Jornal do Brasil 
Domingo, 9 de Setembro de 2001 links ao final
O FMI � a Geni da esquerda

''O presidente Fernando Henrique Cardoso n�o � m�gico, n�o � Deus, ele comete erros e todos n�s cometemos. Os erros dele s�o mais vis�veis porque ele � o presidente da Rep�blica.'' Com essas palavras o professor Affonso Celso Pastore, doutor em Economia pela USP, em S�o Paulo, dirime o presidente dos pecados capitais que lhe s�o atribu�dos e demonstra seu otimismo pelo pa�s, que ''est� trabalhando s�rio na solu��o dos problemas''. N�o deixa, entretanto, de criticar o presidente por ''insistir muito tempo naquele regime cambial desastrado que o pa�s teve at� 99'', bem como em ''n�o ter efetuado o ajuste fiscal mais precocemente''. N�o considera med�ocre o crescimento das exporta��es e afirma que hoje a situa��o n�o � a mesma devido � desacelera��o mundial. Desacelera��o essa que afetar� nosso crescimento, pois ''a recupera��o vir� s� um pouco mais para frente''. Elogia o acordo com o Fundo Monet�rio Internacional, j� que, com ele, ''o Brasil obteve um certificado ISO 2002 com rela��o � qualidade da nossa politica econ�mica''. Confirma que o temor existente com rela��o a alguns candidatos a presidente ''tem um certo fundamento pois alguns deles t�m proposi��es econ�micas desvinculadas do mundo real''. Para ele, ''o FMI � mais ou menos a Geni da esquerda'' pois � ''divertido jogar pedra no FMI''. Ao longo de sua vitoriosa carreira, o professor Pastore, � encontrado toda sexta-feira na Funda��o Get�lio Vargas no Rio de Janeiro, onde ministra aula de Economia na Escola de P�s-Gradua��o. Depois de ter sido secret�rio estadual de Fazenda de S�o Paulo de l979 a l983 e presidente do Banco Central de l983 a l985, diz que hoje sua ocupa��o preferida � dar aulas. Por isso, sua vida mudar� pouco em 2002, mesmo que seja um ano de muita turbul�ncia por for�a da conjuga��o dos fatos econ�micos (desacelera��o da economia americana e crise argentina) e pol�ticos (sucess�o presidencial).

ENTREVISTA/AFFONSO CELSO PASTORE
http://www.jb.com.br/jb/papel/brasil/2001/09/08/jorbra20010908017.html

 

ENTREVISTA/AFFONSO CELSO PASTORE

ALCIDES AMARAL

- Quais as perspectivas para este segundo semestre? Temos alguma chance de voltar a crescer?

- A minha impress�o � que a economia brasileira ir� desacelerar no segundo semestre. H� um fato inexor�vel, que � a desacelera��o da economia mundial. Quando come�ou, ela limitou, de um lado, o crescimento das exporta��es brasileiras e, de outro, reduziu de forma significativa o fluxo de investimentos estrangeiros diretos no mundo e n�o apenas no Brasil. O processo de avers�o de risco no mundo produziu o recolhimento desses fluxos. O Brasil ficou com d�ficit de conta-corrente mais alto - da ordem de US$ 27 a US$ 28 bilh�es -, que � superior a 5% do PIB (Produto Interno Bruto). O fluxo de investimentos diretos, que havia atingido US$ 30 bilh�es no ano passado, dever� fechar em US$ 20 bilh�es na vis�o mais otimista do Banco Central, enquanto o mercado discorda e projeta US$ 18 bilh�es, o que � mais razo�vel. As perspectivas s�o, portanto, de press�o na taxa de c�mbio, quadro ao qual se soma um segundo foco externo de press�o proveniente da Argentina. Esses dois fatores impedem que a taxa de juros caia e, conseq�entemente, vamos assistir ainda a uma desacelera��o do crescimento econ�mico. Eu acho que a recupera��o s� vir� um pouco mais para frente e n�o ainda no segundo semestre deste ano.

- O que mais o preocupa: a desacelera��o da economia americana, a crise argentina ou os nossos problemas internos?

