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From: Eugenio C. G. Hansen
Subject: As tecnologias e o mito do progresso
Newsgroups: soc.culture.brazil
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Date: 2000/05/06
O Estado de S. Paulo
S�bado, 6 de maio de 2000 
As tecnologias e o mito do progresso  

Apesar de o s�culo 20 ter sido um per�odo de excepcionais conquistas da
ci�ncia, � medida que se aproximava a sua d�cada final o mundo se viu
novamente �s voltas com problemas que imaginava iria eliminar. Os enormes
triunfos de um progresso material apoiado nas novas tecnologias acabaram
questionados por aumento de desemprego, depress�es c�clicas, popula��o
indigente em meio a luxo abundante e Estados em crise. 

Uma das raz�es desse paradoxo � que o capitalismo global se apossou por
completo dos destinos da tecnologia, libertando-a de amarras filos�ficas e
orientando-a exclusivamente para a cria��o de valor econ�mico. A lideran�a
tecnol�gica passou basicamente a determinar os padr�es gerais de acumula��o. 

As conseq��ncias dessa autonomiza��o da t�cnica com rela��o a valores �ticos
e normas morais definidos pela sociedade � um dos mais graves problemas com
que tem de confrontar-se o novo s�culo. Ela afeta desde o aumento da
concentra��o de renda e da exclus�o social at� o desequil�brio ecol�gico e o
risco de manipula��o gen�tica; e pode implicar a redu��o da din�mica de
acumula��o capitalista, por conta de uma eventual crise de demanda. � tarefa
vital, pois, analisar o mito do progresso t�cnico e de sua irreversibilidade. 

As origens da sociedade da informa��o remontam ao final da d�cada de 1960. �
nesse momento que o capital passa a desenvolver tecnologias revolucion�rias
que resultaram na fragmenta��o das cadeias de produ��o, fato que permitiu um
novo desenho e distribui��o espacial dos processos produtivos. Como
conseq��ncia, surge uma forte altera��o na correla��o de for�as entre as
classes sociais que culmina, na d�cada de 1980, com a instaura��o de uma
nova situa��o estrutural nas rela��es capital-trabalho. H� uma perda
substancial do poder dos sindicatos, quer devido ao fato de tais tecnologias
serem fortemente poupadoras de m�o-de-obra, quer em raz�o de elas permitirem
uma maior flexibiliza��o e uma reorganiza��o do trabalho que tornaram mais
prec�rias as condi��es do trabalhador. � o caso da terceiriza��o, da
ocupa��o � dist�ncia, das atividades informais. Esse processo acabou
acelerando o desemprego, a precariza��o dos postos de trabalho, a
concentra��o de renda e a exclus�o social, em v�rias partes do mundo. 

A presente excepcional posi��o dos EUA n�o pode ser considerada um
paradigma. Ela decorre de sua condi��o hegem�nica. Na sociedade da
informa��o, tal hegemonia se d� mediante a lideran�a das redes em torno das
quais as fun��es e os processos est�o cada vez mais organizados. S�o redes,
dentre outras, os fluxos financeiros globais; a teia de rela��es pol�ticas e
institucionais que governa os blocos regionais; a rede global da nova m�dia
que define a ess�ncia da express�o cultural e da opini�o p�blica. Elas
constituem a nova morfologia social de nossas sociedades, e a difus�o de sua
l�gica altera radicalmente a opera��o e os resultados dos processos
produtivos, bem como o estoque de experi�ncia, cultura e poder. Os fatores
ligados ao desenvolvimento e uso das novas tecnologias acabaram, pois,
possibilitando aos EUA a consolida��o de uma fase virtuosa que tem garantido
a esse pa�s um longo ciclo de crescimento, desigual ao restante da economia
global, permitindo refor�ar sua hegemonia tenazmente constru�da a partir dos
dois conflitos mundiais. 

A utopia dos mercados livres e da globaliza��o tornou-se a grande
refer�ncia. Mas o ef�mero, o vazio e a crise pairam no ar. A contradi��o
parece ser a regra; e a ci�ncia vencedora come�a a admitir que seus efeitos
podem ser perversos. A capacidade de produzir mais e melhor n�o cessa de
crescer. Mas tal progresso, se produz muita riqueza, tamb�m traz consigo
desemprego, exclus�o e subdesenvolvimento. As tecnologias da informa��o
encolhem o espa�o. Nada mais parece imposs�vel. Mas cresce o sentimento de
impot�ncia diante dos impasses, da instabilidade e da precariedade das
conquistas. O homem atual sente-se sem rumo. 

