CMI (de acordo com o Guatarri)= Capitalismo Mundial Ingrado. mt engraçado no contexto da ciglas....
2008/9/10 José Paulo Neto <[EMAIL PROTECTED]>: > Então, digitalizei esse texto do livro Cartografias do desejo do Félix > Guattari com a Suely Rolnik e foi produzido em 1982 com a vinda do > primeiro!!! Acho esse texto bem bom!! > > http://zepower.wordpress.com/cultura-um-conceito-reacionario/ > > Cultura: um conceito reacionário > > O conceito de cultura é profundamente reacionário. É uma maneira de separar > atividades semióticas (atividades de orientação no mundo social e cósmico) > em esferas, às quais os homens são remetidos. Isoladas, tais atividades são > padronizadas, instituídas potencial ou realmente e capitalizadas para o modo > de semiotização dominante - ou seja, elas são cortadas de suas realidades > políticas. > > Toda a obra de Proust gira em torno da idéia de que é impossível autonomizar > esferas como a da música, das artes plásticas, da literatura , dos conjuntos > arquitetônicos, da vida microssocial nos salões. > > A cultura enquanto esfera autônoma só existe em nível dos mercados de poder, > dos mercados econômicos, e não em nível da produção, da criação e do consumo > real. > > "O que caracteriza os modos de produção capitalísticos é que eles não > funcionam unicamente no registro dos valores de troca, valores que são da > ordem do capital, das semióticas monetárias ou dos modos de financiamento. > Eles funcionam também através de um modo de controle da subjetivação, que eu > chamaria de "cultura de equivalência" ou de "sistemas de equivalência na > esfera da cultura". Desse ponto de vista o capital funciona de modo > complementar à cultura enquanto conceito de equivalência: o capital ocupa-se > da sujeição econômica, e a cultura, da sujeição subjetiva. E quando falo em > sujeição subjetiva não me refiro apenas à publicidade para a produção e o > consumo de bens. É a própria essência do lucro capitalista que não se reduz > ao campo da mais-valia econômica: ela está também na tomada de poder da > subjetividade. > > Cultura de massa e singularidade > > O título que propus para este debate na Folha de S. Paulo foi "Cultura de > massa e singularidade". O título reiteradamente anunciado foi "Cultura de > massa e individualidade" — e talvez esse não seja um mero problema de > tradução. Talvez seja difícil ouvir o termo singularidade e, nesse caso, > traduzi-lo por individualidade me parece colocar em jogo uma dimensão > essencial da cultura de massa. É exatamente este o tema que eu gostaria de > abordar hoje: a cultura de massa como elemento fundamental da "produção de > subjetividade capitalística". > > A cultura de massa produz, exatamente, indivíduos: indivíduos normalizados, > articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de > submissão - não sistemas de submissão visíveis e explícitos, como na > etologia animal, ou como nas sociedades arcaicas ou pré-capitalistas, mas > sistemas de submissão muito mais dissimulados. E eu nem diria que esses > sistemas são "interiorizados" ou "internalizados" de acordo com a expressão > que esteve muito em voga numa certa época, e que implica uma idéia de > subjetividade como algo a ser preenchido. Ao contrário, o que há é > simplesmente uma produção de subjetividade. Não somente uma produção de > subjetividade individuada - subjetividade dos indivíduos - mas uma produção > de subjetividade inconsciente. A meu ver, essa grande fábrica, essa poderosa > máquina capitalísticas produz, inclusive, aquilo que acontece conosco quando > sonhamos, quando devaneamos. Em todo caso, ela pretende garantir uma função > hegemônica em todos esses campos. > > Eu oporia a essa máquina de produção de subjetividade a idéia de que é > possível desenvolver modos de subjetivação singulares, aquilo que poderíamos > chamar de "processos de singularização": uma maneira de recusar todos esses > modos de encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e > de telecomando, recusá-los para construir modos de sensibilidade, modos de > relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam > uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com > um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no > qual encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de > sociedade, os tipos de valores que não são