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Sociologia Jur�dica �
10.out.2001-10-10
Katie
Arguello Mensagem
em: http://groups.yahoo.com/group/sociologiajuridica/message/377
UFSC Departamento de
Filosofia Selvino
J. Assmann
QUAIS OS VALORES DO
OCIDENTE?
Umberto GALIMBERTI
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GALIMBERTI, Umberto. "Togliamo i paraocchi ai valori dell'Occidente"
("Tiremos as vendas aos valores do Ocidente"). La Repubblica, Roma, 19 de setembro
2001. Tradu��o portuguesa de Selvino Jos� ASSMANN ----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Depois do desabamento das duas torres de Manhattan, o Ocidente
improvisamente redescobriu os seus valores. Reconheceu-os na liberdade e na
democracia, que com fadiga conquistou no curso da sua hist�ria e, compacto,
est�-se dispondo a combater o terrorismo isl�mico, o fundamentalismo e o
fanatismo, identificados como amea�a para o futuro da pr�pria civiliza��o. Redefinido desta forma o quadro, sabe-se
quem � o inimigo e, presumivelmente, o que se deve fazer, o que, ali�s, � aquilo
que sempre se fez quando o inimigo foi identificado. Tal l�gica � t�o velha
quanto o mundo, mas talvez hoje n�o seja mais utiliz�vel, se valer a hip�tese de
que talvez o "inimigo" n�o seja a express�o de uma cultura estranha que se
contrap�e ao Ocidente, mas pode ter sido gerado pela cultura e pela pr�pria
pr�tica do Ocidente, cujos valores s�o a liberdade e a democracia, mas estas s�
como "derivados" de outros valores bem mais fundamentais, que s�o a riqueza
econ�mica e a pot�ncia t�cnica. Se
estas desabam, tamb�m liberdade e democracia ficam � deriva, conforme n�s,
europeus, experimentamos nos tenebrosos anos da experi�ncia nazista.
Atingindo os s�mbolos da
riqueza econ�mica e do aparato t�cnico militar, os terroristas puseram em
evid�ncia quais s�o os verdadeiros fundamentos dos nossos valores, que, uma vez
abalados, inevitavelmente reduzir�o para n�s os espa�os de liberdade, as margens
de seguran�a e, esperemos que n�o
sejam tamb�m os espa�os de democracia. Nesta altura, devemos come�ar a pensar
n�o tanto na maneira de
identificar o inimigo que, fora do Ocidente, nos amea�a, mas muito mais no nexo que torna nossa liberdade e nossa democracia
"dependentes" do bem-estar econ�mico, cujo crescimento, que parece ser sem
limites, n�o importa �s custas de quem, gera inevitavelmente o inimigo. E como �
poss�vel combater um inimigo gerado pelas pr�prias pr�ticas econ�micas que est�o
na raiz da nossa liberdade e da nossa democracia, ou seja, dos valores nos quais
o Ocidente se reconhece? Aqui o c�rculo vicioso se torna provocante, mas tamb�m tr�gico, porque l� onde n�s geramos o inimigo, a contraposi��o amigo/inimigo, sobre a qual at� agora marchou a hist�ria, ficou anulada, e reassumir este esquema na luta contra o terrorismo eq�ivale a n�o ter compreendido que as pr�ticas econ�micas, que nos consentem liberdade e democracia, s�o as mesmas que noutro lugar geram, quando n�o a fome, a doen�a e a morte, no m�nimo a escravid�o e a rebeli�o. Neste assunto � que o Ocidente deve come�ar a pensar. A
pensar se de fato pode manter-se
um sistema no qual 800 milh�es de ocidentais disp�em
de 83% da renda mundial. Objetar-se-� que n�o h� nenhuma rela��o causal entre a
pobreza no mundo e o gesto
terrorista, pois quem n�o tem sequer o dinheiro para comer n�o ter� a
possibilidade de realizar atos que exigem muito dinheiro, ass�duo treinamento e
not�vel compet�ncia t�cnica.
Certamente n�o h� nenhum nexo causal. Contudo, acontece que a hist�ria,
diversamente do que ocorre nos artefatos mec�nicos, nunca procedeu atrav�s de causas e
efeitos, mas sim atrav�s de esperan�as de vida e margens de futuro. Ora,
quando os Estados Unidos e a URSS dividiam entre si a influ�ncia sobre os povos
da terra, para estes povos havia uma margem de esperan�a a jogar explorando a
conflitualidade entre norte-americanos e sovi�ticos. Agora que j� n�o existe a
Uni�o Sovi�tica, a todos os povos que n�o pertencem ao
primeiro mundo n�o sobra outro futuro sen�o o de suportar as condi��es postas
pelo primeiro mundo, que � "primeiro" s�, porque e enquanto persegue o seu
"crescimento" econ�mico sem p�r limite algum para isso. Aqui as margens de
futuro se tornam estreitas, e eliminar o futuro a uma quantidade enorme de
humanidade que habita a Am�rica Latina, a �frica e a �sia sem prever uma
resposta desesperada - e tr�gica para todos -, conforme pode ser a dos povos sem
esperan�a, sem d�vida � coisa de
ing�nuos ou de preconceituosos. Os povos sem futuro, se n�o podem obter mais do
que aquilo que a l�gica do primeiro mundo lhes reserva, n�o t�m a possibilidade
de desencadear uma guerra ao primeiro mundo. E ent�o, se n�o escolherem o
caminho da resigna��o, setores e movimentos podem, infelizmente, pensar na arma
execr�vel do terrorismo como caminho para reivindicar um sentido para sua
exist�ncia, dado que n�o t�m chance de p�r em campo uma for�a militar e, ao
mesmo tempo, considerando insignificante e indigna uma vida decidida por outros.
