Ol�,

Vale ler, e bem que o Sr. Edson lembrou de Umberto Eco.
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O texto � parte da mensagem 337 de Sociologia Jur�dica
http://groups.yahoo.com/group/sociologiajuridica/-
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3. Sobre o que rolou a respeito do 11 de setembro, gostaria de colocar que,
desde que Durkheim escreveu As Formas Elementares da Vida Religiosa, se sabe
que os seres humanas tendem a querer reduzir a complexidade do mundo a
partir de dicotomias como sagrado/profano, comunista/capitalista, yankee
imperialista/fundamentalista isl�mico. E o pior � que acabam mobilizando
todas as suas energias em torno da defesa de um dos p�los. No momento, estou
empenhado em contribuir para racionalizar um pouco este debate, procurando
provar que h� mais possibilidades neste momento do que a "guerra ao terror",
que j� est� respingando no �mbito penal ao fortalecer o discurso
criminalizante de grupos e movimentos sociais, ou as vaias e os gritos de
"Osama" diante de uma manifesta��o cultural como um solo de guitarra. Para
quem quiser ler alguma coisa nesta linha, reproduzo abaixo um texto do
Umberto Eco publicado hoje (7.10) pela Folha, que me pareceu melhor do que
colocar aqui qualquer id�ia requentada. N�o � sempre que temos acesso �s
palavras de um mestre, para al�m, � claro, das titula��es acad�micas, e Eco
certamente � um deles.
Grande abra�o a todos.
--
Rodrigo Azevedo


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Simplifica��o gera guerras santas
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UMBERTO ECO
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Que algu�m tenha, nos �ltimos dias, pronunciado palavras inoportunas sobre a
superioridade da cultura ocidental � um fato secund�rio. � secund�rio que
algu�m diga algo que considere correto, mas no momento errado, e �
secund�rio que algu�m acredite em algo injusto ou mesmo errado, porque o
mundo est� cheio de gente que acredita em coisas injustas e erradas, at�
mesmo um senhor que se chama Bin Laden, que talvez seja mais rico que o
nosso primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, e tenha estudado em
universidades melhores. O que n�o � secund�rio -e que deve preocupar um
pouco a todos- � que express�es, ou mesmo artigos inteiros e apaixonados que
de algum modo as legitimaram, tornem-se objeto de discuss�o geral, ocupem a
mente dos jovens e talvez os induzam a conclus�es passionais ditadas pela
emo��o do momento. Preocupo-me com os jovens porque a cabe�a dos velhos n�o
se muda mais.


As guerras de religi�es que ensanguentaram o mundo por s�culos nasceram de
ades�es passionais a contraposi��es simplistas, como n�s e os outros, bons e
maus, brancos e negros.


Se a cultura ocidental demonstrou-se fecunda (n�o s� do Iluminismo at� hoje,
mas antes disso, quando o franciscano Roger Bacon nos convidava a aprender
l�nguas porque temos algo a aprender, mesmo dos infi�is), � tamb�m porque
esfor�ou-se para "dissolver", � luz de investiga��o e esp�rito cr�tico,
simplifica��es danosas.


Naturalmente, n�o fez isso sempre, porque tamb�m fazem parte da hist�ria da
cultura ocidental Hitler, que queimava os livros, condenava a arte
"degenerada", matava os pertencentes �s ra�as "inferiores", ou o fascismo,
que me ensinava na escola a recitar "Deus amaldi�oe os ingleses", porque
eram "o povo das cinco refei��es" e, portanto, gulosos, inferiores ao
italiano parco e espartano. Mas s�o os melhores aspectos de nossa cultura
que devemos discutir com os jovens, de qualquer cor, se n�o quisermos que
desabem novas torres nos dias que eles viver�o depois de n�s.


Um elemento de confus�o � que, frequentemente, n�o se consegue compreender a
diferen�a entre a identifica��o com as pr�prias ra�zes, o entendimento de
quem tem outras ra�zes e o julgamento de o que � bem ou mal. Quanto �s
ra�zes, se me perguntassem se preferiria passar os anos de aposentadoria
numa cidadezinha em Monferrato, na majestosa regi�o do parque nacional de
Abruzzo, ou nas doces colinas da regi�o de Siena, escolheria Monferrato. Mas
isso n�o permite que julgue outras regi�es italianas como inferiores ao
Piemonte.


