Embora nosso governo tenha por h�bito atribuir a culpa �s
pessoas erradas, a impress�o que se teve � que, desta vez, tinha acertado, pelo
menos em parte: o bilion�rio saudita, educado em Harvard e ocasional residente
no Afeganist�o Osama bin Laden passara a perna em n�s. Enquanto os seguidores de
Bush se atropelavam para preparar a que seria a antepen�ltima das guerras
-m�sseis lan�ados pela Cor�ia do Norte e claramente marcados com bandeiras desse
pa�s choveriam sobre Portland, Oregon, mas seriam interceptados pelos bal�es de
nosso escudo antim�sseis-, o astuto Bin Laden sabia que s� precisava de pilotos
dispostos a cometer suic�dio e matar os passageiros que por acaso estivessem a
bordo dos avi�es comerciais que sequestrariam. Assim, algo de novo realmente
aconteceu sob o sol da Ter�a-Feira Negra.
Minha irm�, que vive em Washington, tinha uma amiga que
estava a bordo de um daqueles avi�es. Sem perder a calma, a amiga ligou para seu
marido no celular. "Fomos sequestrados", informou. Em seguida, passou a
descrever seus �ltimos minutos de vida, enquanto o avi�o se atirava contra o
quinto lado do Pent�gono. Era o anivers�rio do marido. Sempre tivemos civis
s�bios e corajosos. S�o os militares, os pol�ticos e a
imprensa que nos deixam preocupados. Afinal, n�o nos deparamos com
bombardeiros suicidas desde os camicases, como os cham�vamos no Pac�fico na
�poca em que eu era soldado na Segunda Guerra Mundial. Naquela �poca, nosso
inimigo era o Jap�o. Hoje, temos Bin Laden, os mu�ulmanos, os paquistaneses
...
O telefone n�o p�ra de tocar. Moro ao sul de N�poles, na
It�lia. Editores, televis�es e r�dios italianas querem coment�rios. Eu tamb�m
quero. Recentemente escrevi sobre Pearl Harbor. Agora me fazem a mesma pergunta,
repetidas vezes: o que aconteceu n�o foi exatamente como a manh� do domingo 7 de
dezembro de 1941? N�o, n�o foi. N�o tivemos aviso pr�vio do ataque
da ter�a-feira passada -pelo que estamos sabendo at� agora. Nosso governo tem muitos e muitos segredos dos quais nossos
inimigos sempre parecem ter conhecimento de antem�o, mas dos quais n�s mesmos s�
ficamos sabendo anos mais tarde. O presidente Roosevelt provocou os japoneses
para que nos atacassem em Pearl Harbor. No livro "A Era Dourada",
eu descrevo os v�rios passos que ele seguiu para isso. Hoje, sabemos o que ele
tinha em mente: sair em socorro da Inglaterra para combater o aliado do Jap�o,
Hitler. Mas o que ser� que Bin Laden tinha - ou tem - em mente?
H� v�rias d�cadas vem ocorrendo na m�dia americana um
processo implac�vel de sataniza��o do mundo mu�ulmano. Como sou um americano
leal, n�o posso lhe dizer por que isso vem acontecendo - mas
o fato � que n�o temos o h�bito de analisar por que qualquer coisa acontece, a
n�o ser que seja para atribuir a outros a culpa por nossos
erros. Num mundo em que o dem�nio est� constantemente �
espreita, andando para cima e para baixo e nos atormentando por sermos t�o
bondosos, nossa imprensa quer que acreditemos que Bin Laden
� simplesmente mais uma manifesta��o do mal puro e simples, de modo que somos
obrigados a invocar a cl�usula cinco da Otan e detonar todos os diabos que lhe
deram abrigo, para ensinar a eles a �nica li��o que n�s mesmos jamais
aprendemos: que na hist�ria, assim como na f�sica, n�o existe a��o sem
rea��o.
