Então, digitalizei esse texto do livro Cartografias do desejo do Félix
Guattari com a Suely Rolnik e foi produzido em 1982 com a vinda do
primeiro!!! Acho esse texto bem bom!!

http://zepower.wordpress.com/cultura-um-conceito-reacionario/

Cultura: um conceito reacionário
 <http://zepower.files.wordpress.com/2008/08/2481068855_85be345e4e.jpg>
O conceito de cultura é profundamente reacionário. É uma maneira de separar
atividades semióticas (atividades de orientação no mundo social e cósmico)
em esferas, às quais os homens são remetidos. Isoladas, tais atividades são
padronizadas, instituídas potencial ou realmente e capitalizadas para o modo
de semiotização dominante - ou seja, elas são cortadas de suas realidades
políticas.

Toda a obra de Proust gira em torno da idéia de que é impossível autonomizar
esferas como a da música, das artes plásticas, da literatura , dos conjuntos
arquitetônicos, da vida microssocial nos salões.

A cultura enquanto esfera autônoma só existe em nível dos mercados de poder,
dos mercados econômicos, e não em nível da produção, da criação e do consumo
real.

"O que caracteriza os modos de produção *capitalísticos* é que eles não
funcionam unicamente no registro dos valores de troca, valores que são da
ordem do capital, das semióticas monetárias ou dos modos de financiamento.
Eles funcionam também através de um modo de controle da subjetivação, que eu
chamaria de "cultura de equivalência" ou de "sistemas de equivalência na
esfera da cultura". Desse ponto de vista o capital funciona de modo
complementar à cultura enquanto conceito de equivalência: o capital ocupa-se
da sujeição econômica, e a cultura, da sujeição subjetiva. E quando falo em
sujeição subjetiva não me refiro apenas à publicidade para a produção e o
consumo de bens. *É a própria essência do lucro capitalista que não se reduz
ao campo da mais-valia econômica: ela está também na tomada de poder da
subjetividade.*

*Cultura de massa e singularidade*

O título que propus para este debate na *Folha de S. Paulo* foi "Cultura de
massa e singularidade". O título reiteradamente anunciado foi "Cultura de
massa e individualidade" — e talvez esse não seja um mero problema de
tradução. Talvez seja difícil ouvir o termo *singularidade* e, nesse caso,
traduzi-lo por *individualidade* me parece colocar em jogo uma dimensão
essencial da cultura de massa. É exatamente este o tema que eu gostaria de
abordar hoje: a cultura de massa como elemento fundamental da *"produção de
subjetividade capitalística".*

A cultura de massa produz, exatamente, indivíduos: indivíduos normalizados,
articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de
submissão - não sistemas de submissão visíveis e explícitos, como na
etologia animal, ou como nas sociedades arcaicas ou pré-capitalistas, mas
sistemas de submissão muito mais dissimulados. E eu nem diria que esses
sistemas são "interiorizados" ou "internalizados" de acordo com a expressão
que esteve muito em voga numa certa época, e que implica uma idéia de
subjetividade como algo a ser preenchido. Ao contrário, o que há é
simplesmente uma produção de subjetividade. Não somente uma produção de
subjetividade individuada - subjetividade dos indivíduos - mas uma produção
de subjetividade inconsciente. A meu ver, essa grande fábrica, essa poderosa
máquina capitalísticas produz, inclusive, aquilo que acontece conosco quando
sonhamos, quando devaneamos. Em todo caso, ela pretende garantir uma função
hegemônica em todos esses campos.

Eu oporia a essa máquina de produção de subjetividade a idéia de que é
possível desenvolver modos de subjetivação singulares, aquilo que poderíamos
chamar de "processos de singularização": uma maneira de recusar todos esses
modos de encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e
de telecomando, recusá-los para construir modos de sensibilidade, modos de
relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam
uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com
um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no
qual encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de
sociedade, os tipos de valores que não são os nossos. Há assim algumas
palavras-cilada (como a palavra "cultura"), noções anteparo que nos impedem
de pensar a realidade dos processos em questão.

