Em 25 de julho de 2015 09:44, Heloisa Pait <[email protected]> escreveu:
> > Queria também agradecer a todos, foi um debate excepcional! Fiquei > contente mesmo em ter participado! > Heloisa, que bom que gostou!! Eu não consegui na hora acompanhar todo o debate pois tinha que fazer várias coisas durante, mas vários trechos do vídeo no youtube e achei que tem muito o que podemos explorar a partir do que foi discutido. Quando tivermos a versão editada, espero achar tempo para escrever um post no nosso blog sobre o tema. > A frase da Marina que você citou teve bastante repercussão na mídia. > Gostei em especial do que Diego Escosteguy disse: "Marina reclama que o > povo nada faz contra a corrupção. Ainda bem. As instituições - aquelas que > já existem - fazem por ele." > Helo, pode passar o texto completo onde isso foi dito? Eu tendo a discordar veementemente, pois está generalizando todas instituições, muitas delas falhas, arcaicas e ainda em desenvolvimento. Ainda mais num país que vive seu maior período de sua história numa democracia após décadas de uma ditadura militar. E quando falamos de democracia, a qual democracia nos referimos? Estamos falando da democracia liberal, que surgiu no século XVIII <https://en.wikipedia.org/wiki/Liberal_democracy#Origins>. Apesar dos avanços das instituições democráticas brasileiras desde o fim da última ditadura, não devemos deixar de ver a crise ela está, crise que ocorre até mesmo nas democracias liberais mais avançadas. Pensando só na França e Estados Unidos, muito mais maduras que a nossa e tiveram lideranças intelectuais no surgimento dessa democracia liberal, inspirando as revoluções francesa e americana, suas democracias estão também em crise. (1) E acho que isso está bastante relacionado com a crise civilizatória (crise econômica, crise social, crise ambiental, crise política e crise de valores) que estamos vivendo, enfatizado pela Marina Silva. Hoje temos 7 bilhões de pessoas, no final do século XVII não tínhamos nem 1 bilhão de pessoas. Desde então tivemos diversos progressos (e. g., o surgimento dos direitos humanos - só após o fim da segunda guerra mundial!), mas nossos sistemas não estão atendendo a demanda da maioria da população mundial. E acreditar que nossas instituições democráticas estão sendo suficiente para diminuir a corrupção me parece muito ingênuo. Só pensarmos no papel das escolas, que obviamente possuem um papel fundamental para diminuir a corrupção. Não explicamos nada sobre como funciona nossa política, não explicamos nada sobre o funciomantos dos poderes de nossa república, não ensinamos nada sobre nossos direitos civis. Falhamos até mesmo em ensinar a ler e escrever! Como podemos acreditar em nossas instituições quando, ao pensar numa das mais básicas, podemos elencar uma série de falhas gravíssimas para contribuir com o problema da corrupção. Claro que nossas instituições democráticas estão progredindo em relação a época obscura das últimas ditaduras. E isso está contribuindo para diminuir a corrupção de diversas maneiras. Mas isso não é suficiente. Será que as pequenas corrupções do dia-a-dia vão ser resolvidas pelas instituições? As pessoas vão parar de usar o jeitinho brasileiro por causa de alguma entidade burocrática? Seja a corrupção na política, sejam essas pequenas corrupções do dia-a-dia, acredito que só teremos uma mudança cultural e efetiva quando os indivíduos passarem a ter uma postura mais de protagonista do que de espectador (pensando alto: questiono se nossa postura tão apática como meros espectadores não tem a ver também com termos começado a a alfabetizar nossa população numa época em que a TV surgira como grande meio de comunicação na década de 60). A questão aqui é desenvolver a capacidade de assumir a sociedade como seu problema, o povo como seu problema (coincidentemente vi agora um vídeozinho onde Darcy Ribeiro <https://www.facebook.com/IvanValentePSOL/videos/1025427200835495/> fala justamente isso, um grande exemplo de pessoa que, de fato, assumiu e agiu diante dos problemas da nossa sociedade), o que não é trivial, ainda mais com nossa tendência de não sairmos de nossas bolhas. Outro aspecto importante que eu vi nessa fala da Marina foi o fato de simplificarmos os problemas como uma dualidade de visões (Partido A vs. Partido B, visão X vs. visão Y etc.), o que acaba dificultando o diálogo entre visões diferentes que almejam, muitas vezes, coisas parecidas. Vou transcrever o que ela disse na conclusão de sua fala, esse trecho que gostei: "A política está, aos poucos, perdendo a capacidade de fazer a transformação. Porque ele diz "Nós conseguimos liberdade para fazer qualquer coisa, menos mudar o sistema. E se temos liberdade de fazer qualquer coisa, menos mudar o sistema, esse leviatã