os nossos. Há assim algumas > palavras-cilada (como a palavra "cultura"), noções anteparo que nos impedem > de pensar a realidade dos processos em questão. > > A palavra cultura teve vários sentidos no decorrer da História: seu sentido > mais antigo é o que aparece na expressão "cultivar o espírito". Vou > designá-la "sentido A" e "cultura-valor", por corresponder a um julgamento > de valor que determina quem tem cultura, e quem não tem: ou se pertence a > meios cultos ou se pertence a meios incultos. O segundo núcleo semântico > agrupa outras significações relativas à cultura. Vou designá-lo "sentido B". > É a "cultura-alma coletiva", sinônimo de civilização. Desta vez, já não há > mais o par "ter ou não ter": todo mundo tem cultura. Essa é uma cultura > muito democrática: qualquer um pode reivindicar sua identidade cultural. É > uma espécie de "a priori" da cultura: fala-se em cultura negra, cultura > underground, cultura técnica, etc. É uma espécie de alma um tanto vaga, > difícil de captar, e que se prestou no curso da História a toda espécie de > ambiguidade, pois é uma dimensão semântica que se encontra tanto no partido > hitleriano, com a noção de volk (povo), quanto em numerosos movimentos de > emancipação que querem se reapropriar de sua cultura, e de seu fundo > cultural. O terceiro núcleo semântico, que designo "C", corresponde à > cultura de massa e eu o chamaria de "cultura-mercadoria". Aí já não há > julgamento de valor, nem territórios coletivos da cultura mais ou menos > secretos, como nos sentidos A e B. A cultura são todos os seus bens: todos > os equipamentos (casas de cultura, etc.), todas as pessoas (especialistas > que trabalham nesse tipo de equipamento), todas as referências teóricas e > ideológicas relativas a esse funcionamento, enfim, tudo que contribui para a > produção de objetos semióticos (livros, filmes, etc.), difundidos num > mercado determinado de circulação monetária ou estatal. Difunde-se cultura > exatamente como Coca-cola, cigarros "de quem sabe o que quer", carros ou > qualquer coisa. > > Retomemos as três categorias. Com a ascensão da burguesia, a cultura-valor > parece ter vindo substituir outras noções segregativas, antigos sistemas de > segregação social da nobreza. Já não se fala mais em pessoas de qualidade: o > que se considera é a qualidade da cultura, resultante de determinado > trabalho. É a isso que se refere, por exemplo, aquela fórmula de Voltaire, > espécie de palavra de ordem no final de Candide: "Cultivem seus jardins". As > elites burguesas extraem a legitimidade de seu poder do fato de terem feito > certo tipo de trabalho no campo do saber, no campo das artes, e assim por > diante. Também essa noção cultura-valor tem diversas acepções. Pode-se > tomá-la como uma categoria geral de valor cultural no campo das elites > burguesas, mas também se pode usá-la para designar diferentes níveis níveis > culturais em sistemas setoriais de valor — aquilo que faz com que se fale, > por exemplo, em cultura clássica, cultura científica, cultura artística. > > E aí, passo a passo, vai-se chegando à definição B, a da cultura-alma, que é > uma noção pseudocientífica, elaborada a partir do final do século XIX, com o > desenvolvimento da antropologia , em particular da antropologia cultural. No > início, a noção de alma coletiva é muito próxima de uma noçao segregativa e > até racista; grandes antropólogos como Lévy-Bruhl e Taylor reificam essa > noção de cultura. Falava-se coisas do tipo que as sociedades ditas > primiticas têm "mentalidade primitiva" - noções que serviram para qualificar > modos de subjetivação que, na verdade, são perfeitamente heterogêneos. E, > depois, com a evolução das ciências antropológicas, com o estruturalismo e o > culturalismo, houve uma tentativa de se livrar desses sistemas de apreciação > etnocêntricos. Nem todos os autores da corrente culturalista fizeram essa > tentativa. Alguns mantiveram uma visão etnocêntrica. Outros, em compensação, > como Kardiner, Margaret Mead e Ruth Benedict, com noções tais como > "personalidade de base", "personalidade cultural de base", "pattern > cultural", quiseram livrar-se do etnocentrismo. Mas, no fundo, pode-se dizer > que se essa tentativa constituiu em sair do etnocentrismo - renunciar a uma > referência geral em relação à cultura branca, ocidental, masculina - ela, na > verdade, estabeleceu uma espécie de policentrismo cultural, uma espécie de > multiplicação do etnocentrismo. > > Essa "cultura-alma", no sentido B, consiste em isolar o que chamarei de uma > esfera da cultura (domínios da cultura como o do mito, do culto ou da > enumeração) à qual se oporão outros níveis tidos como heterogêneos, como a > esfera do político, a esfera das relações estruturais de parentesco - tudo > aquilo que diz respeito à economia dos bens e dos prestígios. E assim > acaba-se desembocando numa situação em que aquilo que eu chamaria de > "atividades de semiotização" - toda a produção de sentido, de eficiência > semiótica - é separado numa esfera que passa a ser desfinida como a da > "cultura". E a cada alma coletiva (os povos, as etnias, os grupos) será > atribuida uma cultura. No entanto, esses povos, etnias e grupos sociais não > vivem essas atividades como uma esfera separada. Da mesma maneira que o > burguês fidalgo de Molière descobre que ele "faz prosa", as sociedade ditas > primirivas descobrem que "fazem cultura"; elas são informadas, por exemplo, > de que fazem música, dança, atividades de culto, de mitologia e outras > tantas. E descobrem isso sobretudo no momento em que pessoas vêm lhes tomar > a produção para expô-la em museus ou vendê-la no mercado de arte ou para > inseri-la nas teorias antropológicas científicas em circulação. Mas estas > sociedades não fazem nem cultura, nem dança, nem música. Todas essas > dimensões são inteiramente articuladas umas às outras num processo de > expressão, e também articuladas com sua maneira de produzir bens, com sua > maneira de produzir relações sociais. Ou seja, elas não assumem, > absolutamente, essas diferentes categorizações que são as da antropologia. A > situação é idêntica no caso da produção de um indivíduo que perdeu suas > coordenadas no sistema psiquiátrico, ou no caso da produção das crianças > quando são integradas ao sistema de escolarização. Antes disso, elas > brincam, articulam relações sociais, sonham, produzem e, mais cedo ou mais > tarde, vão ter que aprender a categorizar essas dimensões de semiotização no > campo social normalizado. Agora é hora de brincar, agora é hora de produzir > para a escola, agora é hora de sonhar, e assim por diante. > > Já a categoria cultura-mercadoria, o terceiro núcleo de sentido, se pretende > muito mais objetiva: cultura aqui não é fazer teoria, mas produzir e > difundir mercadorias culturais, em princípio sem levar em consideração os > sistemas de valor distintivos no nível A (cultura-valor) e sem se preocuar > tampouco com aquilo que eu chamaria de níveis territoriais da cultura, que > são da alçada do nível B (cultura-alma). Não se trata de uma cultura a > priori, mas de uma cultura que se produz, se reproduz, se modifica > constantemente. Assim sendo, pode-se estabelecer uma espécie de nomenclatura > científica, para tentar apreciar essa produção de cultura, em termos > quantitativos . Há grades muito elaboradas (penso naquelas que estão em > curso na Unesco), nas quais se pode classificar os "níveis" culturais das > cidades, das categorias sociais, e assim por diante, em função do índice, do > número de livros produzidos, do número de filmes, do número de salas de uso > cultural. > > A minha idéia é que esses três sentido de cultura que apareceram > sucessivamente no curso da História continuam a funcionar simultaneamente. > Há uma complementaridade entre esses três tipo de núcleos semânticos. A > produção dos meios de comunicação de massa, a produção de subjetividade > capitalística gera uma cultura com vocação universal. Esta ée uma dimensão > essencial na confecção da força coletiva de trabalho, e na confecção daquilo > que eu chamo de força coletiva de controle social. Mas, independentemente > desses dois grandes objetivos, ela está totalmente disposta a tolerar > territórios subjetivos que escapam relativamente a essa cultura geral. É > preciso, para isso, tolerar margens, setores de cultura minoritária - > subjetividades em que possamos nos reconhecer, nos resgatar entre nós numa > orientação alheia à do Capitalismo Mundial Integrado. Essa atitude, > entretanto, não é apenas de tolerância. Nas últimas décadas, essa produção > caítalística se empenhou, ela própria, em produzir suas margens, e de algum > modo equipou