A NOT�CIA DO ANO
 
A maior not�cia que neste momento o governo pode dar ao pa�s � t�o grande que n�o cabe nos jornais. Trata-se dos 50 milh�es de hectares que, at� o come�o de dezembro, ser�o tomados de grileiros no Amazonas. � quase um ter�o do estado, que tem 153 milh�es de hectares. Mas s� um quarto maior do que os 39,6 milh�es de hectares cancelados at� a semana passada, sem qualquer an�ncio oficial.

 
Marcos S� Corr�a
 
 
A maior not�cia que neste momento o governo pode dar ao pa�s � t�o grande que n�o cabe nos jornais. Trata-se dos 50 milh�es de hectares que, at� o come�o de dezembro, ser�o tomados de grileiros no Amazonas. � quase um ter�o do estado, que tem 153 milh�es de hectares. Mas s� um quarto maior do que os 39,6 milh�es de hectares cancelados at� a semana passada, sem qualquer an�ncio oficial.

Era um saldo parcial, produto de uma limpeza nos registros de im�veis em doze comarcas do Amazonas. Como ainda h� cinco comarcas na fila para desinfec��o, a conta no estado dever� andar perto dos tais 50 milh�es quando o processo terminar daqui a poucas semanas. Nesse caso, 70 milh�es de hectares em t�tulos grilados ter�o evaporado da Amaz�nia Legal este ano. � como se, em seu pr�prio territ�rio, o Brasil descobrisse oito vezes Portugal.

Um hectare de grilagem nem sempre � um hectare de terra. Nesse ramo da fic��o fundi�ria, muito ch�o s� existe no papel dos cart�rios. Mas, com o que sobra da convers�o, d� para fazer muita coisa. "No m�nimo", diz o ministro do Desenvolvimento Agr�rio Raul Jungmann, "eu garanto 20 milh�es desossados, limpos, reais, para serem entregues ao Minist�rio do Meio Ambiente at� o fim do ano. � mam�o sem caro�o".

S�o 20 milh�es de hectares na Amaz�nia para fazer unidades de conserva��o. "E at� hoje, somando tudo, o pa�s tinha 47 milh�es de hectares protegidos", continua Jungmann. "D� para aumentar a �rea em praticamente 50%. N�o tenho not�cia, aqui ou em qualquer pa�s do mundo, de uma inje��o dessa pot�ncia dada de uma vez s� na veia do ambientalismo". E pelo menos 480 mil desses hectares estavam nas m�os de madeireiros malaios, espalhados por registros falsos nas comarcas de Borba, Beruri e Manicor�.

Parece milagre? Experimente-se perguntar ao santo. O ministro credita essa faxina � desembargadora Marinildes Costeira de Mendon�a Lima, corregedora-geral do Tribunal de Justi�a do Amazonas. Foi ela quem comandou a revis�o nos livros dos cart�rios de 17 comarcas, onde segundo pistas levantadas pelo Incra podia haver grilagem. Uns 18 milh�es de hectares, estimava-se.

A desembargadora d� � hist�ria um tom de rotina administrativa. "Eu achei por bem fazer uma corre��o parcial nos livros dos registros de im�veis", diz ela. Pegou a tarefa dez meses atr�s. "Arrecadamos os livros e, de posse do estudo pr�vio do Incra, fizemos o nosso trabalho e cancelamos as matr�culas". Quase se esquece de dizer que visitar cart�rios em 17 munic�pios do Amazonas exige viagens fluviais. Em dois casos, o Minist�rio do Desenvolvimento Agr�rio teve que emprestar � sua equipe um avi�o Bandeirantes.

Ela encontrou munic�pios em que havia mais grilagem do que terras. Em Canutama, a parte cancelada era o qu�druplo do territ�rio. Em Novo Aripuan�, uma das �ltimas comarcas visitadas, a comiss�o encontrou 16 milh�es de hectares da Uni�o, do Estado e de propriet�rios privados empilhados num munic�pio de 6 milh�es de hectares. Como? Responde o juiz Abraham Campos, que participou da empreitada: "A pessoa tinha um t�tulo definitivo de 500 hectares e lavrava uma escritura com medidas muito maiores em outro estado, geralmente Mato Grosso ou Acre, e trazia para registrar na comarca. Com isso, multiplicava suas terras dezenas de vezes. De 500 hectares para 900 mil, 150 mil, por exemplo. Eram opera��es nessa ordem de grandeza".