A palavra cultura teve vários sentidos no decorrer da História: seu sentido
mais antigo é o que aparece na expressão "cultivar o espírito". Vou
designá-la "sentido A" e *"cultura-valor"*, por corresponder a um julgamento
de valor que determina quem tem cultura, e quem não tem: ou se pertence a
meios cultos ou se pertence a meios incultos. O segundo núcleo semântico
agrupa outras significações relativas à cultura. Vou designá-lo "sentido B".
É a *"cultura-alma coletiva"*, sinônimo de civilização. Desta vez, já não há
mais o par "ter ou não ter": todo mundo tem cultura. Essa é uma cultura
muito democrática: qualquer um pode reivindicar sua identidade cultural. É
uma espécie de "a priori" da cultura: fala-se em cultura negra, cultura *
underground*, cultura técnica, etc. É uma espécie de alma um tanto vaga,
difícil de captar, e que se prestou no curso da História a toda espécie de
ambiguidade, pois é uma dimensão semântica que se encontra tanto no partido
hitleriano, com a noção de *volk* (povo), quanto em numerosos movimentos de
emancipação que querem se reapropriar de sua cultura, e de seu fundo
cultural. O terceiro núcleo semântico, que designo "C", corresponde à
cultura de massa e eu o chamaria de *"cultura-mercadoria"*. Aí já não há
julgamento de valor, nem territórios coletivos da cultura mais ou menos
secretos, como nos sentidos A e B. A cultura são todos os seus bens: todos
os equipamentos (casas de cultura, etc.), todas as pessoas (especialistas
que trabalham nesse tipo de equipamento), todas as referências teóricas e
ideológicas relativas a esse funcionamento, enfim, tudo que contribui para a
produção de objetos semióticos (livros, filmes, etc.), difundidos num
mercado determinado de circulação monetária ou estatal. Difunde-se cultura
exatamente como Coca-cola, cigarros "de quem sabe o que quer", carros ou
qualquer coisa.

Retomemos as três categorias. Com a ascensão da burguesia, a cultura-valor
parece ter vindo substituir outras noções segregativas, antigos sistemas de
segregação social da nobreza. Já não se fala mais em pessoas de qualidade: o
que se considera é a qualidade da cultura, resultante de determinado
trabalho. É a isso que se refere, por exemplo, aquela fórmula de Voltaire,
espécie de palavra de ordem no final de **Candide**: "Cultivem seus
jardins". As elites burguesas extraem a legitimidade de seu poder do fato de
terem feito certo tipo de trabalho no campo do saber, no campo das artes, e
assim por diante. Também essa noção cultura-valor tem diversas acepções.
Pode-se tomá-la como uma categoria geral de valor cultural no campo das
elites burguesas, mas também se pode usá-la para designar diferentes níveis
níveis culturais em sistemas setoriais de valor — aquilo que faz com que se
fale, por exemplo, em cultura clássica, cultura científica, cultura
artística.

E aí, passo a passo, vai-se chegando à definição B, a da cultura-alma, que é
uma noção pseudocientífica, elaborada a partir do final do século XIX, com o
desenvolvimento da antropologia , em particular da antropologia cultural. No
início, a noção de alma coletiva é muito próxima de uma noçao segregativa e
até racista; grandes antropólogos como Lévy-Bruhl e Taylor reificam essa
noção de cultura. Falava-se coisas do tipo que as sociedades ditas
primiticas têm "mentalidade primitiva" - noções que serviram para qualificar
modos de subjetivação que, na verdade, são perfeitamente heterogêneos. E,
depois, com a evolução das ciências antropológicas, com o estruturalismo e o
culturalismo, houve uma tentativa de se livrar desses sistemas de apreciação
etnocêntricos. Nem todos os autores da corrente culturalista fizeram essa
tentativa. Alguns mantiveram uma visão etnocêntrica. Outros, em compensação,
como Kardiner, Margaret Mead e Ruth Benedict, com noções tais como
"personalidade de base", "personalidade cultural de base",
"*pattern*cultural", quiseram livrar-se do etnocentrismo. Mas, no
fundo, pode-se dizer
que se essa tentativa constituiu em sair do etnocentrismo - renunciar a uma
referência geral em relação à cultura branca, ocidental, masculina - ela, na
verdade, estabeleceu uma espécie de policentrismo cultural, uma espécie de
multiplicação do etnocentrismo.

