CMI (de acordo com o Guatarri)= Capitalismo Mundial Ingrado.

mt engraçado no contexto da ciglas....

2008/9/10 José Paulo Neto <[EMAIL PROTECTED]>:
> Então, digitalizei esse texto do livro Cartografias do desejo do Félix
> Guattari com a Suely Rolnik e foi produzido em 1982 com a vinda do
> primeiro!!! Acho esse texto bem bom!!
>
> http://zepower.wordpress.com/cultura-um-conceito-reacionario/
>
> Cultura: um conceito reacionário
>
> O conceito de cultura é profundamente reacionário. É uma maneira de separar
> atividades semióticas (atividades de orientação no mundo social e cósmico)
> em esferas, às quais os homens são remetidos. Isoladas, tais atividades são
> padronizadas, instituídas potencial ou realmente e capitalizadas para o modo
> de semiotização dominante - ou seja, elas são cortadas de suas realidades
> políticas.
>
> Toda a obra de Proust gira em torno da idéia de que é impossível autonomizar
> esferas como a da música, das artes plásticas, da literatura , dos conjuntos
> arquitetônicos, da vida microssocial nos salões.
>
> A cultura enquanto esfera autônoma só existe em nível dos mercados de poder,
> dos mercados econômicos, e não em nível da produção, da criação e do consumo
> real.
>
> "O que caracteriza os modos de produção capitalísticos é que eles não
> funcionam unicamente no registro dos valores de troca, valores que são da
> ordem do capital, das semióticas monetárias ou dos modos de financiamento.
> Eles funcionam também através de um modo de controle da subjetivação, que eu
> chamaria de "cultura de equivalência" ou de "sistemas de equivalência na
> esfera da cultura". Desse ponto de vista o capital funciona de modo
> complementar à cultura enquanto conceito de equivalência: o capital ocupa-se
> da sujeição econômica, e a cultura, da sujeição subjetiva. E quando falo em
> sujeição subjetiva não me refiro apenas à publicidade para a produção e o
> consumo de bens. É a própria essência do lucro capitalista que não se reduz
> ao campo da mais-valia econômica: ela está também na tomada de poder da
> subjetividade.
>
> Cultura de massa e singularidade
>
> O título que propus para este debate na Folha de S. Paulo foi "Cultura de
> massa e singularidade". O título reiteradamente anunciado foi "Cultura de
> massa e individualidade" — e talvez esse não seja um mero problema de
> tradução. Talvez seja difícil ouvir o termo singularidade e, nesse caso,
> traduzi-lo por individualidade me parece colocar em jogo uma dimensão
> essencial da cultura de massa. É exatamente este o tema que eu gostaria de
> abordar hoje: a cultura de massa como elemento fundamental da "produção de
> subjetividade capitalística".
>
> A cultura de massa produz, exatamente, indivíduos: indivíduos normalizados,
> articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de
> submissão - não sistemas de submissão visíveis e explícitos, como na
> etologia animal, ou como nas sociedades arcaicas ou pré-capitalistas, mas
> sistemas de submissão muito mais dissimulados. E eu nem diria que esses
> sistemas são "interiorizados" ou "internalizados" de acordo com a expressão
> que esteve muito em voga numa certa época, e que implica uma idéia de
> subjetividade como algo a ser preenchido. Ao contrário, o que há é
> simplesmente uma produção de subjetividade. Não somente uma produção de
> subjetividade individuada - subjetividade dos indivíduos - mas uma produção
> de subjetividade inconsciente. A meu ver, essa grande fábrica, essa poderosa
> máquina capitalísticas produz, inclusive, aquilo que acontece conosco quando
> sonhamos, quando devaneamos. Em todo caso, ela pretende garantir uma função
> hegemônica em todos esses campos.
>
> Eu oporia a essa máquina de produção de subjetividade a idéia de que é
> possível desenvolver modos de subjetivação singulares, aquilo que poderíamos
> chamar de "processos de singularização": uma maneira de recusar todos esses
> modos de encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e
> de telecomando, recusá-los para construir modos de sensibilidade, modos de
> relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam
> uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com
> um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no
> qual encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de
> sociedade, os tipos de valores que não são os nossos. Há assim algumas
> palavras-cilada (como a palavra "cultura"), noções anteparo que nos impedem
> de pensar a realidade dos processos em questão.
