http://mutirao.metareciclagem.org/livro/Controv%C3%A9rsias-metareciclentas

2008/9/2 mbraz <[EMAIL PROTECTED]>:
> mas e' porque Illich inspirou muita gente nos anos setenta.
>
> Porem concordo com o Hernani, pois ele nao poderia prever que
> 'apropriacoes' indevidas seria feitas de sua obra.
>
> abchos
>
> m'braz
>
> 2008/9/2 hernani dimantas <[EMAIL PROTECTED]>:
>> ainda bem q isso não significa nada hehheheh o ilich não tem culpa de
>> inspirar um picareta
>> bjks
>>
>> 2008/9/2 eiabel lelex <[EMAIL PROTECTED]>:
>>> illich é um dos escritores preferido do claudio prado.
>>>
>>> beso
>>>
>>> 2008/9/2 Tatiana Prado <[EMAIL PROTECTED]>
>>>>
>>>>
>>>>>
>>>>> Link para bibliografia:
>>>>>
>>>>> http://habitat.aq.upm.es/boletin/n26/nlib.html
>>>>
>>>>
>>>> E parte de uma matéria sobre ele (link do texto completo logo abaixo)
>>>>
>>>> "Um visionário que é preciso reler-
>>>> Ivan illich"
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>> Nos anos 70, o austríaco Ivan Illich era muito lido e discutido. As suas
>>>> obras influenciavam todos os que queriam pensar a escola e problematizar
>>>> a educação. Hoje, está quase completamente esquecido. E, no entanto, as
>>>> suas ideias são, em muitos aspectos, mais actuais do que nunca.
>>>> Para uma conversa sobre o legado e a actualidade de Ivan Illich,
>>>> reunimos os professores Rui Canário, da Faculdade de Psicologia e
>>>> Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, e Olga Pombo, da
>>>> Faculdade de Ciências da mesma Universidade
>>>> Olga Pombo: O primeiro traço que gostava de sublinhar em Ivan Illich é a
>>>> questão da utopia. Há duas espécies de utopias e Illich pertence à
>>>> espécie mais bonita. A primeira espécie é constituída por aquelas
>>>> utopias que conjugam os verbos no futuro: "será", "amanhã será." Estas
>>>> utopias têm por base a crença no progresso e é a partir dessa crença que
>>>> idealizam a sociedade futura. Ivan Illich pertence ao segundo grupo, que
>>>> eu aprecio mais, aquele que conjuga os verbos no imperfeito do
>>>> condicional. Aqui, não se diz "será" mas sim: "poderia ter sido",
>>>> "poderia vir a ser". Em vez de partir da crença num desenvolvimento mais
>>>> ou menos linear, Illich tem aquilo a que eu chamaria uma apurada
>>>> sensibilidade à alteridade. As coisas são assim mas poderiam ter sido
>>>> outras, ou podem ainda vir a ser de outra maneira. Daí a sua capacidade
>>>> para, ao olhar o mundo, descolar rapidamente do real para o possível.
>>>> Isto é assim mas não é inevitável que assim seja. Nada na história
>>>> justifica que assim tivesse sido. E não é necessário que assim continue
>>>> a ser. Podemos sempre admitir a possibilidade de que as coisas possam
>>>> ser de outra maneira.
>>>> Neste ponto, Illich está ao lado de um outro grande utopista,
>>>> Jean-Jacques Rousseau. Rousseau antecipou a Revolução Francesa. Ivan
>>>> Illich construiu a sua vida como uma militância que, muitas vezes, tocou
>>>> as raias da missão enquadrada religiosamente. Actividade militante essa
>>>> que teve efeitos interessantes na América do Sul e um pouco por todo o
>>>> mundo. Illich acabou por ser uma voz escutada e não apenas um solitário
>>>> a pregar no deserto. No meu tempo, ele tinha imenso impacto. É certo que
>>>> hoje é desconhecido. Mas, hoje, só se conhece aquilo que acontece hoje.
>>>> Há uma memória muito curta. Estamos num período muito grave, de perda da
>>>> memória.(...)
>>>>
>>>> (...)O que a desescolarizaçã-o de Illich vem dizer, não é que não
>>>> interessa adquirir conhecimento mas sim que é possível adquiri-lo sem
>>>> perda de autonomia. O que Illich pretende mostrar é que é possível
>>>> promover a aquisição de conhecimentos sem que, quem aprende, tenha que
>>>> pagar o preço que os nossos sistemas escolares exigem, o preço da
>>>> subordinação das vontades.(..-.)
