Olá pessoal.
Voltando à discussão dos conselhos municipais, queria expor um pouco minha experiência. Como eu disse num email anterior, eu pude acompanhar as reuniões dos Conselho Municipal de Saúde, e de alguns conselhos regionais, em 2009/2010 para a pesquisa que participei. Minhas opiniões refletem então um pouco dessa experiência (é verdade que restrita a um conselho específico, de uma cidade complexa como SP, mas ainda assim um exemplo válido).

- Funcionando bem ou mal, os conselhos foram instituídos pela Constituição de 88, e refletem o espírito daquela época, de ampliação da participação popular em todas as esferas. Como tudo, existe uma diferença muito grande entre os ideais constitucionais (e também o que diz boa parte da literatura) e o que acontece na prática. Então, os conselhos não são necessariamente concorrentes à outras esferas do poder, mas sim complementares. No que diz respeito à saúde, o próprio Plano Municipal de Saúde precisa ser aprovado pelo conselho para entrar em vigor.

- No caso de SP, a existência desses conselhos é absolutamente fundamental. Convenhamos que uma câmara de 55 representantes não basta par dar conta das enormes demandas, principalmente na área de saúde, de uma cidade de 11 milhões de pessoas. Então, no mínimo, os conselhos ajudam a aumentar um pouco a transparência e a accountability.

- Existem muitas argumentos, a favor e contra, os conselhos, mas poucos são fundamentados em pesquisa empírica. O que descobrimos nesse estudo é que nem tudo é tão preto no branco. Nem é tão ineficiente, instrumentalizado e esvaziado como os opositores alegam, nem é tão efetivo, abrangente e democrático como defendem seus entusiastas.

- Do lado positivo, vale destacar esse contato mais direto do poder público com a sociedade civil. Tudo bem que é uma parcela bem restrita da população, mas ainda assim seus representantes em geral têm uma grande capilaridade na região de atuação, então acabam servindo muitas vezes como um canal de comunicação muito mais próximo que o vereador, além de atuarem mais firmemente em problemas locais (p. ex., a cobrança pela falta de médicos, pela abertura de novos hospitais, a demanda de informações sobre gastos com OSS etc.). Em nossas pesquisas de campo, vimos diversas vezes como esses representantes atuam nesse sentido, obrigando o poder público a prestar contas das ações que faz ou deixa de fazer. Mais ainda, encontramos uma correlação tênue entre o engajamento nos conselhos e o aumento na oferta de serviços/equipamentos públicos na região (embora seja uma conclusão baseada no estudo de um pequeno número de casos).

- Do lado negativo, é preciso destacar que é muito difícil reunir todas as condições para o bom funcionamento dos conselhos: uma sociedade civil forte e organizada; a disposição do poder público em colaborar no fornecimento de informações e na organização das próprias reuniões; e a uma dinâmica das reuniões que permita minimamente o andamento dos trabalhos. Quando um desses elementos é ausente o conselho perde muito de sua eficácia, como ocorreu no CMS daquela época, já que não havia a menor preocupação da secretaria da saúde em fornecer informações aos conselheiros (p. ex., o plano municipal foi enviado em cima da hora, os balanços financeiros eram totalmente indecifráveis etc.) . Mas também se a sociedade civil é pouco atuante, a efetividade do conselho também é baixa (como, por exemplo, nas reuniões da região da Casa Verde, na qual o envolvimento da população era praticamente inexistente).

- Até por isso a importância dessas várias iniciativas de dados abertos. Naquela época as informações ainda eram bastante difíceis de obter e também de interpretar. Ouvi o relato de muitos conselheiros que não conseguiam entender os documentos da SMS. A medida em que mais ferramentas de monitoramento das ações e gastos do poder público forem disponibilizadas, e apropriadas pelo grande público, maior a chance de funcionamento desses e de outros canais de participação.

Para quem se interessar pelo tema e tiver um tempinho pode ler em maiores detalhes os resultados dessa pesquisa no link abaixo:
http://www.fflch.usp.br/centrodametropole/antigo/static/uploads/verasmar.pdf

Abs,
Marcelo

Em 18/08/2015 18:01, Everton Zanella Alvarenga escreveu:
Obrigado pela excelente contribuição e bem-vindo, Bruno.

Acho que nos ouviram. Da página no facebook São Paulo Aberta <https://www.facebook.com/saopauloaberta?fref=photo>:

"Estão abertas as inscrições para o Conselho Participativo. Ótimo.
Mas... você sabe o que é o Conselho?
Quantos têm na cidade?
O que eles fazem?
Do que sobrevivem?
Que hábitos têm?
Se você pode ser um?
Quem? Quando? Como? Onde? Por quê?