Dessa forma, se, com suas palavras, o primeiro-ministro queria dizer que
prefere viver em Arcore do que em Cabul e tratar-se num hospital milan�s do
que num hospital em Bagd�, eu estaria pronto para aderir � sua opini�o (com
a exce��o de Arcore). E isso mesmo que dissessem que em Bagd� fundaram o
hospital mais equipado do mundo: em Mil�o me sentiria mais em casa, e isso
tamb�m influiria na minha capacidade de recupera��o. As ra�zes podem ser at�
mais amplas do que as regionais ou nacionais. Preferiria viver em Limoges,
por assim dizer, do que em Moscou. Mas como, Moscou n�o � uma cidade
bel�ssima? Certamente, mas em Limoges eu entenderia a l�ngua.


Em suma, cada um se identifica com a cultura em que cresceu, e os casos de
transplante radical, que tamb�m existem, s�o uma minoria. Lawrence da Ar�bia
at� se vestia como os �rabes, mas, no final, voltou para sua pr�pria casa.



Passemos agora ao confronto de civiliza��es, porque � essa a quest�o. O
Ocidente, seja apenas e frequentemente por raz�es de expans�o econ�mica, foi
curioso em rela��o a outras civiliza��es. Muitas vezes as liquidou com
desprezo: os gregos chamavam de b�rbaros, ou seja, de balbuciantes aqueles
que n�o falavam sua l�ngua, e, por isso, era como se aqueles n�o falassem em
absoluto. Mas gregos mais maduros, como os est�icos (talvez porque alguns
fossem de origem fen�cia), bem cedo advertiram que os b�rbaros usavam
palavras diferentes das gregas, mas se referiam aos mesmos pensamentos.


Marco Polo procurou descrever com grande respeito os usos e costumes
chineses; os grandes mestres da tecnologia crist� medieval procuravam fazer
com que fossem traduzidos os textos de fil�sofos, m�dicos e astr�logos
�rabes; os homens do Renascimento at� exageraram na sua tentativa de
recuperar a sabedoria oriental perdida, dos caldeus aos eg�pcios;
Montesquieu procurou entender como um persa poderia ver os franceses; e os
antrop�logos modernos conduziram seus primeiros estudos sobre as rela��es
dos salesianos, que, de fato, aproximavam-se dos Bororos para convert�-los,
mas tamb�m para entender qual era o seu modo de pensar e de viver -talvez
por lembrar que mission�rios de s�culos antes n�o tinham conseguido entender
as civiliza��es amer�ndias e haviam, assim, encorajado seu exterm�nio.


Fiz men��o aos antrop�logos. N�o falo nada de novo se lembro que, da metade
do s�culo 19 em diante, a antropologia cultural desenvolveu-se como
tentativa de sanar o remorso do Ocidente em rela��o aos Outros, e
especialmente �queles Outros que eram considerados selvagens, sociedades sem
hist�ria, povos primitivos. O Ocidente n�o fora sens�vel com os selvagens:
havia-os "descoberto", tentado evangeliz�-los, explor�-los e reduzir muitos
� escravid�o, ali�s, com a ajuda dos �rabes, porque os navios dos escravos
eram descarregados em Nova Orleans por traficantes mu�ulmanos. A
antropologia cultural (que p�de prosperar gra�as � expans�o colonial)
procurava reparar os pecados do colonialismo, mostrando que aquelas culturas
"outras" eram justamente culturas, com suas cren�as, seus ritos, seus
h�bitos, bastante razo�veis no contexto em que haviam se desenvolvido e
absolutamente org�nicas, ou seja, se sustentavam sobre uma l�gica interna. A
tarefa do antrop�logo cultural era a de demonstrar que existiam l�gicas
diferentes da ocidental, que deviam ser levadas a s�rio, n�o desprezadas e
reprimidas.


Isso n�o queria dizer que os antrop�logos, uma vez explicada a l�gica dos
Outros, decidissem viver como eles; pelo contr�rio, terminado seu trabalho
de muitos anos al�m-mar, voltavam para passar uma serena velhice em
Devonshire ou na Picardia. Mas, lendo seus livros, algu�m poderia pensar que
a antropologia cultural defende uma posi��o relativista e que afirma que uma
cultura equivale a outra. N�o me parece. No m�ximo, o antrop�logo dizia que,
enquanto os Outros estivessem em sua pr�pria casa, era preciso respeitar seu
modo de viver.