>>>>
>>>>
>>>> "http://www.direitodeaprender.com.pt/revista04_03.htm";
>>>>>
>>>>> ---------- Mensagem encaminhada ----------
>>>>> From: mbraz <[EMAIL PROTECTED]>
>>>>> To: "Lista do projeto MetaReciclagem" <[email protected]>
>>>>> Date: Tue, 2 Sep 2008 00:17:07 -0300
>>>>> Subject: Re: [MetaReciclagem] AUTODIDATISMO: A LIVRE APRENDIZAGEM HUMANA
>>>>> EM UMA SOCIEDADE INTELIGENTE
>>>>> As propostas deste autor ja´ foram tema de uma longa discussao na
>>>>> metareciclagem:
>>>>>
>>>>> http://www.mail-archive.com/[email protected]/msg01624.html
>>>>>
>>>>> e gerou um texto a quatro maos, junto ao meu grande amigo Diego:
>>>>>
>>>>> http://rede.metareciclagem.org/wiki/RedeLivreEducadorxs
>>>>>
>>>>> ainda, confusao comum, o nome coreto do autor e´ Ivan Illich -
>>>>> http://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Illich , ok?  ;)
>>>>>
>>>>> abcs
>>>>>
>>>>> m´braz
>>>>>
>>>>> 2008/9/1 Fabianne Balvedi <[EMAIL PROTECTED]>
>>>>>>
>>>>>> Augusto de Franco (30/08/08)
>>>>>>
>>>>>> Já está passando da hora de recuperar Ivan Illicht, que publicou, há
>>>>>> quase quatro décadas – em uma época em que as pessoas não podiam
>>>>>> captar plenamente o alcance de sua visão inovadora –, o célebre
>>>>>> Deschooling Society (1971) (1).
>>>>>>
>>>>>> Trata-se hoje de investir nos processos e programas educacionais extra-
>>>>>> escolares – como o homeschooling, o communityschooling, o unschooling
>>>>>> e o autodidatismo (2).
>>>>>>
>>>>>> As razões são quase óbvias e já foram expostas na minha 'Carta Rede
>>>>>> Social 170' (14/08/08) (3). Retomo aqui, de forma resumida.
>>>>>>
>>>>>> Embora se declarem instituições laicas, as escolas são, no fundo,
>>>>>> igrejas; ou seja, ordens hierárquicas (sacerdotais) que decidem o que
>>>>>> as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus de aprendizagem (na
>>>>>> verdade, de ensino) são ordenações: medem a sua capacidade de replicar
>>>>>> uma determinada ordem. Não é por acaso que a educação a distância
>>>>>> encontrou fortíssima resistência na academia. Pelos mesmos motivos, os
>>>>>> citados processos e programas educacionais extra-escolares são
>>>>>> duramente combatidos pelas corporações de professores, que argumentam
>>>>>> – sem se darem conta de que, com isso, estão apenas revelando seu
>>>>>> caráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nas mãos de
>>>>>> leigos...
>>>>>>
>>>>>> Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões e
>>>>>> reconhecer padrões. Nos dias de hoje, uma criança com acesso à
>>>>>> Internet em casa e noções rudimentares de um ou dois idiomas falados
>>>>>> por grandes contingentes populacionais (como o inglês ou o espanhol,
>>>>>> por exemplo), já é capaz de aprender muito mais – e com mais
>>>>>> velocidade – do que um jovem com o dobro da sua idade que, há dez
>>>>>> anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensino altamente
>>>>>> conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever,
>>>>>> aplicar conhecimentos básicos de matemática na solução de problemas
>>>>>> cotidianos e... banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso é
>>>>>> terrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de
>>>>>> fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para
>>>>>> os que querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos
>>>>>> filhos alheios.
>>>>>>
>>>>>> Em uma sociedade-rede, a educação é uma conseqüência dos meios
>>>>>> interativos disponíveis na rede. São esses meios que conformam
>>>>>> ambientes sociais (clusters) capazes de ensejar aquele tipo de
>>>>>> interação caracterizada como educativa. Ou seja: a escola é a rede!
>>>>>>
>>>>>> Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas,
>>>>>> ter condições de compreender e atuar em seu entorno social, ter
>>>>>> habilidade para analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar
>>>>>> informações e de trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como
>>>>>> objetivos do processo educacional básico. No entanto, para além, muito
>>>>>> além, disso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede
>>>>>> tendem a valorizar outras competências ou habilidades, como a de
>>>>>> identificar homologias entre configurações recorrentes de interação
>>>>>> que caracterizam clusters (e, conseqüentemente, reconhecer potenciais
>>>>>> sinergias e aproveitar oportunidades de simbiose), saber não apenas
>>>>>> acessar, mas produzir e disseminar informações e conseguir não apenas
>>>>>> trabalhar em grupo, mas fazer amigos e viver e atuar em comunidade.
>>>>>>
>>>>>> Sociedades em que as redes são as escolas serão sociedades
>>>>>> desescolarizadas, como queria o visionário Ivan Illitch.
>>>>>>
>>>>>> De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para a
>>>>>> convivência ou a vida em rede, como a educação para a democracia, a
>>>>>> educação para o empreendedorismo e para o desenvolvimento ou a
>>>>>> sustentabilidade, não comparece nos currículos das escolas. Não pode
>>>>>> ser por acaso. Isso talvez corrobore a constatação de que a escola é
>>>>>> uma das instituições que mais resistem ao surgimento da sociedade-
>>>>>> rede.
>>>>>>
>>>>>> Sobre o homeschooling, o communityschooling e o unschooling, o leitor
>>>>>> pode encontrar mais detalhes na nota (2).
>>>>>>
>>>>>> Vou falar agora da necessidade de investir em uma velha-nova
>>>>>> modalidade educativa: o autodidatismo. Velha porque foi assim que tudo
>>>>>> começou. Nova porque, nos dias que correm, uma criança, uma pessoa
>>>>>> adulta ou idosa navegando, lendo e publicando na Web é,
>>>>>> fundamentalmente, um autodidata.
>>>>>>
>>>>>> Não adianta torcer o nariz. Na sociedade que está vindo, todos serão
>>>>>> autodidatas, por mais que queiramos condicionar a empregabilidade à
>>>>>> formação escolar e acadêmica.