A administra��o Bush, embora se mostre
estranhamente inepta em tudo menos em sua tarefa principal, que � isentar os
ricos de pagar impostos, vem casualmente rasgando os tratados subscritos pelos
pa�ses civilizados, coisas como o Protocolo de Kyoto ou o acordo sobre m�sseis
nucleares que t�nhamos com a R�ssia. Enquanto os bushitas levam adiante seu
saqueio implac�vel do Tesouro e da Seguridade Social (um fundo cujos recursos
s�o supostamente intoc�veis), eles v�m deixando o FBI e a CIA ou fazer o que bem
entendem ou n�o fazer absolutamente nada - um pouco como o M�gico de Oz fazendo
seus engra�ados truques de m�gica de faz-de-conta, enquanto torce para que
ningu�m descubra que � tudo de mentirinha.
Para sermos justos, n�o podemos p�r toda a culpa de nossa
incoer�ncia no Ser Oval atual. Embora seus antecessores, de modo geral, tenham
tido QIs mais altos do que o dele, tamb�m eles trabalharam
assiduamente para o 1% da popula��o que � dona do pa�s, enquanto deixavam todo o
resto se virar sozinhos. Bill Clinton foi especialmente culpado. Embora tenha
sido de longe o presidente mais h�bil desde Franklin Delano Roosevelt, Clinton,
em sua busca fren�tica por vit�rias eleitorais, armou o gatilho do Estado
policial que seu sucessor deve, neste exato momento em que escrevo, estar se
preparando para apertar.
Estado policial? Como assim? Em abril
de 1996, um ano depois do atentado de Oklahoma, o presidente Clinton aprovou a
lei antiterrorismo, uma chamada "lei de confer�ncia", para a qual contribu�ram
muitas m�os bastante sujas, incluindo as do l�der da maioria no Senado, Bob
Dole, que foi o co-patrocinador dela. Embora Clinton tenha feito muitas coisas
desavisadas e oportunistas para vencer elei��es, ele raramente disse alguma
coisa desavisada. Sua legisla��o sobre o terrorismo autoriza o secret�rio de
Justi�a a utilizar as For�as Armadas contra a popula��o civil, com isso anulando
a lei Posse Comitatus, de 1878, que proibiu para sempre o uso da for�a militar
contra nossa popula��o. O habeas corpus, cerne da liberdade anglo-americana,
tamb�m pode ser suspenso se for considerado que h� um terrorista entre n�s.
Irritado com as cr�ticas expressas por grupos e indiv�duos apegados �
Constitui��o, Clinton denunciou seus cr�ticos como sendo "pouco patri�ticos".
Depois, envolto na bandeira nacional, falou do trono: "N�o h� nada de patri�tico
em fazer de conta que se pode amar o pa�s, mas desprezar seu presidente". � uma
afirma��o estarrecedora, j� que pode ser aplicada a toda a popula��o, em algum
momento ou outro. Em outras palavras, seria pouco patri�tico o alem�o que
tivesse dito que odiava a ditadura nazista?
A Ter�a-Feira Negra j� est� impondo tens�o consider�vel �
nossa sociedade cada vez mais militarizada. Na d�cada de 1970, o FBI se
reinventou: de um corpo de "generalistas" treinados em direito e contabilidade e
vestindo terno, gravata e camisa branca (por surpreendente que possa ser, J.
Edgar Hoover seguia a linha civil), transformou-se num
ex�rcito de guerreiros da linha "Armas e T�ticas Especiais" (tamb�m conhecidos
como SWAT), que gostam de vestir uniformes de camuflagem, roupas pretas de ninja
e, dependendo da tarefa, m�scaras de esqui. No in�cio dos anos 80 foi formada
uma superequipe SWAT do FBI, a Equipe 270 de Resgate de Ref�ns. Como t�o
frequentemente acontece nos Estados Unidos, esse grupo se especializava, n�o em
libertar ref�ns ou salvar vidas, mas em lan�ar ataques assassinos contra grupos
que n�o aprovava, muitas vezes por serem excessivamente independentes, como foi
o caso da seita religiosa Ramo Davidiano -crist�os evang�licos que viviam
pacificamente em seu complexo pr�prio em Waco, Texas, at� que uma equipe SWAT do
FBI, equipada com tanques ilegais do ex�rcito, matou 82 deles, incluindo 25
crian�as. Isso aconteceu em 1993.
