Title: no.com.br : S�rgio Abranches : O efeito domin�
O efeito domin�
[ 26.Out.2001 ] 
S�rgio Abranches

       



As dificuldades de manter a atual ofensiva no Afeganist�o aumentam, de todos os lados, para o EUA, como se esperava. De um lado, Washington come�a a enfrentar obst�culos s�rios para manter a coaliz�o internacional que formou de in�cio e para manter apoio e coopera��o de diferentes fac��es afeg�s antag�nicas ao Talib�. De outro lado, a campanha est� longe de ter alcan�ado qualquer benef�cio tang�vel e duas grandes amea�as � continuidade da a��o militar j� est�o vis�veis no horizonte.

O Ramadan, nono m�s do calend�rio isl�mico, o m�s do jejum, da contempla��o e da fam�lia. Ele deve come�ar em 16 de novembro e se estender por todo um m�s. A��es agressivas em territ�rio isl�mico, neste per�odo, seriam consideradas um desrespeito inaceit�vel pela quase totalidade dos mu�ulmanos da regi�o. Al�m de aumentar o risco de ruptura da coaliz�o, pode precipitar o efeito domin� na regi�o, desestabilizando todos os governos mu�ulmanos aliados ao EUA. A segunda amea�a � o inverno, a maior arma dos afeg�os.

N�o parece muito prov�vel que o EUA logre, no curto espa�o de tempo que lhe restaria, admitindo-se que o Ramadan seja respeitado, algum resultado mais concreto, seja com os bombardeios, seja com o as a��es de terra, que j� duram tr�s semanas. De qualquer forma, a a��o militar de solo est� se dando sob uma densa capa de segredos e pode causar alguma surpresa.

Analistas estrat�gicos continuam a apontar os aspectos singulares desse confronto militar, muito diferente de qualquer guerra conhecida. De acordo com essas an�lises, com o tempo as guerras adquirem uma forma definida, uma din�mica previs�vel. O ataque provoca uma rea��o planejada, essa rea��o leva � r�plica dos atacantes, o inimigo rev� sua estrat�gia de acordo, suscitando uma escalada e aperfei�oamento da estrat�gia do outro lado e a guerra amadurece sob uma forma que pode ser levada para a prancheta dos estrategistas para programar as a��es futuras. Essa guerra, concluem, n�o segue esse padr�o ou qualquer outro conhecido. A dimens�o geopol�tica desestabiliza continuadamente a dimens�o militar, porque a pol�tica por tr�s da a��o americana � t�o complexa e incerta que n�o oferece um piso est�vel para o planejamento militar.

O reconhecimento pelos comandantes militares americanos de que o Talib� tem mais recursos e maior resist�ncia que esperavam, confirma o pior cen�rio. Ao resistir �s duas primeiras fases do ataque americano, o Talib� conseguiu colocar a seu favor o aumento da instabilidade pol�tica e do risco na regi�o, al�m de postergar as fases seguintes para pr�ximo demais do Ramadan e do in�cio do inverno.

Os domin�s come�am a balan�ar

V�rios epis�dios indicam aumento de instabilidade e radicaliza��o em toda a macroregi�o de maioria isl�mica. O recrudescimento do conflito entre Israel e os palestinos, a resist�ncia de Israel �s press�es americanas por um imediato e completo cessar fogo e o cerco dos radicais a Arafat, colocam o Oriente M�dio de volta ao centro do vulc�o pol�tico-militar regional.

A investida da �ndia contra o Paquist�o, na regi�o da Cashemira, al�m de abrir um flanco militar na vizinhan�a da zona estrat�gica de manobra militar do EUA, estressam significativamente as rela��es diplom�ticas entre os dois pa�ses e tornam o Paquist�o ainda menos confi�vel como base de opera��es americana. A �ndia est� obviamente reagindo � liga��o mais �ntima entre o EUA e o Paquist�o, ocasionada pelo ataque terrorista e pelo posicionamento estrat�gico de seu rival como base para as tropas americanas. O governo de Nova Delhi est� se sentindo amea�ado pelo fortalecimento do Paquist�o. N�o foi por acaso que o primeiro ataque � Cashemira ocorreu apenas uma hora ap�s a chegada de Collin Powell ao Paquist�o. Washington evitou, claramente, desde o in�cio, qualquer participa��o ativa de Israel ou da �ndia na opera��o pol�tica e militar contra os terroristas. Israel pela raz�o �bvia de que sua presen�a provocaria rea��o adversa at� mesmo dos mu�ulmanos mais moderados. A �ndia! , por causa de seu antagonismo com o Paquist�o. Os ataques deixaram o EUA em posi��o delicada, tendo que equilibrar as demandas dos dois pa�ses. Mas � imposs�vel estrategicamente abrir m�o da ajuda do Paquist�o, cujo governo tamb�m tem que defender da oposi��o interna. Dificilmente as demandas da �ndia poder�o ser atendidas integralmente, talvez sequer satisfatoriamente, o que manter� uma situa��o de instabilidade e risco naquela fronteira.