A verdadeira li��o que se deve tirar da antropologia cultural � que, para
dizer se uma cultura � superior a outra, � preciso fixar par�metros. Uma
coisa � dizer o que � uma cultura, outra � dizer com base em quais
par�metros a julgamos. Uma cultura pode ser descrita de forma aceitavelmente
objetiva: essas pessoas comportam-se assim, cr�em nos esp�ritos ou numa
�nica divindade que deriva de si toda a natureza, unem-se em cl�s de
parentesco segundo essas regras, consideram que seja bonito transpassar o
nariz com an�is (poderia ser uma descri��o da cultura jovem no Ocidente),
consideram impura a carne de porco, circuncidam-se, criam c�es para
coloc�-los na panela em dias festivos ou, como ainda dizem os americanos
sobre os franceses, comem r�s. O antrop�logo obviamente sabe que a
objetividade � sempre posta em crise por tantos fatores. No ano passado,
estive em Dogon (Camar�es) e perguntei a um garotinho se ele era mu�ulmano.
Ele respondeu em franc�s: "N�o, sou animista". Ora, acreditem, um animista
n�o se define animista se n�o tiver pelo menos obtido um diploma na Escola
de Altos Estudos em Ci�ncias Sociais (Paris), e, portanto, a crian�a falava
da pr�pria cultura da forma como a haviam definido os antrop�logos.


Os antrop�logos africanos contavam-me que, quando chega um antrop�logo
europeu, os Dogon, a essa altura muito acostumados, contam-lhe aquilo que
escreveu h� muitos anos um antrop�logo, Griaule (a quem, por�m, segundo
afirmavam os amigos africanos cultos, os informantes ind�genas tinham
contado coisas bastante desconexas que, depois, o antrop�logo reuniu num
sistema fascinante, mas de autenticidade duvidosa). Todavia, descontando
todos os mal-entendidos poss�veis de uma outra cultura, pode-se ter uma
descri��o bastante neutra.




Os par�metros de julgamento s�o outra coisa, dependem de nossas ra�zes, de
nossas prefer�ncias, de nossos h�bitos, de nossas paix�es, de um sistema de
valores nosso. Por exemplo: ser� que julgamos ser um valor prolongar a m�dia
de expectativa de vida de 40 para 80 anos? Pessoalmente acredito que sim,
mas muitos m�sticos poderiam dizer-me que, entre um devasso que viveu 80
anos e s�o Luiz Gonzaga, que viveu 23, o segundo teve uma vida mais plena.
Mas admitamos que o prolongamento da vida seja um valor: se fosse assim, a
medicina e a ci�ncia ocidentais certamente seriam superiores a muitos
saberes e pr�ticas m�dicas.



Acreditamos que o desenvolvimento tecnol�gico, a expans�o dos com�rcios, a
rapidez dos transportes sejam um valor? Muit�ssimos pensam assim e t�m o
direito de julgar superior a nossa civiliza��o tecnol�gica. Mas, justo no
interior do mundo ocidental, h� aqueles que consideram um valor fundamental
uma vida em harmonia com um ambiente n�o corrompido e, por isso, est�o
preparados para renunciar a avi�es, autom�veis e geladeiras para
confeccionar cestas e mover-se a p� de vilarejo em vilarejo, desde que n�o
haja buraco na camada de oz�nio. E, dessa forma, vejam que, para definir uma
cultura como melhor do que a outra, n�o basta descrev�-la (como faz o
antrop�logo). � preciso referir-se a um sistema de valores aos quais
pensamos n�o poder renunciar. S� ent�o podemos dizer que a nossa cultura,
para n�s, � melhor.




Nestes dias, assistiu-se a v�rias defesas de culturas diferentes com base em
par�metros discut�veis. Outro dia, lia em um grande jornal uma carta na qual
se perguntava sarcasticamente como os Pr�mios Nobel v�o s� para os
ocidentais e n�o para os orientais. Deixando de lado que se tratava de um
ignorante que n�o sabia quantos Pr�mios Nobel de Literatura foram para
pessoas de pele negra e grandes escritores isl�micos, deixando de lado que o
Pr�mio Nobel de F�sica de 1979 foi para um paquistan�s que se chamava Abdus
Salam, afirmar que os reconhecimentos pela ci�ncia v�o naturalmente para
quem trabalha no �mbito da ci�ncia ocidental � descobrir a �gua quente,
porque ningu�m jamais colocou em d�vida que a ci�ncia e a tecnologia
ocidentais sejam hoje a vanguarda. A vanguarda de qu�? Da ci�ncia e da
tecnologia. Qu�o absoluto � o par�metro de desenvolvimento tecnol�gico? O
Paquist�o tem a bomba at�mica, e a It�lia, n�o. Por isso n�s somos uma
civiliza��o inferior? Melhor viver em Islamabad do que em Arcore?



