| O FMI � a Geni da
esquerda
''O presidente
Fernando Henrique Cardoso n�o � m�gico, n�o � Deus, ele comete erros
e todos n�s cometemos. Os erros dele s�o mais vis�veis porque ele �
o presidente da Rep�blica.'' Com essas palavras o professor Affonso
Celso Pastore, doutor em Economia pela USP, em S�o Paulo, dirime o
presidente dos pecados capitais que lhe s�o atribu�dos e demonstra
seu otimismo pelo pa�s, que ''est� trabalhando s�rio na solu��o dos
problemas''. N�o deixa, entretanto, de criticar o presidente por
''insistir muito tempo naquele regime cambial desastrado que o pa�s
teve at� 99'', bem como em ''n�o ter efetuado o ajuste fiscal mais
precocemente''. N�o considera med�ocre o crescimento das exporta��es
e afirma que hoje a situa��o n�o � a mesma devido � desacelera��o
mundial. Desacelera��o essa que afetar� nosso crescimento, pois ''a
recupera��o vir� s� um pouco mais para frente''. Elogia o acordo com
o Fundo Monet�rio Internacional, j� que, com ele, ''o Brasil obteve
um certificado ISO 2002 com rela��o � qualidade da nossa politica
econ�mica''. Confirma que o temor existente com rela��o a alguns
candidatos a presidente ''tem um certo fundamento pois alguns deles
t�m proposi��es econ�micas desvinculadas do mundo real''. Para ele,
''o FMI � mais ou menos a Geni da esquerda'' pois � ''divertido
jogar pedra no FMI''. Ao longo de sua vitoriosa carreira, o
professor Pastore, � encontrado toda sexta-feira na Funda��o Get�lio
Vargas no Rio de Janeiro, onde ministra aula de Economia na Escola
de P�s-Gradua��o. Depois de ter sido secret�rio estadual de Fazenda
de S�o Paulo de l979 a l983 e presidente do Banco Central de l983 a
l985, diz que hoje sua ocupa��o preferida � dar aulas. Por isso, sua
vida mudar� pouco em 2002, mesmo que seja um ano de muita
turbul�ncia por for�a da conjuga��o dos fatos econ�micos
(desacelera��o da economia americana e crise argentina) e pol�ticos
(sucess�o presidencial).
ENTREVISTA/AFFONSO
CELSO PASTORE http://www.jb.com.br/jb/papel/brasil/2001/09/08/jorbra20010908017.html
ENTREVISTA/AFFONSO CELSO
PASTORE
ALCIDES AMARAL
-
Quais as perspectivas para este segundo semestre? Temos alguma
chance de voltar a crescer?
- A minha impress�o � que a economia
brasileira ir� desacelerar no segundo semestre. H� um fato
inexor�vel, que � a desacelera��o da economia mundial. Quando
come�ou, ela limitou, de um lado, o crescimento das exporta��es
brasileiras e, de outro, reduziu de forma significativa o fluxo de
investimentos estrangeiros diretos no mundo e n�o apenas no Brasil.
O processo de avers�o de risco no mundo produziu o recolhimento
desses fluxos. O Brasil ficou com d�ficit de conta-corrente mais
alto - da ordem de US$ 27 a US$ 28 bilh�es -, que � superior a 5% do
PIB (Produto Interno Bruto). O fluxo de investimentos diretos, que
havia atingido US$ 30 bilh�es no ano passado, dever� fechar em US$
20 bilh�es na vis�o mais otimista do Banco Central, enquanto o
mercado discorda e projeta US$ 18 bilh�es, o que � mais razo�vel. As
perspectivas s�o, portanto, de press�o na taxa de c�mbio, quadro ao
qual se soma um segundo foco externo de press�o proveniente da
Argentina. Esses dois fatores impedem que a taxa de juros caia e,
conseq�entemente, vamos assistir ainda a uma desacelera��o do
crescimento econ�mico. Eu acho que a recupera��o s� vir� um pouco
mais para frente e n�o ainda no segundo semestre deste ano.
- O que mais o preocupa: a
desacelera��o da economia americana, a crise argentina ou os nossos
problemas internos?
