BRASIL Jerkish Depois de ouvir os insistentes discursos de alguns candidatos
ao voto popular o psicanalista Mario Corso observa o empobrecimento da
linguagem dos políticos o que acarreta segundo ele a natural ausência de
pensamento
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Em 1984, Orwel imaginou um mundo em que o totalitarismo venceria e uma das
suas conseqüências seria a "novilingua". Seria uma língua com um número
mínimo de palavras, feita para diminuir a capacidade de pensar e,
conseqüentemente, a de manifestar críticas ao governo. Em resumo, só
corrompendo a linguagem seria possível corromper o pensamento. O fascismo e
o stalinismo nos deram demonstrações práticas de um vocabulário oficial como
esse. As ditaduras são muito atentas às palavras, mais do que as
democracias.

Mas a questão é: as sociedades democráticas são imunes à corrupção da
linguagem? Será que nelas encontramos a plena expressão? Escutando os
candidatos à prefeitura de Porto Alegre, eu me inclinaria a dizer que não:
infelizmente estamos utilizando novas formas de "novilingua", andamos
falando "jerkish". Ivan Klima, um romancista checo, batizava assim a
linguagem oficial da cortina de ferro.

Originalmente "jerkish" quer dizer uma linguagem desenvolvida para falar com
chimpanzés, portanto sem possibilidade de metáfora, onde tudo é pão-pão,
queijo-queijo, ou melhor, banana-banana. Enfim, um vocabulário oficial que,
baseado em clichês, nos faz falar sem dizer nada além da informação mais
banal e esperada. Quem fala com esse vocabulário dá voltas nas questões, diz
o que é previsível e fica nisso. O "jerkish" não pede a marca singular do
falante. Dessa forma, independente se enunciado por um ou por outro, o dito
será a mesma coisa, essa linguagem não permite um estilo próprio. Não se
trata de nada imposto, mas um empobrecimento da linguagem que acarreta em
esvaziamento do pensamento.

Mas como pessoas tão diferentes, de intenções e práticas políticas a
princípio distintas, freqüentemente acabam falando a mesma coisa?

O que leva ao clichê é a falta de sinceridade: não se diz o que realmente se
pensa e sim o que é certo dizer, e com o tempo, de tanto insistir no que
seria correto dizer, convencemo-nos de que aquilo é o que realmente
pensamos. Só que isso não é mais um pensamento. Sendo uma repetição de
fórmulas esquemáticas, é justamente a ausência de pensamento.

Creio que esse esvaziamento da linguagem deve-se ao politicamente correto.
Ele é o que mais se aproxima de uma "novilingua" e certamente é um
"jerkish". A utilização da linguagem correta, o policiamento do que é dito
em busca de que a tolerância seja um enunciado universal, baseia-se
justamente nessa premissa: de que o modo de falar dá forma ao modo de
pensar, e não somente à inversa. A intenção é das melhores, mas o resultado
foi a transformação desse saneamento da linguagem, visando expurgá-la dos
preconceitos, em uma esterilização do enunciado. Verdade e política nunca se
olharam de frente, mas aliado ao politicamente correto tendemos ao grau zero
da linguagem.

Existem coisas que se pode dizer e coisas que não se pode dizer. Aplicado a
questões raciais e sexistas isso pode ser muito bem vindo, mas chegando na
discussão política dos temas amplos é um desastre. O politicamente correto
na política já não é só uma escolha de palavras, mas é uma forma de não
pensar. Ele pressupõe certos axiomas especialmente o coitadismo e a
vitimização do cidadão e, como contrapartida, a responsabilidade total do
Estado: se as coisas chegaram aonde chegaram é por que o Estado em algum
momento falhou. As pessoas, os cidadãos não falham, são sempre bons e
oprimidos por forças superiores.

Não existe, para essa forma de pensar, a responsabilização do sujeito. Todos
são vítimas: o carroceiro, o mendigo, o morador de rua e todos nós a quem o
Estado não atenderia bem na saúde, na educação. O modelo hegemônico é
assistencialista, quando eu for prefeito farei...

Por exemplo, se alguém perguntar sobre a população de rua que não pára de
crescer em Porto Alegre, todos vão dizer a mesma coisa: em princípio vão
deixar claro, muito claro, que essas pessoas acampadas nos espaços públicos
são vítimas genéricas da degradação da sociedade e que faremos todo o
possível para saber quem são e como tirá-las das ruas respeitando as suas
particularidades. Resposta que seria mais verdadeira: não sei, a legislação
brasileira é culposa e nos amarra, permite a privatização do espaço público
pelas hordas de miseráveis. É difícil reintegrá-los, especialmente porque
eles nem sempre se interessam por isso. Não tenho nenhuma idéia nova para
esse problema e, provavelmente, se eleito for, não vou fazer nada
significativo quanto a isso, assim como o prefeito atual, e os anteriores,
próxima pergunta...

Eu sinto falta de um silêncio honesto. Será que está proibido mostrar a
falta de propostas? A realidade nos coloca impasses novos onde ninguém sabe
ainda a resposta, não seria melhor nesses casos dizer que está pensando e
que não tem uma opinião formada? Será que o eleitor seria tão imaturo que
não veria nessa franqueza uma manifestação duma forma superior de
honestidade e caráter? Creio que os políticos nos subestimam.

Nosso presidente fala demais. Deve sentir saudades dos tempos de pessoa
comum, quando podemos ser saudáveis palpiteiros. Seu cargo pede palavras
medidas. Mas ele fala mesmo assim e diz uma série de coisas que viram
folclore. Seus assessores tremem quando ele improvisa. As palavras do
presidente furam o bloqueio do que deve se dizer e finalmente alguém diz
algo sincero. Pode não ser uma grande coisa, mas ao menos é verdadeiro e,
como há tão pouca verdade no discurso político, escutamos de uma maneira
distinta. Talvez o problema não seja a incontinência verbal do presidente,
mas a excessiva continência verbal do discurso político corrente. Os índices
de aprovação que ele alcançou certamente creditam-se ao bom momento
econômico, mas talvez em parte devam-se a que, quando ele fala, apesar de
tudo, e de certos momentos de "jerkish", parece haver alguém atrás das
palavras.
MARIO CORSO | Psicanalista
publicado originalmente no caderno Cultura de 04/10/08 ZH
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"Se você não concordar, não posso me desculpar..."

pela sinistra "laotra", sempre!
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