Aproveitando a instabilidade geral e a presen�a de tropas americanas em seu territ�rio, o Usbequist�o, que sempre se viu como a for�a dominante na �sia Central, come�a a mostrar inten��es de aumentar sua capacidade militar, para us�-la no momento apropriado na realiza��o de seu objetivo de hegemonia sub-regional. Mas a movimenta��o do governo de Tachkent j� provocou rea��es adversas da R�ssia, colocando em risco a parceria crucial entre ela e o EUA, na coaliz�o antiterrorista.

No C�ucaso, militantes chechenos e da Ge�rgia t�m atacado Abkhasia, prov�ncia da Ge�rgia, buscando abrir um flanco para enfraquecer o controle russo na regi�o. Mais problemas para Putin e a oportunidade para Edvard Shevardnadze buscar apoio de for�as internacionais e alavancar seu governo geopoliticamente.

No Marrocos, o rei Mohammad VI mandou fechar as mesquitas ap�s as ora��es da tarde, para conter a mobiliza��o pol�tica de protesto contra o apoio ao EUA. Mais de 30 milh�es de mu�ulmanos se re�nem nas mesquitas marroquinas, criando uma massa inflam�vel de propor��es que as podem tornar irreprim�veis. Mas, ao proibir reuni�es que n�o sejam para orar, o rei demonstra estar retrocedendo nas reformas pol�ticas, que vinha implementando desde que sucedeu a seu pai. Esse retorno a m�todos mais autorit�rios e repressivos, pode desestabilizar seu governo no rold�o de descontentamento que a presen�a militar americana vem criando em todo o mundo mu�ulmano.

Na Mal�sia, o governo j� foi obrigado a fazer cr�ticas p�blicas � a��o militar americana e pedir o fim dos bombardeios, na tentativa de conter os protestos crescentes contra o apoio do primeiro ministro Mahatir Mohamad ao governo de Washington. Mahatir est� imprensado entre o descontentamento popular – que j� era crescente antes de 11 de setembro por causa das dificuldades econ�micas que o pa�s enfrenta desde a crise da �sia – e o crescimento do extremismo isl�mico por toda a parte e na maioria mu�ulmana de seu pr�prio pa�s. Ele j� enfrenta terrorismo dom�stico e v� com crescente desconforto o crescimento de for�as pol�ticas fundamentalistas nas Filipinas e na Indon�sia. Recentemente ele denunciou suposta ofensiva de militantes mu�ulmanos na tentativa de criar uma uni�o de estados isl�micos, abrangendo os tr�s pa�ses. Por enquanto, ele tem sido capaz de manter os fundamentalistas mal�sios sob controle, mas a mobiliza��o das massas e os sinais de instabilidade social s�o ! crescentes.

No Egito, j� havia grande press�o interna pelo rompimento com Israel, desde o ano passado. Por isto mesmo, logo ap�s o ataque de 11 de setembro, o presidente eg�pcio Hosni Mubarak pediu uma confer�ncia da ONU sobre o terrorismo e alertou o EUA para que evitasse adotar op��es militares que pudessem levar � morte de civis. Mubarak est� entre a cruz dos benef�cios geopol�ticos que obt�m com a alian�a com o EUA e Israel e a caldeirinha da oposi��o de um movimento isl�mico bem organizado e com profundas ra�zes populares, que se op�e a esta alian�a.

