O PT ref�m de suas pr�prias op��es
O Crime Organizado no Poder com o PT
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"O fato � que Waldomiro Diniz n�o estava
naquela mesa extorquindo um bicheiro
em seu pr�prio nome. Sem ser filiado,
solicitava contribui��es vultosas para
candidaturas vinculadas ao n�cleo
dirigente do PT"
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O PT em busca de um inferno mais tranq�ilo


Lu�s Fernando Novoa Garzon



Os subterf�gios, pretextos e rea��es do PT frente ao
esc�ndalo envolvendo diretamente Waldomiro Diniz s�o t�o ou
mais comprometedores que o pr�prio fato em si. O buraco �
muito mais fundo que parece e foi cavado durante a trajet�ria
ascendente do PT por dentro de institui��es que referendaram
a decomposi��o do Estado e da economia nacional. Esta
ascens�o pac�fica e gradual s� seria poss�vel com o
compartilhamento de prop�sitos e m�todos com os setores
protagonistas do desmonte: bancos e fundos de pens�o
nacionais e internacionais, enclaves exportadores, segmentos
de servi�os privatizados e redes criminosas organizadas.




N�o h� alian�a com um desses setores que n�o implique em
profundas redefini��es estrat�gicas. O ent�o chefe da Casa
Civil � que afirmaria com todas as letras: "Fracassou uma
coaliz�o pol�tico-empresarial e pol�tico-parlamentar que
governou o Brasil durante dez anos". O governo do PT ent�o
deveria procurar "construir uma nova coaliz�o pol�tico-
parlamentar, uma nova alian�a pol�tico-empresarial e uma nova
alian�a popular-empresarial para consolidar um projeto que,
em primeiro lugar, resgata o projeto de desenvolvimento
nacional". O que h� de novidade e de continuidade na
transi��o entre essas duas coaliz�es? Qualificativos
como "nova e popular" n�o substituem atores coletivos em
movimento. A prioriza��o dos acordos interelites e
interburocr�ticos em detrimento da organiza��o social
aut�noma significou uma op��o pelo p�ntano das concess�es
ilimitadas. O que pode parir o �mbito "pol�tico-parlamentar"
sen�o uma maioria congressual em regime de engorda de
clientelas? Que "alian�a pol�tico-empresarial" � conceb�vel
sem a transfer�ncia de prerrogativas deliberativas para que
os oligop�lios cuidem dos seus interesses dentro do Estado?




O processo decis�rio econ�mico foi despido de intermedia��es
p�blicas e nacionais para em seguida ficar � merc� de
arbitragens privadas transnacionais. A pol�tica econ�mica
costuma ser assunto s�rio demais para ser tratado pelos que
n�o se beneficiam dela. A tecnocracia do capital aninhada
comodamente no minist�rio da Fazenda e no Banco Central se
esmera em orientar o tr�fego dos capitais, sinalizando riscos
e oportunidades. A gest�o antecipa-se � propriedade na ilus�o
de substitu�-la. Marionetes rebelam-se contra a inutilidade
dos cord�es. Bonecos adivinham os mais secretos desejos de
seus ventr�loquos. Disciplina fiscal ao inv�s de indu��o do
desenvolvimento. Super�vit prim�rio sempre al�m do m�nimo
exigido. O pa�s, sua moeda e seus t�tulos na cota��o
flutuante do dia. Que autonomia de gest�o � poss�vel com
contratos de d�vida que imp�em metas, procedimentos e prazos
intoc�veis e irrevers�veis? Uma volta a mais no torniquete
para provar que h� margens adicionais de extra��o e,
conseq�entemente, de negocia��o?


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A chantagem faz a diferen�a e o privil�gio
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Entre 2001 e 2002, j� se prefigurava a coaliz�o que levaria
Lula � presid�ncia.O di�logo com o capital estrangeiro e seu
staff financeiro seguia os trilhos da confian�a rec�proca. O
setor prim�rio-exportador remanescente, fortemente
transnacionalizado, oferecia-se amigavelmente para gerir as
pol�ticas de incentivo que lhe dissessem respeito. Havia,
contudo, dois setores renitentes, empresas de servi�os rec�m-
privatizados e redes criminosas que se locupletaram nos
vazios deixados pelo Estado. Exigiam garantia de
intocabilidade. Os mais expostos dentre eles iriam �s �ltimas
conseq��ncias para preservar sua invisibilidade.




Amea�as pr�-eleitorais em c�digo pretensamente esquerdista
s�o endere�adas a mandat�rios e dirigentes petistas. Bombas e
tiros de advert�ncia nas varandas de suas casas. Listas de
cabe�as a rolar. "O crime organizado tem um bra�o pol�tico e
ele est� contra o PT", disse, � �poca, Jos� Dirceu. N�o se
tratava de gosto ou desgosto ideol�gico, mas apenas zelo
pela "estabilidade" dos neg�cios. O corpo estranho com
compromissos p�blicos abrangentes precisava sofrer
enquadramento semelhante ao praticado pelos especuladores
financeiros nacionais e internacionais. Fato consumado, o
capital fugindo ou o sangue escorrendo. Demonstra��o
pirot�cnica do alto custo da ruptura. A capitula��o tornada
aceit�vel, implodidas as outras op��es. A pol�tica,
privatizada e fragmentada, degradada em jogo de uma regra s�:
vencer ou perder. O PT venceu.