Essa "cultura-alma", no sentido B, consiste em isolar o que chamarei de uma
esfera da cultura (domínios da cultura como o do mito, do culto ou da
enumeração) à qual se oporão outros níveis tidos como heterogêneos, como a
esfera do político, a esfera das relações estruturais de parentesco - tudo
aquilo que diz respeito à economia dos bens e dos prestígios. E assim
acaba-se desembocando numa situação em que aquilo que eu chamaria de
"atividades de semiotização" - toda a produção de sentido, de eficiência
semiótica - é separado numa esfera que passa a ser desfinida como a da
"cultura". E a cada alma coletiva (os povos, as etnias, os grupos) será
atribuida uma cultura. No entanto, esses povos, etnias e grupos sociais não
vivem essas atividades como uma esfera separada. Da mesma maneira que o
burguês fidalgo de Molière descobre que ele "faz prosa", as sociedade ditas
primirivas descobrem que "fazem cultura"; elas são informadas, por exemplo,
de que fazem música, dança, atividades de culto, de mitologia e outras
tantas. E descobrem isso sobretudo no momento em que pessoas vêm lhes tomar
a produção para expô-la em museus ou vendê-la no mercado de arte ou para
inseri-la nas teorias antropológicas científicas em circulação. Mas estas
sociedades não fazem nem cultura, nem dança, nem música. Todas essas
dimensões são inteiramente articuladas umas às outras num processo de
expressão, e também articuladas com sua maneira de produzir bens, com sua
maneira de produzir relações sociais. Ou seja, elas não assumem,
absolutamente, essas diferentes categorizações que são as da antropologia. A
situação é idêntica no caso da produção de um indivíduo que perdeu suas
coordenadas no sistema psiquiátrico, ou no caso da produção das crianças
quando são integradas ao sistema de escolarização. Antes disso, elas
brincam, articulam relações sociais, sonham, produzem e, mais cedo ou mais
tarde, vão ter que aprender a categorizar essas dimensões de semiotização no
campo social normalizado. Agora é hora de brincar, agora é hora de produzir
para a escola, agora é hora de sonhar, e assim por diante.

Já a categoria cultura-mercadoria, o terceiro núcleo de sentido, se pretende
muito mais objetiva: cultura aqui não é fazer teoria, mas produzir e
difundir mercadorias culturais, em princípio sem levar em consideração os
sistemas de valor distintivos no nível A (cultura-valor) e sem se preocuar
tampouco com aquilo que eu chamaria de níveis territoriais da cultura, que
são da alçada do nível B (cultura-alma). Não se trata de uma cultura a
priori, mas de uma cultura que se produz, se reproduz, se modifica
constantemente. Assim sendo, pode-se estabelecer uma espécie de nomenclatura
científica, para tentar apreciar essa produção de cultura, em termos
quantitativos . Há grades muito elaboradas (penso naquelas que estão em
curso na Unesco), nas quais se pode classificar os "níveis" culturais das
cidades, das categorias sociais, e assim por diante, em função do índice, do
número de livros produzidos, do número de filmes, do número de salas de uso
cultural.

A minha idéia é que esses três sentido de cultura que apareceram
sucessivamente no curso da História continuam a funcionar simultaneamente.
Há uma complementaridade entre esses três tipo de núcleos semânticos. A
produção dos meios de comunicação de massa, a produção de subjetividade
capitalística gera uma cultura com vocação universal. Esta ée uma dimensão
essencial na confecção da força coletiva de trabalho, e na confecção daquilo
que eu chamo de força coletiva de controle social. Mas, independentemente
desses dois grandes objetivos, ela está totalmente disposta a tolerar
territórios subjetivos que escapam relativamente a essa cultura geral. É
preciso, para isso, tolerar margens, setores de cultura minoritária -
subjetividades em que possamos nos reconhecer, nos resgatar entre nós numa
orientação alheia à do Capitalismo Mundial Integrado. Essa atitude,
entretanto, não é apenas de tolerância. Nas últimas décadas, essa produção
caítalística se empenhou, ela própria, em produzir suas margens, e de algum
modo equipou novos territórios subjetivos: os indivíduos, as famílias, os
grupos sociais, as minorias, e por aí vai. Tudo isso parece ser muito bem
calculado. Poder-se-ia dizer que, neste momento, Ministérios da Cultura
estão começando a surgir por toda parte, desenvolvendo uma perspectiva
modernista na qual se propõem a incrementar, de maneira aparentemente
democrática, uma produção de cultura que lhe permita estar nas sociedades
industriais ricas. E também encorajar formas de cultura particulares, a fim
de que as pessoas se sintam de algum modo numa espécie de território e não
fiquem perdidas num mundo abstrato.