>>>>>>
>>>>>> Como escrevi recentemente, em Escola de Redes: Novas Visões (2008), na
>>>>>> sociedade-rede "você é importante na medida de sua capacidade de
>>>>>> exercer uma dessas três funções [hub, inovador ou netweaver] e não de
>>>>>> seu exibicionismo, de sua desenvoltura em usar os semelhantes como
>>>>>> instrumentos para sua projeção ou de sua auto-reclusão estudada,
>>>>>> baseada em uma opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada em
>>>>>> seu currículo" (4).
>>>>>>
>>>>>> Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitas
>>>>>> vantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens provêem da
>>>>>> idéia de que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem a
>>>>>> burocracia sacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para se
>>>>>> destacar dos demais – quando o desejável seria que se aproximassem dos
>>>>>> semelhantes – os sábios precisam que a sociedade continue burra.
>>>>>>
>>>>>> Estamos vivendo há séculos sob o controle de uma burocracia sacerdotal
>>>>>> do conhecimento. Permita-se-me uma outra auto-citação, ainda do Escola
>>>>>> de Redes: Novas Visões. "Você fez um estudo interessante sobre
>>>>>> determinado assunto, mas a burocracia sacerdotal do conhecimento
>>>>>> acadêmico não lhe dá crédito; você tenta ler (ou escrever) alguma
>>>>>> coisa inédita, mas não consegue entender (ou ser entendido) por razões
>>>>>> estranhas à racionalidade formal (lógica e metodológica) ou
>>>>>> substantiva (semântica incluída) do texto: certamente está havendo
>>>>>> algum tipo de intervenção hierárquica, que seleciona alguns caminhos
>>>>>> na rede em detrimento de outros. Algum programa particularizou uma
>>>>>> região da rede instaurando códigos de reconhecimento e permissões. Se
>>>>>> você não possui as credenciais (um título, por exemplo, com o qual os
>>>>>> mesmos de sempre se condecoram mutuamente em um circuito fechado de
>>>>>> quem leu as mesmas coisas, participou das mesmas conversas, quer
>>>>>> dizer, compartilhou voltas em torno do mesmo assunto ou da mesma
>>>>>> maneira de abordá-lo), seu acesso é proibido. Para esse tribunal
>>>>>> epistemológico — que se arroga o direito de dizer o que é e o que não
>>>>>> é válido em termos de pensamento — todos são culpados de heresia em
>>>>>> princípio. Você tem que ser absolvido por ele, de antemão, para ser
>>>>>> aceito" (4).
>>>>>>
>>>>>> É assim que a escola, nos últimos séculos, não foi um meio de
>>>>>> inclusão, mas de exclusão. Nesse tipo de platonismo (como todo
>>>>>> platonismo, autocrático), o "doutor" (o sábio) era um representante do
>>>>>> mundo dos incluídos, que se destacava do mundo dos excluídos (os
>>>>>> ignorantes). Até hoje, no Brasil, se for pego cometendo um crime, quem
>>>>>> tem curso superior merece prisão especial: seu diploma lhe confere o
>>>>>> direito de não ficar na mesma cela que os sem-diploma (os ignorantes).
>>>>>> Sim, o seu suposto conhecimento atestado por títulos lhe dá uma
>>>>>> condição superior e é a própria lei que lhe reconhece o direito de se
>>>>>> destacar dos semelhantes. Barbaridade!
>>>>>>
>>>>>> É claro que hoje as coisas devem – e já podem – ser colocadas de outra
>>>>>> maneira, envolvendo redes ou comunidades de aprendizagem, sobretudo no
>>>>>> que se refere à educação em casa (homeschooling) e à educação
>>>>>> comunitária (communityschooling), esta última em um sentido mais
>>>>>> abrangente do que o da comunidade sócio-territorial, envolvendo
>>>>>> clusters de aprendizagem (ou seja, comunidades como redes com alto
>>>>>> grau de distribuição e conectividade). Fala-se até, por analogia com
>>>>>> os APL (arranjos produtivos locais), de "AEL" (arranjos educacionais
>>>>>> locais), mas o sentido de local aqui deve ser estendido para abarcar,
>>>>>> além de comunidades territoriais, todos os tipos de redes
>>>>>> identitárias.
>>>>>>
>>>>>> A sociedade sem escola de Illicht deveria ser, assim, renomeada como a
>>>>>> sociedade-escola, desde que fique claro que se trata da sociedade-
>>>>>> rede; ou seja, estamos falando da cidade educadora, ou, mais
>>>>>> precisamente ainda, das comunidades educadoras que se formam na
>>>>>> sociedade-rede.
>>>>>>
>>>>>> Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos,
>>>>>> enquistadas dentro da sociedade, que educam basicamente: na medida em
>>>>>> que a sociedade de massa vai dando lugar à sociedade em rede, é a
>>>>>> própria sociedade (local, no sentido ampliado) que educa, por meio das
>>>>>> comunidades (clusters) que necessariamente se formam em seu seio.
>>>>>>
>>>>>> Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades de
>>>>>> aprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem. E a pessoa, como
>>>>>> continuum de experiências pessoais intransferíveis e, ao mesmo tempo,
>>>>>> como série de relacionamentos, aprende por estar imersa (conectada) em
>>>>>> um ambiente educativo (5).