O fato de que boa parte da alta lideran�a da Al Qa’ida vem do Egito n�o deve ser desprezado. Ele torna quase imperativa atua��o do EUA em territ�rio eg�pcio contra essa conex�o da rede de bin-Ladin, o que poderia desestabilizar irremediavelmente o governo de Mubarak. � por esta raz�o que o presidente eg�pcio p�s seus militares em a��o preventiva, prendendo mais de 250 militantes radicais, na tentativa de tornar desnecess�ria qualquer interven��o americana direta em seu pa�s. Mas a pr�pria repress�o ao escal�o superior da rede eg�pcia de bin-Ladin pode ativar camadas inferiores maiores e menos conhecidas dela e detonar a��es terroristas dom�sticas contra o governo.

At� na Ar�bia Saudita, onde a dinastia Al Saud reina incontestada desde a d�cada de 30 do S�culo passado, crescem os sinais de inquieta��o com a subleva��o isl�mica. O ministro do Interior advertiu membros das for�as de seguran�a por gestos de simpatia com radicais isl�micos. A fam�lia real tem manifestado d�vidas quanto � lealdade de parte dessas for�as, cujas inclina��es se tornaram mais aparentes desde o in�cio das a��es militares americanas na regi�o. Crescem, tamb�m as preocupa��es com a ebuli��o no sudoeste do pa�s, regi�o em que tradicionalmente se abrigam for�as isl�micas radicais, que podem aproveitar o fervilhar do descontentamento regional para investir contra a hegemonia Saud em Riad.

Entre dois terrores

N�o existe a menor possibilidade de que o EUA tenha �xito significativo, no plano militar, antes do Ramadan. Menos prov�vel ainda � que consiga, neste prazo, neutralizar os fatores que desestabilizam toda a regi�o, do mar Negro ao mar das Filipinas, do mar Vermelho � Cashemira.

A admiss�o, por parte do marechal John Stufflebeem, diretor adjunto de opera��es do Comando Maior das For�as Armadas, de que os afeg�os est�o se provando “duros guerreiros” revela a convic��o entre os militares de que essa guerra ser� mais dif�cil e mais longa do que o esperado.

Mas o EUA n�o pode simplesmente interromper a ofensiva militar, embora esteja entre a amea�a de deslegitima��o terminal de sua posi��o, por desrespeitar o Ramadan, e o risco de ver suas tropas enfraquecidas pelo rigor do inverno e expostas a pesadas perdas por ataques de um inimigo mais adaptado ao ambiente. As guerrilhas se beneficiam mesmo � dos rigores de seu ambiente.

Um recuo seria invi�vel do ponto de vista da pol�tica interna americana e da geopol�tica do antiterrorismo. Ao mesmo tempo, o EUA n�o pode, na opini�o da maioria dos estrategistas, criar uma situa��o como a do Ir�-Iraque, de bombardeios sem fim e sem alvo espec�fico. Corre ainda o risco de que o Talib� penetre no territ�rio paquistan�s, para esconder e refor�ar suas tropas, provocando rea��es militares americanas em territ�rio de um aliado crucial. Qualquer a��o hostil em territ�rio paquistan�s pode desestabilizar fatalmente o governo do general Pervez Musharraf.

Esta � mais uma armadilha para o EUA. A fronteira da guerra pode se mover para o interior do Paquist�o. Estrategicamente, impedir que o Talib� construa santu�rios neste pa�s � um imperativo categ�rico para a estrat�gia americana. Por outro lado, � tamb�m parte imprescind�vel dela garantir a estabilidade do governo aliado. As alternativas se estreitam, o tempo encurta e o mais prov�vel � que isto leve a uma escalada adicional da virul�ncia e intensidade das a��es militares nas pr�ximas semanas e a uma intensifica��o sem precedentes da atividade pol�tico-diplom�tica.
S�rgio Abranches � cientista pol�tico.


 correspond�ncia <[EMAIL PROTECTED]>
 no.com.br
Av. Presidente Wilson 231, sala 603 � 20030-021 Rio de Janeiro RJ � tel +55 21 3804 7750
Av. Brigadeiro Faria Lima 2179, 7� andar � 01452-000 S�o Paulo SP � tel +55 11 3811 4107
SHN - Quadra 2 - Bloco E - sobreloja 60 � 70710-908 Bras�lia DF � tel +55 61 327 6091

[EMAIL PROTECTED]
 
-----------------------------------
Endere�os da lista:
Para entrar: [EMAIL PROTECTED]
Para sair: [EMAIL PROTECTED]
-----------------------------------

clique aqui Grupos.com.br
p�gina do grupo diret�rio de grupos diret�rio de pessoas cancelar assinatura

Responder a