>
> A palavra cultura teve vários sentidos no decorrer da História: seu sentido
> mais antigo é o que aparece na expressão "cultivar o espírito". Vou
> designá-la "sentido A" e "cultura-valor", por corresponder a um julgamento
> de valor que determina quem tem cultura, e quem não tem: ou se pertence a
> meios cultos ou se pertence a meios incultos. O segundo núcleo semântico
> agrupa outras significações relativas à cultura. Vou designá-lo "sentido B".
> É a "cultura-alma coletiva", sinônimo de civilização. Desta vez, já não há
> mais o par "ter ou não ter": todo mundo tem cultura. Essa é uma cultura
> muito democrática: qualquer um pode reivindicar sua identidade cultural. É
> uma espécie de "a priori" da cultura: fala-se em cultura negra, cultura
> underground, cultura técnica, etc. É uma espécie de alma um tanto vaga,
> difícil de captar, e que se prestou no curso da História a toda espécie de
> ambiguidade, pois é uma dimensão semântica que se encontra tanto no partido
> hitleriano, com a noção de volk (povo), quanto em numerosos movimentos de
> emancipação que querem se reapropriar de sua cultura, e de seu fundo
> cultural. O terceiro núcleo semântico, que designo "C", corresponde à
> cultura de massa e eu o chamaria de "cultura-mercadoria". Aí já não há
> julgamento de valor, nem territórios coletivos da cultura mais ou menos
> secretos, como nos sentidos A e B. A cultura são todos os seus bens: todos
> os equipamentos (casas de cultura, etc.), todas as pessoas (especialistas
> que trabalham nesse tipo de equipamento), todas as referências teóricas e
> ideológicas relativas a esse funcionamento, enfim, tudo que contribui para a
> produção de objetos semióticos (livros, filmes, etc.), difundidos num
> mercado determinado de circulação monetária ou estatal. Difunde-se cultura
> exatamente como Coca-cola, cigarros "de quem sabe o que quer", carros ou
> qualquer coisa.
>
> Retomemos as três categorias. Com a ascensão da burguesia, a cultura-valor
> parece ter vindo substituir outras noções segregativas, antigos sistemas de
> segregação social da nobreza. Já não se fala mais em pessoas de qualidade: o
> que se considera é a qualidade da cultura, resultante de determinado
> trabalho. É a isso que se refere, por exemplo, aquela fórmula de Voltaire,
> espécie de palavra de ordem no final de Candide: "Cultivem seus jardins". As
> elites burguesas extraem a legitimidade de seu poder do fato de terem feito
> certo tipo de trabalho no campo do saber, no campo das artes, e assim por
> diante. Também essa noção cultura-valor tem diversas acepções. Pode-se
> tomá-la como uma categoria geral de valor cultural no campo das elites
> burguesas, mas também se pode usá-la para designar diferentes níveis níveis
> culturais em sistemas setoriais de valor — aquilo que faz com que se fale,
> por exemplo, em cultura clássica, cultura científica, cultura artística.
>
> E aí, passo a passo, vai-se chegando à definição B, a da cultura-alma, que é
> uma noção pseudocientífica, elaborada a partir do final do século XIX, com o
> desenvolvimento da antropologia , em particular da antropologia cultural. No
> início, a noção de alma coletiva é muito próxima de uma noçao segregativa e
> até racista; grandes antropólogos como Lévy-Bruhl e Taylor reificam essa
> noção de cultura. Falava-se coisas do tipo que as sociedades ditas
> primiticas têm "mentalidade primitiva" - noções que serviram para qualificar
> modos de subjetivação que, na verdade, são perfeitamente heterogêneos. E,
> depois, com a evolução das ciências antropológicas, com o estruturalismo e o
> culturalismo, houve uma tentativa de se livrar desses sistemas de apreciação
> etnocêntricos. Nem todos os autores da corrente culturalista fizeram essa
> tentativa. Alguns mantiveram uma visão etnocêntrica. Outros, em compensação,
> como Kardiner, Margaret Mead e Ruth Benedict, com noções tais como
> "personalidade de base", "personalidade cultural de base", "pattern
> cultural", quiseram livrar-se do etnocentrismo. Mas, no fundo, pode-se dizer
> que se essa tentativa constituiu em sair do etnocentrismo - renunciar a uma
> referência geral em relação à cultura branca, ocidental, masculina - ela, na
> verdade, estabeleceu uma espécie de policentrismo cultural, uma espécie de
> multiplicação do etnocentrismo.
