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A l�gica do capital em A L�gica Destrutiva, artigo de Ricardo
Antunes.
From: Cristiane Rozicki <[EMAIL PROTECTED]>
To: trabalhista news <[EMAIL PROTECTED]> Subject: <trabalhista> A l�gica do capital Date: Sexta-feira, 2 de Abril de 1999 22:34 ----------------------------------------------- Mensagem enviada por: "=?iso-8859-1?Q?S=E9rgio_Coutinho?=" <[EMAIL PROTECTED]> ---------------------------------------------- Folha de S�o Paulo, 1999. N�o tenho a data exata no momento. -----------------------------------------------
A L�GICA DESTRUTIVA
CRISE DO TRABALHO COLOCA COMO DESAFIO RESGATAR SENTIDO DE
CLASSE
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RICARDO ANTUNES*
especial para a Folha "Andam desarticulados os tempos..." ("Hamlet"') Shakespeare ----------------------------------------------- A sociedade contempor�nea, particularmente nas �ltimas duas
d�cadas, presenciou fortes transforma��es. O neoliberalismo e a reestrutura��o
produtiva da era da acumula��o flex�vel, dotadas de forte car�ter destrutivo,
t�m acarretado, entre tantos aspectos nefastos, um monumental desemprego que
atinge a humanidade que trabalha em escala
globalizada. Da Inglaterra � Espanha, do M�xico � Argentina, da R�ssia � �ndia, para n�o falar do Brasil, quanto mais se avan�a na competitividade e na "integra��o mundial", mais explosivas tornam-se as taxas de precariza��o, exclus�o e desemprego. Ao contr�rio das in�meras mistifica��es hoje presentes, que
tentam conferir eternidade � (des) ordem mundial, pode-se constatar que a crise
contempor�nea acabou atingindo em cheio tamb�m os pa�ses capitalistas centrais.
Paralelamente � globaliza��o produtiva, a l�gica do sistema produtor de
mercadorias vem convertendo a concorr�ncia e a busca da produtividade num
processo "auto-destrutivo" que tem gerado uma imensa "sociedade dos exclu�dos e
dos precarizados". At� o Jap�o e o seu modelo toyotista, que introduziu o
emprego vital�cio para cerca de 25% de sua classe trabalhadora, hoje amea�a
extingui-lo, para adequar-se � competitividade que reemerge do Ocidente
"toyotizado".
Depois de desestruturar o Terceiro Mundo e eliminar do mapa
os pa�ses p�s-capitalistas do Leste Europeu, a crise chega ao cora��o do sistema
produtor de mercadorias. E quanto mais se avan�a na competitividade
intercapitalista, quanto mais se desenvolve a tecnologia concorrencial, maior �
a desmontagem de in�meros parques industriais.
Da R�ssia � Argentina, da Inglaterra ao M�xico, e de novo
passando pelo Brasil, os exemplos s�o abundantes. Com repercuss�es arrasadoras
no enorme contingente de for�a humana de trabalho presente nestes pa�ses. Como
diz Istv�n M�sz�ros, o capital, desprovido de orienta��o humanamente
significativa, tem uma l�gica que � essencialmente destrutiva, na qual o valor
"de uso" das coisas � totalmente subordinado ao seu valor de "troca"(1).
Essa l�gica destrutiva permitiu a Robert Kurz afirmar, n�o
sem raz�o, que regi�es inteiras est�o, pouco a pouco, sendo eliminadas do
cen�rio industrial, derrotadas na corrida da produtividade presente na
concorr�ncia mundial (2).
A experi�ncia dos pa�ses asi�ticos como a Cor�ia, Hong Kong,
Taiwan, Cingapura, entre outros, bem-sucedidos na expans�o industrial recente,
s�o, entretanto, em grande parte, exemplos de pa�ses pequenos, carentes de
mercado interno e totalmente dependentes do Ocidente para se desenvolver. N�o se
constituem, portanto, em modelos alternativos a serem seguidos ou transplantados
para pa�ses continentais, como �ndia, R�ssia, Brasil, M�xico, entre
outros.
E � bom reiterar que os "novos para�sos" da industrializa��o
utilizam-se intensamente das formas nefastas de precariza��o da classe
trabalhadora. S� a t�tulo de exemplo: na Indon�sia, mulheres trabalhadoras da
multinacional Nike ganham US$ 38 por m�s, por longa
jornada de trabalho. Em Bangladesh, as empresas Wal-Mart, K-Mart e Sears utilizam-se do trabalho feminino, na confec��o de roupas, com jornadas de trabalho de cerca de 60 horas por semana com sal�rios menores que US$ 30 por m�s (3). Portanto, entre tantas destrui��es de for�as produtivas, da
natureza e do meio ambiente, h� tamb�m, em escala mundial, uma a��o destrutiva
em rela��o � for�a humana de trabalho, de tal intensidade que cerca de 800
milh�es de pessoas encontram-se hoje ou exercendo trabalhos "precarizados" ou
estando inteiramente "exclu�dos".
