A crise da universidade p�blica
Ricardo Cappelli
 
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Pautas da Ag�ncia Unicamp de Not�cias

OPINI�O

A crise da universidade p�blica
Ricardo Cappelli

 

 

A dr�stica situa��o que as universidades p�blicas brasileiras enfrentam hoje � reflexo dos conflitos mais gerais que se acentuam na sociedade — sobretudo numa �poca marcada pelo avan�o do neoliberalismo e, conseq�entemente, pelo descomprometimento do Estado com a implementa��o do ensino gratuito e do financiamento das universidades.

 

A crise do capitalismo, que vem afetando especialmente os pa�ses perif�ricos desse sistema, como � o caso do Brasil, tem promovido um verdadeiro desmonte dos estados nacionais. � inconceb�vel, na l�gica dos organismos financeiros internacionais, a manuten��o, pelo Estado, de suas institui��es p�blicas, quanto mais de institui��es como as universidades, que s�o fundamentais para o desenvolvimento aut�nomo do pa�s. � por isso que o governo federal insiste na mudan�a do texto da Constitui��o, especificamente o Artigo 207, que diz: "As universidades gozam de autonomia did�tico-cient�fica, administrativa e de gest�o financeira e patrimonial e obedecer�o ao princ�pio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extens�o."

 

Com a mudan�a, o governo federal pretende se inserir na "onda modernizante" ditada pelo BIRD, que prop�e uma maior diferencia��o das institui��es, a ado��o do or�amento global, o enxugamento da m�quina administrativa e a diversifica��o das institui��es estatais. Essa mudan�a prop�e ainda autonomia para IES n�o-universit�rias, a quebra do regime jur�dico �nico e a obriga��o das universidades buscarem novas formas de financiamentos com a implementa��o do or�amento global. A revis�o do Artigo 207 ou a implementa��o da Proposta de Emenda Constitucional 370 (PEC-370) representa um ataque frontal �s nossas universidades — sobretudo pela total desconfigura��o que essas medidas ir�o promover.

 

O que � preciso deixar claro � que essas iniciativas t�m como objetivo central desresponsa-bilizar o Estado pelo financiamento da educa��o superior e torn�-las colegi�es de 3� grau, voltados � forma��o �nica e exclusiva de m�o-de-obra polivalente e com forma��o generalista para atender � nova demanda imposta por essa nova revolu��o tecnol�gica com que convivemos. Devemos lutar pela manuten��o do Artigo 201 da Constitui��o, bem como barrar a implementa��o da PEC-307. Caso contr�rio, o governo federal estar� legitimando, na pr�tica, a privatiza��o das nossas universidades p�blicas.

 

Essa privatiza��o vir�, por�m de forma escamoteada, diminuindo a autonomia e o financiamento, demitindo professores, n�o ampliando cursos e amea�ando progressivamente a gratuidade.

 

As universidades p�blicas t�m de se firmar enquanto espa�os aut�nomos de produ��o do saber, de revolu��es cient�fico-tecnol�gicas, longe das inger�ncias do mercado e das submiss�es das gest�es pol�ticas que visam destru�-las. Devem estar voltadas aos reais problemas da popula��o, ser um espa�o de desenvolvimento de novas tecno-logias que aumentem a qualidade de vida do povo, locais de embates ideol�gicos e de contesta��es sociais. A privatiza��o das universidades significar� a sua elitiza��o e o seu emburrecimento.

 

O Brasil, proporcionalmente, � um dos pa�ses que menos investem na educa��o. Investe apenas 3,7% do PIB, ficando atr�s do Paraguai (l2,7%) e da Bol�via (l6,6%). Assim, como na d�cada de 60, ainda n�o sa�mos da �nfima marca de apenas 1% da popula��o nacional total matriculada em institui��es de ensino superior. Somos hoje 1.868.529 estudantes matriculados no ensino superior, sendo que 30% desse total est�o nas universidades p�blicas e o restante nas privadas. No entanto, 90% das pesquisas realizadas nas universidades brasileiras s�o feitas nas p�blicas.

 

Como se percebe, ainda temos de expandir em muito o nosso ensino. A grande diferen�a � que, para n�s, essa expans�o tem de se dar principalmente nas universidades p�blicas — e isso se faz aumentando o financiamento e protegendo a autonomia universit�ria. Nas particulares, temos que intensificar a fiscaliza��o para garantir qualidade de ensino e crit�rios para a expans�o de forma tamb�m controlada pela sociedade, e n�o apenas pelo lucro f�cil, como se o ensino fosse mercadoria.

 

Por fim, a crise que hoje mergulha o Brasil at� o pesco�o � reflexo da op��o pol�tica feita pelo atual governo, que privilegia o capital especulativo atrav�s de altos juros em detrimento da produ��o nacional de nossas empresas e institui��es. A universidade p�blica n�o tem culpa da situa��o. Pelo contr�rio, � v�tima dessa pol�tica geradora de exclus�o social e do aumento de capital nas m�os de poucos.

 

Ricardo Cappelli � presidente da Uni�o Nacional dos Estudantes (UNE)


� 1994-2000 Universidade Estadual de Campinas
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