Roberto Romano*, professor na Unicamp.
 
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From: Celso Galli Coimbra
Sent: Tuesday, September 18, 2001 4:59 AM
Subject: [Direito_Saude] A fria racionalidade tecnica a servico das mais revoltas paixoes, produz mortes

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Tenhamos cautela quando se transforma a carnificina guerreira em espet�culo global, onde os homens aprendem a li��o da morte gen�rica.
Depois que experimentamos a viol�ncia do fato b�lico no Golfo p�rsico,
a virtualidade engoliu o real, maquiando-o com imagens tecnologicamente
produzidas para iludir bilh�es de seres humanos. A fria racionalidade
t�cnica, a servi�o das mais revoltas paix�es, produz mortes em escala infernal.


Nos dias de hoje, a m�dia televisiva desempenha o papel de mobilizadora
da vingan�a e do �dio, paix�es mais brutas dos indiv�duos e das massas.
E isto se transformou em ''raz�o de Estado'' para o governo Bush.
Quem assiste � CNN e possui saber hist�rico n�o esquece a t�cnica, usada por Bismarck, de falsificar fatos e documentos, tendo em
vista fins estrat�gicos.
 
 

''Falsificar'' � a palavra. N�o se trata de pura mentira:
quando ''jornalistas'' censuram imagens, dados, hist�ria, at� mesmo a geografia e a cultura, em particular no que se refere � religi�o, eles usam o m�todo de propaganda batizado por E. Auerbach como ''a t�cnica do holofote''.



A ret�rica propagand�stica age como se o mundo fosse um palco. O jornalista ilumina alguns cantos do cen�rio, deixando os demais na sombra. O fato que recebe luz exclusiva pode ser verdadeiro, mas n�o � toda a verdade. Ora, diz Auerbach, ''da verdade faz parte
toda a verdade''.
 

Procurar o todo leva tempo, o que impossibilita a tarefa de contrabalan�ar a m�dia que age como instrumento de propaganda. O alvo desta �ltima n�o � informar, mas remeter mentes e cora��es para a luta contra o ''inimigo''.
 
 
Deste modo, diz Auerbach, agiu a imprensa dominada por Goebbels, com resultados conhecidos. O que fez Bismarck?  Em outubro de 1892 ele confessou ter modificado a forma de um telegrama que se destinava ao entendimento entre o rei da Pr�ssia e o l�der franc�s. Um texto ameno, quase um pedido de paz entre as na��es, foi reduzido pelo Chanceler de Ferro em declara��o de guerra, com alguns cortes feitos na base do l�pis, apenas suprimindo-se frases. Diab�lico: o texto que o Chanceler ''enfeitou'', antes de chegar at� o kayser, estava em todas as manchetes da imprensa europ�ia.
 

 
Assim, s� restava a guerra aos governantes, base hist�rica de todos os
horrores que sucederam no s�culo 20. Sem a imprensa o truque de Birmarck n�o seria eficaz.


Piorada a situa��o, � isto o que ocorre no conflito entre os
EUA e o mundo que n�o reconhece a sua hegemonia imperial. Hoje, Bush n�o precisa usar o l�pis para falsificar no t�cias, nem tem necessidade de
holofotes que iluminem apenas parcelas do verdadeiro: a CNN e a m�dia
fazem isto para ele.
 
 
A doutrina��o para a guerra n�o � de inteira responsabilidade da imprensa. Al�m de Hollywood, o mercado da morte adestra a intelig�ncia
de milh�es para apoiar a viol�ncia. De 1978 a 1983, foram vendidos 1.573.627 jogos de guerra nos EUA, e mais de 10 milh�es foram exportados para o exterior, ao mesmo tempo dando lucros aos industriais da morte imagin�ria e preparando a mente de crian�as e de adultos para o ''conflito final''.
 
 
 
Estas vendas lucrativas aumentaram de modo assustador nos �ltimos anos. Comentando o fen�meno, um especialista em an�lise social da guerra mostra que nos war games desaparecem ''o medo, o pavor, a fuga, a deser��o, mas tamb�m somem o hero�smo e o sacrif�cio, que nos jogos permanecem incompreens�veis, n�o situ�veis, pois s�o meras interfer�ncias irracionais com as quais n�o se sabe o que fazer. � significativo, deste ponto de vista o status que os jogos de guerra reservam aos civis: nenhum''. (Pozzi, E.: ''Giochi di guerra e tempi
di pace'', in La Cr�tica Sociologica). As v�timas de amanh�, e de sempre, s�o os civis, tanto nos EUA quanto no Iraque, no Afeganist�o, em toda parte.
 
 

Desde longa data a guerra contra o isl� tem sido o mote das falas crist�s
''piedosas''.