está dizendo que nós não podemos mudar nada. E a política precisa se reconectar com a sua potência transformadora. É disso que se trata, é isso que está em jogo no mundo inteiro. E talvez essa crise da civilização não seja a militância de uma pessoa, de um grupo, de um partido. É a militância de todos ao mesmo tempo agora. Mas para isso a gente precisa estar conectado na visão. Para isso a gente precisa ter processos que sejam adequados e as estruturas sejam adequadas. A visão não pode ser uma visão autoritária, a verdade não está com nenhum de nós, ela está entre nós. Não pode ser uma estrutura rígida, tem que ser uma estrutura flexível, com plasticidade necessária para acompanhar a velocidade dos momentos. E obviamente que os processos altamente democráticos, sem a pretensão de homogeneizar o sonho e diluir as diferenças. Nós somos diferentes, sonhamos diferente, desejamos diferente. Quando os projetos totalitários de direita ou de esquerda oferecem para você um destino, é sempre muito na base de que nós somos iguais, estamos todos caminhando numa mesma direção. Não é isso. Todo mundo tem interesse, não é errado ter interesse. O erro é quando alguém de forma ilegimia impõe o seu interesse ao interesse do outro. Depois do debate talvez a gente falar um pouco sobre como é que vejo a liderança para esse mundo que está se descortinando, qual é o papel da liderança, já que a gente não se pode ficar refém apenas das estrutura e das lideranças carismáticas. Eu digo isso com tranquilidade pois eu sei que tenho um certo carisma. Mas se existe uma coisa para a qual eu quero usar o carisma que tenho, é para convencer as pessoas que não dependam do carisma. O mundo complexo que temos diante de nós exige sujeitos, que se coloquem como sujeitos. E se colocando como sujeitos, assumindo suas *responsabilidades*. Aqui no Brasil todo mundo está muito feliz de dizer que a culpa da corrupção é da Dilma. Enquanto a culpada pela corrupção for a Dilma, o Lula, o Sarney, o Collor, o Dom Pedro II e I, vai ter corrupção feia! Quando a corrupção virar um *problema nosso*, acabaremos com a corrupção, ou pelo menos criaremos instituições para coibí-la. Porque é praticamente impossível com seres humanos imperfeitos. Pessoas virtuosas criam instituições virtuosas. E instituições virtuosas corrigem as pessoas, quando elas falham em suas virtudes. Então não é sustentável achar que a corrupção é por causa de uma pessoa, de um grupo ou de um partido. Se for assim, nunca vamos resolver. Enquanto a escravidão era um problema dos senhores donos de escravos, tinha escravidão no Brasil. Quando virou um problema de médico, advogado. de engenheiro, de política, de todo mundo, acabamos com a escravidão. A mesma forma com a democracia. Enquanto a ditadura era um problema de militares, ditadura feia. Quando a ditadura virou um problema de político, de religioso, de artistas, de jornalista de todo mundo, reconquistamos a democracia. Isso é a dimensão da sustentabilidade politica, tem uma outra complexidade que não se limita a dualidade esquerda-direita como a gente simplisticamente está acostumado a dizer. A gente tem que olhar para o mérito do que está acontecendo no mundo e trabalhar muito mais no campo dos paradoxos do que a mera e simples dualidade opositiva." E as últimas eleições deixaram bem claro o quão distantes estamos de simplificarmos nossos problemas nessa dualidade opositiva. Acho que até mesmo aqui entre nós isso pode estar ocorrendo. (1) Sobre a francesa, recomendo esse documentário 'I didn't vote <https://www.youtube.com/watch?v=jYYR0tfcSQs>', sobre a americana, parece que o Lessig expõe bem alguns de seus problemas no seu 'Republic, Lost <http://republic.lessig.org/>', mas nem precisamos dessa intelectualização, estamos vendo nas ruas a partir dos movimentos de ocupação <https://en.wikipedia.org/wiki/Occupy_movement>. E acho bacana a perspectiva geral que o pesquisador português Manuel Arriaga dá no livro 'Reboot Democracy' <http://rebootdemocracy.org/> sobre os problemas com a atual democracia, apontando suas principais falhas e propondo algumas soluções, além de listas tentativas ao redor do mundo. Também acredito que devemos usar os meios para aprimorar nossas > instituições, com todo o respeito que elas merecem. Elaborei melhor essa > idéia no texto que postei ontem em nosso blog, http://br.okfn.org. Aliás, > quem tirou as fotos? Super obrigada!!! > Para registro nos arquivos da lista, o link para sua boa reflexão: http://br.okfn.org/2015/07/24/tecnologia-e-representacao-substitutos-ou-complementares/ Foi a Isabela Meleiro, uma das voluntárias, quem tirou essa fotos, em breve coloco no nosso grupo no flickr e algumas no Wikimedia Commons. Tom
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