Os defensores do di�logo, que se referem ao mundo isl�mico lembrando que ele
deu homens como Avicena (que, ali�s, nasceu em Bukhara, n�o muito distante
do Afeganist�o) e Averr�is -e � uma pena que sejam citados sempre esses
dois, como se fossem os �nicos, e n�o se fale de Al Kindi, Avenpace,
Avicebron, Ibn Tufayl ou daquele grande historiador do s�culo 14 que foi Ibn
Khaldun, que o Ocidente at� mesmo considera o precursor das ci�ncias
sociais. Recordam-nos que os �rabes da Espanha cultivavam a geografia, a
astronomia, a matem�tica e a medicina, enquanto o mundo crist�o estava bem
atr�s. Todas coisas muito verdadeiras, mas esses n�o s�o argumentos, porque,
raciocinando assim, dever-se-ia dizer que Vinci, nobre munic�pio toscano, �
superior a Nova York, porque, em Vinci, nascia Leonardo quando em Manhattan
quatro �ndios sentados no ch�o esperaram mais de 150 anos at� que chegassem
os holandeses para comprar-lhes a pen�nsula inteira por US$ 24. E, ao
contr�rio, sem querer ofender ningu�m, hoje o centro do mundo � Nova York, e
n�o Vinci. As coisas mudam. N�o adianta lembrar que os �rabes da Espanha
eram muito tolerantes com crist�os e judeus, enquanto do nosso lado
erguiam-se os guetos, ou que Saladino, quando reconquistou Jerusal�m, foi
mais misericordioso com os crist�os do que eles haviam sido com os
sarracenos quando a conquistaram. S�o todas coisas exatas, mas, no mundo
isl�mico, existem hoje regimes fundamentalistas e teocr�ticos que os
crist�os n�o toleram, e Bin Laden n�o foi misericordioso com Nova York. A
Bactriana foi um cruzamento de grandes civiliza��es, mas hoje os membros do
Taleban derrubam as est�tuas de Buda a tiros de canh�o. Por outro lado, os
franceses fizeram o massacre da Noite de S�o Bartolomeu, mas isso n�o
autoriza ningu�m a dizer que hoje sejam b�rbaros. N�o incomodemos a
hist�ria, porque ela � uma faca de dois gumes. Os turcos empalavam (e isto �
mau), mas os bizantinos ortodoxos arrancavam os olhos dos parentes
perigosos, e os cat�licos queimaram Giordano Bruno; os piratas sarracenos
faziam coisas bestiais, mas os cors�rios de sua majestade brit�nica, com um
tanto de licen�a, tocavam fogo nas col�nias espanholas no Caribe; Bin Laden
e Saddam Hussein s�o inimigos ferozes da civiliza��o ocidental, mas dentro
da civiliza��o ocidental tivemos senhores que se chamavam Hitler ou St�lin
(St�lin era t�o mau que sempre foi definido como oriental, ainda que tivesse
estudado em um semin�rio e lido Marx).


N�o, o problema dos par�metros n�o se coloca em chave hist�rica, mas, sim,
em chave contempor�nea. Agora, uma das coisas louv�veis das culturas
ocidentais (livres e pluralistas, e esses s�o os valores que consideramos
irrenunci�veis) � que perceberam h� um bom tempo que a mesma pessoa pode ser
levada a manobrar par�metros diferentes e mutualmente contradit�rios sobre
quest�es diferentes. Por exemplo, considera-se um bem o prolongamento da
vida e um mal a polui��o atmosf�rica, mas sabemos bem que, para termos os
laborat�rios onde se estuda o prolongamento da vida, � preciso ter um
sistema de comunica��o e um fornecimento de energia que, possivelmente, por
sua vez, produza polui��o. A cultura ocidental elaborou a capacidade de
desnudar livremente suas pr�prias contradi��es. Pode ser que n�o as resolva,
mas sabe que existem e o diz. No fim das contas, todo o debate a favor e
contra a globaliza��o est� aqui, com exce��o dos fascistas, que destroem
tudo: como � suport�vel uma cota de globaliza��o positiva, evitando os
riscos e as injusti�as da globaliza��o perversa, como se pode prolongar a
vida mesmo dos milh�es de africanos que morrem de Aids (e, ao mesmo tempo,
alongar a nossa) sem aceitar uma economia planet�ria que faz com que os
doentes de Aids morram de fome e com que n�s engulamos comidas contaminadas?


