----- Mensagem original -----
De: "Renato"
Enviada em: sexta-feira, 15 de fevereiro de 2002 15:52
Para: orhp71905@hotmail.com
Assunto: Ford
Caros amigos,
Escutei uma entrevista concedida pelo Prof. Ibere Luiz Nodari ao
radialista Joao Garcia, da Bandeirantes de Porto Alegre, entrevista
motivada pelo artigo que colo abaixo. ele fala do que "rola" com a Ford
na Bahia. Fui atras da materia e aqui a tenho para distribuir aos
amigos. Sem estar propriamente surpreso, encontro o maior interesse no
que escreve o professor e entendo por bem divulgar, ja que tira algumas
mascaras. quero apenas lembrar um fato: a Chrysler recebeu os regios
incentivos do governo do Parana' para instalar sua fabrica em Curitiba,
investimento pesado, coisa de 350 milhoes. Dolares ou Reais? Pouco
importa! Nao durou muito. Cessou o interesse da empresa e ela se mandou,
deixando apenas as paredes. Por que curvar o Estado ao interesse do
capital internacional? Sera' que "esses governantes" ignoram que temos
um poderoso mercado interno ambicionado pelo mercado internacional?
Sera' que nao possuem habilidade para negociar e usar o poder de compra
de nosso mercado como um trunfo? Em que teorias estao baseados esses
camaradas - os governos da Bahia e do parana' sao apenas dois exemplos -
quando subordinam o interesse publico ao privado? Que cada um forme a
propria opiniao.
Renato
***
Povo que nao tem virtude Acaba por ser escravo
Prof. Ibere Luiz Nodari
Eu sou professor do Curso de Engenharia Mecanica da Escola Politecnica da
Universidade Federal da Bahia. Quando nos, professores, soubemos, ha' tres
anos, que a Ford iria se transferir para a Bahia, o regozijo foi
geral pois o nosso, era o unico curso de engenharia mecanica no estado, ja'
foram criados mais dois, mas o da Universidade Federal ainda e' o unico a
formar engenheiros mecanicos na Bahia e aquele que, devido a tradi�ao da
escola e a gratuidade do ensino, tem a preferencia da elite dos
vocacionados em mecanica. Contando com a vinda da Ford come�amos logo a
fazer projetos de reestrutura�ao do curso com foco na area automotiva pois
nao era so' a Ford, vinham mais 32 sistemistas. Hoje o desencanto e' geral,
ja' com a fabrica produzindo desde o mes passado, verifica-se que o projeto
Ford e', antes de mais nada, uma espetacular obra de preda�ao ao estado.
Quanto a universidade ate' agora nao houve qualquer interesse, mesmo com a
procura insistente por parte de alguns professores deslumbrados, ate' hoje
nao existe qualquer rela�ao, ou mesmo proposta, da Ford ou das sistemistas
com a Escola Politecnica, que e' a Escola que reune os cursos de engenharia
na Universidade Federal da Bahia. Eu lembro que vi no curso de Engenharia
Mecanica da Universidade Federal de Brasilia um laboratorio inteiro de
desenvolvimento automotivo doado por uma outra grande montadora, o mesmo,
em maior escala existe na Universidade Federal de Minas Gerais. As
vantagens para a implanta�ao da "Source" ou Centro de Inteligencia da
Ford, aqui na sua Capitania Hereditaria, certamente devem ser de outra
ordem. A medida que vamos conhecendo melhor o empreendimento e as rela�oes
da montadora com a comunidade vamos percebendo ate' com surpresa a postura
absolutamente avarenta, senhorial e assimetrica. E' so' "venha a nos o
vosso reino" ou, seguindo a doutrina de Kenedy, "Nao perguntes jamais o
que a Ford pode fazer pela Bahia, mas sim o que a Bahia pode fazer pela
Ford" Todo o universo da Ford, empresa mais fornecedoras, absorveu em
torno de 20 engenheiros formados aqui na Bahia, a maioria vem de fora, os
salarios sao baixos estao na faixa de o de R$ 1.500,00 a R$ 2.5000,00 para
com um nivel minimo de assistencia. A fabrica da Ford esta' localizada no
complexo industrial de Cama�ari que abriga o Polo Petroquimico, distante
cerca de 55 km de Salvador. Pois a Ford nao oferece nenhum tipo de
transporte aos seus funcionarios, ao contrario das outras empresas
petroquimicas do complexo que transportam os seus trabalhadores, conforme
e', alias, tradi�ao nas rela�oes de trabalho em industrias que tem alguma
distancia do centro urbano. A Ford, o que fez em rela�ao a este
compromisso? Foi exigir que a prefeitura de Cama�ari, cidade que dista
7km. do distrito industrial do Polo, construisse uma ciclovia, de Cama�ari
ate' a fabrica. Os empregos foram criados, em grande parte, no exterior.