- O Brasil tem problemas internos mas tem trabalhado muito bem na sua solu��o. Um dos problemas internos mais graves no Brasil era a tend�ncia de d�ficits p�blicos altos e um crescimento cont�nuo da rela��o d�vida/PIB. Desde 1999, esses problemas foram contornados - eu digo contornados porque eles n�o foram totalmente solucionados -, embora seja verdade que boa parte do super�vit prim�rio que permitiu estabilizar a rela��o d�vida/PIB tenha sido obtido com impostos distorcidos. Em segundo lugar, as taxas reais de juros, que ainda s�o altas, s�o entretanto muito menores do que as taxas de juros reais que o Brasil praticava quando insistia teimosamente em manter um regime cambial inadequado. A flutua��o cambial permitiu trabalhar com juros reais mais baixos, o que fez com que a rela��o d�vida p�blica/PIB ficasse relativamente est�vel. Quanto � desacelera��o da economia americana, ela � importante. O pior � que n�o � apenas americana, mas da economia mundial. Voc� pega pa�ses na Am�rica Latina como o M�xico, que � altamente dependente dos Estados Unidos e est� h� tr�s ou quatro trimestres em recess�o. A Argentina, parceiro comercial importante, passa por crise muito grave. O Sudeste Asi�tico e pa�ses da sua periferia dependem dos Estados Unidos e do Jap�o, que vem atravessando por uma crise estrutural de longo prazo. E ainda temos a Europa desacelerando. Como se v�, globaliza��o n�o � um termo para ser usado em coquetel de fim de tarde. Numa situa��o como essa, uma economia como a brasileira n�o tem, realmente, condi��es de crescer. S� teria condi��es de faz�-lo se n�o tiv�ssemos o problema do d�ficit de conta-corrente. Como temos esse problema a nossa economia tem que se desacelerar de forma compat�vel com a desacelera��o da economia mundial.

- Tendo em vista tais dificuldades, qual a melhor maneira para contornarmos tais barreiras? O que o governo pode fazer?

- O governo tem que ajustar a conta-corrente. Isso significa que, a longo prazo, o real n�o pode ficar forte. A taxa de c�mbio tem que ser depreciada o suficiente para estimular os investimentos no setor produtor de bens de exporta��o e de bens substitutivos de importa��es.

- Mais depreciada do que est� hoje?

- N�o. Mais depreciada do que estava no tempo em que o Brasil erroneamente mantinha o regime cambial anterior. Durante muitos anos, n�s julgamos que o Brasil deveria manter o c�mbio valorizado. Muitas pessoas no governo se contentaram em se regozijar com a frase ''o real vale mais do que o d�lar''. Muitos deles tentavam nos vender a id�ia de que o c�mbio valorizado for�ava os empres�rios pregui�osos a investir para aumentar a produtividade. Essas pessoas se esqueciam de que empres�rios respondem a pre�os relativos e, na medida que isto n�o aconteceu, era muito mais barato investir na importa��o de bens de luxo do que investir na produ��o de bens export�veis ou de bens substitutos de importa��o. O Brasil caiu na real com a crise de 1999. Eu acredito que a pol�tica cambial atual permite que o ajustamento se fa�a no devido tempo.

- Se o c�mbio est� no n�vel adequado ou at� melhor do que qualquer um poderia esperar, por que ent�o n�o geramos super�vits comerciais, por que ent�o temos crescimento med�ocre das exporta��es?

- N�o temos crescimento med�ocre das exporta��es. Entre o come�o do ano 2000 e o come�o do ano 2001, as exporta��es cresceram 20%. Isso n�o � med�ocre. Em segundo lugar, um pouco de exerc�cio econom�trico sobre o comportamento das exporta��es brasileiras mostra que ela � muito sens�vel ao c�mbio real mas tamb�m extremamente sens�vel ao crescimento das exporta��es mundiais. Essa rela��o entre as exporta��es mundiais e as exporta��es brasileiras � uma rela��o de um para um. Se a exporta��o mundial cresce 10%, a exporta��o brasileira cresce 10%, e assim por diante. Eu comecei falando sobre o desaquecimento da economia mundial. Leia-se o desaquecimento das exporta��es brasileiras. Se n�o tivesse havido o desaquecimento da economia mundial nestes �ltimos meses, n�s estar�amos rodando agora, com dados dessazonalizados, um super�vit comercial da ordem de uns US$ 200 milh�es por m�s, perto de US$ 2,5 bilh�es ano. A desacelera��o da economia mundial fez com que isso n�o fosse poss�vel.

- Considerando-se ent�o que n�s temos um problema de balan�o de pagamentos e d�ficit de conta-corrente que n�o ser� coberto por exporta��es no curto prazo, o senhor acredita que esses US$ 15 bilh�es do novo acordo com o Fundo Monet�rio Internacional ser�o suficientes para acalmar o mercado?