Mas, justamente essa cr�tica dos par�metros, que o Ocidente persegue e
encoraja, nos faz entender como a quest�o dos par�metros � delicada. � justo
e civil proteger o sigilo banc�rio? Muitos consideram que sim. Mas e se esse
sigilo permitir aos terroristas manter seu dinheiro na cidade de Londres? E
ent�o, a defesa da privacidade � um valor positivo ou d�bio? N�s colocamos
nossos par�metros continuamente em discuss�o. O mundo ocidental o faz a tal
ponto que consente que os pr�prios cidad�os recusem como positivo o
par�metro de desenvolvimento tecnol�gico e se tornem budistas ou passem a
viver em comunidades onde n�o se usam pneus, nem mesmo para as carro�as a
cavalo. A escola deve ensinar a analisar e a discutir os par�metros sobre os
quais se sustentam nossas afirma��es passionais.



O problema que a antropologia cultural n�o resolveu � o do que fazer quando
o membro de uma cultura, cujos princ�pios aprendemos at� mesmo a respeitar,
vem viver na nossa casa. Na realidade, a maior parte das rea��es racistas no
Ocidente n�o se deve ao fato de que os animistas vivam em Mali (basta que
fiquem em sua pr�pria casa, diz, de fato, a Liga Norte), mas que os
animistas estejam vivendo conosco. Deixem passar os animistas ou quem quiser
rezar em dire��o a Meca, mas e se quiserem vestir o chador, se quiserem
circuncidar suas meninas, se (como ocorre em certas seitas ocidentais)
recusarem transfus�es de sangue as suas crian�as enfermas, se o �ltimo
canibal da Nova Guin� (admitindo que ainda exista) quiser emigrar para c� e
fazer pelo menos um jovem assado a cada domingo? Em rela��o ao canibal,
estamos todos de acordo, colocamo-lo na cadeia (principalmente porque n�o
s�o 1 milh�o); em rela��o �s meninas que v�o � escola com o chador, n�o vejo
por que transformar isso em uma trag�dia se � assim que elas gostam; em
rela��o � circuncis�o das meninas, por�m, o debate est� aberto (h� at� mesmo
quem seja t�o tolerante a ponto de sugerir que ela seja administrada pelas
unidades sanit�rias locais, assim a higiene est� salva), mas o que fazemos,
por exemplo, com a solicita��o de que mulheres mu�ulmanas possam ser
fotografadas com o v�u no passaporte? Temos leis, iguais para todos, que
estabelecem crit�rios de identifica��o dos cidad�os, e n�o acredito que se
possa ignor�-las. Quando visitei uma mesquita tirei meus sapatos, porque
respeitava as leis e os usos do pa�s anfitri�o. Como resolvemos a quest�o da
foto com v�u? Creio que nesses casos se possa negociar. No fundo, as fotos
dos passaportes s�o sempre pouco fi�is e servem para aquilo que servem. Que
se estudem cart�es magn�ticos que reajam � impress�o digital. Quem quiser
esse tratamento privilegiado, que pague a eventual diferen�a de pre�o. E se,
depois, essas mulheres frequentarem as nossas escolas, poder�o tamb�m vir a
conhecer direitos que n�o acreditavam ter, assim como muitos ocidentais
foram a escolas do Alcor�o e livremente decidiram se tornar mu�ulmanos.
Refletir sobre nossos par�metros tamb�m significa decidir que estamos
preparados para tolerar tudo, mas que certas coisas s�o, para n�s,
intoler�veis.