O Alexandre Padilha <https://www.facebook.com/pages/Alexandre-Padilha/603519476325926> vai responder as três perguntas mais curtidas sobre o processo eleitoral do Conselho Participativo aqui no #GabinetedeBolso <https://www.facebook.com/hashtag/gabinetedebolso>. ATÉ QUARTA-FEIRA (corre, vai).

Como funciona?
Você faz a pergunta aqui neste post especificamente sobre o tema “Conselho Participativo” e a gente leva as três mais curtidas para ele responder em vídeo. O prazo para fazer as perguntas é 19/08, quarta-feira, 18h.

Quer pular o google? Cola aqui pra saber mais
http://www.saopauloaberta.prefeitura.sp.gov.br/ <http://www.saopauloaberta.prefeitura.sp.gov.br/>

Termos
1) As perguntas têm que estar neste post
2) Serão válidas as perguntas especificamente sobre o tema “Conselho Participativo Municipal - SMRG <https://www.facebook.com/CONSELHOPARTICIPATIVOMUNICIPAL>”
3) As três perguntas mais curtidas até quarta-feira, 19/08, 18h,
4) As perguntas com conteúdo ofensivo e palavrões serão descartadas
5) A resposta do secretário virá entre quinta (18/08) e sexta (19/08)
6) Em caso de empate, a pergunta que for postada primeiro terá prioridade."

Em 18 de agosto de 2015 09:58, Bruno Pinheiro <[email protected] <mailto:[email protected]>> escreveu:

    Bons dias, amigos, como vão?

    Até hoje ainda não me manifestei aqui no grupo, mas espero
    contribuir de algum modo com esta conversa e, devagar, ampliar
    minhas contribuições com a OKbr.

    Eu já tive experiências de atuar e acompanhar espaços de
    participação, conselhos de PP e Comitê de Bacia.

    De um ponto de vista pragmático não vejo como recusar a percepção
    de cooptação que há nestes colegiados. Me coloco, contudo, entre
    os que vêem proficuidade em tais espaços e os que o olham a partir
    da inefetividade política.

    Sou da opinião que os conselhos de políticas públicas tem, sim,
    vários problemas e que, em alguns casos, até mesmo a legitimidade
    de sua composição e decisões devem ser problematizadas. Mas ao
    mesmo tempo reconheço a importância

    Há um texto que foi escrito há algum tempo pela Cláudia Feres que
    eu uso como referência pra análises desse cunho. Ela reflete sobre
    a efetividade democrática da participação social, e propõe uma
    tipologia de análise. Creio vai justamente na linha do que o Tom
    levanta pra debate por aqui.
    
https://www.yumpu.com/pt/document/view/6997260/os-determinantes-da-efetividade-democratica-rejuma

    Porém vou num caminho um pouco diferente dela. Penso que parte
    fundamental do esvaziamento de sentido democrático que caracteriza
    grande parte dos conselhos tem que ver não apenas com a cooptação
    dos atores e do espaço propriamente dito por parte de grupos
    partidarizados, mas com a fragilidade das articulações entre a
    sociedade civil em si e pelo que entendo como um vício da
    participação orientada à tomada de decisão em detrimento da
    produção mesma das políticas públicas, que implicam em dinâmicas
    ainda mais complexas que as tomadas de decisão como a produção e a
    gestão do conhecimento que subsidiam as tomadas de decisão.

    Outro aspecto é o enquadramento clássico da participação política
    na esfera associativa, que caracteriza a participação formal. É a
    crítica ao formalismo parsoniano, que aponta o isolamento de tudo
    que é marginal quando a institucionalismo impera. Num contexto de
    emergência de novas oportunidades de envolvimento em questões e
    processos políticos suportadas pelas tecnologias, o indivíduo que
    antes era politicamente anulado agora tem possibilidades de criar
    sentido democrático à sua ação individual, geralmente
    colaborativa. Os padrões de relação, troca de informações e
    produção de conhecimento mudaram muito rapidamente e valor
    político da comunicação está muito além da agenda setting.

    O problema mesmo é um modelo político com estruturas e
    pressupostos dos séculos XVIII ao XX interagindo com as
    emergências do séc XXI.

    A transparência e os dados abertos não são panacéia, mas têm muita
    força pq promovem avanços tanto na capacidade de intervenção da
    sociedade civil nos espaços formais como para esses novos modos de
    fazer política.