novos territórios subjetivos: os indivíduos, as famílias, os > grupos sociais, as minorias, e por aí vai. Tudo isso parece ser muito bem > calculado. Poder-se-ia dizer que, neste momento, Ministérios da Cultura > estão começando a surgir por toda parte, desenvolvendo uma perspectiva > modernista na qual se propõem a incrementar, de maneira aparentemente > democrática, uma produção de cultura que lhe permita estar nas sociedades > industriais ricas. E também encorajar formas de cultura particulares, a fim > de que as pessoas se sintam de algum modo numa espécie de território e não > fiquem perdidas num mundo abstrato. > > Na verdade, não é bem assim que as coisas acontecem. esse duplo modo de > produção da subjetividade, esssa industrialização da produção de cultura > segundo os níveis B e C, não renunciou absolutamente ao sistem ade > valorização do nível A. Atrás dessa falsa democracia da cultura continuam a > instaurar os mesmos sistemas de segregação a partir de uma categoria geral > da cultura, de modo completamente subjacente. Nessa perspectiva modernista, > os Ministros da Cultura e os especialistas dos equipamentos culturais > declaram não pretender qualificar socialmente os consumidores dos objetos > culturais, mas apenas difundir cultura num determinado campo social, que > fuincionaria segundo uma lei de liberdade de trocas. No entanto, o que se > omite aqui é que o campo social que recebe a cultura não é homogêneo. A > difusão de produtos como um livro ou um disco bão tem absolutamente a mesma > significação quando veiculada nos meios de elites sociais ou nos meios de > comunicação de massa, a título de formação ou de animação cultural. > > Trabalhos de sociólogos como Bordieu mostram que há grupos que já possuem > até um metabolismo de receptividade das produções culturais. É óbvio que uma > criança que nunca conviveu num ambiente de leitura, de produção de > conhecimento, de fruição de obras plásticas, não tem o mesmo tipo de relação > com a cultura que teve alguém como Jean Paul Sartre, que nasceu numa > biblioteca literalmente. Ainda assim se quer manter a aparência de igualdade > diante das produções culturais. De fato, conservamos o antigo sentido da > palavra cultura, a cultura valor, qe se insceve nas tradições aristocráticas > de almas bem nascidas, de gente que sabe lidar com as palavras, as atitudes > e as etiquetas. A cultura não é apenas uma transmissão de informação > cultural, uma transmissão de sistemas de modelização, mas é também uma > maneira de as elites capitalísticas exporem o que eu chamaria de um mercado > geral de poder. > > Um poder não apenas sobre os objetos culturais, ouy sobre as possibilidade > de manipulá-los e ciar algo, mas também um poder de atribuir a si os > objetos culturais como signo distintivo na relação socuak com os outros. O > sentido que uma banalidade pode tomar, por exemplo no campo da literatura, > varia de acordo com o destinatário. O fato de um aluno ou um professor > primário de uma cidadezinha qualquer do interior dizer banalidades sobre > Maupassant não altera seu sistema de produção de valor no campo social. Mas > se Giscard d'Estaing, num dos grandes programas literários da televisão > francesa, falar de Maupassant, ainda que uma banalidade, o fato se contitui > imediatamente em um índice, não de seu conhecimento real acerca do escritor, > mas de que ele pertence a um campo de poder que é o da cultura. > > Tomarei um exemplo mais imediato, situado naquilo que estou considerando > como contexto brasileiro. Costuma-se insinuar que Lula e PT são pessoa e > empreendimento muito simpáticos, mas que vão sem dúvida se revelar > completamente incapazes de gerir uma sociedade altamente diferenciadaa como > é a brasileira, pois ele snão têm competência técnica, não têm níveis de > saer suficientes para tanto. Recentemente estive na polônia e constatei que > esse mesmo tipo de argumentação é usado contra Walesa. Dirigentes do Partido > Comunista Polonês empregam rodos os meios possíveis para tentar > desconsiderá-lo. Especificamente um sujeito asqueroso que se chama Racowski, > e que declara à imprensa ocidental que simpatiza muito com Walesa, esse > personagem sedutor, tão charmoso, mas considera que, separado de seus > conselheiros, de se entourage habitual, ele não é nada, é um incapaz. > > Na verdade, o