entre as quais Gell situa aquilo que entendemos por "arte".
> > >
> > >
> > >
> > > Na segunda parte do texto, dedicada à magia, Gell apresenta o feitiço
> > > como um "plano cognitivo" para a ação, e a magia como um fluxo
> > > contínuo de comentários sobre as ações técnicas que as divide,
> > > enquadra, define, guia, internaliza e exercita. Como numa brincadeira
> > > de criança, a magia vai além do real rumo ao ideal da ação e está
> > > ligada ao processo de inovação. Segundo Gell, o "papel cognitivo das
> > > idéias mágicas" é criar um "campo de orientação às atividades
> > > técnicas", sendo a inovação técnica o resultado não da satisfação de
> > > "necessidades" mas sim da realização de ideais técnicos até então
> > > considerados mágicos. Através de três exemplos etnográficos, Gell
> > > mostra que a magia é uma "tecnologia ideal" que parte da tecnologia
> > > real mas a supera indicando o caminho de sua evolução: "é a tecnologia
> > > que sustenta a magia, mesmo quando a magia inspira novos esforços
> > > técnicos".
> > >
> > >
> > >
> > > Gell termina o texto com um breve comentário sobre o lugar da magia em
> > > nossa sociedade tecnológica, concluindo que encontraremos na
> > > publicidade, na ficção científica e na divulgação científica – i.e.,
> > > quando cientistas e técnicos dão sentido às suas próprias atividades –
> > > os "comentários simbólicos sobre atividades e processos realizados no
> > > campo tecnológico" que caracterizam a magia. Cito então as duas
> > > últimas frases do texto: "Os propagandistas, criadores de imagens e
> > > ideólogos da cultura tecnológica são seus mágicos, e se eles não
> > > afirmam possuir poderes sobrenaturais é apenas porque a própria
> > > tecnologia se tornou tão poderosa que os desobriga disso. E se nós
> > > deixamos de reconhecer explicitamente a magia, é porque tecnologia e
> > > magia são, para nós, a mesma coisa".
> > >
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