>
> Essa "cultura-alma", no sentido B, consiste em isolar o que chamarei de uma
> esfera da cultura (domínios da cultura como o do mito, do culto ou da
> enumeração) à qual se oporão outros níveis tidos como heterogêneos, como a
> esfera do político, a esfera das relações estruturais de parentesco - tudo
> aquilo que diz respeito à economia dos bens e dos prestígios. E assim
> acaba-se desembocando numa situação em que aquilo que eu chamaria de
> "atividades de semiotização" - toda a produção de sentido, de eficiência
> semiótica - é separado numa esfera que passa a ser desfinida como a da
> "cultura". E a cada alma coletiva (os povos, as etnias, os grupos) será
> atribuida uma cultura. No entanto, esses povos, etnias e grupos sociais não
> vivem essas atividades como uma esfera separada. Da mesma maneira que o
> burguês fidalgo de Molière descobre que ele "faz prosa", as sociedade ditas
> primirivas descobrem que "fazem cultura"; elas são informadas, por exemplo,
> de que fazem música, dança, atividades de culto, de mitologia e outras
> tantas. E descobrem isso sobretudo no momento em que pessoas vêm lhes tomar
> a produção para expô-la em museus ou vendê-la no mercado de arte ou para
> inseri-la nas teorias antropológicas científicas em circulação. Mas estas
> sociedades não fazem nem cultura, nem dança, nem música. Todas essas
> dimensões são inteiramente articuladas umas às outras num processo de
> expressão, e também articuladas com sua maneira de produzir bens, com sua
> maneira de produzir relações sociais. Ou seja, elas não assumem,
> absolutamente, essas diferentes categorizações que são as da antropologia. A
> situação é idêntica no caso da produção de um indivíduo que perdeu suas
> coordenadas no sistema psiquiátrico, ou no caso da produção das crianças
> quando são integradas ao sistema de escolarização. Antes disso, elas
> brincam, articulam relações sociais, sonham, produzem e, mais cedo ou mais
> tarde, vão ter que aprender a categorizar essas dimensões de semiotização no
> campo social normalizado. Agora é hora de brincar, agora é hora de produzir
> para a escola, agora é hora de sonhar, e assim por diante.
>
> Já a categoria cultura-mercadoria, o terceiro núcleo de sentido, se pretende
> muito mais objetiva: cultura aqui não é fazer teoria, mas produzir e
> difundir mercadorias culturais, em princípio sem levar em consideração os
> sistemas de valor distintivos no nível A (cultura-valor) e sem se preocuar
> tampouco com aquilo que eu chamaria de níveis territoriais da cultura, que
> são da alçada do nível B (cultura-alma). Não se trata de uma cultura a
> priori, mas de uma cultura que se produz, se reproduz, se modifica
> constantemente. Assim sendo, pode-se estabelecer uma espécie de nomenclatura
> científica, para tentar apreciar essa produção de cultura, em termos
> quantitativos . Há grades muito elaboradas (penso naquelas que estão em
> curso na Unesco), nas quais se pode classificar os "níveis" culturais das
> cidades, das categorias sociais, e assim por diante, em função do índice, do
> número de livros produzidos, do número de filmes, do número de salas de uso
> cultural.
>
> A minha idéia é que esses três sentido de cultura que apareceram
> sucessivamente no curso da História continuam a funcionar simultaneamente.
> Há uma complementaridade entre esses três tipo de núcleos semânticos. A
> produção dos meios de comunicação de massa, a produção de subjetividade
> capitalística gera uma cultura com vocação universal. Esta ée uma dimensão
> essencial na confecção da força coletiva de trabalho, e na confecção daquilo
> que eu chamo de força coletiva de controle social. Mas, independentemente
> desses dois grandes objetivos, ela está totalmente disposta a tolerar
> territórios subjetivos que escapam relativamente a essa cultura geral. É
> preciso, para isso, tolerar margens, setores de cultura minoritária -
> subjetividades em que possamos nos reconhecer, nos resgatar entre nós numa
> orientação alheia à do Capitalismo Mundial Integrado. Essa atitude,
> entretanto, não é apenas de tolerância. Nas últimas décadas, essa produção
> caítalística se empenhou, ela própria, em produzir suas margens, e de algum
> modo equipou novos territórios subjetivos: os indivíduos, as famílias, os
> grupos sociais, as minorias, e por aí vai. Tudo isso parece ser muito bem
> calculado. Poder-se-ia dizer que, neste momento, Ministérios da Cultura
> estão começando a surgir por toda parte, desenvolvendo uma perspectiva
> modernista na qual se propõem a incrementar, de maneira aparentemente
> democrática, uma produção de cultura que lhe permita estar nas sociedades
> industriais ricas. E também encorajar formas de cultura particulares, a fim
> de que as pessoas se sintam de algum modo numa espécie de território e não
> fiquem perdidas num mundo abstrato.
