Chega de apanhar!
 
>>Esse governo executou um modelo que, em larga medida, veio de fora e n�o funcionou. E o pior � que o Brasil se deixou envolver em algumas negocia��es que apontam na dire��o de uma consolida��o do modelo liberal internacionalista. � o caso da negocia��o da Alca, que n�o conv�m ao Brasil<<
 
>>politicamente est� ancorado em for�as poderosas, internacionais e dom�sticas. No caso das for�as dom�sticas, trata-se daquela minoria da sociedade brasileira que est� conectada aos circuitos estrangeiros de poder e de dinheiro. E essa minoria quer subordinar o resto do Pa�s a esses circuitos. Mas o resto do Pa�s est� cada vez mais descontente, porque esse tipo de pol�tica s� d� certo para as tais minorias.<<
 
24/10/2001
Newsletter ISTO� Online Edi��o 1674
 

O economista Paulo Nogueira Batista Jr., da FGV, diz que � hora de a maioria, empres�rios inclusive, se livrar dos
projetos da minoria


 

Ele prefere manter dist�ncia dos partidos pol�ticos por n�o se identificar plenamente com as lideran�as que circulam por a�. Garante que n�o participar� da elabora��o de nenhum programa de governo para as elei��es de 2002, apesar das especula��es em contr�rio. Cr�tico contundente da pol�tica econ�mica do governo Fernando Henrique desde o per�odo em que as coisas corriam �s mil maravilhas para Malan e sua equipe, afirma que a independ�ncia lhe d� algumas vantagens comparativas, para usar uma express�o frequente em seus artigos. Uma delas: pode elogiar o ministro da Fazenda, justamente agora que a situa��o anda feia, sem correr o risco de levar uma bronca da dire��o do partido. “Foi importante Malan dizer que o governo brasileiro � contra a dolariza��o argentina. � a primeira vez que uma declara��o assim � feita como uma posi��o do governo brasileiro”, diz o economista e professor da Funda��o Get�lio Vargas, Paulo Nogueira Batista Jr, atualmente �s voltas com a revis�o da terceira edi��o de seu mais recente livro: A economia como ela �... O ministro Malan que aproveite a deixa, porque o tom � bem mais �cido quando se trata de analisar sua pol�tica econ�mica. “Esse esquema de poder n�o d� futuro para o Pa�s. D� futuro aos que o executam, isso sim, futuro brilhante muitas vezes, carreira internacional, mas o Brasil n�o pode ser governado eternamente por uma ‘tecnocracia ap�trida’”, dispara. Na entrevista a seguir, o economista fala da alta do d�lar, da crise argentina, analisa a conjuntura mundial e diz que o Brasil tem muito a aprender com a China, a �ndia e a R�ssia.

 

ISTO� – De tempos em tempos, o governo De la R�a amea�a dolarizar a economia argentina. Trata-se apenas de uma forma de pressionar o governo brasileiro ou existe de fato o risco de isso ocorrer?


Paulo Nogueira Batista Jr. – H� o risco real de a economia argentina cair em uma dolariza��o plena, o que seria um desastre para a Argentina, porque uma das raz�es principais para a crise � a estrat�gia de subordina��o econ�mica e monet�ria que a Argentina vem seguindo desde o primeiro governo de Menem, no in�cio dos anos 90. A economia argentina est� semidolarizada, pois o peso � uma moeda rigidamente amarrada ao d�lar. No fundo, querer sair da semidolariza��o atual para a dolariza��o plena � como aumentar a dose de um rem�dio que n�o est� dando certo. � uma proposta absurda. Agora, se a Argentina quiser se afundar de vez, adotando a dolariza��o, que v�, mas n�s n�o temos motivo para ir junto. Por isso, foi importante a declara��o do ministro Malan, dizendo que o governo brasileiro � contra a dolariza��o na Argentina. � a primeira vez que uma declara��o assim � feita como uma posi��o do governo brasileiro

 

Chega de apanhar! - continua��o

Luiz Antonio Cintra

 

ISTO� – A dolariza��o argentina inviabilizaria o Mercosul?
Batista Jr. – N�o sei se inviabilizaria, mas enfraqueceria ainda mais o Mercosul, que j� n�o anda bem das pernas. Por exemplo, tornaria invi�vel qualquer proposta de moeda comum no bloco sul-americano, a menos que o Brasil tamb�m queira dolarizar, o que n�o � o caso.