Por exemplo a sistemista responsavel pela pintura, uma empresa americana,
trouxe todos os funcionarios de nivel, do Mexico e dos Estados Unidos e
pelo jeito que este pessoal esta' comprando residencias, e trazendo a
familia, vieram para ficar, pelo menos, por algum tempo. Para os baianos
restaram as vagas de emprego primario muito mal remuneradas, media de
500,00 reais quando as mesmas fun�oes, em Sao Paulo, valem de 1.200,00 a
1500,00, no polo petroquimico a media de fun�oes equivalentes e' de 760, 00
reais (e tem transporte , de Salvador. Ou mesmo Cama�ari ate' a fabrica) A
Ford se impoe como referencia salarial e rela�oes de emprego diante das
suas sistemistas. As facilidades criadas pelo governo para estimular a
instala�ao da montadora mostram uma singular li�ao de subserviencia e
levaram a algumas concessoes que sao absolutamente escandalosas e lesivas
ao erario publico. A Ford exigiu, e obteve (alias ganhou tudo o que quis,
deve estar arrependida de nao haver pedido mais) um contrato de
financiamento de capital de giro no qual o Estado Tupiniquim, vejam so'!
Compromete-se a financiar um montante equivalente a 12% do faturamento
bruto da empresa, oriundo das opera�oes com produtos nacionais ou
IMPORTADOS comercializados pela Ford na Bahia. (e' por isto que o patio da
empresa, estrategicamente escondido aos acessos normais da fabrica, esta'
repleto de automoveis Ford Focus e camionetes Ranger vindos da Argentina,
antes desembarcados em Sao Paulo que alem de ser o centro consumidor fica
muito mais perto da procedencia) Aqui vai um comentario; Apesar desta
opera�ao estar travestida de financiamento de capital de giro, na pratica
ela representa um incentivo fiscal, uma vez que o financiamento
correspondera' ao total do ICMS devido, com prazo para pagamento de 22
anos, sendo que sobre este valor nao incidirao juros e corre�ao monetaria
e ainda podera' ser liquidado antecipadamente com descontos jamais
concedidos em nosso sistema financeiro. E' um exemplo de renuncia fiscal
jamais visto. Pode parecer, mas os numeros nao estao errados, foram
obtidos atraves de um relatorio interno do Tribunal de Contas do Estado
(TCE). E' uma facilidade tao imoral que nao preve qualquer corre�ao, mesmo
com o pagamento em 22 anos, apos o qual se fara' no valor historico e com a
possibilidade de desconto que pode alcan�ar a totalidade do debito. Que
nome pode se dar a isto que nao seja "doa�ao"? A medida tambem e'
constitucionalmente ilegal porque, ja' que se caracteriza, francamente,
como incentivo fiscal, deveria, obrigatoriamente exigir aprova�ao do
Legislativo. Mas a demonstra�ao mais contundente de subserviencia ou
"coloniza�ao" e' encontrada quando chagamos ao capitulo das penalidades
no contrato do Estado da Bahia com a Ford "Ao Estado cabe a perda total
de valores pagos ou concedidos, a responsabilidade pelos compromissos
assumidos pela montadora em decorrencia de contrato e ressarcimento de
pagamentos efetuados pela Ford no prazo de 60 dias. Uma possivel
inadimplencia do Estado apos a implanta�ao e inicio de opera�ao do
empreendimento acarreta uma indeniza�ao de U$ 269 milhoes". O que e'
despudoradamente abusivo e ilegal porque remete o Estado a ficar obrigado
a cumprir as regras contratuais mesmo sob mudan�a de normas estaduais e
federais e assumir compromisso em dolar quando e' proibido, por lei,
assumir debitos internos em moeda estrangeira. E fere tambem a Lei
4.320/64 que preve:...nao consignara' auxilio para investimentos que se
devam incorporar ao patrimonio de empresas privada de fins lucrativos.