>
> Na verdade, não é bem assim que as coisas acontecem. esse duplo modo de
> produção da  subjetividade, esssa industrialização da produção de cultura
> segundo os níveis B e C, não renunciou absolutamente ao sistem ade
> valorização do nível A. Atrás dessa falsa democracia da cultura continuam a
> instaurar os mesmos sistemas de segregação a partir de uma categoria geral
> da cultura, de modo completamente subjacente. Nessa perspectiva  modernista,
> os Ministros da Cultura e os especialistas dos equipamentos culturais
> declaram não pretender qualificar socialmente os consumidores dos objetos
> culturais, mas apenas difundir cultura num determinado campo social, que
> fuincionaria segundo uma lei de liberdade de trocas. No entanto, o que se
> omite aqui é que o campo social que recebe a cultura não é homogêneo. A
> difusão de produtos como um livro ou um disco  bão tem absolutamente a mesma
> significação quando veiculada nos meios de elites sociais ou nos meios de
> comunicação de massa, a título de formação ou de animação cultural.
>
> Trabalhos de sociólogos como Bordieu mostram que há grupos que já possuem
> até um metabolismo de receptividade das produções culturais. É óbvio que uma
> criança que nunca conviveu num ambiente de leitura, de produção de
> conhecimento, de fruição de obras plásticas, não tem o mesmo tipo de relação
> com a cultura que teve alguém como Jean Paul Sartre, que nasceu numa
> biblioteca literalmente. Ainda assim se quer manter a aparência de igualdade
> diante das produções culturais. De fato, conservamos o antigo sentido da
> palavra cultura, a cultura valor, qe se insceve nas tradições aristocráticas
> de almas bem nascidas, de gente que sabe lidar com as palavras, as atitudes
> e as etiquetas. A cultura não é apenas uma transmissão  de informação
> cultural, uma transmissão de sistemas de modelização, mas é também uma
> maneira de as elites capitalísticas exporem o que eu chamaria de um mercado
> geral de poder.
>
> Um poder não apenas sobre os objetos culturais, ouy sobre as possibilidade
> de manipulá-los e ciar algo, mas também um poder  de atribuir a si os
> objetos culturais como signo distintivo na relação socuak com os outros. O
> sentido que uma banalidade pode tomar, por exemplo no campo da literatura,
> varia de acordo com o destinatário. O fato de um aluno ou um professor
> primário de uma cidadezinha qualquer do interior dizer banalidades sobre
> Maupassant não altera seu sistema de produção de valor no campo social. Mas
> se Giscard d'Estaing, num dos grandes programas literários da televisão
> francesa, falar de Maupassant, ainda que uma banalidade, o fato se contitui
> imediatamente em um índice, não de seu conhecimento real acerca do escritor,
> mas de que ele pertence a um campo de poder que é o da cultura.
>
> Tomarei um exemplo mais imediato, situado naquilo que estou considerando
> como contexto brasileiro. Costuma-se insinuar que Lula e PT são pessoa e
> empreendimento muito simpáticos, mas que vão sem dúvida se revelar
> completamente incapazes  de gerir uma sociedade altamente diferenciadaa como
> é a brasileira, pois ele snão têm competência técnica, não têm níveis de
> saer suficientes para tanto. Recentemente estive na polônia e constatei que
> esse mesmo tipo de argumentação é usado contra Walesa. Dirigentes do Partido
> Comunista Polonês empregam rodos os meios possíveis para tentar
> desconsiderá-lo. Especificamente um sujeito asqueroso que se chama Racowski,
> e que declara à imprensa ocidental que simpatiza muito com Walesa, esse
> personagem sedutor, tão charmoso, mas considera que, separado de seus
> conselheiros, de se entourage habitual, ele não é nada, é um incapaz.
