Unifica��o das Pol�cias
Luiz Fl�vio Gomes


A Comiss�o de Seguran�a do Congresso aprovou a unifica��o das pol�cias Civil e Militar e o assunto deve ser votado em breve na C�mara e no Senado Federal. O maior risco dessa unifica��o � tornar-se obsoleta antes de ser concretizada. Por qu�? Porque as nossas duas pol�cias pertencem ao antigo e ultrapassado modelo "burocr�tico", que nos pa�ses mais avan�ados est�o cedendo lugar aos novos modelos de pol�cia (comunit�ria e de intelig�ncia).

Est�o pretendendo unificar (em oito anos) duas pol�cias reativas (que atuam quase que exclusivamente depois do crime, quando nossa vida j� foi ceifada) e hoje se sabe que, na verdade, necessitamos de uma pol�cia proativa (pol�cia que atue junto com a comunidade antes do delito). Querem unificar duas pol�cias que atuam repressivamente, mas o ideal seria adotarmos o modelo preventivo. Melhor prevenir que remediar.

A unifica��o operacional das pol�cias pode at� melhorar (um pouco) o rendimento delas em termos de repress�o ao delito (hoje n�o mais que 2% dos crimes s�o efetivamente punidos; no futuro podemos chegar 2,5%, talvez). Mas o mais relevante hoje n�o � punir um pouco mais (isso a popula��o pouco notar�), sen�o saber quantos delitos foram evitados em virtude de uma pol�tica decisivamente preventiva.

A efici�ncia da pol�cia (de acordo com os novos padr�es cient�ficos e criminol�gicos) j� n�o deve ser medida (s�) pelo n�mero de ocorr�ncias registradas, de delitos investigados, de delitos esclarecidos, de indiciados, processados, condenados etc. (at� porque uma das atuais tarefas de alguns setores das pol�cias tem sido a de maquiar as estat�sticas), sen�o pelo n�mero de delitos que deixam de ser cometidos (a experi�ncia do Jardim �ngela, em S�o Paulo, parece promissora: at� pouco tempo l� havia mais de 100 homic�dios para cada 100.000 habitantes; hoje esse n�mero se reduziu drasticamente e#8212; em mais da metade — depois que se implantou o plano piloto da "pol�cia comunit�ria").

Unificar as pol�cias para que elas continuem fazendo o que fazem (ainda que com um pouco mais de compet�ncia e de efici�ncia) pouco contribui para a radical mudan�a que se deveria concretizar. As nossas duas pol�cias, pertencendo ambas ao modelo "burocr�tico" cl�ssico (que nasceu no final do s�culo XIX), contam com limita��es intranspon�veis (que muito contribuem para a sua falta de efici�ncia). S�o elas:

(a) limitad�ssimo acesso �s informa��es sobre o crime (a popula��o pouco contribui; ela n�o confia, em geral, no policial; este, por sua vez, a v� como fonte de problema; particularmente as classes baixas s�o vistas como mananciais de delitos; "gente de classe m�dia ou alta n�o precisa cometer crime" — afirma-se; hoje j� s�o poucos os delitos comunicados — se comparados com o total dos que foram cometidos); em quase todos os pa�ses, 80% dos delitos s�o noticiados pelas v�timas — Bottomley e Coleman, 1981, citados por Diego Torrente, Desviaci�n y delito, Madrid: Alianza Ed., 2001, p. 239 ; se elas n�o fazem nada ou n�o contribuem, a pol�cia fica inerte (praticamente); do total dos crimes comunicados, a pol�cia investiga de 10 a 15%; no final, menos de 2% s�o condenados;

(b) o m�todo de trabalho das duas pol�cias s�o ineficazes e muito parecidos (embora uma seja judici�ria e outra ostensiva): s�o pol�cias reativas (atuam depois do crime) que agem basicamente sob patrulhamento seletivo (e muitas vezes discriminat�rio). Muitos crimes que a pol�cia descobre s�o frutos desse patrulhamento. Logo, se (s�) patrulham as vias p�blicas, (s�) encontram os crimes t�picos das pessoas que vivem nas vias p�blicas. Isso � o que sempre ocorreu.

E por que a pol�cia apura poucos crimes das classes sociais m�dias ou altas? Porque patrulham muito pouco os locais ocupados por elas. Se a pol�cia patrulhasse os gabinetes ministeriais, o congresso nacional, escrit�rios, empresas ou suas pr�prias institui��es, as igrejas, os f�runs etc. certamente os criminosos surpreendidos n�o seriam s� os da classe baixa.

Uma pol�cia democr�tica e independente, que n�o atue discriminatoriamente como hoje e que volte sua aten��o para a comunidade, fazendo com ela uma produtiva parceria no sentido de se evitar o crime, � muito mais que a unifica��o em debate neste momento no nosso congresso nacional. Unificar duas pol�cias burocr�ticas para que continuem atuando como atuam (reativamente) pouco ou nada descortina nesse infinito horizonte



Fonte: Correio Braziliense
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