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De: "Celso Galli Coimbra" [EMAIL PROTECTED] Data: Ter Ago 7, 2001 8:59 pm Assunto: Tráfico de Órgaos Humanos -- Estado de São Paulo - 05.08.2001 "E eu digo que há outra
população de pacientes usados apenas como uma sacola de partes
extras. Esses não são tratados como humanos, não têm os direitos dos
humanos." | |||||||||
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Tráfico de Órgaos Humanos - Estado de São Paulo - 05.08.2001
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No ativo mercado do tráfico de órgãos humanos, pode-se conseguir um rim de doador de classe média, que não fuma, não bebe e tem hábitos saudáveis. Uma "mercadoria" dessas, de boa qualidade, é para quem pode pagar. Um rim de doador do Primeiro Mundo pode custar U$ 30 mil (cerca de R$ 73.500,00). Nos países pobres, no entanto, há boas pechinchas. A antropóloga americana Nancy
Scheper-Hughes, especializada na área médica, conhece bem o funcionamento
deste mercado. Estuda o assunto desde 1995. Ela e um
colega da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Lawrence Cohen,
criaram uma organização - a Organs Watch - para investigar o tráfico em vários
países, inclusive o Brasil. "No Brasil, há venda
e compra de órgãos", afirma a cientista. Mas não com as
características do tráfico internacional.
Nancy Scheper-Hughes conhece situações
brasileiras de longa data. Em 1982, estudava a violência do
dia-a-dia (incluindo a fome) na cidade de Timbaúba, no interior de
Pernambuco. Em fins do mês passado, voltou ao Estado, agora
interessada na compra e venda de órgãos humanos. Em São Paulo, de
onde seguiu para Buenos Aires, concedeu esta entrevista ao JT.
Como a senhora e o doutor Lawrence Cohen
dividiram o trabalho?
Ele foi para a Índia e Filipinas, onde há um
maior volume de vendas de órgãos humanos. Todo mundo sabe que lá se vende à
vontade. Existe nesses locais um tipo de turismo que eu chamo de "turismo
médico", que é grande. As pessoas vão até lá com seu médico, dizem que são
turistas, mas na verdade querem rins ou córneas. Rins em primeiro lugar. Eu
fiquei com África do Sul, Brasil, Argentina e Israel. E mandei uma equipe para a
Turquia. Estive três vezes no Oriente Médio.
Quanto custa um rim?
Em todo o mundo, o preço varia de U$ 800 a U$ 30
mil (de R$ 1.960,00 a R$ 73.500,00, aproximadamente). No sul da Índia, há
vendedores especializados em rins. Lá, as mulheres são maioria entre
os doadores de rins. Mas ganham muito pouco, de U$ 1 mil a U$ 2 mil (cerca de R$
2.450,00 a R$ 4.900,00). Na África do Sul, vendem por U$ 800. Isso não é nada.
Por que tanta diferença de preço?
Hoje em dia, o comprador de rim não quer um de
"terceiro mundo". Está disposto a pagar mais.
Há um tipo de tabela em que, dependendo da qualidade do rim, se paga mais
ou menos. No Oriente Médio, o menor preço está em Bagdá (a capital
do Iraque): U$ 7 mil (cerca de R$ 17.150,00). Neste valor estão
incluídas duas semanas no hospital, e com direito a acompanhante.
Israel é o país que mais compra órgãos no Oriente Médio. Os
israelenses têm ainda uma mentalidade conservadora, não querem mexer nos corpos
de seus mortos. Eles vão à Índia, à Turquia. Os
palestinos vão ao Iraque.
E os que querem mais "qualidade" ?
Em Israel, existe essa idéia de que
quem tem recursos deve ir para o Primeiro Mundo. É um tipo de orgulho que eles
têm. Então, agora eles vão para os Estados Unidos. Os
intermediários são judeus ortodoxos, que chegam aos grandes hospitais americanos
e dizem que há muita gente morrendo em Israel por falta de rim para
transplante. Quase ninguém morre, hoje, porque podem ficar na
diálise. Mas eles dizem que é para salvar vidas. A lei
norte-americana estabelece que 5% das doações de órgãos de pessoas mortas podem,
por altruísmo, ser destinadas a estrangeiros. Mas, em muitos desses
centros mais importantes, quase 15% vai para pessoas de fora. São pessoas do Brasil, da Argentina, da Ásia, de vários países,
com dólares. Os hospitais alegam que só depois de 15% é que vão ser
fiscalizados. Quer dizer, estão deixando sair 15%.
Quem são os doadores, nesse
caso?
Em geral, são pessoas de classe pobre,
porque são elas que sofrem mais acidentes, são vítimas de vários problemas e têm
menos apoio da família.