O que nao esta' no contrato mas deve constar no acordo e' o compromisso das
espetaculares obras de infra estrutura, exigidas, ao capricho, pela Ford.
Para construir o porto exclusivo da Ford, o estado da Bahia esta' pagando
R$ 31 milhoes a' construtora Norberto Odebrecht. tera' uma area de
estacionamento com capacidade de 6000 veiculos mas nem ai serao criados
empregos porque a empresa que vai administrar o porto e operar os
equipamentos e' norte-americana, a Crowley, emprego nacional so' para a
mulher do cafezinho e para o vigilante. A malha viaria, no entorno da
fabrica, foi reconstruida segundo a exigencia, de tal forma que as
estradas que dela fazem parte, sao hoje as mais perfeitas do pais. A
terraplenagem da fabrica, os acessos e o resto da infraestrutura tambem
foram doados pelo Estado. Para atender a todas as imposi�oes da montadora,
incluindo o emprestimo, outra doa�ao! e conseguir financiar o compromisso,
e honrar o acordo de vassalagem, o Governo da Bahia desviou o seu
or�amento diminuindo flagrantemente o investimento social. A Educa�ao e a
Saude encontram-se em um verdadeiro caos na Bahia (e' proibido reprovar nas
escolas estaduais, mesmo os alunos que nao comparecem as provas passam de
ano. O estado nao pode arcar com o custo de reprova�ao). Mas agora vem o
pior, pasmem! A regiao metropolitana de Salvador que ja' era recordista
nacional de desemprego, teve o indice de desemprego aumentado depois da
Ford, chegou no mes passado ao nivel de 27,7%, enquanto no mesmo periodo o
desemprego na regiao metropolitana de Porto Alegre diminuiu!
Se o Governo tivesse aplicado um ter�o do que deu a Ford para a Gurgel eu
nao tenho duvida que em cinco ou seis anos o Brasil estaria exportando
automoveis desenvolvidos com tecnologia nacional. E' quixotesco? Quem foi
que desenvolveu a tecnologia do motor 1000 ? Hoje a maior revolu�ao na
industria automotiva nacional.
Ha' trinta e seis anos, a Coreia era um Paraguai em rela�ao ao Brasil (que
este exemplo sirva de estimulo ao nosso simpatico vizinho).Quem nao tem
ideia do que e' a Coreia hoje podera' conhece-la no ano que vem atraves das
transmissoes da Copa do Mundo. Tem Ford na Coreia? Mas tem fabrica Coreana
nos Estados Unidos (recentemente a GM comprou duas fabricas da Daewoo, em
opera�ao rigorosamente regulada pelo Governo Coreano totalmente submissa
aos interesses nacionais).
Ao escrever este artigo duas frases me vem a lembran�a, uma eu encontrei
em recente entrevista do Ministro da Educa�ao, Paulo Renato Souza, 'a
revista Exame quando ele declara.... nao ser mais necessario realizar
grandes investimentos em desenvolvimento de tecnologia pois esta ja' esta
pronta la' fora, basta traze-la para o Brasil..., a outra eu encontro na
letra do hino do Rio Grande e prega o seguinte: "Povo que nao tem
virtude, acaba por ser escravo"
Salvador, 20 de novembro de 2001
Prof. Ibere Luiz Nodari
Departamento de Engenharia Mecanica, Escola Politecnica
Universidade Federal da Bahia
Prof eng mecanica
Estudou para aulas...
Gaucho...trabalhou no polo petroquimico da Bahia....
Eng mecanico ufrgs...mestrado em mecanica....
[EMAIL PROTECTED]
(71) 363-4661 - 9983-8763
Endere�os da lista:
Para entrar: [EMAIL PROTECTED]
Para sair: [EMAIL PROTECTED]
-----------------------------------
|
|
|
||
| p�gina do grupo | diret�rio de grupos | diret�rio de pessoas | cancelar assinatura |