Seus titulares � que parecem pequenos demais para os golpes que aplicavam. A maioria desses pap�is est� em nome de comerciantes locais, gente que espera usar os latif�ndios escriturais para trocar por d�vidas com o er�rio ou convert�-los em dinheiro vivo com uma boa desapropria��o pelo governo. Um hectare de terra nua costuma ser avaliado em cinco reais. Com mata em cima, vale 35. O neg�cio ali � outro.

Por min�sculos, os personagens at� resvalam pelo processo sem fazer ru�do. S� existe, at� agora, um grileiro na cadeia por conta dessa investiga��o. � o acreano Falb Saraiva de Farias, preso em Manaus pela Pol�cia Federal. Com 16 milh�es de hectares s� no Amazonas, tem uma apar�ncia t�o modesta que Jungmann j� levantou, pelos jornais, a suspeita de que ele seria apenas um testa-de-ferro de narcotraficantes, lavando dinheiro na especula��o imobili�ria. "Aparentemente, � um simpl�rio", resume o procurador do Incra em Manaus.

Os cart�rios s�o c�mplices da grilagem, mas por enquanto tamb�m t�m escapado da corregedoria com escoria��es superficiais. Flagrados na revis�o dos livros, os tabeli�es foram afastados por 60 dias. E a maioria j� voltou � ativa. S� o escriv�o de Camutama ainda est� respondendo a processo. Esse n�o � um caso que se pode avaliar pela dureza das puni��es. Ele � espetacular pelos resultados e exemplar pela simplicidade burocr�tica de seus m�todos.

A desembargadora Marinildes, para come�ar, � uma amazonense de Itacoatiara, com 30 anos de carreira. Foi a primeira ju�za de Manaus.� corregedora h� um ano e meio. No cargo, condecorou-se como v�rios mandados de seguran�a disparados contra ela. A den�ncia do Incra foi mandada ao tribunal no tempo de seu antecessor, o desembargador Daniel Ferreira. Em seu mandato, andou depressa. Fez o trabalho todo na companhia de um desembargador e tr�s ju�zes auxiliares. � capaz de descrever o processo inteiro sem gastar uma palavra com atos de valentia.

"O que acontece � o seguinte: a corregedora resolveu chamar a si esta incumb�ncia e lev�-la � frente. Desde janeiro trabalhamos s� em fun��o disso", diz o juiz Abraham. N�o � tanto tempo assim, para desfiar um novelo jur�dico enrolado por mais de 30 anos. Vem da d�cada de 1970, quando os projetos de estradas na Amaz�nia eram ainda linhas imagin�rias que serviram de eixo � desapropria��o de 100 quil�metros de terras para cada lado de suas margens.

Todas os t�tulos de propriedade nessas �reas foram anulados pelo Tribunal Federal de Recursos em 1978. Mas em 1998 o Minist�rio P�blico descobriu que a decis�o da Justi�a nunca havia chegado aos cart�rios da regi�o. Foi essa a den�ncia que, debulhada pelo Incra, Jungmann levou pessoalmente � corregedora no come�o do ano.

Na Amaz�nia, pelo menos, o ministro trocou a reforma agr�ria pela regulariza��o fundi�ria. O que tem sido um grande neg�cio para o Meio Ambiente. Em julho, ele transferiu 1,7 milh�o de hectares para o sistema nacional de unidades de conserva��o. O pacote deu para fazer um parque nacional, o da Serra da Cutia, em Rond�nia, quatro florestas nacionais e uma reserva extrativista, a do Rio Caut�rio.

Este m�s, entregou ao Minist�rio do Meio Ambiente mais 7,8 milh�es de hectares. Desse novo lote, faz parte a maior j�ia j� anexada �s reservas naturais brasileiras – a gleba Chandless, no Acre. S�o 972 mil hectares de floresta intacta, uma amostra do Pleistoceno onde os naturalistas encontraram a fonte das florestas tropicais que colonizaram a Amaz�nia.

E at� o fim do ano Jungmann ainda tem quase 11 milh�es de hectares para devolver � natureza. Com eles, o pa�s estar� pagando muito antes do prazo e com sobra uma d�vida internacional que parecia condenada ao calote pol�tico. Dez milh�es de hectares � o que o Brasil se comprometera a tirar do caminho da moto-serra na Amaz�nia at� 2004. Um problema para o sucessor do governo Fernando Henrique Cardoso resolvido antes da sucess�o presidencial.

 

com
Tito Montenegro <[EMAIL PROTECTED]>


correspondência para a coluna correspond�ncia <[EMAIL PROTECTED]

 

no.com.br Marcos Sa Correa - A noticia do ano - 27.out.2001

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