>>>>>>
>>>>>> A educação básica não deveria ser baseada na transferência de
>>>>>> conteúdos temáticos secundários e sim na disponibilização de
>>>>>> ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem. Para
>>>>>> reprogramar a educação básica deveríamos começar perguntando o que é
>>>>>> necessário para que um indivíduo e uma comunidade possam fazer o seu
>>>>>> próprio roteiro de aprendizagem. Do ponto de vista do autodidatismo,
>>>>>> temos então uma resposta em 10 pontos:
>>>>>>
>>>>>> 1 – Reconhecer padrões
>>>>>> 2 – Estabelecer conexões
>>>>>> 3 – Ler na sua língua natal
>>>>>> 4 – Interpretar o que leu
>>>>>> 5 – Escrever na sua língua natal
>>>>>> 6 – Fazer contas (as operações matemáticas básicas)
>>>>>> 7 – Aplicar os conhecimentos básicos de matemática na sua vida
>>>>>> cotidiana
>>>>>> 8 – Ler em outra língua (da globalização, quer dizer, falada por um
>>>>>> grande  contingente populacional espalhado por vários países e mais de
>>>>>> um continente)
>>>>>> 9 – Argumentar (rudimentos de lógica)
>>>>>> 10 – Navegar e publicar na Internet
>>>>>>
>>>>>> Esses são os requisitos e as ferramentas contemporâneas da inclusão
>>>>>> educacional. Quem dispõe deles pode caminhar sozinho; ou seja, de
>>>>>> posse de tais instrumentos, cada um, em função de suas opções
>>>>>> pessoais, pode traçar seus próprios itinerários de formação e
>>>>>> compartilhá-los com suas redes de aprendizagem. Esses são os
>>>>>> requisitos para o autodidatismo.
>>>>>>
>>>>>> A chamada pré-escola (ou melhor, a educação da primeira infância)
>>>>>> deveria se concentrar nos dois primeiros itens (além da fala, é
>>>>>> claro). E o passo seguinte deveria ser – quer por meio da escola
>>>>>> básica, quer por meio da educação extra-escolar: na educação em casa
>>>>>> (homeschooling) e na educação comunitária (communityschooling) –
>>>>>> promover o aprendizado dos oito itens restantes. Mas mesmo que a
>>>>>> escola básica se dedicasse precipuamente a isso, mesmo assim não se
>>>>>> poderia abrir mão da educação em casa (a primeira rede na qual o ser
>>>>>> humano se conecta), nem da educação comunitária (a primeira expansão
>>>>>> dessa rede, envolvendo os vizinhos, os amigos e conhecidos mais
>>>>>> próximos).
>>>>>>
>>>>>> Para além da escola, essas duas redes serão também indispensáveis na
>>>>>> próxima etapa curricular, na qual devem comparecer os primeiros
>>>>>> conteúdos temáticos substantivos. Não, não se trata de nada (ou quase
>>>>>> nada) do que atualmente compõe os currículos escolares. Trata-se, por
>>>>>> incrível que possa parecer, da educação para a sustentabilidade, quer
>>>>>> dizer, para a vida (em um sentido ampliado, envolvendo os
>>>>>> ecossistemas, inclusive o ecossistema planetário) e para convivência
>>>>>> social. Isso compreende duas "disciplinas" (se for possível falar
>>>>>> desse modo) interligadas: a educação para a democracia e a educação
>>>>>> para o desenvolvimento.
>>>>>>
>>>>>> A educação para a democracia (em um sentido deweyano do termo)
>>>>>> compreende a educação para vida comunitária, para os modos
>>>>>> cooperativos de resolução de conflitos e para as formas de
>>>>>> relacionamento que ensejam a regulação social emergente (as redes).
>>>>>>
>>>>>> A educação para o desenvolvimento (humano, social e sustentável) deve
>>>>>> compreender, por sua vez, o empreendedorismo (e a chamada pedagogia
>>>>>> empreendedora) e o desenvolvimento local (ou comunitário).
>>>>>>
>>>>>> Todo o restante é suplementar. Pasmem! Mas é isso mesmo. Saúde
>>>>>> (incluindo educação física, alimentação e nutrição), artes e
>>>>>> literatura, ofícios, história, ciências, filosofia e espiritualidade –
>>>>>> são conteúdos importantes, mas não são educação básica em um sentido
>>>>>> sistêmico, de acesso a ambientes favoráveis a aprendizagem. Isso não
>>>>>> quer dizer que as pessoas não devam aprender essas coisas. Cada um
>>>>>> deve aprender o que quiser, o que for necessário para o
>>>>>> desenvolvimento de suas potencialidades e para a execução dos papéis
>>>>>> sociais que optou por desempenhar. Mas à educação societária (ou
>>>>>> comunitária) – à educação como domínio público – cabe se concentrar
>>>>>> naqueles dez requisitos para a auto-aprendizagem e naquelas duas
>>>>>> dimensões temáticas da educação para a sustentabilidade (democracia e
>>>>>> desenvolvimento) que têm a ver com os padrões de vida e de convivência
>>>>>> social.
>>>>>>
>>>>>> A educação para o autodidatismo deve se preocupar basicamente com
>>>>>> isso, com a educação como domínio público. Essa a "formação básica" do
>>>>>> autodidata – que constituirá o ser humano inteligente em uma sociedade
>>>>>> inteligente do futuro – que deveria ser priorizada pela rede familiar,
>>>>>> pelas redes comunitárias e pelas hierarquias escolares básicas (a
>>>>>> escola fundamental nos seus primeiros anos).