Novos instrumentos de reflex�o, ainda n�o dispon�veis, s�o obviamente
necess�rios para um mergulho profundo nessas incertezas e d�vidas, sem que
nos deixemos levar pelas armadilhas e maravilhas de futur�logos
deslumbrados. Na sociedade global, as figuras do vencedor, do ostentador - e
seus palcos eletr�nicos -, mitificam o fugaz e o fr�gil. Nesse
mundo-espet�culo apoiado na tecnologia da informa��o, onde a vedete � o
ganhador, nunca a tirania das imagens e a submiss�o ao imp�rio das m�dias
foram t�o fortes. A produ��o econ�mica moderna espalha sua norma; o consumo
� transformado em dever, um verdadeiro instrumento de busca da felicidade,
um fim em si mesmo. A performance define o lugar social de cada um. O
sujeito atual � perform�tico, est� voltado para o gozo a curto prazo e a
qualquer pre�o, reduzindo a import�ncia dada �quilo que toma tempo e �
aceita��o dos sacrif�cios que isso imp�e. Simultaneamente ao crescimento da
incerteza, proclama-se que a democracia - conjugada ao liberalismo e ao
mercado - definitivamente triunfou e fabricar� sociedades com m�nima
imperfei��o. 

A ci�ncia atual tem enorme capacidade de gerar inova��es e saltos
tecnol�gicos, adquirindo uma aur�ola m�gica e determinista que a coloca
acima da moral e da raz�o. A raz�o t�cnica parece ter l�gica pr�pria e poder
ilimitado, legitimando-se por si mesma. Os riscos envolvidos s�o camuflados
por uma m�dia global que deifica as conquistas cient�ficas como libertadoras
do destino da Humanidade, impedindo julgamentos e - principalmente -
escolhas e op��es. O deslumbramento diante da novidade tecnol�gica e a
aus�ncia total de valores �ticos que definam limites e rumos poder�o tanto
estar encubando novos deuses, que conduzir�o a Humanidade � sua reden��o,
como serpentes cujos venenos amea�ar�o sua pr�pria sobreviv�ncia. Afinal,
por que n�o deixar nosso destino nas m�os dos magos da ci�ncia e suas
p�lulas que nos prometem a felicidade e a vida eterna? 

O grande problema � que o saber atual se encontra a servi�o do capital, que
visa o m�ximo retorno do seu investimento e n�o tem compromisso estrutural
com a preserva��o da terra ou com o bem-estar da Humanidade. A
inexorabilidade do progresso t�cnico e da neutralidade dos cientistas n�o
passa de sofisma. Quest�es como o prolongamento da vida, o controle do
comportamento e a manipula��o gen�tica s�o um salto qualitativo pleno de
d�vidas e perigos, assim como foi a descoberta da energia nuclear. O
progresso t�cnico n�o � determinista nem s�o neutras as obras dos
cientistas. Afinal, o saber n�o pode, enquanto tal, ser isolado de suas
conseq��ncias. 

Um claro paradoxo est�, pois, instalado em nossas sociedades. Ao mesmo tempo
que elas se libertam das amarras dos valores de refer�ncia e as novas
tecnologias prometem maravilhas, a demanda por �tica e preceitos morais
parece crescer indefinidamente. A cada momento um novo setor da vida se abre
� quest�o do "dever", como contrapartida ao "poder". Urge uma nova moral que
legitime os caminhos da t�cnica. 

* Gilberto Dupas, coordenador da �rea de Assuntos Internacionais do
Instituto de Estudos Avan�ados da USP, � autor, entre outros livros, de
Economia Global e Exclus�o Social 

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Eugenio C. G. Hansen                O poder s� � limpo
Porto Alegre - RS               quando se traduz em servi�o.
BRASIL
[EMAIL PROTECTED]                                 Francisco de Juanes
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          Acredito que somente uma pessoa que nada aprendeu
                     n�o modifica suas opini�es.
                                                Zatopek, Emil (1922- )
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