Na verdade, não é bem assim que as coisas acontecem. esse duplo modo de
produção da  subjetividade, esssa industrialização da produção de cultura
segundo os níveis B e C, não renunciou absolutamente ao sistem ade
valorização do nível A. Atrás dessa falsa democracia da cultura continuam a
instaurar os mesmos sistemas de segregação a partir de uma categoria geral
da cultura, de modo completamente subjacente. Nessa perspectiva  modernista,
os Ministros da Cultura e os especialistas dos equipamentos culturais
declaram não pretender qualificar socialmente os consumidores dos objetos
culturais, mas apenas difundir cultura num determinado campo social, que
fuincionaria segundo uma lei de liberdade de trocas. No entanto, o que se
omite aqui é que o campo social que recebe a cultura não é homogêneo. A
difusão de produtos como um livro ou um disco  bão tem absolutamente a mesma
significação quando veiculada nos meios de elites sociais ou nos meios de
comunicação de massa, a título de formação ou de animação cultural.

Trabalhos de sociólogos como Bordieu mostram que há grupos que já possuem
até um metabolismo de receptividade das produções culturais. É óbvio que uma
criança que nunca conviveu num ambiente de leitura, de produção de
conhecimento, de fruição de obras plásticas, não tem o mesmo tipo de relação
com a cultura que teve alguém como Jean Paul Sartre, que nasceu numa
biblioteca literalmente. Ainda assim se quer manter a aparência de igualdade
diante das produções culturais. De fato, conservamos o antigo sentido da
palavra cultura, a cultura valor, qe se insceve nas tradições aristocráticas
de almas bem nascidas, de gente que sabe lidar com as palavras, as atitudes
e as etiquetas. A cultura não é apenas uma transmissão  de informação
cultural, uma transmissão de sistemas de modelização, mas é também uma
maneira de as elites capitalísticas exporem o que eu chamaria de um mercado
geral de poder.

Um poder não apenas sobre os objetos culturais, ouy sobre as possibilidade
de manipulá-los e ciar algo, mas também um poder  de atribuir a si os
objetos culturais como signo distintivo na relação socuak com os outros. O
sentido que uma banalidade pode tomar, por exemplo no campo da literatura,
varia de acordo com o destinatário. O fato de um aluno ou um professor
primário de uma cidadezinha qualquer do interior dizer banalidades sobre
Maupassant não altera seu sistema de produção de valor no campo social. Mas
se Giscard d'Estaing, num dos grandes programas literários da televisão
francesa, falar de Maupassant, ainda que uma banalidade, o fato se contitui
imediatamente em um índice, não de seu conhecimento real acerca do escritor,
mas de que ele pertence a um campo de poder que é o da cultura.

Tomarei um exemplo mais imediato, situado naquilo que estou considerando
como contexto brasileiro. Costuma-se insinuar que Lula e PT são pessoa e
empreendimento muito simpáticos, mas que vão sem dúvida se revelar
completamente incapazes  de gerir uma sociedade altamente diferenciadaa como
é a brasileira, pois ele snão têm competência técnica, não têm níveis de
saer suficientes para tanto. Recentemente estive na polônia e constatei que
esse mesmo tipo de argumentação é usado contra Walesa. Dirigentes do Partido
Comunista Polonês empregam rodos os meios possíveis para tentar
desconsiderá-lo. Especificamente um sujeito asqueroso que se chama Racowski,
e que declara à imprensa ocidental que simpatiza muito com Walesa, esse
personagem sedutor, tão charmoso, mas considera que, separado de seus
conselheiros, de se *entourage *habitual, ele não é nada, é um incapaz.