Num texto do s�culo 16, Erasmo de Rotterdam assinala, no relativo � beliger�ncia contra os turcos: ''� de fato ruim para a religi�o crist� se a sua sobreviv�ncia depender deste g�nero de defesa'' (Ad�gio :''S� ama a guerra quem a desconhece''). Hoje, o islamismo � o movimento religioso que mais cresce no mundo. Se os crist�os, ou os que parasitam o cristianismo no poder pol�tico, militar, econ�mico, insistirem na guerra santa, os conflitos b�licos ser�o a �nica ''promessa de futuro''.


Ap�s a ru�na da URSS, surgiu no mundo um bloco hegem�nico, os EUA.
Mas ocorre tamb�m a emerg�ncia de uma federa��o concorrente, a Uni�o dos Estados Europeus. Ambos espreitam a poss�vel frente estatal reunindo a China e pa�ses menores, podendo incluir o Jap�o. Nas lutas econ�micas entre esses blocos se define o futuro da pol�tica no mundo. Por enquanto, o v�cuo gerado pelo fim da URSS assegura aos EUA uma situa��o privilegiada. Eles mant�m tropas e escrit�rios de com�rcio no mundo inteiro. Mas semelhante status � din�mico e tende a se modificar. Permeando todos os pa�ses, no Ocidente e no Oriente, o islamismo aumenta as suas multid�es de fi�is. Os terroristas jogam com este elemento.
 
 

Eles contam empurrar o poderio b�lico dos EUA contra todo o isl�, e n�o
apenas contra eles. Deste modo, quanto maior a viol�ncia imperial norte-americana, maior o �dio que pode ser gerado, contra aquele pa�s, em bilh�es de seres humanos.


''A Am�rica desempenha hoje o papel que foi da Inglaterra no final do s�culo 18: como os ingleses na �poca, n�s, americanos, nos
tornamos, sem o desejar, os defensores da civiliza��o contra os inimigos da ordem, da justi�a e da liberdade, e das tradi��es de civilidade. Temos deveres imperiais, o que requer intelectos imperiais para a sua execu��o''. Estas frases de Russell Kirk na conservadora Burke Newsletter de 1962, tornou-se o lema do governo Bush. Desde os anos 60 do s�culo 20, os EUA aumentaram a sua arrog�ncia, mesmo perdendo guerras que custaram vidas preciosas de seu povo. Sua atua��o no mundo ''livre'' ligou-se ao terrorismo de Estado, aos golpes contra as democracias que n�o aceitaram o seu mando. E isto custou muitas vidas na Am�rica do Sul, na �frica, no Oriente. Em n�mero maior do que as ceifadas em Nova York nesta semana.
 
 
 
 
A ideologia imperial e guerreira, que neste instante se rearticula em clima de vingan�a, pode conduzir aquele pa�s � cat�strofe, nela envolvendo o mundo. A sa�da estrat�gica, em termos religiosos, para os EUA, encontra-se na capacidade de seus estadistas, os seus ''intelectos imperiais'', de desarmar a armadilha preparada pelos seus pr�prios agentes (como a CIA) e pelas for�as do terror. Eles j� ca�ram em parte nela, ao
apoiarem Bin Laden contra a URSS. Para fugir � tenta��o xen�foba e
manique�sta de transformar cada islamita em inimigo, os EUA precisam
relativizar a sua ''miss�o'' de impor ao mundo a cren�a na sua pr�pria
superioridade, unida ao sacrossanto ''cristianismo ocidental''. Caso
contr�rio, ele ter� dentro e fora de seu territ�rio multid�es de seres
humanos que, adeptos do Cor�o, hoje recusam apoio aos terroristas.


Mas se a massa de bombas e a voragem arrogante do Estado norte-americano consumir pa�ses �rabes, certamente muitos islamitas de agora podem engrossar as tropas dos que, armados de facas e canivetes ou de armas modernas (n�o raro vendidas pelos pr�prios EUA), minar�o o imp�rio, fazendo-o implodir em prazo n�o muito longo, se pensarmos em termos hist�ricos.

 

Para conseguir a guerra, a m�dia e o governo Bush abrem as comportas do �dio e da xenofobia. Estes venenos intoxicam a alma norte-americana . Um povo doente de orgulho e desejo de vingan�a n�o enxerga, nas brumas do presente, os seus reais inimigos. Pior se o governo que o representa � movido pelas mesmas paix�es. Cegos, j� dizia Cristo, conduzem cegos ao abismo. Nada mais.
 
 


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*Roberto Romano � cientista pol�tico e professor de �tica e
Filosofia da Universidade de Campinas  (Unicamp)
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