O Ocidente dedicou recursos e energia para estudar usos e costumes dos
Outros, mas ningu�m nunca consentiu realmente que os Outros estudassem usos
e costumes do Ocidente, a n�o ser nas escolas mantidas pelos brancos
al�m-mar, ou consentindo aos Outros mais ricos que fossem estudar em Oxford
ou em Paris -depois se v� o que acontece, estudam no Ocidente e voltam para
casa para organizar movimentos fundamentalistas, porque sentem-se ligados a
seus compatriotas, sentimento que os estudos n�o podem proporcionar (a
hist�ria �, contudo, velha, e, pela independ�ncia da �ndia, lutaram
intelectuais que tinham estudado com os ingleses).
Antigos viajantes �rabes e chineses tinham estudado um pouco dos pa�ses onde
o sol se p�e, mas s�o coisas sobre as quais conhecemos bem pouco. Quantos
antrop�logos africanos ou chineses vieram estudar no Ocidente para
descrev�-lo n�o s� aos pr�prios concidad�os, mas tamb�m a n�s, ou seja,
contar-nos como eles nos v�em? Existe h� alguns anos uma organiza��o
internacional chamada Transcultura, que luta por uma "antropologia
alternativa". Levou estudiosos africanos que nunca tinham estado no Ocidente
a descrever o interior da Fran�a e a sociedade bolonhesa, e asseguro que,
quando n�s europeus lemos que duas das observa��es mais espantadas diziam
respeito ao fato de os europeus levarem seus cachorros para passear e, �
beira-mar, ficarem nus -bem, digo, o olhar rec�proco come�ou a funcionar de
ambos os lados, e nasceram discuss�es interessantes.



Neste momento, tendo em vista um congresso que acontecer� em Bruxelas
(B�lgica) em novembro, tr�s chineses -um fil�sofo, um antrop�logo e um
artista- est�o terminando sua viagem de Marco Polo ao contr�rio, exceto que,
em vez de se limitarem a escrever seu di�rio, gravam e filmam. No final, n�o
sei o que suas observa��es poder�o explicar aos chineses, mas sei o que
poder�o nos explicar.



Imaginem que fundamentalistas mu�ulmanos sejam convidados a realizar estudos
sobre o fundamentalismo crist�o (desta vez n�o s�o os cat�licos, s�o os
protestantes americanos, mais fan�ticos que um aiatol�, que procuram retirar
das escolas qualquer refer�ncia ao evolucionismo de Charles Darwin).
Bem, creio que o estudo antropol�gico do fundamentalismo dos outros possa
servir para entender melhor a natureza do seu pr�prio. Venham estudar o
nosso conceito de guerra santa (poderia aconselhar muitos escritos
interessantes, mesmo recentes) e talvez vejam com olhar mais cr�tico a id�ia
da guerra santa em sua casa. No fundo, n�s ocidentais refletimos sobre os
limites do nosso pr�prio modo de pensar descrevendo "la pens�e sauvage" (o
pensamento selvagem).




Um dos valores sobre os quais a civiliza��o ocidental fala muito � o da
aceita��o das diferen�as. Teoricamente, estamos todos de acordo: �
politicamente correto dizer em p�blico que algu�m � gay, mas, depois, em
casa, se diz, rindo, que � um viado. Como se faz para ensinar a aceita��o da
diferen�a? A Academie Universelle des Cultures colocou no ar um site onde
est�o sendo elaborados materiais sobre diversos temas (cor, religi�o, usos e
costumes e assim por diante) para os educadores de qualquer pa�s que queiram
ensinar a seus alunos como aceitar aqueles que s�o diferentes deles. Acima
de tudo, decidiu-se n�o dizer mentiras �s crian�as, afirmando que todos
somos iguais. As crian�as percebem muito bem que alguns vizinhos de casa ou
colegas de escola n�o s�o iguais a eles, t�m uma pele de cor diferente, os
olhos puxados, os cabelos mais crespos ou mais lisos, comem coisas
estranhas, n�o fazem a primeira comunh�o. Nem basta dizer que s�o todos
filhos de Deus, porque os animais tamb�m s�o filhos de Deus e ainda assim os
garotos nunca viram uma cabra na frente da sala de aula ensinando
ortografia. Por isso � preciso dizer �s crian�as que os seres humanos s�o
muito diferentes entre si e explicar bem em que s�o diferentes, para depois
mostrar que essa diversidade pode ser uma fonte de riqueza. O professor de
uma cidade italiana deveria ajudar suas crian�as italianas a entender por
que outros garotos pregam uma divindade diferente ou tocam uma m�sica que
n�o parece rock. Naturalmente, o mesmo deve fazer um educador chin�s com as
crian�as chinesas que vivem ao lado de uma comunidade crist�. O passo
seguinte ser� mostrar que h� algo em comum entre a nossa e a sua m�sica, e
que tamb�m o Deus deles recomenda algumas coisas boas.