Na verdade, o que está se colocando em jogo não são esses níveis de
competência, mesmo porque, para começo de conversa, é notório o nível de
incompetência e corrupção das elites no poder. Aliás, nos agenciamenteos de
poder capitalístico em geral são sempre os mais estúpidos que se encontram
no alto da pirâmide. Basta considerar os resultadis: a gestão da economia
mundial hoje conduz centenas e milhares de pessoas à fome, ao desespero, a
um modo de vida inteiramente impossível, apesar dos progressos tecnológicos
e das capacidades produtivas extraordinárias que estão se desencolvendo nas
revoluções tecnológicas atuais.

Assim, não podemos aceitar que o que esteja sendo efetivamente visado ou
tendo um certo impacto na opinião seja a competência. Além disso, esse
argumento promove uma certa função encarnada do saber, como se a
inteligência necessária nesta situação de crise que estamos vivendo pudesse
encarnar algum suposto talento ou saber transcedental. Esse argumento
simplesmente escamoteia o fato de que todos os procedimentos de saber, de
efiiência semiótica no mundo atual participam de agenciamentos complexos,
que jamais são da alçada de um único especialista . Sabe-se muito vem qye
qyalquer sistema de gestão moderna dos grandes processos industriais e
sociais implica a articulação de diferentes níveis de competência. Nesse
sentido, não vejo em que Lula seria incapaz de fazer tal articulação. E
quando eu falo de Lula, na verdade estou falando do PT, de todas as
formações democráticas, de todas as corrente minoritárias que estão se
agitando neste momento de campanha eleitoral no Brasil. Então, não á para
entender por que essas diferentes potencialidade de competência nõ poderiam
fazer o que fazem as elites hoje no poder - tão bem quanto ou até melhor.
Acho que o ponto-chave dessa questão não está aí, e sim na relação de Lula
com a cultura, como quantidade de informação. Não a cultura-alma — pois é
óbvio que, nesse sentido, ele tem a cultura de São Bernardo ou a cultura
operária, e não vamos tirar isso dele –, mas sim com u certo tipo de cultura
capitalística uma das enrgenagens fundamentais do poder. As pessoas do PT,
em particular o Lula, não participam de determinada qualidade de cultura
dominante. É muito mais uma questão de estilo e de etiqueta. Poder-seia
dizer até que é algo que funciona num nível anterior ao término de uma
frase, à configuração de um discurso. Tais pessoas não fazem parte da
cultura capitalística dominante. A partir daí desenvolve-se  todo um vetor
de culpabilização, pois essa concepção de cultura impregna todos os níveis
sociais e produtivos. Daí tais pessoas não poderem pretender uma
legitimidade para gerir os processos capitalísticos, idéia que elas próprias
acabam assumindo.

O que dá então um caráter de estranhamento à ascenção política e social de
pessoas como Lula é o fato de sentirmos muito bem que não se trata apenas de
um fenômeno de ruptura em relação à gestão dos fluxos sociais e econômicos.
Mas sim de colocar em prática um tipo de processo de subjetivação diferente
do capitalístico, com seu duplo registro de produção de valores universais
por um lado, e de reterritorialização em pequenos guetos subjetivos, por
outro lado. Colocar em prática a produção de uma subjetividade que vai ser
capaz de gerir processos de singularização subjetiva, que não confinem as
diferentes categorias sociais (minorias sexuais, raciais, culturais e
quaisquer outras) no esquadrinhamento dominante do poder.