    Abs,
    Bruno Pinheiro





    Em 18/08/2015 07:10, "Andres MRM" <[email protected]
    <mailto:[email protected]>> escreveu:
    >
    >
    > Não os conheço a fundo, mas também simpatizo com os conselhos e
    não acho que
    > sejam instrumentos de cooptação.
    > No pouco contato que tive com conselheir@s em uma atividade, deu
    para perceber
    > que era um grupo bem plural.
    > Se a "cara" dos conselhos parece distorcida em comparação com a
    Câmara, me
    > pergunto se não é a segunda que está errada...
    >
    >
    >
    > [2015-08-17 13:28] Heloisa Pait:
    >
    > > email: [email protected] <mailto:[email protected]>,
    > >
    > >
    https://www.linkedin.com/pub/gabriela-de-resende-ferreira/b3/828/7a5
    > >
    > > 2015-08-17 12:47 GMT-03:00 Everton Zanella Alvarenga
    <[email protected] <mailto:[email protected]>>:
    > >
    > >     Heloisa,
    > >
    > >     eu não tenho base teórica e prática para afirmar o mesmo
    sobre os
    > >     conselhos, portanto estou procurando me informar sobre a
    atuação dos
    > >     mesmos, principalmente com quem já participou destes.
    > >
    > >     Existe algum repositório da Unesp como na USP
    <http://www.teses.usp.br>
    > >     onde eu possa encontrar essa tese ou poderia, por favor,
    me colocar em
    > >     contato com essa pesquisadora?
    > >
    > >     Eu não acredito que a Câmara Municipal seja um grande
    conselho. Acompanhar
    > >     de perto o trabalho dos vereadores e as diversas comissões
    da câmara são
    > >     suficiente para ver muito papel sendo desempenhado que não
    é função desses
    > >     representantes, assim como deixam de lado papéis
    importantes de suas
    > >     responsabilidades, a saber, fiscalizar o executivo.
    > >
    > >     Quem observa os observadores? Tendo a crer que nem todos
    conselhos são tão
    > >     inúteis assim (queria subsídios que me contradissessem) e
    que podem servir
    > >     como mecanismos importantes de participação política.
    > >
    > >     Sobre nossa democracia represenativa ser transparente,
    sugiro alguns pontos
    > >     criticados nesse livro sobre os problemas da atual democracia
    > >     representativa, Rebooting Democracy
    <http://www.rebootdemocracy.org/>, do
    > >     Manuel Arriaga. E contrastar com o estudo na OSC
    Transparência Brasil sobre
    > >     a correlação de quem é eleito para vereador em São Paulo e
    a quantidade de
    > >     dinheiro para suas campanhas.
    > >
    > >     Um projeto muito interessante que poderíamos fazer nesse
    sentido, que falo
    > >     desde 2009, é o Map Light <http://maplight.org/>. Em 2009,
    num curso de
    > >     CIberativismo ministrado pelo jornalista (hoje Folha)
    Marcelo Soares junto
    > >     ao Cazé (MTV) que ele me convidou, ficou evidente para mim
    a necessidade de
    > >     expormos esse tipo de informação de forma mais clara. Vide
    a total
    > >     negligência da mídia, sociedade civil, acadêmicos e os
    protestantes
    > >     engajados do último domingo diante de importante tema e
    todas mudanças que
    > >     estão ocorrendo na esfera federal puxada pelo presidente
    da Cãmara dos
    > >     Deputados.
    > >
    > >     Num projeto nosso, o Vai Mudar, o Edgar fez análises muito
    interessantes a
    > >     partir de dados do TSE e grupos econômicos que estão
    envolvidos nessas
    > >     doações político-partidárias. Vale a pena voltarmos nisso.
    > >
    > >     Everton
    > >
    > >     Em 17 de agosto de 2015 12:28, Heloisa Pait
    <[email protected] <mailto:[email protected]>> escreveu:
    > >
    > >         Uma aluna minha estudou isso no doutorado, Gabriela
    Resende.
    > >
    > >         Eu particularmente acho que esses conselhos são mais
    instrumentos para
    > >         cooptação estatal que para colaboração cidadã ou
    vigilância pública.
    > >         Acredito mais na divulgação ampla, sistemática, de
    dados e processos
    > >         públicos. Existe já um conselho municipal, o nome dele
    é Câmara de
    > >         Vereadores, e o processo de escolha dos membros é formal e
    > >         transparente, sendo o dia de escolha amplamente
    divulgado e feito num
    > >         domingo previamente acordado.
    > >
    > >
    > >
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