>>>>>>
>>>>>> E depois? Bem, depois serão os autodidatas que – eles próprios tendo
>>>>>> condições de caminhar com suas próprias pernas, desde que aprenderam a
>>>>>> aprender – vão dizer o que querem aprender e o que não querem. Em uma
>>>>>> sociedade livre, não podemos ficar enfiando conteúdos na cabeça dos
>>>>>> outros para cumprir os papéis que desejamos que eles cumpram.
>>>>>> Sobretudo não deveríamos, com base na falta de possibilidade (em geral
>>>>>> econômica e social) da maioria da população, de fazer escolhas em um
>>>>>> leque mais amplo de alternativas, ficar ensinando corte-e-costura para
>>>>>> as meninas e carpintaria ou mecânica para os meninos. Isso pode
>>>>>> interessar ao dono da fábrica de confecções, de móveis ou da fábrica
>>>>>> metalúrgica e da montadora de automóveis, que quer que os filhos
>>>>>> alheios aprendam tais ofícios, mas raramente se dispõe a matricular
>>>>>> seus próprios filhos nessas escolas técnicas, reservando-lhes um lugar
>>>>>> em alguma carreira acadêmica, "superior", na qual eles vão aprender a
>>>>>> mandar nos outros ou a ter melhores condições de auferir altos
>>>>>> salários, lucros e benefícios. Como se pode ver, aqui não estamos mais
>>>>>> no terreno da educação como domínio público, ainda que muitas das
>>>>>> escolas (estatais) que se dedicam ao adestramento da força de trabalho
>>>>>> sejam (ditas) públicas.
>>>>>>
>>>>>> Alguns retrucam que esse tipo de educação para o autodidatismo não
>>>>>> pode ter avaliação da aprendizagem, mas isso é falso. A avaliação
>>>>>> passa a ser feita em coletivos mais amplos, passa a ser uma avaliação
>>>>>> da sociedade – uma avaliação pública stricto sensu – e não a avaliação
>>>>>> privada de uma confraria sacerdotal. Em vez das notas e dos títulos
>>>>>> conferidos por uma corporação de professores, por uma banca acadêmica,
>>>>>> os autodidatas serão avaliados pelo que produzem. É a árvore avaliada
>>>>>> por seus frutos e não pelos certificados que recebeu da organização
>>>>>> dos botânicos.
>>>>>>
>>>>>> Isso já acontece com os escritores. Escritor é quem escreve e quem é
>>>>>> reconhecido pelos leitores (que lêem seus livros e os recomendam) e
>>>>>> não quem recebe autorização para escrever de uma corporação qualquer
>>>>>> de escribas ou um conjunto de opiniões favoráveis dos críticos
>>>>>> literários. Somente em regimes autocráticos as pessoas têm que ter
>>>>>> autorização para publicar o que escrevem. Mas mesmo em regimes
>>>>>> formalmente democráticos existem quistos autocráticos (como
>>>>>> corporações profissionais ou acadêmicas) querendo impor proibições
>>>>>> para tal exercício (como ocorre hoje, por exemplo, com a
>>>>>> obrigatoriedade do diploma de curso superior de jornalismo para
>>>>>> exercer a função jornalística).
>>>>>>
>>>>>> As academias científicas também impõem restrições autocráticas. As
>>>>>> revistas científicas reconhecidas são dirigidas por conselhos
>>>>>> editoriais – que se constituem, como vimos, como verdadeiros tribunais
>>>>>> epistemológicos (e freqüentemente também como alfândegas ideológicas)
>>>>>> – aos quais cabe dizer o que um estudioso pode ou não pode publicar (a
>>>>>> começar pela exigência de diplomas do autor como condição prévia para
>>>>>> aceitar sequer receber e examinar o seu paper). Muitas vezes um jovem
>>>>>> estudante de astrofísica fica meses esperando um parecer favorável à
>>>>>> publicação de um artigo em que relata importantes descobertas que fez.
>>>>>>
>>>>>> Tudo isso faz parte da organização sacerdotal do conhecimento
>>>>>> (etimologicamente, uma hierarquia), que não é mais compatível com a
>>>>>> sociedade em rede que está emergindo.
>>>>>>
>>>>>> Mas na sociedade-rede que está emergindo, nosso astrofísico já
>>>>>> encontrou uma saída: agora ele publica suas descobertas imediatamente
>>>>>> em seu próprio blog, sem pedir autorização a ninguém. Outros
>>>>>> astrofísicos, que também têm seus blogs, lêem o que ele escreveu e
>>>>>> interagem com ele. O único resultado é que enquanto o tribunal
>>>>>> espistemológico dos pós-PHDs em astrofísica estão pensando se aceitam
>>>>>> ou não aceitam seu artigo, a ciência avançou pela polinização mútua
>>>>>> das idéias e dez novos artigos sobre o mesmo tema apareceram
>>>>>> sucessivamente. Formou-se uma rede. E a rede avaliou a aprendizagem
>>>>>> daquele jovem astrofísico por meio de um processo criativo, gerando
>>>>>> mais aprendizagem coletiva.