Então a questão que se coloca agora não é mais "quem produz cultura", "quais
vão ser os recipientes dessas produções culturais", mas como agenciar outros
modos de produção semiótica, de maneira a possibilitar a construção de uma
sociedade que simplesmente consiga manter-se em pé. Modos de produção
semiótica que permitam assegurar uma divião social da produção, sem por isso
fechar os indivíduos em sistemas de segregação opressora ou categorizar suas
produções semióticas em esferas distintas da cultura. A pintura como esfera
cultural refere-se antes de mais nada aos pintores, às pessoas que têm
currículo de pintoras e às pessoas que difudem a pintura no comércio ou nos
meios de comunicação de massa. Como fazer com que essas categorias ditas "da
cultura" possam ser, ao mesmo tempo, altamente especializadas,
singularizadas, como é o caso que acabei de mencinar da pintura, sem que
haja por isso uma espécie de posse hegemônica pelas elites capitalísticas?
Como fazer para que esses diferentes modos de produção cultural não se
tornem unicamente especialidades, mas possam articular-se ao conjunto dos
outros tipos de produção (o que eu chamo de produções maquínicas: toda essa
revolução informática, telemática, dos robôs, etc.)? Como abrir, e até
quebrar, essas antigas esferas culturais fechadas sobre si mesmas? Como
produzir novos agenciamentos de singularização que trabalhem por uma
sensibilidade estética, pela mudança da vida num plano mais cotidiano e, ao
mesmo tempo, pelas transformações sociais em nível dos grandes conjuntos
econômicos e sociais?

Para concluir, eu diria que os problemas da cultura devem necessariamente
sair da articulação entre os três núcleos semânticos que evoquei
anteriormente. Quando os meios de comunicação de massa ou os Ministros da
Cultura falam de cultura, querem os meios de comunicação de massa nos
convencer de que não estão tratando de problemas políticos, e sociais.
Distribui-se cultura para o consumo, como se distribui um mínimo vital de
alimentos em algumas sociedades. Mas os agenciamentos de toda espécie
implicam sempre, correlativamente, dimensões micropolíticas e
macropolíticas.

Eu poderia, eventualmente, falar dos efeitos dessa concepção, hoje na
França, com o governo Mitterrand, para tentar descrever a maneira pela qual
os socialistas estão girando em falso com essa categoria de cultura. E isso
porque sua tentativa de democratização da cultura não está realmente
conectada com os processos de subjetivação singular, com as minorias
culturais ativas, o que faz com que se restabeleça sempre, apesar das boas
intenções, uma relação privilegiada entre o Estado e os diferentes sistemas
de produção cultural. Neste momento, algumas pessoas na França, entre as
quais me incluo, consideram muito importante inventar um modo de produção
cultural que quebre radicalmente os esquemas atuais de poder nesse campo,
esquemas de que dispõe o Estado atualmente, através de seus equipamentos
coletivos e de sua mídia.

Como fazer para que a cultura saia dessas esferas fechadas sobre si mesmas?
Como organizar, dispor e financiar processos de singularizaçao cultural que
desmontem os particularismos atuais no campo da cultura e, ao mesmo tempo,
os empreendimentos de pseudodemocratização da cultura?

Não existe, a meu ver, cultura popular e cultura erudita. Há uma cultura
capitalística que permeia todos os campos de expressão semiótica. É isso que
tento dizer ao evocar os três núcleos semânticos do termo cultura. Não há
coisa mais horripilante do que fazer a apologia da cultura popular, ou da
cultura proletária, ou sabe-se lá o que do gênero. Há processos de
singularização em práticas determinadas e há procedimentos de reapropriação,
de recuperação, operados pelos diferentes sistemas capitalísticos.
No fundo, só há uma cultura: a capitalística. É uma cultura sempre
etnocêntrica e intelectocêntrica (ou logocêntrica), pois separa os universos
semióticos das produções subjetivas.

Há muitas maneiras de a cultura ser etnocêntrica, e não apenas na relação
racista do tipo cultura masculina, branca, adulta. Ela pode ser
relativamente policêntrica ou polietnocêntrica, e preservar a postulação de
uma referência de cultura-valor, um padrão de tradutibilidade geral das
produções semióticas, inteiramente paralelo ao capital.

Assim como o capital é um modo de semiotização que permite ter um
equivalente geral para as produções econômicas e sociais, a cultura é o
equivalente geral para as produções de poder. As classes dominantes sempre
buscam essa dupla mais-valia de poder, através da cultura-valor.

Considero essas duas funções, mais-valia econômica e mais-valia do poder,
inteiramente complementares. Elas constituem, juntamente com uma terceira
categoria de equivalência — o poder sobre a energia, a capacidade de
conversão das energias umas nas outras — os três pilares do CMI.
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