Agora, desde a ter�a-feira passada, as equipes SWAT j�
poder�o ser usadas para perseguir �rabes-americanos suspeitos ou, na realidade,
qualquer pessoa que possa ser culpada de terrorismo, um termo que n�o tem
defini��o legal (como se pode combater o terrorismo suspendendo o habeas corpus,
se aqueles que querem ter seus corpus libertados da pris�o j� se encontram
presos?). Mas, no clima de trauma p�s-Oklahoma, Clinton disse que aqueles que
n�o estavam a favor de sua legisla��o draconiana eram conspiradores aliados aos
terroristas, interessados em transformar a Am�rica "num lugar seguro para
terroristas". Se Clinton, que tinha a cabe�a t�o fria, foi capaz de se enfurecer
a tal ponto, o que podemos esperar do superesquentado Bush, depois da ter�a
passada?
Embora a popula��o americana n�o tenha
meios diretos de influir sobre seu governo, suas opini�es de vez em quando s�o
colhidas por meio de amostras, em sondagens de opini�o. De acordo com uma
sondagem da CNN e da "Time" de 1995, 55% dos americanos acreditam que "o governo
federal se tornou t�o poderoso que amea�a os direitos dos cidad�os".
O "The New York Times" � o principal veiculador das
opini�es recebidas do empresariado americano, e, al�m disso, � um bar�metro mais
preciso dos estados de �nimo de nossos governantes do que, digamos, o "The Wall
Street Journal", que sofre de defici�ncia editorial. Mesmo assim, todos as
colunas de editorial publicadas pelo "NYT" desde 12 de setembro t�m errado o
alvo, por pouco. Desconfio que a cobertura da televis�o j� nos tenha deixado
esgotados a todos n�s, menos o sensato conservador que � Anthony Lewis. Aquelas
imagens de fogo e explos�o teimam em se reformar diante de nossos olhos, mesmo
quando n�o h� um tubo cat�dico por perto para transmiti-las.
Sob o cabe�alho "Exig�ncias da Lideran�a", o "NYT" se
mostra otimista, por assim dizer. Tudo vai sair bem se o senhor trabalhar duro e
n�o deixar sua aten��o se desviar da bola, senhor presidente. Aparentemente Bush
"est� enfrentando m�ltiplos desafios, mas sua tarefa mais importante � uma
simples quest�o de lideran�a". Gra�as a Deus. N�o apenas s� � preciso lideran�a,
como isso � simples ao extremo. Por um instante eu tinha chegado a temer
... Em seguida o "NYT" fala das coisas da maneira como se apresentam, em
oposi��o a como deveriam se apresentar. "A administra��o passou boa parte do dia
de ontem tentando superar a impress�o de que Bush teria manifestado fraqueza
quando deixou de retornar a Washington ap�s o ataque terrorista". Mas, pelo que
pude perceber, ningu�m se preocupou muito com isso. A maioria de n�s se sentiu
at� um pouco mais segura com Bush em seu bunker em Nebraska. O "NYT" tranquiliza
Bush, dizendo que ele n�o ser� for�ado a aceitar democratas em seu gabinete,
como fizeram alguns presidentes em tempos de guerra - e pronto. A� est�.
Simplesmente atirado ali no meio, como que por acaso. "Em
tempos de guerra". Pacientemente, o jornal p�e os pingos nos is, para Bush e
para n�s. "Nos pr�ximos dias, � poss�vel que Bush pe�a � na��o que d� seu
respaldo a a��es militares que muitos cidad�os poder�o achar alarmantes. Ele
precisar� mostrar que sabe o que est� fazendo." Assim fica f�cil. Pena que FDR
n�o recebeu cartas desse tipo de Arthur Krock, do velho "NYT".
"Aliados contra o Terror" � o pr�ximo editorial com t�tulo.
Aparentemente, precisamos de aliados. "Como seu pai na
Guerra do Golfo, ele ter� que construir uma coaliz�o de na��es dispostas a
agir." �timo conselho. Ele tamb�m deve
encontrar um jeito de fazer com que esses aliados paguem por uma guerra que ser�
travada pelo bem da Humanidade Inteira. Bush, pai, teve
trabalho para convencer outros a ajudar a pagar a conta de sua guerra da CNN.