 

ISTO� – Mas a quest�o l� est� sempre entre dolarizar ou desvalorizar o peso. N�o haveria uma terceira op��o, como a constru��o de uma nova moeda a partir de uma esp�cie de URV (Unidade de Refer�ncia de Valor) argentina?

 

Batista Jr. – N�o propriamente uma URV. A analogia que se pode fazer entre o caso da Argentina e outras experi�ncias de reforma monet�ria � que, em alguns casos, as crises monet�rias foram resolvidas com reformas que envolveram o aproveitamento de solu��es emergenciais que haviam sido criadas em resposta � pr�pria crise da moeda. Por exemplo, no caso do Brasil a resposta que o governo e o sistema financeiro criaram para conviver com a infla��o foi a indexa��o. E a reforma monet�ria bem-sucedida de 1994 envolveu a indexa��o na URV como instrumento de transi��o para uma nova moeda. Existe uma moeda que est� doente: o peso convers�vel, criado por Cavallo dez anos atr�s.

 

 

ISTO� – Qual seria a sa�da?


Batista Jr. – A sa�da que me parece mais interessante leva em conta as moedas paralelas que surgiram nos �ltimos meses. Foram criadas como b�nus, inicialmente emitidos pela Prov�ncia de Buenos Aires, o patac�n, depois v�rias prov�ncias imitaram. Mais recentemente o governo federal, de certa maneira, encampou a id�ia, criando uma esp�cie de patac�n federal. S�o t�tulos com caracter�sticas de moeda. Servem como meio de pagamento e os mais recentes n�o rendem juros. � uma moeda nova que est� sendo introduzida paulatinamente. E isso se deu em resposta a um estrangulamento de liquidez que est� atingindo os governos provinciais e o federal. E essas moedas paralelas t�m algumas das caracter�sticas que deveriam ter a moeda argentina futura. N�o s�o amarradas ao d�lar, a emiss�o n�o est� condicionada � exist�ncia de um lastro em moeda estrangeira. Apontam, portanto, na dire��o de uma nova moeda que poder� ser a sa�da.

 

ISTO� – O real tamb�m � uma moeda doente?

Batista Jr. – O real � uma moeda fr�gil, ainda n�o consolidada, que nasceu de uma reforma monet�ria bem concebida, que foi a quest�o da URV, mas depois foi muito prejudicada pela pol�tica cambial, principalmente de 1994 at� janeiro de 1999. Essa pol�tica fragilizou desnecessariamente a moeda brasileira, que agora est� com um regime cambial mais adequado, flex�vel, por�m carregando todas as vulnerabilidades que os desmandos da pol�tica cambial anterior geraram. A surpresa positiva ficou por conta do pequeno impacto inflacion�rio que a grande desvaloriza��o do real teve at� agora. Que houve impacto n�o h� d�vida, mas � not�vel que o Brasil tenha passado de uma taxa de c�mbio de R$ 1,20 para R$ 2,70, aproximadamente, com uma taxa de infla��o inferior a 10% ao ano.

 

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Luiz Antonio Cintra

ISTO� – E hoje d� para dizer como o d�lar vai se comportar at� o final de 2002?


