banto,

 registrei minha indignação na página da prefeitura. Sou espírita,
frequentador de uma casa de Umbanda e, apesar de nunca ter presenciado uma
atrocidade como essa, sinto o clima de tensão que envolve a religião,
vitimada pelo preconceito constante (a casa que frequento, infelizmente,
também está envolvida com questões legais de posse).

um abraço, e muita paz.

2008/3/5 banto <[EMAIL PROTECTED]>:

> po galera, to encaminhando essa mensagem por que é foda o barulho...
> como se nao bastasse ter arrancado de nossas terras, trabalho forçado,
> tronco, estupro, destruicao de nossa cultura.. mais de 500 anos depois
> ainda somos perseguidos e nao compartilhamos das riquezas dos pais..
> nem ao menos casa digna, educacao, comida e saude.
>
> "somos não-violentos com aqueles que são não-violentos conosco;
> deixamos de ser não violentos quando um dos nossos é violentado".
> Malcoml X
>
> banto = contemporaneo homem preto
>
>
> -------------------
>
> Uma amiga baiana me contou, na quarta-feira passada, que o terreiro de
> candomblé *Oyá Onipó Neto*, um dos mais antigos de Salvador, foi
> *destruído
> por agentes da
> prefeitura*<http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=844491>ligados
> à Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do
> Município (Sucom). O argumento foi que o terreiro ocupava um trecho ilegal
> da avenida Jorge Amado. A ialorixá *Rosalice do Amor Divino*, conhecida
> como
> *Mãe Rosa* (*foto*), tentou argumentar mostrando o documento de posse da
> terra - que lhe pertence há 28 anos! Ela tinha a prova de que estava
> dentro
> da lei. Não adiantou: os tratores começaram a demolir a casa cinco minutos
> após chegarem ao local. E sem apresentar ordem judicial para isso.
> .
> *Mãe Rosa* já havia denunciado atos de *intolerância
> religiosa*<http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=842507>por
> parte de seu vizinho, Silvio Roberto Ferreira Bastos, não por acaso
> engenheiro da Sucom. Segundo ela, o sujeito - que seria ligado à Igreja
> Universal do Reino de Deus - vinha manifestando o desejo de derrubar seu
> imóvel há alguns meses. "Ele me via na rua e me chamava de lixo, cuspia em
> mim... Mas só discutimos uma vez, pois não gosto de briga", disse aos
> prantos a ialorixá, desconsolada, diante do que sobrou de sua casa de
> santo.
>
> .
> A ação da Prefeitura teve início por volta das 8h30, quando filhos de
> santo
> ainda estavam dentro da casa, realizando trabalhos espirituais. Os
> funcionários do Sucom não permitiram que eles retirassem seus pertences e
> os
> objetos de culto. Quartinhas, louças, assentamentos de orixás foram
> destruídos como nada fossem, como nada significassem. Estilhaçados como
> fossem meros fetiches, simples ornamentos que podem ser comprados
> novamente,
> na primeira esquina. A ação da Prefeitura foi de extrema violência, além
> de
> ser inconstitucional.
> .
> A demolição do *Oyá Onipó Neto* fere não apenas o direito à liberdade
> religiosa, mas ataca um dos maiores patrimônios culturais da Bahia.
> Representantes de entidades de direitos humanos e do movimento negro foram
> chamados às pressas, mas não puderam evitar o pior. Depois que mais da
> metade da casa havia sido destruída, veio a ordem direta do prefeito para
> suspender a demolição. "Houve falha na Sucom e ela será apurada", foi o
> que
> disse apenas o prefeito João Henrique Carneiro (que é evangélico), sem dar
> maiores explicações.
> .
> O triste episódio, porém, não diz somente do preconceito contra as
> religiões
> afro-brasileiras, mas também à sanha da especulação imobiliária. Conheço
> várias casas de candomblé e umbanda que passam pela mesma situação em
> Campinas: elas chegam primeiro, ajudam a povoar e dar identidade ao
> bairro;
> então a cidade cresce e as casas de santo ficam isoladas, espremidas entre
> prédios residenciais e comerciais. Os novos moradores começam a reclamar
> do
> som dos atabaques e os empreendedores têm a solução: fechar os terreiros e
> construir novos prédios em seu lugar. Com a *Oyá Onipó* foi assim: quando
> ela foi fundada em 1980, o trecho do Imbuí era um descampado. A casa de
> santo era o ponto de referência do bairro. Hoje o Imbuí virou bairro nobre
> e
> a casa de Mãe Rosa está ao lado de um shopping center. Segundo a ialorixá,
> o
> empreendimento manifestou o desejo de ampliar suas estruturas até 2009. E
> o
> terreiro estaria na área pretendida.
> .
> A pergunta é: quais as chances de um caso como este acontecer com uma
> igreja
> cristã? Uma igrejinha católica, por menor que seja, seria demolida de
> maneira tão rápida e arbitrária? Um templo da Universal, que muitas vezes
> ocupa ilegalmente o solo, seria destruído sem ordem judicial? Então, por
> que
> coisas assim continuam a acontecer, freqüentemente, com as religiões
> afro-brasileiras? Um dos problemas é que a maioria das pessoas ainda não
> consegue enxergar o candomblé como uma religião tão digna e complexa
> quanto
> as outras. Além dos cômodos, todo o material utilizado nos quartos para
> obrigação religiosa foi destruído. No chão, blocos e concreto
> misturavam-se
> com *ibás*.
> .