que está se colocando em jogo não são esses níveis de > competência, mesmo porque, para começo de conversa, é notório o nível de > incompetência e corrupção das elites no poder. Aliás, nos agenciamenteos de > poder capitalístico em geral são sempre os mais estúpidos que se encontram > no alto da pirâmide. Basta considerar os resultadis: a gestão da economia > mundial hoje conduz centenas e milhares de pessoas à fome, ao desespero, a > um modo de vida inteiramente impossível, apesar dos progressos tecnológicos > e das capacidades produtivas extraordinárias que estão se desencolvendo nas > revoluções tecnológicas atuais. > > Assim, não podemos aceitar que o que esteja sendo efetivamente visado ou > tendo um certo impacto na opinião seja a competência. Além disso, esse > argumento promove uma certa função encarnada do saber, como se a > inteligência necessária nesta situação de crise que estamos vivendo pudesse > encarnar algum suposto talento ou saber transcedental. Esse argumento > simplesmente escamoteia o fato de que todos os procedimentos de saber, de > efiiência semiótica no mundo atual participam de agenciamentos complexos, > que jamais são da alçada de um único especialista . Sabe-se muito vem qye > qyalquer sistema de gestão moderna dos grandes processos industriais e > sociais implica a articulação de diferentes níveis de competência. Nesse > sentido, não vejo em que Lula seria incapaz de fazer tal articulação. E > quando eu falo de Lula, na verdade estou falando do PT, de todas as > formações democráticas, de todas as corrente minoritárias que estão se > agitando neste momento de campanha eleitoral no Brasil. Então, não á para > entender por que essas diferentes potencialidade de competência nõ poderiam > fazer o que fazem as elites hoje no poder - tão bem quanto ou até melhor. > Acho que o ponto-chave dessa questão não está aí, e sim na relação de Lula > com a cultura, como quantidade de informação. Não a cultura-alma — pois é > óbvio que, nesse sentido, ele tem a cultura de São Bernardo ou a cultura > operária, e não vamos tirar isso dele –, mas sim com u certo tipo de cultura > capitalística uma das enrgenagens fundamentais do poder. As pessoas do PT, > em particular o Lula, não participam de determinada qualidade de cultura > dominante. É muito mais uma questão de estilo e de etiqueta. Poder-seia > dizer até que é algo que funciona num nível anterior ao término de uma > frase, à configuração de um discurso. Tais pessoas não fazem parte da > cultura capitalística dominante. A partir daí desenvolve-se todo um vetor > de culpabilização, pois essa concepção de cultura impregna todos os níveis > sociais e produtivos. Daí tais pessoas não poderem pretender uma > legitimidade para gerir os processos capitalísticos, idéia que elas próprias > acabam assumindo. > > O que dá então um caráter de estranhamento à ascenção política e social de > pessoas como Lula é o fato de sentirmos muito bem que não se trata apenas de > um fenômeno de ruptura em relação à gestão dos fluxos sociais e econômicos. > Mas sim de colocar em prática um tipo de processo de subjetivação diferente > do capitalístico, com seu duplo registro de produção de valores universais > por um lado, e de reterritorialização em pequenos guetos subjetivos, por > outro lado. Colocar em prática a produção de uma subjetividade que vai ser > capaz de gerir processos de singularização subjetiva, que não confinem as > diferentes categorias sociais (minorias sexuais, raciais, culturais e > quaisquer outras) no esquadrinhamento dominante do poder. > > Então a questão que se coloca agora não é mais "quem produz cultura", "quais > vão ser os recipientes dessas produções culturais", mas como agenciar outros > modos de produção semiótica, de maneira a possibilitar a construção de uma > sociedade que simplesmente consiga manter-se em pé. Modos de produção > semiótica que permitam assegurar uma divião social da produção, sem por isso > fechar os indivíduos em sistemas de segregação opressora ou categorizar suas > produções semióticas em esferas distintas da cultura. A pintura como esfera > cultural refere-se antes de mais nada aos pintores, às pessoas que têm > currículo de pintoras e às pessoas que difudem a pintura no comércio ou nos > meios de comunicação de massa. Como fazer com que essas categorias ditas "da > cultura" possam ser, ao mesmo tempo, altamente especializadas, > singularizadas, como é o caso que acabei de mencinar da pintura, sem que > haja por isso uma espécie de posse hegemônica pelas elites capitalísticas? > Como fazer para que esses diferentes modos de produção cultural não se > tornem unicamente especialidades, mas possam articular-se ao conjunto dos > outros tipos de produção (o que eu chamo de produções maquínicas: toda essa > revolução informática, telemática, dos robôs, etc.)