Batista Jr. – � dif�cil. H� muitos argumentos a indicar que o d�lar continuar� pressionado. Primeiro, o quadro mundial, que j� era dif�cil antes de 11 de setembro, se tornou ainda mais complicado. Passado um m�s e pouco dos atentados, o que se pode dizer? Logo depois dos ataques a Nova York e Washington, era poss�vel dizer que a situa��o mundial iria piorar, mas n�o se sabia exatamente de que forma. Agora, o mais prov�vel � que o efeito dos ataques terroristas seja negativo, duradouro e forte. No m�nimo, at� o ano que vem, em termos de inseguran�a, de tens�o pol�tica e militar, de turbul�ncia... A isso se sobrep�e uma s�rie de coisas que a gente j� sabia: o Brasil vulner�vel, com uma posi��o externa fr�gil por culpa da pol�tica econ�mica brasileira, que foi negligente, inerte, em mat�ria de prote��o da posi��o internacional da economia. Um governo em fim de mandato, fragilizado. E com dificuldades de garantir a continuidade de sua pol�tica econ�mica – o que, na minha opini�o, � bom, j� que essa pol�tica n�o deu certo. Mas, do ponto de vista do d�lar, gera uma intranquilidade nos mercados, que ficam vendo que o Brasil est� diante de uma poss�vel mudan�a pol�tica, o que � sempre uma inc�gnita. Se houver uma ruptura muito grave na Argentina, o Brasil ser� afetado e o d�lar tamb�m. N�o significa que o d�lar n�o cair� de jeito nenhum. Pode acontecer, mas � muito dif�cil que caia muito e nem interessa que isso ocorra. Porque h� o lado positivo da desvaloriza��o cambial, que � o efeito sobre o nosso desequil�brio externo.

 

ISTO� – Mas a desvaloriza��o n�o parece que vai dar conta do problema...

Batista Jr. – N�o, e esse � o lado negativo da hist�ria. Assim como o efeito da desvaloriza��o sobre os pre�os foi menor do que o esperado, ela tamb�m teve um efeito menor do que se esperava sobre o ajuste das contas externas. Outras medidas deveriam ter sido tomadas, al�m da desvaloriza��o, para estimular as exporta��es e tamb�m a substitui��o de importa��es de bens e servi�os. � preciso examinar todas as �reas em que o Brasil pode fazer um esfor�o de exporta��o, setor por setor, assim como as �reas em que o Brasil pode buscar a substitui��o de importa��o por produ��o dom�stica, mobilizando sistematicamente todos os instrumentos de pol�tica econ�mica para tentar reduzir o d�ficit externo. � incr�vel que o Brasil ainda n�o tenha adotado uma postura mais afirmativa para resolver esse problema.

 

ISTO� – Recentemente o governo deu mais poderes ao novo ministro do Desenvolvimento, S�rgio Amaral, para tentar aumentar as exporta��es. J� � poss�vel ver os resultados?

Batista Jr. – Ainda n�o. Est� caminhando para isso, muito tardiamente. Mas o slogan “exportar ou morrer“, por exemplo, n�o � feliz. Porque n�o se trata s� de exportar mais, ser� preciso tamb�m um esfor�o de substitui��o de importa��es, sobretudo agora que o quadro mundial � adverso e n�o ser� t�o f�cil aumentar as exporta��es. O governo precisaria dar a esse problema pelo menos a mesma �nfase que deu ao ajuste fiscal, � gera��o de super�vits prim�rios nas contas p�blicas ou ao sistema de metas de infla��o.

 

ISTO� – Qual o balan�o que o sr. faz do governo Fernando Henrique?

Batista Jr. Esse governo deixou de enfrentar temas fundamentais que ele disse que enfrentaria. Temas como a reforma fiscal e tribut�ria e a quest�o do custo do cr�dito n�o entraram na pauta e s�o fundamentais. Esse governo executou um modelo que, em larga medida, veio de fora e n�o funcionou. E o pior � que o Brasil se deixou envolver em algumas negocia��es que apontam na dire��o de uma consolida��o do modelo liberal internacionalista. � o caso da negocia��o da Alca, que n�o conv�m ao Brasil. � uma coisa melanc�lica porque � um governo que comemora um acordo com o Fundo Monet�rio Internacional, como se isso fosse uma grande realiza��o, quando, na verdade, � uma demonstra��o de grande fragilidade. N�o � � toa que est� com dificuldade de fazer o seu sucessor. Primeiro, o Brasil elegeu o Collor, depois o Fernando Henrique duas vezes, vamos ver se agora o Pa�s aprende que � preciso mudar o rumo. O insucesso da estrat�gia que o Malan personifica � muito vis�vel.