Vit�ria de Pirro, ingl�ria e infamante por tudo o que foi
sacrificado em nome dela. Abandonadas as bandeiras hist�ricas
no caminho, de que valeu a chegada? A "Carta aos
brasileiros", o documento que consagrou a funcionalidade e a
maleabilidade sist�micas do PT, avisava aos ditos cujos que
os interesses do capital financeiro estariam sempre acima dos
seus. Salvo-conduto equivalente foi a obscena defesa da
vers�o de crime comum frente � execu��o encomendada de Celso
Daniel. Palavra por palavra, p� ante p�, s�o pequenas as
margens de incerteza em um Estado-na��o espremido por cima
pelos conglomerados e por baixo pelas m�fias. As
�nicas "mudan�as" permitidas s�o aquelas processadas
por "dentro". Cl�usulas sociais nas pol�ticas anti-sociais do
FMI, isso pode. Opera��o Anaconda nas bordas desguarnecidas
do crime organizado at� ajuda. O rabo do endividamento abana
o c�o assim como o bra�o pol�tico do crime sacode o corpo.



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Racionalizando a decomposi��o da na��o
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O financiamento das campanhas eleitorais � como correntemente
se recicla o patrimonialismo no Brasil. O poder a seus
leg�timos donos, anuncia o leiloeiro ao final de cada
martelada. Se � esse o poder que sobra, � preciso valorizar
cada lance e planejar cuidadosamente cada oferta. O que �
grave nas �ltimas den�ncias de corrup��o n�o � o tr�fico de
influ�ncia praticado por um assessor direto do ent�o Primeiro-
Ministro. � a alian�a perene e convicta com um ramo crucial
para o crime organizado, que � a lavagem de dinheiro. De
procuradores a contraventores, todos sabem que � ali que o
bicho pega. Autoridade no assunto, Beira-mar j� disse que
quem quiser conhecer a "verdadeira lama do tr�fico" que
investigue o neg�cio de bingos no Brasil. Como justificar o
congra�amento do governo e de membros do PT, como o deputado
Gilmar Machado, com o management da criminalidade at� a
demiss�o de Waldomiro Diniz? Falha t�cnica? Controv�rsias de
m�rito? Os dirigentes do PT e do governo nunca ouviram falar
da reciclagem de dinheiro sujo provindo do narcotr�fico e
segmentos afins? T�o c�ndidos defendendo uma atividade l�dica
e ainda geradora de receita, empregos e contribui��es sociais
de monta.




O fato � que Waldomiro Diniz n�o estava naquela mesa
extorquindo um bicheiro em seu pr�prio nome. Sem ser filiado,
solicitava contribui��es vultosas para candidaturas
vinculadas ao n�cleo dirigente do PT. Quem o escalou para
essa miss�o? Que benesses e compromissos futuros foram
oferecidos em troca? O 1% amealhado por Waldomiro s�
compensaria se existissem muitos outros 99% a recolher.
Waldomiro era um interlocutor de confian�a tanto das
quadrilhas do jogo quanto dos novos ocupantes do Planalto.
Servir incondicionalmente a dois senhores � poss�vel desde
que, no fundo, ambos sejam um s�. A institucionaliza��o da
lavagem de dinheiro no pa�s faria muito bem a autoridades que
passariam a centralizar a sangria das riquezas nacionais. Uma
bela e extensa fachada oficial, com taxa de administra��o
unificada, seria o para�so t�o sonhado pelas estruturas mais
concentradas do crime organizado.




A tentativa mais ousada de legaliza��o do bingo partiu da
Casa Civil. Um grupo interministerial, sob orienta��o direta
do ministro Jos� Dirceu, converteu-se em c�mara setorial da
jogatina. O anteprojeto atendia em cheio aos anseios das
lavanderias de dinheiro do pa�s. Al�m da legaliza��o, a
principal reivindica��o desse segmento era a estadualiza��o
da fiscaliza��o de suas atividades, de modo a pulverizar os
controles. Ap�s o esc�ndalo, restou fugir para frente no
intuito de deixar na poeira os rastros do acordo. A medida
provis�ria que pro�be os bingos � um disfarce provis�rio e
prec�rio. Passo � frente para manter e justificar incont�veis
passos atr�s.




Os pragm�ticos dizem que pol�tica se faz com atores e
recursos que se t�m diante de si. Mas o que sobra para um
partido, convertido em m�quina eleitoral e administrativa,
sen�o esp�rios grupos de interesse? O que pode fazer uma
m�quina sen�o valer-se de todos os recursos conhecidos e
mobiliz�veis para derrotar suas cong�neres? As originais
interfaces sociais foram sendo permutadas por outras mais
previs�veis. O PT aprendeu r�pido que � montando blocos
privado-p�blicos org�nicos que se obt�m governabilidade e,
conseq�entemente, maiores chances de reelei��o. A identidade
origin�ria do partido, socialista e contestat�ria, foi
transformada em inv�lucro de uso intensivo no marketing
interno e externo. O estofo seria prontamente flexibilizado
conforme o figurino. Conte�do definido no jogo de interesses
mais pr�ximo. Canal de di�logo intracapitalista confi�vel e,
ainda por cima, "popular". Mais estilo com maior espa�o
interno. Mercadoria �mpar. Quanto vale? Tudo � negoci�vel,
companheiro.



Lu�s Fernando Novoa Garzon � soci�logo e membro da ATTAC.
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