- O Brasil tem problemas internos mas
tem trabalhado muito bem na sua solu��o. Um dos problemas internos
mais graves no Brasil era a tend�ncia de d�ficits p�blicos altos e
um crescimento cont�nuo da rela��o d�vida/PIB. Desde 1999, esses
problemas foram contornados - eu digo contornados porque eles n�o
foram totalmente solucionados -, embora seja verdade que boa parte
do super�vit prim�rio que permitiu estabilizar a rela��o d�vida/PIB
tenha sido obtido com impostos distorcidos. Em segundo lugar, as
taxas reais de juros, que ainda s�o altas, s�o entretanto muito
menores do que as taxas de juros reais que o Brasil praticava quando
insistia teimosamente em manter um regime cambial inadequado. A
flutua��o cambial permitiu trabalhar com juros reais mais baixos, o
que fez com que a rela��o d�vida p�blica/PIB ficasse relativamente
est�vel. Quanto � desacelera��o da economia americana, ela �
importante. O pior � que n�o � apenas americana, mas da economia
mundial. Voc� pega pa�ses na Am�rica Latina como o M�xico, que �
altamente dependente dos Estados Unidos e est� h� tr�s ou quatro
trimestres em recess�o. A Argentina, parceiro comercial importante,
passa por crise muito grave. O Sudeste Asi�tico e pa�ses da sua
periferia dependem dos Estados Unidos e do Jap�o, que vem
atravessando por uma crise estrutural de longo prazo. E ainda temos
a Europa desacelerando. Como se v�, globaliza��o n�o � um termo para
ser usado em coquetel de fim de tarde. Numa situa��o como essa, uma
economia como a brasileira n�o tem, realmente, condi��es de crescer.
S� teria condi��es de faz�-lo se n�o tiv�ssemos o problema do
d�ficit de conta-corrente. Como temos esse problema a nossa economia
tem que se desacelerar de forma compat�vel com a desacelera��o da
economia mundial.
- Tendo em vista tais dificuldades,
qual a melhor maneira para contornarmos tais barreiras? O que o
governo pode fazer?
- O governo tem que ajustar a
conta-corrente. Isso significa que, a longo prazo, o real n�o pode
ficar forte. A taxa de c�mbio tem que ser depreciada o suficiente
para estimular os investimentos no setor produtor de bens de
exporta��o e de bens substitutivos de importa��es.
- Mais depreciada do que est�
hoje?
- N�o. Mais depreciada do que estava
no tempo em que o Brasil erroneamente mantinha o regime cambial
anterior. Durante muitos anos, n�s julgamos que o Brasil deveria
manter o c�mbio valorizado. Muitas pessoas no governo se contentaram
em se regozijar com a frase ''o real vale mais do que o d�lar''.
Muitos deles tentavam nos vender a id�ia de que o c�mbio valorizado
for�ava os empres�rios pregui�osos a investir para aumentar a
produtividade. Essas pessoas se esqueciam de que empres�rios
respondem a pre�os relativos e, na medida que isto n�o aconteceu,
era muito mais barato investir na importa��o de bens de luxo do que
investir na produ��o de bens export�veis ou de bens substitutos de
importa��o. O Brasil caiu na real com a crise de 1999. Eu acredito
que a pol�tica cambial atual permite que o ajustamento se fa�a no
devido tempo.
- Se o c�mbio est� no n�vel
adequado ou at� melhor do que qualquer um poderia esperar, por que
ent�o n�o geramos super�vits comerciais, por que ent�o temos
crescimento med�ocre das exporta��es?
- N�o temos crescimento med�ocre das
exporta��es. Entre o come�o do ano 2000 e o come�o do ano 2001, as
exporta��es cresceram 20%. Isso n�o � med�ocre. Em segundo lugar, um
pouco de exerc�cio econom�trico sobre o comportamento das
exporta��es brasileiras mostra que ela � muito sens�vel ao c�mbio
real mas tamb�m extremamente sens�vel ao crescimento das exporta��es
mundiais. Essa rela��o entre as exporta��es mundiais e as
exporta��es brasileiras � uma rela��o de um para um. Se a exporta��o
mundial cresce 10%, a exporta��o brasileira cresce 10%, e assim por
diante. Eu comecei falando sobre o desaquecimento da economia
mundial. Leia-se o desaquecimento das exporta��es brasileiras. Se
n�o tivesse havido o desaquecimento da economia mundial nestes
�ltimos meses, n�s estar�amos rodando agora, com dados
dessazonalizados, um super�vit comercial da ordem de uns US$ 200
milh�es por m�s, perto de US$ 2,5 bilh�es ano. A desacelera��o da
economia mundial fez com que isso n�o fosse poss�vel.
- Considerando-se ent�o que n�s
temos um problema de balan�o de pagamentos e d�ficit de
conta-corrente que n�o ser� coberto por exporta��es no curto prazo,
o senhor acredita que esses US$ 15 bilh�es do novo acordo com o
Fundo Monet�rio Internacional ser�o suficientes para acalmar o
mercado?
- O Brasil obteve do FMI um
certificado ISO 2002 com rela��o � qualidade da nossa pol�tica
econ�mica. Isso � uma coisa que acalma o mercado. Mais do que isso,
eu gostaria que as pessoas percebessem que a assinatura do acordo
com o FMI n�o mudou a pol�tica econ�mica brasileira. O ajuste fiscal
que o Fundo aceitou � o ajuste fiscal que o Brasil j� vinha fazendo.