- O Brasil obteve do FMI um certificado ISO 2002 com rela��o � qualidade da nossa pol�tica econ�mica. Isso � uma coisa que acalma o mercado. Mais do que isso, eu gostaria que as pessoas percebessem que a assinatura do acordo com o FMI n�o mudou a pol�tica econ�mica brasileira. O ajuste fiscal que o Fundo aceitou � o ajuste fiscal que o Brasil j� vinha fazendo. A altera��o na margem foi muito pequena. Quando a comunidade financeira internacional v� um acordo que demorou apenas dez dias para ser negociado, no qual o Fundo aceita a pol�tica econ�mica colocada em pr�tica no Brasil, tem que dar a m�o � palmat�ria de que existe um time econ�mico no pa�s que � competente. Isto ajuda a criar credibilidade. Ajuda a reduzir a percep��o de que o Brasil pode ter riscos derivados de sua pol�tica econ�mica. Mas n�o ajuda um outro lado da equa��o que � a incerteza com rela��o � sucess�o presidencial. Saber se o Brasil vai dar continuidade a uma pol�tica econ�mico respons�vel ou se o Brasil vai ceder ao populismo.

- Como o senhor mencionou, existe realmente um certo temor no mercado com rela��o �s candidaturas n�o alinhadas com o governo Fernando Henrique Cardoso, tais como Lula, Ciro Gomes e Itamar Franco. Esse temor � leg�timo? Temos que nos preocupar?

- Claramente, acredito que temos que conhecer os programas de cada um dos candidatos, mas o temor existe e tem um certo fundamento. Alguns desses candidatos t�m proposi��es econ�micas desvinculadas do mundo real. Restri��es or�ament�rias s�o verbais, n�o tolhem as m�os das autoridades monet�rias. H� vis�es, por exemplo, de que o c�mbio flutua porque os especuladores s�o selvagens. Isso n�o pode ser deixado livremente ao mercado, o Banco Central tem que intervir. E quando ele interv�m fixando o c�mbio e n�o tem reservas, voc� controla capitais na sa�da e produz um arb�trio na condu��o da pol�tica econ�mica que gera inefici�ncia, gera infla��o, gera desemprego, gera incertezas. Tenho, pois, a impress�o de que a continuidade da linha do presidente Fernando Henrique Cardoso � muito mais saud�vel para o pa�s.

- Considerando-se o momento que o pa�s esta passando, com a crise energ�tica e o crescimento afetado, h� chances de o presidente eleger o seu sucessor?

- O presidente conseguiu o respeito de grande parte dos brasileiros. Ele n�o � m�gico, ele n�o � Deus, ele comete erros, e todos n�s cometemos. S� que os erros dele s�o mais vis�veis porque ele � o presidente da Rep�blica. Um dos erros foi insistir muito tempo naquele regime cambial desastrado que o pa�s teve at� 1999. O segundo erro foi n�o ter feito o ajuste fiscal mais precocemente e ter sido for�ado a faz�-lo s� em 99. H� v�rios erros que voc� hoje, com benef�cio dos fatos acontecidos, aponta com absoluta e total clareza. H� o reconhecimento de que ele tem um vislumbre sobre o futuro do pa�s e sobre a condu��o da pol�tica econ�mica que, na verdade, supera outros que o precederam. Eu tenho a impress�o de que ele tem produto para ser vendido; e tamb�m tem erros a serem cobrados.

- O ministro Pedro Malan foi muito criticado pela classe pol�tica, principalmente da esquerda, pelo novo acordo com o FMI. H� algo que poderia ser feito diferente?

- Eu concordo em g�nero, n�mero e grau com o que foi feito. Eu acho que o Fundo Monet�rio Internacional � mais ou menos a ''Geni'' da esquerda. ''Joga pedra na Geni'' (refer�ncia � m�sica de Chico Buarque). Divertido jogar pedra do FMI. H� uma coisa de absoluta l�gica. Suponha que o Brasil n�o fosse ao Fundo Monet�rio Internacional; ele teria alterado sua pol�tica econ�mica? A resposta � n�o! Suponha que o Brasil n�o fosse ao Fundo. Ele n�o teria os US$ 15 bilh�es que o ajudam a manter a liquidez externa e n�o teria a possibilidade de usar US$ 5 bilh�es adicionais - derivado da redu��o do limite de reserva m�nima - para atender uma emerg�ncia do mercado de c�mbio interno. Eu posso ainda lhe dizer com toda e total franqueza que a ida ao Fundo produz uma pol�tica econ�mica menos recessiva do que n�o ir ao FMI.

- Por que menos recessiva?

- Porque produz uma taxa de juros real mais baixa. O pa�s teria que enfrentar a restri��o externa sem o carimbo da credibilidade do Fundo, o que nos obrigaria a pagar um risco Brasil mais alto e uma taxa de juros mais elevada.

O FMI � a Geni da esquerda

http://www.jb.com.br/jb/papel/brasil/2001/09/08/jorbra20010908016.html

ENTREVISTA/AFFONSO CELSO PASTORE

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