esse texto me lembrou outro..
   
  braços,
  [célia]
   
   
   
  A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. 
Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados 
por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão. 

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. 
Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso. 

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de 
atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz. 

Foram lhe provocando por toda a vida. 

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da 
roça. Mas aí lhe tiraram a roça. 

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era 
lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava 
onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme. 

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma 
submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em 
fila. E a ajuda não ajudava. 

Estavam lhe provocando. 

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça. 

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a 
idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa. 

Terra era o que não faltava. 

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra 
que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era 
provocação. Mais uma. 

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. 
Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que 
pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais 
disposto a aceitar provocação. 

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no 
próximo ano... Então protestou. 

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, 
horrorizadas com ele: 

- Violência, não! 
   
   
   
  Luis Fernando Verissimo
   
   
  :: retirado de http://www.tvcultura.com.br/provocacoes/poesia.asp?poesiaid=388
  


Joesér Alvarez <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
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COMO FABRICAR UM BANDIDO

  
Escolha uma criança, de preferência negra e de uma família de prole numerosa; é 
recomendável o sexto ou sétimo filho, e que o pai seja omisso no cumprimento do 
exercício do poder familiar e sequer tenha registrado seu filho. Os irmãos 
devem preferencialmente ser de pais diferentes e, a mãe, se não for alcoólatra, 
deve estar desempregada. Deve residir em comunidade onde o poder público só 
comparece para trocar tiros e deixar vítimas. Esta não pode ter escola, nem 
posto de saúde e deve receber com freqüência a visita do 'caveirão'. Será fácil 
achar essa comunidade no Rio de Janeiro. 

Ensine, desde cedo a essa criança, que ela não é amada, que é rejeitada por sua 
própria mãe, que a todo instante demonstra sua insatisfação com a maternidade. 
Para tanto, espanque-a pelo menos três vezes ao dia para que ela saiba que, na 
vida, tudo tem que ser tratado com muita violência. Impeça qualquer 
possibilidade de desenvolver-se sadia, pois esse fato estragará todo o seu 
projeto. Importante: repita sempre para essa criança que ela é má, coisa ruim e 
odiada pela família, principalmente porque chegou para dividir o pequeno espaço 
que os abriga e a escassa alimentação. 

Pode-se optar por deixá-la em casa, na ociosidade, afinal faltam vagas nas 
creches do município, ou se preferir, encaminhe-a para uma escola onde os 
professores faltem muito e que as greves sejam freqüentes, caso contrário ela 
pode correr o risco de gostar de estudar e aí ser muito difícil continuar 
analfabeto, o que pode colocar em risco o seu projeto. 

Na escola, procure discriminá-la e desestimular seu estudo, reprovando-a 
sempre. E, se praticar alguma traquinagem, expulse-a da escola. Importante 
também: não permita que seja alfabetizada porque ela pode desejar entrar no 
competitivo mercado de trabalho e ocupar o espaço reservado aos filhos das 
elites. 

Outra opção interessante é colocar a criança para trabalhar desde muito cedo. 
Infância pra que? Perder tempo com brincadeiras não é coisa para criança 
favelada. Tem mesmo é que ganhar a vida muito cedo e ainda trazer dinheiro para 
sustentar a família faminta. A rua está cheia de espaço público para que elas 
fiquem vendendo balas e jogando bolinhas até que possa ser 'usada' na 
exploração sexual, uma atividade lucrativa muito estimulada por adultos. 

Fragilize-a. Não permita qualquer acesso á saúde; médicos e medicamentos devem 
ser mantidos à distância. Os hospitais públicos devem ser sucatados. Afinal, é 
preciso garantir os lucros cada vez maiores dos poderosos planos de saúde. Para 
acelerar sua debilidade, aproxime-a das drogas; a cola de sapateiro é um bom 
começo e ajuda a 'matar a fome'. Se usar maconha, prenda logo esse marginal por 
estar usando uma droga tão cara já que têm disponível a cola e o 'crack' muito 
mais barato.

A campanha pela redução da responsabilidade penal é imprescindível para pôr 
logo esses 'perigosos bandidos' na cadeia. Afinal são eles os grandes 
responsáveis por tanta violência ainda que os índices oficiais não cheguem a 2% 
dos atos violentos atribuídos aos jovens, e o Instituto de Segurança Pública do 
Rio de Janeiro tenha constatado que eles são agentes de violência num 
percentual de 9,8% contra 91,2% onde são vítimas. Pura manipulação dos dados 
para favorecer estes 'trombadinhas'. Reduzindo a responsabilidade penal você 
fica livre mais rápido dessa 'sujeira' que ocupa os logradouros públicos, 
denunciando a incompetência dos administradores públicos para implementar as 
políticas públicas necessárias para a promoção dos excluídos à categoria de 
cidadãos.