Obje��es poss�veis: n�s o faremos em Floren�a, mas depois eles o far�o
tamb�m em Cabul? Bem, essa obje��o est� o mais distante poss�vel dos valores
da civiliza��o ocidental. N�s somos de uma civiliza��o pluralista porque
consentimos que, na nossa casa, sejam constru�das mesquitas, e n�o podemos
renunciar a isso s� porque em Cabul colocam na pris�o propagandistas
crist�os. Se o fiz�ssemos, tamb�m nos tornar�amos membros do Taleban. O
par�metro de toler�ncia da diferen�a � certamente um dos mais fortes e menos
discut�veis, e n�s julgamos madura a nossa cultura porque ela sabe tolerar a
diferen�a e julgamos b�rbaros aqueles que pertencem a nossa cultura e n�o a
toleram. Ponto e basta. De outra forma, seria como se decid�ssemos que, se
numa certa �rea do globo ainda existem canibais, n�s vamos com�-los, para
que assim aprendam.



Esperamos que, visto que permitimos mesquitas na nossa casa, um dia haja
igrejas crist�s ou n�o se bombardeiem os Budas na casa deles. Isso se
acreditarmos na bondade de nossos par�metros.



� muita a confus�o sob o c�u. Destes tempos surgem coisas muito curiosas.
Parece que a defesa dos valores do Ocidente se tornou uma bandeira da
direita, enquanto a esquerda �, como sempre, simpatizante isl�mica. Agora,
deixando de lado o fato de que existe uma direita e um catolicismo
partid�rio de um integrismo decididamente terceiro-mundista, simpatizante
dos �rabes e assim por diante, n�o se percebe um fen�meno hist�rico que est�
sob os olhos de todos. A defesa dos valores da ci�ncia, do desenvolvimento
tecnol�gico e da cultura ocidental moderna em geral foi sempre uma
caracter�stica das alas laicas e progressistas. N�o somente, mas todos os
regimes comunistas referiram-se a uma ideologia do progresso tecnol�gico e
cient�fico. O Manifesto Comunista de 1848 come�a com um elogio desabafado da
expans�o burguesa; Marx n�o diz que � preciso inverter a rota e passar ao
modo de produ��o asi�tico, diz apenas que os prolet�rios devem se apropriar
desses valores e desses sucessos.



Contr�rio foi sempre o pensamento reacion�rio (no sentido mais nobre do
termo) -pelo menos come�ando com a nega��o da Revolu��o Francesa-, que se
op�s � ideologia laica do progresso afirmando que se devia voltar aos
valores da Tradi��o. S� alguns grupos neonazistas t�m uma id�ia m�tica do
Ocidente e estariam prontos para degolar os mu�ulmanos em Stonehenge. Os
mais s�rios pensadores da Tradi��o (dentre os quais muitos tamb�m votam na
Alian�a Nacional, p�s-fascista) sempre se voltaram, mais do que para ritos e
mitos dos povos primitivos ou para a li��o budista, para o pr�prio isl�,
como fonte ainda atual de espiritualidade alternativa. Sempre estiveram ali
a nos lembrar que n�o somos superiores, mas, sim, diminu�dos pela ideologia
do progresso, e que devemos ir procurar a verdade entre os m�sticos sufis ou
entre os dervixes dan�antes. E essas coisas n�o as digo eu, sempre as
disseram eles. Basta ir a uma livraria e procurar nas prateleiras corretas.



Nesse sentido, na direita est� se abrindo uma curiosa rachadura. Mas talvez
seja somente um sinal de que, nos momentos de grande desorienta��o (e
certamente vivemos um desses), ningu�m sabe mais de que lado est�.
Entretanto, � justamente nos momentos de desorienta��o que � preciso saber
usar a arma da an�lise e da cr�tica, das nossas supersti��es e das dos
outros. Espero que essas coisas se discutam nas escolas e n�o apenas nas
coletivas de jornalistas.
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Tradu��o de Gustavo Steinberg
La Repubblica
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