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f�bricas da guerra
Quatro pot�ncias, cujas economias dependem em boa medida das guerras do mundo, t�m em suas m�os os rumos da ONU Eduardo Galeano* Os pa�ses que mais armas vendem ao mundo s�o os mesmos pa�ses que t�m sob sua responsabilidade a paz mundial. Felizmente para eles, a amea�a de paz est� se enfraquecendo, j� se afastam as negras nuvens, enquanto o mercado da guerra se recupera e oferece perspectivas promissoras de rent�veis carnificinas no sul do mundo. Bons rapazes, bons clientes O Instituto Internacional de Estudos Estrat�gicos acaba de apresentar, em Londres, seus numerozinhos. Boas not�cias para a economia militar, que � o mesmo que dizer: boas not�cias para a economia. Depois de sete anos de decl�nio ap�s o fim da guerra fria, a venda de armamentos aumentou em 1995 e 1996. O crescimento do mercado mundial de armas foi de 8% o ano passado, com um faturamento total de 40 bilh�es de d�lares. Na cabe�a da lista dos pa�ses compradores figura a Ar�bia Saudita, com 9 bilh�es investidos em armas em 1996. A Ar�bia Saudita encabe�a tamb�m a lista dos governos que violam os direitos humanos, j� faz muitos anos. Em seu �ltimo relat�rio, diz a Anistia Internacional que em 1996 "continuaram chegando not�cias sobre torturas e maus tratos a presos, e os tribunais impuseram penas de flagelac�o (entre 120 e 200 chibatadas) a pelo menos 27 pessoas. Entre eles, 24 filipinos, a quem, segundo informes, se condenou por comportamentos homossexuais. Pelo menos 69 pessoas receberam senten�as de morte e foram executadas". E tamb�m: "O governo do rei Fahd bin Abdul Aziz manteve a proibi��o dos partidos pol�ticos e dos sindicatos. Continuou exercendo uma estrita censura sobre a imprensa". ................................................................................................................................. O governo saudita � o melhor cliente da ind�stria de armamentos dos EUA. Por motivos misteriosos, n�o h� den�ncias na m�dia sobre suas viola��es aos direitos humanos ........................................................................ Faz tamb�m muitos anos que esta monarquia petroleira � a melhor cliente da ind�stria norte-americana de armamentos. O interc�mbio sadio entre os dois pa�ses - petr�leo por d�lares, d�lares por armamentos - permite � ditadura saudita afogar em sangue o protesto interno, e permite aos Estados Unidos alimentar sua economia de guerra, que � uma das bases da prosperidade nacional. Algum maldoso poderia chegar a acreditar que o rei Fahd paga esses bilh�es pelas armas e, de tabela, compra impunidade. Por motivos que Deus sabe, jamais vemos, escutamos nem lemos nenhuma den�ncia sobre este regime inapresent�vel nos meios de comunica��o de massa, que no entanto costumam preocupar-se com os direitos humanos em outros pa�ses �rabes e nem t�o �rabes. Outro sil�ncio nada inocente Suponhamos que exista, em algum lugar do mundo, um cidad�o que n�o perdeu o bom senso. Esse cidad�o poderia formular certas perguntas inc�modas, dessas que jamais encontram resposta nos meios que nos informam, e �s vezes nos explicam, o que passa neste planeta convulsionado. Na Era da Paz, que � o nome que dizem ter o per�odo hist�rico aberto em 1946, morreram em guerra n�o menos que 22 milh�es de pessoas. Nunca falta alguma guerra ou guerrinha para alimentar os teleconsumidores de not�cias. Mas os informadores nunca informam, nem os comentaristas comentam, nada que possa responder �s perguntas do �ltimo representante do senso comum: Nesta guerra, quem vende as armas? Quem est� traficando com toda esta dor humana? Quem ganha com a trag�dia? � um sil�ncio nada inocente. Em plena globaliza��o, quando as gigantescas corpora��es multinacionais desenvolvem atividades m�ltiplas em m�ltiplos lugares, o que � bom para uma das partes � tamb�m para o todo. O que � bom para a ind�stria de armamentos � bom para a humanidade, ou pelo menos para a tev�. A cadeia norte-americana CBS pertence � empresa Westinghouse, que produz usinas nucleares, e a cadeia NBC pertence � General Electric, que vive em grande medida de seus contratos com o Pent�gono, a quem vende turbinas para reatores nucleares e motores de avia��o. ............................................................................................ A Assembl�ia Geral da ONU formula recomenda��es. Mas quem decide � o Conselho de Seguran�a, onde mandam os fabricantes de armas ............................................................... Os dados do Instituto Internacional de Estudos Estrat�gicos indicam que quatro pa�ses encabe�am qa venda de armas no mundo: Estados Unidos, Inglaterra, Fran�a e R�ssia. Estes s�o, casualmente, os pa�ses que t�m direito de veto no Conselho de Seguran�a das Na��es Unidas (al�m da China). Na pr�tica, o direito de voto significa poder de decis�o. A Assembl�ia Geral das Na��es Unidas, onde est�o os demais pa�ses, formula recomenda��es; mas quem decide � o Conselho de Seguran�a. A Assembl�ia fala ou cala, o Conselho faz ou desfaz. Ou seja: quatro pot�ncias, cujas economias dependem em boa medida das guerras do mundo, s�o as que t�m em suas m�os o rumo do m�ximo organismo internacional. Segundo sua ata de funda��o, a Organiza��o das Na��es Unidas ocupa-se com a manuten��o da paz, a defesa dos direitos humanos, a amizade entre as na��es e a coopera��o internacional. O resultado n�o parece surpreendente. Para cada d�lar que as Na��es Unidas gastam em suas miss�es de paz, o mundo investe dois mil d�lares em gastos de guerra. Bem dizia Theodor Roosevelt, presidente dos EUA, que "nenhum triunfo pac�fico � t�o grandioso como o supremo triunfo da guerra". Em 1906, deram-lhe o Pr�mio Nobel da Paz. * Publicado em 31/10 no di�rio mexicano "La Jornada" (http://www.serpiente.dgasca.unam.mx/jornada)
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