É claro que eles já têm maturidade para responder por seus atos criminosos. 
Afinal, assistem diariamente às nossas pedagógicas novelas e são informados 
pelos despretensiosos noticiários, que mesmo tratando o telespectador como a 
família Flinstones, a mídia jamais influencia a nossa 'livre' opinião. E, 
claro, todas as crianças e adolescentes do Brasil têm à sua disposição as 
melhores escolas do mundo. 

A educação pública também deve ser da pior qualidade. Onde já se viu o ensino 
público competir com os tubarões do ensino particular? Caso isso venha a 
ocorrer, como manter os altos preços das mensalidades escolares? E a queda do 
lucro * e isso, nunca! Aquela idéia maluca de construir escolas de atendimento 
integral, com médicos, dentistas, atividades profissionalizantes, prática 
esportiva felizmente já saiu de pauta. Ficamos livres daqueles insanos, que já 
morreram. Queriam aplicar todo nosso dinheirinho dos mensalões e sangue suga em 
educação. Que desperdício!

Pode-se até fazer concessões com relação ao lazer. Deixe-a soltar pipas e 
foguetes, somente se estiver a serviço dos bandidos. Isso pode ser muito 
lucrativo para essa criança. O tráfico dá a ela a oportunidade que os 
empresários negam, de participar na divisão das riquezas com seu 'trabalho 
ilícito'. Pode-se permitir, também, que brinque de mocinho e bandido e que as 
armas sejam de verdade, assim morrem mais rápido. As estatísticas mostram essa 
realidade. 

O direito à convivência comunitária lhe deve ser assegurado, mas com ressalvas. 
Mantenha-a em uma comunidade comandada pela bandidagem. Ali ela não terá outra 
opção: ou adere ou morre. Se aderir, isso será por pouco tempo, porque logo 
será presa; é mais fácil prender crianças como 'bucha de canhão' do que os 
adultos que as exploram e coagem; ou, então, logo ela será um número nas 
estatísticas do extermínio. Vez por outra, deixe-a fazer um estágio nas 
'escolas de infratores'. A convivência com outros adolescentes de mais idade, 
que praticam infrações mais graves, poderá aperfeiçoá-la e promovê-la a outra 
categoria do crime. Detalhe: essa 'escola' deve estar à margem das normas do 
Estatuto da Criança e do Adolescente e os 'educadores' devem odiar crianças e 
estar sempre munidos de palmatórias e cassetetes. Não pode essa escola ser 
dotada de qualquer proposta pedagógica, porque corre o risco de desviar o 
adolescente de seu destino criminológico.

Providencie uma poderosa campanha publicitária na mídia para que a opinião 
pública eleja essa criança seu inimigo público número um. Exiba sempre, nas 
primeiras páginas dos jornais, toda e qualquer infração praticada por criança 
ou adolescente, ainda que essa violência a eles atribuída seja uma raridade. 
Repita, sempre, nos maiores jornais e emissoras de televisão que ela é uma 
perigosa assassina, responsável por toda a violência existente no país. Nunca 
admita a efetivação dos preceitos constitucionais que lhe garantem direitos 
fundamentais que são costumeiramente desrespeitados pela família, pelo Estado e 
pela sociedade. Nunca diga que ela é vítima da omissão e da ausência de 
políticas básicas; isso pode ser considerado demagogia e a até acusarem você de 
defensor dos direitos humanos, o que é um conceito pejorativo no meio dos 
humanos. 

Com uma campanha desse tipo, garante-se que os verdadeiros bandidos e mafiosos 
ficarão em segundo plano. Corruptos fraudadores, ladrões do dinheiro público só 
merecem publicidade uma vez ou outra para disfarçar. A ênfase maior deve ser 
dada ao 'pivete', 'trombadinha' e 'dimenor”. 

Nunca deixe que se faça uma campanha para a colocação em família substituta: 
isso pode reduzir em muito o exército dos excluídos e considerar mais uma forma 
desleal de competição com nossos 'mauricinhos' e 'patricinhas”. 

Tudo que você proíbe a essas crianças estimule aos outros adolescentes. Deixe 
que freqüentem boates promíscuas onde podem exercitar suas carências afetivas 
agredindo os outros e usando drogas. Lá a venda de bebidas alcoólicas é livre 
para adolescentes abastados. O sexo é livre e sem limites. Nossos filhos 
precisam aprender a serem 'homens' desde cedo. O acesso às drogas é permitido e 
até estimulado. Deixe que essa criança perceba que existe essa diferença no 
tratamento aos cidadãos que vivem sob a mesma lei. Isso servirá para aumentar 
as diferenças sociais, o ódio e a frustração de não poder ser tratada como o 
outro. 

Pronto, você conseguiu, finalmente, criar o seu monstro. Agora conviva com ele.
   
   
   
  Autor:Desembargador Siro Darlan
   
  FONTE: 
http://www.tj.rj.gov.br/assessoria_imprensa/opiniao/opiniao.htm?tipo=1&noticia=/assessoria_imprensa/opiniao/2007/04/opin2007-04-20_i.htm
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