A altera��o na margem foi muito pequena. Quando a comunidade
financeira internacional v� um acordo que demorou apenas dez dias
para ser negociado, no qual o Fundo aceita a pol�tica econ�mica
colocada em pr�tica no Brasil, tem que dar a m�o � palmat�ria de que
existe um time econ�mico no pa�s que � competente. Isto ajuda a
criar credibilidade. Ajuda a reduzir a percep��o de que o Brasil
pode ter riscos derivados de sua pol�tica econ�mica. Mas n�o ajuda
um outro lado da equa��o que � a incerteza com rela��o � sucess�o
presidencial. Saber se o Brasil vai dar continuidade a uma pol�tica
econ�mico respons�vel ou se o Brasil vai ceder ao populismo.
- Como o senhor mencionou, existe
realmente um certo temor no mercado com rela��o �s candidaturas n�o
alinhadas com o governo Fernando Henrique Cardoso, tais como Lula,
Ciro Gomes e Itamar Franco. Esse temor � leg�timo? Temos que nos
preocupar?
- Claramente, acredito que temos que
conhecer os programas de cada um dos candidatos, mas o temor existe
e tem um certo fundamento. Alguns desses candidatos t�m proposi��es
econ�micas desvinculadas do mundo real. Restri��es or�ament�rias s�o
verbais, n�o tolhem as m�os das autoridades monet�rias. H� vis�es,
por exemplo, de que o c�mbio flutua porque os especuladores s�o
selvagens. Isso n�o pode ser deixado livremente ao mercado, o Banco
Central tem que intervir. E quando ele interv�m fixando o c�mbio e
n�o tem reservas, voc� controla capitais na sa�da e produz um
arb�trio na condu��o da pol�tica econ�mica que gera inefici�ncia,
gera infla��o, gera desemprego, gera incertezas. Tenho, pois, a
impress�o de que a continuidade da linha do presidente Fernando
Henrique Cardoso � muito mais saud�vel para o pa�s.
- Considerando-se o momento que o
pa�s esta passando, com a crise energ�tica e o crescimento afetado,
h� chances de o presidente eleger o seu sucessor?
- O presidente conseguiu o respeito de
grande parte dos brasileiros. Ele n�o � m�gico, ele n�o � Deus, ele
comete erros, e todos n�s cometemos. S� que os erros dele s�o mais
vis�veis porque ele � o presidente da Rep�blica. Um dos erros foi
insistir muito tempo naquele regime cambial desastrado que o pa�s
teve at� 1999. O segundo erro foi n�o ter feito o ajuste fiscal mais
precocemente e ter sido for�ado a faz�-lo s� em 99. H� v�rios erros
que voc� hoje, com benef�cio dos fatos acontecidos, aponta com
absoluta e total clareza. H� o reconhecimento de que ele tem um
vislumbre sobre o futuro do pa�s e sobre a condu��o da pol�tica
econ�mica que, na verdade, supera outros que o precederam. Eu tenho
a impress�o de que ele tem produto para ser vendido; e tamb�m tem
erros a serem cobrados.
- O ministro Pedro Malan foi muito
criticado pela classe pol�tica, principalmente da esquerda, pelo
novo acordo com o FMI. H� algo que poderia ser feito diferente?
- Eu concordo em g�nero, n�mero e grau
com o que foi feito. Eu acho que o Fundo Monet�rio Internacional �
mais ou menos a ''Geni'' da esquerda. ''Joga pedra na Geni''
(refer�ncia � m�sica de Chico Buarque). Divertido jogar pedra
do FMI. H� uma coisa de absoluta l�gica. Suponha que o Brasil n�o
fosse ao Fundo Monet�rio Internacional; ele teria alterado sua
pol�tica econ�mica? A resposta � n�o! Suponha que o Brasil n�o fosse
ao Fundo. Ele n�o teria os US$ 15 bilh�es que o ajudam a manter a
liquidez externa e n�o teria a possibilidade de usar US$ 5 bilh�es
adicionais - derivado da redu��o do limite de reserva m�nima - para
atender uma emerg�ncia do mercado de c�mbio interno. Eu posso ainda
lhe dizer com toda e total franqueza que a ida ao Fundo produz uma
pol�tica econ�mica menos recessiva do que n�o ir ao FMI.
- Por que menos recessiva?
- Porque produz uma taxa de juros real mais baixa.
O pa�s teria que enfrentar a restri��o externa sem o carimbo da
credibilidade do Fundo, o que nos obrigaria a pagar um risco Brasil
mais alto e uma taxa de juros mais elevada.
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