Agora, esses intermediários de Israel, que
parecem muito religiosos, muito cuidadosos, dizem que precisam de rins para
pacientes de seu país. E eles preferem rins que sejam de pessoas vivas. Porque,
todo mundo agora já sabe - e eu não sei se é verdade ou não -, mas há um
entendimento entre os portadores de insuficiência renal de que é muito melhor um
rim de pessoa viva do que de morta.
Nos Estados Unidos, há venda de rim de pessoas
vivas?
Agora tem. Eu sei que muitos são da
comunidade étnica. Os que vendem são judeus, muito pobres, dentro de comunidades
ortodoxas. E eles vendem porque os líderes religiosos estão dizendo
que eles têm de entrar no hospital e doar. O rim é para pessoas que
vêm de Israel. Mas também nos Estados Unidos há muitos chineses
americanos que vão para a China receber órgãos.
Quem são, no global, as pessoas que fornecem um
órgão seu para venda?
No mundo todo, usualmente, os vendedores são
imigrantes ilegais, prisioneiros a quem intermediários prometem a
liberdade mais cedo, soldados e pessoas pobres, faveladas. Mas os receptores não
querem mais os pobres, por medo da Aids, da hepatite. Os
intermediários - mesmo nos Estados Unidos - prometem arranjar um rim de pessoa
de classe média, que não fuma, não bebe e vive bem direitinho. É um tipo
de feitiche. O corpo está virando uma mercadoria como qualquer outra, onde há as
mais finas e bonitas, rins na moda e fora da moda ...
E como é entregue a "mercadoria"?
Vou dar como exemplo Israel. Um grupo
de doadores entra num avião fretado, cada um acompanhado de seu
nefrologista. E, em alguns casos, de psicólogo.
Eles não sabem para que país estão indo, até
chegar lá. Passam pela alfândega sem problemas, porque está todo
mundo pago. Os vendedores vêm, por exemplo, do Iraque. Ou só cruzam a
fronteira de outro país. Em uma sala do hospital, ficam a pessoa que
vai doar o órgão e seu médico. Na outra, o receptor com o médico
israelense. São feitos dois transplantes por noite, com duração de
cinco ou seis horas. Em uma semana, todo mundo está de volta.
Quem comanda a operação toda?
É o intermediário. Na Rússia, tem
máfia. Mas em outros lugares as pessoas são
respeitáveis. São comerciantes e essa é sua especialização.
Às vezes, apresentam-se como sociedades beneficentes. Têm
nomes bonitos, como "Linha da Vida". Dizem que
só estão salvando vidas. Mas ficam com a metade de tudo o que
é pago. Os médicos também recebem bem. O único que lucra
pouco é o doador.
Como é a situação no Brasil ?
Sei que há venda e compra de órgãos
humanos. Já falei com mais de 30 cirurgiões de transplante (em
visitas anteriores) e eles dizem que órgãos são vendidos. Muitas
pessoas procuram as clínicas para vender ou comprar órgãos. Mas os
cirurgiões sempre dizem que quem faz isso são outros, seus colegas.
Encontrei pessoas que vendiam, mas não queriam dizer. Em toda parte do mundo, os órgãos humanos seguem as vias normais
do dinheiro. O rim do pobre vai para o rico, o do moreno e preto para o branco,
o da mulher para o homem. Uma empregada doméstica disse que
doou um rim para a patroa por amor, porque ela era "como uma mãe". Mas pegou o
dinheiro. Eu não chamo isso de venda de órgãos, porque não é como na
Índia. Os médicos dizem, aqui em São Paulo mesmo, que de vez em quando
chegam duas pessoas que se dizem primos. O interessante é que a pessoa que
recebe o órgão é de classe alta, e a que doa usa sandálias de plástico e
vem da área rural. Os cirurgiões dizem que, se eles mentem, o
médico não é responsável. Então isso eu não chamo venda de órgãos,
mas algo como um 'presente pago'.
A senhora esteve agora em Recife. Lá
há venda de órgãos humanos?
Lá tem venda de órgãos, sim.
Não vou dizer o nome do hospital, porque eles foram muito
bons para mim. Em um hospital particular, mostraram estatísticas
para mim e a maioria dos transplantes de rins é feita com órgãos de pessoas
vivas. E, na relação de doadores, um terço deles não são parentes.
Eu perguntei por que eles doam. E eles respondem: "Porque é
pago". Só não pude apurar quanto pagam por um rim.
Qual é o objetivo da Organs Watch, que a senhora
e o doutor Lawrence Cohen criaram?
É tornar mais transparentes as práticas sobre
corpos. Queremos que sejam mais justas, e a destinação de órgãos mais
igualitária. Médicos dizem:
"Eu não sou detetive, meu trabalho é tomar conta
do meu paciente". E eu digo que há outra
população de pacientes usados apenas como uma sacola de partes
extras. Esses não são tratados como humanos, não têm os direitos dos
humanos.
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