>>>>>>
>>>>>> Se não houver retrocesso no processo de emergência da sociedade-rede,
>>>>>> tudo será assim. As notas, os certificados, os diplomas e os títulos
>>>>>> continuarão existindo, mas as pessoas que realmente importam – quer
>>>>>> dizer, que se conectam para aprender e produzir juntas – darão cada
>>>>>> vez menos bola para essas autorizações hierárquicas.
>>>>>>
>>>>>> Já há bastante gente pensando assim. Headhunters inteligentes se
>>>>>> impressionam muito pouco com a coleção de diplomas apresentados por um
>>>>>> candidato a ocupar uma vaga em uma instituição qualquer.Querem saber o
>>>>>> que a pessoa está fazendo. Querem saber o que ela pode ser a partir do
>>>>>> que pretende (do seu projeto de futuro) e não o que ela é como
>>>>>> continuidade do que foi (da repetição do seu passado). Está certo:
>>>>>> como se diz, o passado "já era". O novo posto pretendido não será
>>>>>> ocupado no passado e sim no futuro. Então o que é necessário avaliar é
>>>>>> a linha de atuação ou de pensamento que está sendo seguida pelo
>>>>>> candidato.
>>>>>>
>>>>>> Em breve, as avaliações de aprendizagem serão feitas diretamente pelos
>>>>>> interessados em se associar ou em contratar (latu sensu) uma pessoa.
>>>>>> Redes de especialistas de uma área ou setor continuarão avaliando os
>>>>>> especialistas da sua área ou setor. Mas essa avaliação será cada vez
>>>>>> horizontal. E, além disso, pessoas avaliarão outras pessoas a partir
>>>>>> do exame das suas expressões de vida e conhecimento, pois que tudo
>>>>>> isso estará disponível, será de domínio público e não ficará mais
>>>>>> guardado por uma corporação que tem autorização para acessar e licença
>>>>>> oficial para interpretar tais dados.
>>>>>>
>>>>>> Cada pessoa terá a sua própria Wikipedia. Ao invés de aceitar apenas
>>>>>> as oblíquas interpretações doutas, passaremos a verificar diretamente
>>>>>> a wikipedia de cada um, aquilo que David de Ugarte (2007) chamou de
>>>>>> contextopédia: o arquivo-vivo que contém as definições dos termos
>>>>>> habituais, os pontos de vista, as referências, os trabalhos e as
>>>>>> conclusões sobre os assuntos da sua esfera de conhecimento e de
>>>>>> atuação (6). Quem gostar do que viu, que contrate ou se associe ao
>>>>>> autor daquela contextopédia. Ponto final.
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>> Notas e referências
>>>>>>
>>>>>> (1) ILLICHT, Ivan (1971). Deschooling society. New York: Marion
>>>>>> Boyars, 1971. O original está disponível on line no link abaixo:
>>>>>>
>>>>>> http://en.wikiversity.org/wiki/Ivan_Illich:_Deschooling_Society
>>>>>>
>>>>>> Existe tradução brasileira: Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes,
>>>>>> 1985. A íntegra já está disponível no link abaixo:
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>> http://www.4shared.com/file/57047554/c83bde51/Ivan_Illich_-_Sociedade_sem_Escolas.html
>>>>>>
>>>>>> (2) Sobre o homeschooling, saiba mais clicando no link abaixo:
>>>>>>
>>>>>> http://pessoas.hsw.uol.com.br/homeschooling.htm
>>>>>>
>>>>>> Sobre o communityschooling, saiba mais lendo o artigo de Erwin Flaxman
>>>>>> (disponível em inglês apenas): "The promise of urban community
>>>>>> schooling" em The Eric Review vol. 8, Winter 2001, que pode ser
>>>>>> acessado pelo endereço abaixo:
>>>>>>
>>>>>>
>>>>>> http://permanent.access.gpo.gov/lps50000/ERIC%20REVIEW%20ARCHIVE/vol8no2.pdf
>>>>>>
>>>>>> Sobre o unschooling, consulte o site:
>>>>>>
>>>>>> http://www.unschooling.com/index.shtml
>>>>>>
>>>>>> (3) Para ler clique no link abaixo:
>>>>>>
>>>>>> http://augustodefranco.locaweb.com.br/cartas_comments.php?id=255_0_2_0_C
>>>>>>
>>>>>> (4) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas Visões sobre a
>>>>>> sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo
>>>>>> glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.
>>>>>>
>>>>>> (5) Como articulador do Comitê Científico do X Congresso Internacional
>>>>>> de Cidades Educadoras (São Paulo, 24 a 26 de abril de 2008), propus um
>>>>>> conjunto de 27 questões provocativa para o debate dos participantes,
>>>>>> cujo sentido geral era explicitar duas dimensões ainda não
>>>>>> suficientemente exploradas ao longo de quase duas décadas de
>>>>>> experiências desse interessante movimento surgido em 1990 em
>>>>>> Barcelona: a) as relações entre cidade educadora e democracia
>>>>>> (democracia entendida aqui quer como regime político formal, quer como
>>>>>> experiência de convivência social, na base da sociedade e no cotidiano
>>>>>> do cidadão); e b) as relações entre cidade educadora e os processos
>>>>>> individuais e coletivos de aprendizagem potencializados pela
>>>>>> emergência das redes sociais distribuídas.