> O *ibá*, no candomblé, é a representação material do orixá e reúne sobre
> um
> conjunto de louças os otás (pedras onde são "fixados o orixás"). Chamado
> de
> *assentamento*, o ibá contém as insígnias principais dos orixás, como
> moedas, búzios, além de pratos e colheres de pau utilizados para oferecer
> alimentos às entidades. Seriam os elementos que compõe a sacristia do
> templo
> e que possuem grande simbologia para o povo de santo. São, portanto,
> objetos
> sagrados, que sequer podem ser vistos por pessoas que não são iniciadas no
> culto. A Prefeitura de Salvador, porém, destruiu 38 ibás. Jogados,
> partidos
> ao chão, como se fossem brinquedos. Alguns ibás pertenciam a filhos de
> santo
> em período de obrigação, o que torna a coisa ainda mais grave.
> .
> O problema, meus amigos, é que o candomblé ainda não é tratado como
> religião. A maioria ainda ignora tratar-se de uma religião milenar (suas
> raízes têm mais de 5 mil anos), com liturgia própria, fundamentos,
> mitologia, segredos invioláveis. O candomblé é visto, via de regra, como
> seita, magia negra, fetiche tribal, manifestação exótica. Esta visão
> míope,
> medíocre, tacanha, vil e criminosa, legitima de certa forma atitudes como
> esta que aconteceu contra o terreiro de *Mãe Rosa*.
> .
> A igreja do bispo Edir Macedo, que está *processando uma
> jornalista*<
> http://www.direitoacomunicacao.org.br/novo/content.php?option=com_content&task=view&id=2639
> >da
> *Folha de S. Paulo* - pela mesma ter classificado a Igreja Universal como
> "seita" em uma reportagem - também define o candomblé como "seita" em suas
> publicações. *Basta ler qualquer
> panfleto*<http://www2.correioweb.com.br/cw/2001-11-05/mat_19429.htm>,
> jornal ou acessar o site da Universal. O candomblé não é somente chamado
> de
> "seita", mas seus zeladores e zeladoras, pais e mães de santo, são
> tratados
> como representantes do demo na Terra. Quem não se lembra, por exemplo, do
> livro *Orixás, Caboclos e Guias - Deuses ou
> Demônios?*<http://www.bispomacedo.com.br/livros2.jsp?codigo=3550>,
> escrito e publicado pelo próprio Edir Macedo? Num dos trechos do livro,
> ele
> escreve: "Se o povo brasileiro tivesse os olhos bem abertos contra a
> feitiçaria, a bruxaria e a magia, oficializadas pela umbanda, candomblé,
> kardecismo e outros nomes, certamente seríamos um país bem mais
> desenvolvido".
>
> .
> Pensando nisso, lembrei de um caso lamentável, que vi certa vez num
> documentário. Mostrava a penetração das igrejas neo-pentecostais na
> África;
> salvo engano, da própria Universal do Reino de Deus, cada vez mais
> globalizada. O filme mostrava a destruição de um assentamento de *Olokun*
> em
> Benin. O assentamento tinha *500 anos* (eu disse QUINHENTOS anos!!!) e
> havia
> sobrevivido aos portugueses, aos ingleses e aos muçulmanos. Sobreviveu
> cinco
> séculos ao imperialismo. Mas não sobreviveu aos evangélicos. Olokun foi
> levado para a igreja por sua própria zeladora, que se convertera e estava
> "arrependida". Na igreja, diante das câmeras de TV, o lindo assentamento
> de
> Olokun foi triunfalmente destruído. Como se nada fosse, como se nada
> significasse. Como se fosse apenas um fetiche de 500 anos que se compra em
> qualquer esquina.
> .
> *..................*
> .
> *Eu já havia publicado o texto quando me chegou outra denúncia de
> intolerância religiosa praticada por evangélicos. Dessa vez foi uma
> invasão
> à um terreiro, seguida de agressão. A notícia pode ser* *lida
> aqui*<http://www.camacarinoticias.com.br/leitura.php?id=28543.71-8884-1877
> >.
>
> .
> *Também recomendo a leitura do artigo Crescendo entre Orixás, que fala de
> crianças adeptas do candomblé que sentem orgulho de sua religião, mas
> sofrem
> preconceito na escola.* *Leia
> aqui*<http://www.fazendomedia.com/novas/educacao090206.htm>.
>
> .
> *Essa é pra quem tem orkut*. *Fotos da demolição da
> casa*<
> http://www.orkut.com/Album.aspx?uid=11612523171617469734&aid=1204282307>.
> *E da tempestade que caiu logo depois sobre Salvador e deixou o bairro de
> Imbuí debaixo d´água. *
> *.*
> *Aliás, sobre a inesperada tempestade, que até agora fez registrar 189
> ocorrências e nove desabamentos em Salvador, registrou a imprensa baiana:
> "*
> *Segundo informações da meteorologia, uma frente fria, estacionada há
> cerca
> de três dias no litoral baiano, vem provocando o temporal. Somente entre
> as
> 9 horas de ontem e 9 horas desta sexta-feira foram registrados 130,8
> milímetros de chuva na capital, sendo que o normal para todo o mês de
> fevereiro é de 121,2 milímetros". A nota na íntegra pode ser **lida
> aqui*<
> http://www.salvador.ba.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=8438&Itemid=42
> >
> * sob o título* *Prefeito sobrevoa a cidade para avaliar efeitos da
> chuva**.
> *
> .
> *E não vai ficar por isso mesmo. Pessoas do Brasil inteiro estão
> escrevendo
> mensagens de repúdio à atitude criminosa. Eu já escrevi a minha. Para quem
> quiser manifestar sua indignação, o link para a página da Prefeitura de
> Salvador é* *este* <http://www.pms.ba.gov.br/index.php>.
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