>
> Na verdade, o que está se colocando em jogo não são esses níveis de
> competência, mesmo porque, para começo de conversa, é notório o nível de
> incompetência e corrupção das elites no poder. Aliás, nos agenciamenteos de
> poder capitalístico em geral são sempre os mais estúpidos que se encontram
> no alto da pirâmide. Basta considerar os resultadis: a gestão da economia
> mundial hoje conduz centenas e milhares de pessoas à fome, ao desespero, a
> um modo de vida inteiramente impossível, apesar dos progressos tecnológicos
> e das capacidades produtivas extraordinárias que estão se desencolvendo nas
> revoluções tecnológicas atuais.
>
> Assim, não podemos aceitar que o que esteja sendo efetivamente visado ou
> tendo um certo impacto na opinião seja a competência. Além disso, esse
> argumento promove uma certa função encarnada do saber, como se a
> inteligência necessária nesta situação de crise que estamos vivendo pudesse
> encarnar algum suposto talento ou saber transcedental. Esse argumento
> simplesmente escamoteia o fato de que todos os procedimentos de saber, de
> efiiência semiótica no mundo atual participam de agenciamentos complexos,
> que jamais são da alçada de um único especialista . Sabe-se muito vem qye
> qyalquer sistema de gestão moderna dos grandes processos industriais e
> sociais implica a articulação de diferentes níveis de competência. Nesse
> sentido, não vejo em que Lula seria incapaz de fazer tal articulação. E
> quando eu falo de Lula, na verdade estou falando do PT, de todas as
> formações democráticas, de todas as corrente minoritárias que estão se
> agitando neste momento de campanha eleitoral no Brasil. Então, não á para
> entender por que essas diferentes potencialidade de competência nõ poderiam
> fazer o que fazem as elites hoje no poder - tão bem quanto ou até melhor.
> Acho que o ponto-chave dessa questão não está aí, e sim na relação de Lula
> com a cultura, como quantidade de informação. Não a cultura-alma — pois é
> óbvio que, nesse sentido, ele tem a cultura de São Bernardo ou a cultura
> operária, e não vamos tirar isso dele –, mas sim com u certo tipo de cultura
> capitalística uma das enrgenagens fundamentais do poder. As pessoas do PT,
> em particular o Lula, não participam de determinada qualidade de cultura
> dominante. É muito mais uma questão de estilo e de etiqueta. Poder-seia
> dizer até que é algo que funciona num nível anterior ao término de uma
> frase, à configuração de um discurso. Tais pessoas não fazem parte da
> cultura capitalística dominante. A partir daí desenvolve-se  todo um vetor
> de culpabilização, pois essa concepção de cultura impregna todos os níveis
> sociais e produtivos. Daí tais pessoas não poderem pretender uma
> legitimidade para gerir os processos capitalísticos, idéia que elas próprias
> acabam assumindo.
>
> O que dá então um caráter de estranhamento à ascenção política e social de
> pessoas como Lula é o fato de sentirmos muito bem que não se trata apenas de
> um fenômeno de ruptura em relação à gestão dos fluxos sociais e econômicos.
> Mas sim de colocar em prática um tipo de processo de subjetivação diferente
> do capitalístico, com seu duplo registro de produção de valores universais
> por um lado, e de reterritorialização em pequenos guetos subjetivos, por
> outro lado. Colocar em prática a produção de uma subjetividade que vai ser
> capaz de gerir processos de singularização subjetiva, que não confinem as
> diferentes categorias sociais (minorias sexuais, raciais, culturais e
> quaisquer outras) no esquadrinhamento dominante do poder.
>
> Então a questão que se coloca agora não é mais "quem produz cultura", "quais
> vão ser os recipientes dessas produções culturais", mas como agenciar outros
> modos de produção semiótica, de maneira a possibilitar a construção de uma
> sociedade que simplesmente consiga manter-se em pé. Modos de produção
> semiótica que permitam assegurar uma divião social da produção, sem por isso
> fechar os indivíduos em sistemas de segregação opressora ou categorizar suas
> produções semióticas em esferas distintas da cultura. A pintura como esfera
> cultural refere-se antes de mais nada aos pintores, às pessoas que têm
> currículo de pintoras e às pessoas que difudem a pintura no comércio ou nos
> meios de comunicação de massa. Como fazer com que essas categorias ditas "da
> cultura" possam ser, ao mesmo tempo, altamente especializadas,
> singularizadas, como é o caso que acabei de mencinar da pintura, sem que
> haja por isso uma espécie de posse hegemônica pelas elites capitalísticas?