>>>>>>
>>>>>> Em uma proposta de resolução – que não foi objeto de apreciação pela
>>>>>> plenária final do Congresso – propus, entre vários outros, os
>>>>>> seguintes pontos como conclusões:
>>>>>>
>>>>>> 1) As cidades sempre foram educadoras, assim como o foram também os
>>>>>> habitats considerados não-urbanos. Em todas as épocas e lugares a
>>>>>> convivência social gerou processos de socialização de seus membros
>>>>>> como elementos básicos da própria existência humana em sociedade.
>>>>>>
>>>>>> 2) Nem toda cidade que prioriza políticas públicas, programas e ações
>>>>>> governamentais e não-governamentais de educação (ou voltadas à
>>>>>> educação) pode ser considerada uma cidade educadora no sentido
>>>>>> apontado pelos congressos de Cidades Educadoras. Se fosse assim, não
>>>>>> haveria necessidade de construir um novo conceito. Cabe, portanto,
>>>>>> identificar os elementos distintivos a partir dos quais se poderia
>>>>>> caracterizar uma cidade como educadora.
>>>>>>
>>>>>> 3) O que é propriamente educador na Cidade Educadora é o ambiente
>>>>>> favorável à interação educadora. Isso não significa que não são
>>>>>> importantes as políticas, os programas e as ações governamentais de
>>>>>> educação. Nem que não sejam importantes as escolas e universidades.
>>>>>> Nem que não sejam importantes os programas e ações de educação não-
>>>>>> governamentais. Tudo isso é importante, mas a sinergia entre essas
>>>>>> diversas ações, processos e instituições formais, não-formais ou
>>>>>> informais, depende de como elas interagem virtuosamente para produzir
>>>>>> um efeito sistêmico. O ambiente educador, portanto, é a chave da
>>>>>> questão.
>>>>>>
>>>>>> 4) Somente seres humanos podem educar seres humanos, ou seja, a
>>>>>> educação é o resultado de uma interação entre humanos. Cabe
>>>>>> identificar quais os novos arranjos sociais capazes de favorecer tais
>>>>>> interações, ensejando a multiplicação de atividades educadoras na
>>>>>> cidade.
>>>>>>
>>>>>> 5) Toda cidade é educadora na medida em que seu tecido urbano é
>>>>>> composto por múltiplas redes sociais que aprendem e promovem
>>>>>> interações educativas entre as pessoas conectadas nessas redes. São
>>>>>> essas redes que educam em uma cidade educadora. Para além dos
>>>>>> necessários programas formais e das estruturas educativas, são essas
>>>>>> redes que conformam o ambiente propício à função educadora do processo
>>>>>> democrático. São essas redes que educam a própria cidade para que ela
>>>>>> possa ser caracterizada como uma cidade educadora no sentido da Carta
>>>>>> das Cidades Educadoras.
>>>>>>
>>>>>> 6) A proposta de Cidade Educadora implica a existência de novas
>>>>>> institucionalidades educadoras na cidade. Essas novas
>>>>>> institucionalidades serão de várias naturezas: governamentais,
>>>>>> empresariais e sociais. Parte significa delas deverá ser pública, em
>>>>>> um sentido mais amplo do que aquele compreendido pelo Estado. Deverão
>>>>>> ser formadas por parcerias entre setores governamentais, empresariais
>>>>>> e sociais para buscar extrair sinergias da interação entre esses
>>>>>> diversos tipos de agenciamento.
>>>>>>
>>>>>> 7) Cidade Educadora não é uma cidade escolarizada. Ao focalizar
>>>>>> prioritária e exclusivamente as escolas como instrumentos ou espaços
>>>>>> educativos, pode-se estar contribuindo para uma indesejável
>>>>>> escolarização da sociedade ao invés de promover uma necessária
>>>>>> socialização das escolas e diminuindo a importância dos ambientes
>>>>>> sociais coletivos que deveriam caracterizar uma Cidade Educadora.
>>>>>> Cidades Educadoras são cidades nas quais proliferam, além de um
>>>>>> sistema escolar eficiente e inclusivo, ambientes educadores extra-
>>>>>> escolares.
>>>>>>
>>>>>> 8) O mais importante, porém, é a cidade como espaço de aprendizagem.
>>>>>> Cidade Educadora, antes de ser uma cidade-que-ensina é uma cidade-que-
>>>>>> aprende e enseja a aprendizagem contínua de seus cidadãos. Assim,
>>>>>> antes de perguntar o que é uma 'Cidade Educadora', deveríamos
>>>>>> perguntar o que é uma 'Cidade que Aprende'. Uma cidade não pode ser
>>>>>> Educadora se não for, antes, uma cidade capaz de aprender ou uma
>>>>>> cidade-que-aprende.
>>>>>>
>>>>>> 9) As Cidades Educadoras promovem a educação, transformando-a numa
>>>>>> força da cidade na conquista de inclusão, equidade e direitos para
>>>>>> todos. Todavia, a idéia de inclusão social não pode ser adequadamente
>>>>>> expressada somente como o direito dos cidadãos a receberem algo do
>>>>>> Estado. As pessoas devem fazer alguma coisa a mais em favor da sua
>>>>>> própria inserção, além de exigirem os seus direitos do Estado
>>>>>> protestando, demandando e monitorando as políticas governamentais. As
>>>>>> pessoas devem assumir por si próprias responsabilidades com a promoção
>>>>>> da sua real inclusão social. Isso faz parte do aprendizado dos
>>>>>> cidadãos e do aprendizado da cidade como um todo, sem o qual a cidade
>>>>>> não poderá se caracterizar como uma cidade educadora. Ao lado da noção
>>>>>> de igualdade, sempre enfatizada quando falamos sobre as necessidades
>>>>>> de inclusão social, também deve ser enfatizada a noção de liberdade
>>>>>> para inovar, criar, arriscar e empreender e propor ações coletivas que
>>>>>> resultem em uma maior participação democrática da sociedade para
>>>>>> promover, por via de suas iniciativas endógenas, a inclusão dos
>>>>>> excluídos.