 

ISTO� – Por que esse modelo ainda se sustenta?

Batista Jr.Porque politicamente est� ancorado em for�as poderosas, internacionais e dom�sticas. No caso das for�as dom�sticas, trata-se daquela minoria da sociedade brasileira que est� conectada aos circuitos estrangeiros de poder e de dinheiro. E essa minoria quer subordinar o resto do Pa�s a esses circuitos. Mas o resto do Pa�s est� cada vez mais descontente, porque esse tipo de pol�tica s� d� certo para as tais minorias. N�o d� certo inclusive para grande parte do empresariado nacional. Resta saber se essa maioria brasileira conseguir� se articular politicamente para oferecer uma sa�da que remova esse esquema de poder que n�o d� futuro para o Pa�s. D� futuro aos que o executam, isso sim, futuro brilhante muitas vezes, carreira internacional, mas o Brasil n�o pode ser governado eternamente por uma “tecnocracia ap�trida“, para usar uma express�o do De Gaulle. Por economistas adestrados em universidades estrangeiras, muitas vezes com carreira no Exterior, chamados a gerir a �rea econ�mica do governo de acordo com uma pauta que n�o � a de interesse da maioria da popula��o. E a cada elei��o procura-se convencer essa maioria que est� apanhando que vale a pena continuar tentando na mesma dire��o.

 

ISTO� – A China, a R�ssia e a �ndia continuam crescendo, apesar da conjuntura internacional desfavor�vel. O sr. considera que esses pa�ses podem servir de modelo para o Brasil?

Batista Jr. – Modelo seria exagero, porque a situa��o de cada um desses pa�ses � muito diferente entre si e tamb�m muito diferente da situa��o brasileira. Mas refer�ncia sim. Porque tanto a China como a �ndia, e mais recentemente a R�ssia, se notabilizaram por n�o seguir t�o de perto as recomenda��es do chamado Consenso de Washington, em contraste com o Brasil e, sobretudo, com a Argentina. E n�o � por acaso que esses pa�ses est�o crescendo de forma significativa. Ali�s, a China e a �ndia v�m crescendo a taxas significativas h� alguns anos. A R�ssia passou por uma longa recess�o na era Yeltsin e se recuperou a partir de 1999, contrariando o senso comum, que previu, depois da morat�ria e da desvaloriza��o de 1998, que o pa�s entraria em uma espiral de instabilidade e de colapso financeiro. Essas previs�es n�o se confirmaram, e a R�ssia, a partir de 1999, come�ou a registrar taxas significativas de crescimento, pela primeira vez desde a transi��o para a economia de mercado.

 

ISTO� – A experi�ncia desses outros grandes pa�ses perif�ricos � instrutiva para o Brasil?

Batista Jr. – Sem d�vida. No caso da China e da �ndia, por exemplo, � importante avaliar experi�ncias de controle de capital. Esses dois pa�ses foram muito mais prudentes e restritivos em mat�ria de integra��o com os mercados internacionais de capital do que a maioria dos pa�ses da Am�rica Latina. � uma experi�ncia importante e ajuda a entender por que o desempenho econ�mico desses pa�ses � melhor do que o da maioria das economias latino-americanas.

 

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Chega de Apanhar ! -- entrevista a Paulo Nogueira Batista - IstoE Online edicao 1674 
 http://www.terra.com.br/cgi-bin/index_frame/istoe/1674/1674vermelhas.htm

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