> Como fazer para que esses diferentes modos de produção cultural não se
> tornem unicamente especialidades, mas possam articular-se ao conjunto dos
> outros tipos de produção (o que eu chamo de produções maquínicas: toda essa
> revolução informática, telemática, dos robôs, etc.)? Como abrir, e até
> quebrar, essas antigas esferas culturais fechadas sobre si mesmas? Como
> produzir novos agenciamentos de singularização que trabalhem por uma
> sensibilidade estética, pela mudança da vida num plano mais cotidiano e, ao
> mesmo tempo, pelas transformações sociais em nível dos grandes conjuntos
> econômicos e sociais?
>
> Para concluir, eu diria que os problemas da cultura devem necessariamente
> sair da articulação entre os três núcleos semânticos que evoquei
> anteriormente. Quando os meios de comunicação de massa ou os Ministros da
> Cultura falam de cultura, querem os meios de comunicação de massa nos
> convencer de que não estão tratando de problemas políticos, e sociais.
> Distribui-se cultura para o consumo, como se distribui um mínimo vital de
> alimentos em algumas sociedades. Mas os agenciamentos de toda espécie
> implicam sempre, correlativamente, dimensões micropolíticas e
> macropolíticas.
>
> Eu poderia, eventualmente, falar dos efeitos dessa concepção, hoje na
> França, com o governo Mitterrand, para tentar descrever a maneira pela qual
> os socialistas estão girando em falso com essa categoria de cultura. E isso
> porque sua tentativa de democratização da cultura não está realmente
> conectada com os processos de subjetivação singular, com as minorias
> culturais ativas, o que faz com que se restabeleça sempre, apesar das boas
> intenções, uma relação privilegiada entre o Estado e os diferentes sistemas
> de produção cultural. Neste momento, algumas pessoas na França, entre as
> quais me incluo, consideram muito importante inventar um modo de produção
> cultural que quebre radicalmente os esquemas atuais de poder nesse campo,
> esquemas de que dispõe o Estado atualmente, através de seus equipamentos
> coletivos e de sua mídia.
>
> Como fazer para que a cultura saia dessas esferas fechadas sobre si mesmas?
> Como organizar, dispor e financiar processos de singularizaçao cultural que
> desmontem os particularismos atuais no campo da cultura e, ao mesmo tempo,
> os empreendimentos de pseudodemocratização da cultura?
>
> Não existe, a meu ver, cultura popular e cultura erudita. Há uma cultura
> capitalística que permeia todos os campos de expressão semiótica. É isso que
> tento dizer ao evocar os três núcleos semânticos do termo cultura. Não há
> coisa mais horripilante do que fazer a apologia da cultura popular, ou da
> cultura proletária, ou sabe-se lá o que do gênero. Há processos de
> singularização em práticas determinadas e há procedimentos de reapropriação,
> de recuperação, operados pelos diferentes sistemas capitalísticos.
>
> No fundo, só há uma cultura: a capitalística. É uma cultura sempre
> etnocêntrica e intelectocêntrica (ou logocêntrica), pois separa os universos
> semióticos das produções subjetivas.
>
> Há muitas maneiras de a cultura ser etnocêntrica, e não apenas na relação
> racista do tipo cultura masculina, branca, adulta. Ela pode ser
> relativamente policêntrica ou polietnocêntrica, e preservar a postulação de
> uma referência de cultura-valor, um padrão de tradutibilidade geral das
> produções semióticas, inteiramente paralelo ao capital.
>
> Assim como o capital é um modo de semiotização que permite ter um
> equivalente geral para as produções econômicas e sociais, a cultura é o
> equivalente geral para as produções de poder. As classes dominantes sempre
> buscam essa dupla mais-valia de poder, através da cultura-valor.
>
> Considero essas duas funções, mais-valia econômica e mais-valia do poder,
> inteiramente complementares. Elas constituem, juntamente com uma terceira
> categoria de equivalência — o poder sobre a energia, a capacidade de
> conversão das energias umas nas outras — os três pilares do CMI.
>
>
>



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