? Como abrir, e até > quebrar, essas antigas esferas culturais fechadas sobre si mesmas? Como > produzir novos agenciamentos de singularização que trabalhem por uma > sensibilidade estética, pela mudança da vida num plano mais cotidiano e, ao > mesmo tempo, pelas transformações sociais em nível dos grandes conjuntos > econômicos e sociais? > > Para concluir, eu diria que os problemas da cultura devem necessariamente > sair da articulação entre os três núcleos semânticos que evoquei > anteriormente. Quando os meios de comunicação de massa ou os Ministros da > Cultura falam de cultura, querem os meios de comunicação de massa nos > convencer de que não estão tratando de problemas políticos, e sociais. > Distribui-se cultura para o consumo, como se distribui um mínimo vital de > alimentos em algumas sociedades. Mas os agenciamentos de toda espécie > implicam sempre, correlativamente, dimensões micropolíticas e > macropolíticas. > > Eu poderia, eventualmente, falar dos efeitos dessa concepção, hoje na > França, com o governo Mitterrand, para tentar descrever a maneira pela qual > os socialistas estão girando em falso com essa categoria de cultura. E isso > porque sua tentativa de democratização da cultura não está realmente > conectada com os processos de subjetivação singular, com as minorias > culturais ativas, o que faz com que se restabeleça sempre, apesar das boas > intenções, uma relação privilegiada entre o Estado e os diferentes sistemas > de produção cultural. Neste momento, algumas pessoas na França, entre as > quais me incluo, consideram muito importante inventar um modo de produção > cultural que quebre radicalmente os esquemas atuais de poder nesse campo, > esquemas de que dispõe o Estado atualmente, através de seus equipamentos > coletivos e de sua mídia. > > Como fazer para que a cultura saia dessas esferas fechadas sobre si mesmas? > Como organizar, dispor e financiar processos de singularizaçao cultural que > desmontem os particularismos atuais no campo da cultura e, ao mesmo tempo, > os empreendimentos de pseudodemocratização da cultura? > > Não existe, a meu ver, cultura popular e cultura erudita. Há uma cultura > capitalística que permeia todos os campos de expressão semiótica. É isso que > tento dizer ao evocar os três núcleos semânticos do termo cultura. Não há > coisa mais horripilante do que fazer a apologia da cultura popular, ou da > cultura proletária, ou sabe-se lá o que do gênero. Há processos de > singularização em práticas determinadas e há procedimentos de reapropriação, > de recuperação, operados pelos diferentes sistemas capitalísticos. > > No fundo, só há uma cultura: a capitalística. É uma cultura sempre > etnocêntrica e intelectocêntrica (ou logocêntrica), pois separa os universos > semióticos das produções subjetivas. > > Há muitas maneiras de a cultura ser etnocêntrica, e não apenas na relação > racista do tipo cultura masculina, branca, adulta. Ela pode ser > relativamente policêntrica ou polietnocêntrica, e preservar a postulação de > uma referência de cultura-valor, um padrão de tradutibilidade geral das > produções semióticas, inteiramente paralelo ao capital. > > Assim como o capital é um modo de semiotização que permite ter um > equivalente geral para as produções econômicas e sociais, a cultura é o > equivalente geral para as produções de poder. As classes dominantes sempre > buscam essa dupla mais-valia de poder, através da cultura-valor. > > Considero essas duas funções, mais-valia econômica e mais-valia do poder, > inteiramente complementares. Elas constituem, juntamente com uma terceira > categoria de equivalência — o poder sobre a energia, a capacidade de > conversão das energias umas nas outras — os três pilares do CMI. > > > -- Drica Veloso http://drica.org Linux user: #392121
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