>>>>>>
>>>>>> 10) As tendências atuais indicam que em um mundo cada vez mais
>>>>>> interconectado culturalmente, terão uma inserção mais adequada às
>>>>>> experiências de miscigenação (cultural) do que de multiculturalismo.
>>>>>> Multiculturalismo sem interculturalidade não é desejável. O que é
>>>>>> desejável, do ponto de vista das Cidades Educadoras, é uma relação
>>>>>> entre pessoas e coletivos culturalmente diferenciados que implique a
>>>>>> promoção sistemática e gradual de espaços e processos de interação
>>>>>> positiva capazes de generalizar relações de confiança, reconhecimento
>>>>>> mútuo, comunicação efetiva, diálogo e debate, aprendizagem e
>>>>>> intercâmbio, regulação pacífica dos conflitos, cooperação e
>>>>>> convivência. Iniciativas de prevenir conflitos (sejam estes de caráter
>>>>>> distributivo, inter-geracional, inter-étnico ou inter-religioso) devem
>>>>>> articular-se por meio da aplicação de políticas urbanas e iniciativas
>>>>>> de instaurar modos democráticos de regulação de conflitos na base da
>>>>>> sociedade e no cotidiano dos cidadãos.
>>>>>>
>>>>>> 11) Péricles, talvez o principal expoente da democracia grega, afirmou
>>>>>> – segundo Tucídides, na oração fúnebre proferida no final do primeiro
>>>>>> ano da guerra do Peloponeso – "que a cidade inteira é a escola da
>>>>>> Grécia e creio que qualquer ateniense pode formar uma personalidade
>>>>>> completa nos mais distintos aspectos, dotada da maior flexibilidade e,
>>>>>> ao mesmo tempo, de encanto pessoal". Tal relação entre a educação e a
>>>>>> vida democrática da polis, está na raiz do conceito de cidade
>>>>>> educadora. Essa visão pode ser apresentada em termos contemporâneos,
>>>>>> pois continua válida em essência. Poder-se afirmar hoje que o
>>>>>> investimento na educação do indivíduo para melhorar a sua vida depende
>>>>>> do investimento em ambientes coletivos favoráveis à boa governança, à
>>>>>> prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de
>>>>>> melhorar suas condições de convivência social. No conceito fundante de
>>>>>> Péricles, quem educa não é propriamente a Cidade-Estado e sim a
>>>>>> koinomia (a comunidade) política (democrática). Na ausência de
>>>>>> democracia (mesmo que limitada aos mecanismos e processos formais de
>>>>>> representação, isto é, como regime político ou forma de administração
>>>>>> do Estado), uma cidade não pode alcançar a condição de Cidade
>>>>>> Educadora.
>>>>>>
>>>>>> 12) Cidades educadoras ensejam o surgimento de novos atores públicos
>>>>>> para além dos atores estatais ou governamentais. O cidadão conectado
>>>>>> em redes de participação cidadã pode, como tal, fazer política
>>>>>> pública. A política pública não é mais monopólio do Estado, mas inclui
>>>>>> também os atores sociais que operam com um sentido público. A
>>>>>> sociedade civil pode, como tal, tomar iniciativas públicas coletivas,
>>>>>> aumentando o seu protagonismo e o seu empreendedorismo. E nada disso
>>>>>> constitui privilégio das formas de organização tradicionais e
>>>>>> burocráticas (da chamada "sociedade civil organizada"). Os cidadãos
>>>>>> desorganizados (segundo os antigos padrões de organização), porém
>>>>>> conectados horizontalmente uns com outros em prol de objetivos comuns,
>>>>>> podem participar da composição de uma nova esfera pública não-estatal.
>>>>>>
>>>>>> 13) Se cidades podem aprender, como elas podem aprender? Eis a grande
>>>>>> questão colocada pela contemporaneidade para as Cidades Educadoras.
>>>>>> Quem aprende na cidade não são apenas os cidadãos, individualmente,
>>>>>> mas também as redes sociais nas quais tais cidadãos estão conectados.
>>>>>> Podemos dizer que a comunidade se desenvolvendo é sinônimo de sua rede
>>>>>> social aprendendo. Quando se diz que a cidade educa, o que se está
>>>>>> dizendo, a rigor, é que são as diversas comunidades de aprendizagem,
>>>>>> de prática e de projeto que se formam dentro da cidade que estão
>>>>>> aprendendo. Apenas estruturas complexas que apresentam a morfologia e
>>>>>> a dinâmica de rede podem aprender. Uma cidade será cada vez mais
>>>>>> educadora na medida em que for também, cada vez mais, uma cidade-rede.
>>>>>>
>>>>>> (6) Cf. UGARTE, David (2007). O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/
>>>>>> ediPUCRS, 2008.
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