Se � um grande equ�voco conceber-se o fim do trabalho
enquanto vigorar a sociedade produtora de mercadorias (uma vez que o processo
produtivo resulta da intera��o entre trabalho "vivo" e trabalho "morto", ainda
que o primeiro em recuo e o segundo em amplia��o), � imprescind�vel entender as
muta��es e metamorfoses que v�m ocorrendo no universo da
"classe-que-vive-do-trabalho".
Nas �ltimas d�cadas pode-se presenciar um conjunto de
tend�ncias que, em seus tra�os b�sicos, seguem as seguintes dire��es em quase
todas as partes do mundo (5): 1) H� uma crescente redu��o do proletariado
fabril, est�vel, que se desenvolveu na vig�ncia do bin�mio taylorismo/fordismo e
que vem diminuindo com a reestrutura��o, flexibiliza��o e desconcentra��o do
espa�o f�sico produtivo da fase do toyotismo; 2) H� um enorme incremento do
"subproletariado" fabril e de servi�os, que tem sido frequentemente denominado
de trabalho precarizado. S�o os "terceirizados", subcontratados, "part-time",
entre tantas outras formas assemelhadas, que proliferam em tantos cantos do
mundo, e muitas vezes preenchidos pelos imigrantes, pelos "gastarbeiters" na
Alemanha, pelo "lavoro nero" na It�lia, pelos "chicanos" nos EUA, pelos
"dekasseguis" no Jap�o etc. (6); 3) Vivencia-se um aumento significativo do
trabalho feminino, que atinge mais de 40% da for�a de trabalho nos pa�ses
avan�ados e tem sido preferencialmente absorvido pelo capital no universo do
trabalho precarizado e desregulamentado; 4) H� um incremento dos assalariados
m�dios e de servi�os, o que possibilitou um significativo incremento no
sindicalismo destes setores, embora o setor de servi�os j� presencie tamb�m
tra�os de desemprego tecnol�gico; 5) H� exclus�o dos jovens e dos velhos no
mercado de trabalho dos pa�ses centrais; os primeiros acabam muitas vezes
engrossando as fileiras de movimentos neonazistas e os mais "velhos", com cerca
de 40 anos ou mais, uma vez desempregados, dificilmente conseguem
requalificar-se para um novo trabalho; 6) H�, por fim, uma inclus�o precoce e
criminosa de crian�as no mercado de trabalho, particularmente nos pa�ses de
industrializa��o intermedi�ria e subordinada. Aqui o Brasil � de novo exemplar:
vide a ind�stria de cal�ados e de sisal, entre tantos outros ramos.
Tem-se, portanto, uma processualidade contradit�ria e
multiforme no interior da classe trabalhadora. Mais "qualificada, polivalente e
multifuncional" em alguns ramos, como na siderurgia, e mais "desqualificada" em
outros ramos, nos quais v�rias profiss�es est�o inclusive desaparecendo, como
gr�ficos, mineiros, trabalhadores da constru��o naval etc.
Tudo isso nos mostra que na era da reestrutura��o produtiva, das flexibiliza��es e das desregulamenta��es, a "classe-que-vive-do-trabalho" encontra-se mais fragmentada, mais complexificada e mais heterogeneizada. Dividida entre qualificados e desqualificados, est�veis e prec�rios, jovens e velhos, homens e mulheres, nacionais e imigrantes, brancos e negros, inseridos e exclu�dos, sem falar ainda nas divis�es que decorrem da inser��o diferenciada dos pa�ses e de seus trabalhadores na nova divis�o internacional do trabalho. Tudo isso coloca um enorme desafio para o mundo do trabalho,
nestes "tempos t�o desarticulados": resgatar o sentido de "pertencimento de
classe", reatar os la�os de solidariedade e consci�ncia daqueles que vivem do
trabalho, que a era da reestrutura��o produtiva e o seu ide�rio "p�s-moderno"
procuram fraturar e fragmentar, mas que est�o impossibilitados de eliminar. At�
porque ainda � muito cedo para dizer "adeus ao trabalho".
-------------------------------------------------------------------------------- Notas:
1. Isztv�n M�sz�ros, "Beyond Capital (Towards a Theory of
Transition)", Merlin Press,
Londres, 1995, especialmente a parte tr�s. 2. Kurz, Robert, "O Colapso da Moderniza��o", Paz e Terra,
p�g. 208.
3. Dados extra�dos de "Time For a Global New Deal", em
"Foreign Affairs", jan-fev/1994,
Vol. 73, n� 1, p�g. 8. 4. Ver nossas considera��es em "Adeus ao Trabalho", Ed.
Cortez/Unicamp, 1995.
5. Ver, sobre a fragmenta��o da classe trabalhadora, o livro
de Alain Bihr, "Du `Grand
Soir' a `L'Alternative' (Le Mouvement Ouvrier en Crise)", Les �ditions Ouvri�res, Fran�a, 1991, cap�tulo cinco. ________________
* Ricardo Antunes -
� professor livre docente em sociologia do trabalho na
Universidade Estadual de Campinas e autor, entre outros, de "Adeus ao Trabalho?"
(Cortez/Unicamp), "O Novo Sindicalismo no Brasil" (Pontes) e "A Rebeldia do
Trabalho" (Unicamp); � editor participante da revista "Latin American
Perspectives" (EUA).
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