Tentemos interpretar o
projeto homicida dos kamikazes. Os kamikazes que devem morrer, sabem que n�o
ver�o o futuro que, com seu gesto, esperam
inaugurar, e assim, se v�o voluntariamente ao
encontro da morte � porque consideram que a pr�pria vida � uma n�o-vida, j� �
morte. Prestemos aten��o ao esquema simplista segundo o qual se considera
fan�tico a quem � levado a acreditar em para�so que n�o existe, pois se isso
puder ser verdadeiro parcialmente para o jovem palestino que se faz saltar pelos
ares em territ�rio israelense, �
muito improv�vel para pilotos treinados com alta compet�ncia t�cnica, como se
pode verificar entre n�s no Ocidente. A viol�ncia pode ser "elegante" como
aquela ocidental que se expressa com a sua f�rrea l�gica econ�mica e, quando � o
caso, com as bombas inteligentes que muitas vezes erram seu alvo, ou pode ser
"rude" e "valente", como aquela terrorista que faz v�timas inocentes, mas n�o
menos inocentes do que as crian�as que h� dez anos continuam morrendo no Iraque
devido ao embargo ocidental. Mas a diferen�a entre a "eleg�ncia" e a "rudeza" �
um verdadeira diferen�a? Ou n�o � mais
correto considerar que, quando se regulam as rela��es com o resto do mundo menos
afortunado do que n�s, e em parte por nossa causa, em termos de "viol�ncia" (seja ela
"elegante", como acontece em um r�gido condicionamento econ�mico ou numa guerra
expl�cita, e por uma causa que, a partir dos interesses que a promovem, �
percebida pelos ocidentais como "justa"), podemos de fato pensar que a
resposta n�o seja t�o violenta com
os meios que os pobres t�m � sua disposi��o? A globaliza��o
efetuada apenas a partir dos
interesses econ�micos do Ocidente corre o risco de gerar o terrorismo, e o nosso s�culo
ser� o s�culo do terrorismo se n�o introduzirmos no processo de globaliza��o,
al�m do crit�rio econ�mico, outros crit�rios como a emancipa��o dos povos, a sua
acultura��o, a �gua, o alimento e os rem�dios para a sua sede, a sua fome, as
suas doen�as e, em suma, um pouco de futuro para quem n�o o v� nas condi��es
postas por n�s, ocidentais. Pois
quem � sem futuro pode suicidar-se n�o por depress�o, como n�s ocidentais, mas
por um projeto - execr�vel e homicida - que nem sequer poder� ver
realizado. Esta diferen�a antropol�gica t�o radical deve ser tomada em alta
considera��o porque nos diz que os homens e as culturas n�o s�o todos iguais, e
a uniformidade antropol�gica, a que tende o processo de globaliza��o, se acaso
devesse ser um valor funcional �
t�cnica e � economia do Ocidente, n�o �, por�m, algo que se realiza de hoje para
amanh�. Ali�s, espero que isso nunca se realize. Depois da
trag�dia de Manhattan, o Senado norte-americano entoou "Deus salve a Am�rica". Mas o Deus que
os norte-americanos invocavam para a sua prote��o � o mesmo Deus que os
mu�ulmanos invocam. Assim, se todos s�o filhos do mesmo Deus, n�o � certamente a
religi�o, ou o fanatismo que a religi�o pode acender, que pode servir t�o tragicamente de
contraponto. Deve haver alguma outra raz�o, n�o religiosa, n�o fan�tica, n�o
louca, portanto
"racional" na base desta contraposi��o. Toca,
pois, a n�s, ocidentais, que fizemos da conquista da racionalidade a nossa
prerrogativa, ir buscar a "raz�o", e quem sabe tomar
em considera��o a seguinte hip�tese: se n�o � exatamente a nossa "pr�tica
econ�mica", que nos garante os valores de liberdade e democracia, que
acaba gerando os nossos "inimigos", acendendo assim aquele c�rculo vicioso que
anula pela primeira vez na hist�ria a antiga l�gica amigo/inimigo, porque, pela
primeira vez na hist�ria, o inimigo n�o est� fora de n�s, � nossa frente,
separado de n�s, mas nasce como efeito das condi��es de vida que fomos capazes
de garantir exclusivamente para n�s mesmos.
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