Os japoneses tiveram a ousadia de reclamar da taxa de c�mbio. Azar deles
-basta ver o que aconteceu com o iene.
Quando a semana chegou o fim,
paquistaneses de cabelos tingidos e olhos furtivos j� estavam sendo interrogados
pela CNN porque, de maneira amea�adora, o Paquist�o hoje atua como patrono
extra-oficial do Taleban. "Acredita-se que o Taleban d� guarida ao mais perigoso
terrorista internacional, Osama bin Laden." Foi preciso muita coragem para
publicar isso, "NYT". Mas parece que se encaixa bem com o que voc�s andam
repetindo. "Washington deixou claro ontem que sua paci�ncia com o Paquist�o est�
se esgotando rapidamente." Coitado do Paquist�o. Eu � que n�o
gostaria de estar em seu lugar.
Pr�ximo editorial: "A Defesa Nacional". "A luta contra o
terror precisa se deslocar da periferia para o centro do planejamento e das
opera��es de seguran�a nacional americanas. Ningu�m est� sugerindo que isso seja
tarefa f�cil ou que custe pouco, mas, com os quase US$ 30 bilh�es que Washington
gasta com espionagem, o pa�s deveria saber mais sobre as redes do terror e suas
conspira��es. Se mais dinheiro puder ser investido com finalidades �teis..." "Os
americanos precisam repensar como proteger o pa�s sem abrir m�o dos direitos e
dos privil�gios da sociedade livre que defendemos." Verdade,
verdade.
"Terceira Guerra Mundial", de Thomas L.
Friedman, � otimista. Friedman � muito jovem e ainda n�o viveu sua guerra. Mas,
pensando bem, com a exce��o de Colin Powell e dois ou tr�s senadores, os membros
da administra��o e os parlamentares, apesar de todos serem adeptos da ret�rica
militar, s�o pessoas que s� ficaram em casa. A regi�o que
Friedman cobre � o Oriente M�dio, e muitas vezes o que ele escreve sobre o
assunto � interessante. Das vozes erguidas no "NYT" na quinta-feira, apenas ele
sugere que "o apoio que damos a Israel" desagrada aos �rabes, mas, logo
depois, ele passa a falar do �dio inato que os �rabes nutrem por nossa
hegemonia. De repente, de maneira desconcertante, ele berra:
"Ser� que meu pa�s realmente compreende que esta ser� a Terceira Guerra
Mundial?". A pergunta n�o � meramente ret�rica. "As pessoas que planejaram os
atentados da ter�a-feira conjugaram alto grau de maldade com alto grau de g�nio,
com efeitos devastadores. E, a n�o ser que estejamos prontos para colocar nossas
melhores cabe�as para trabalhar para combat�-las -o projeto Manhattan da
Terceira Guerra Mundial-, de maneira igualmente ousada, implac�vel e pouco
convencional, vamos ter problemas s�rios." � a receita certa para mais
problemas.
A coluna "O Novo Dia da Inf�mia", de William Safire, prev�
que "o pr�ximo ataque provavelmente n�o ser� conduzido com um avi�o sequestrado,
eventualidade contra a qual, tarde demais, vamos nos precaver. � mais prov�vel
que seja um m�ssil nuclear comprado por terroristas ou um barril de germes
mort�feros." Finalmente, Anthony Lewis acha de
bom aviso deixar de lado o unilateralismo de Bush para cooperar com outros
pa�ses, para conter as trevas da ter�a-feira com a compreens�o de suas origens,
ao mesmo tempo em que deixamos de lan�ar provoca��es contra uma cultura que se
op�e a n�s e nossos arranjos. Lewis - coisa incomum para um
colunista do "The New York Times" - defende a paz agora. Eu tamb�m.
Mas a verdade � que ele e eu somos velhos e j� estivemos l�. Valorizamos
nossas liberdades, que est�o desaparecendo em ritmo acelerado - � diferen�a dos patriotas exacerbados que andam batendo seus
tambores na Times Square, conclamando todos para uma guerra total a ser travada
pela Am�rica.