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Um ato de barb�rie Por Miguel Urbano Rodrigues O in�cio do bombardeamento do territ�rio afeg�o � o primeiro ato de uma tr�gica farsa. Bush n�o errou ao afirmar que esta guerra seria diferente de todas as anteriores. Os m�sseis que come�aram a explodir sobre as ru�nas das desmanteladas e paup�rrimas cidades do Afeganist�o atingem popula��es totalmente alheias aos atos terroristas que destru�ram as torres de Manhattan e uma ala do Pent�gono. A um crime monstruoso praticado
por um inimigo desconhecido, o sistema de poder dos EUA responde com uma
agress�o tamb�m monstruosa e irracional contra todo um povo. Do c�u chovem
bombas; depois os avi�es que carregam a morte lan�am alimentos e
rem�dios...
Uma campanha de mentiras de propor��es mundiais acompanha com estrondo o caminhar da vingan�a cega. � falso que os bombardeamentos
sejam �cir�rgicos�. Os m�sseis Tomawhac, disparados do �ndico, a quase dois mil
quil�metros de dist�ncia, n�o podem atingir alvos com precis�o. As cargas
explosivas lan�adas dos bombardeiros pesados sobre as cidades afeg�s matam �
toa.
O ex�rcito dos Taleban � um
mito. Os tanques e canh�es, os avi�es e helic�pteros que Washington diz visar
prioritariamente s�o quase amontoados de sucata, armas obsoletas que os
sovi�ticos deixaram ao retirarem-se do pa�s h� 13 anos. Apenas os m�sseis
oferecidos pela CIA aos advers�rios da Revolu��o Afeg� constituem amea�a
potencial para os agressores norte-americanos e
brit�nicos.
� falso que a chamada Alian�a
do Norte, cuja ajuda parece encantar Washington, seja uma organiza��o de for�as
democr�ticas. Trata-se de uma heterog�nea coliga��o de tribos uzbeques (de
origem turca) e tadjiques (de origem iraniana, indo-europ�ia), de l�nguas e
culturas diferentes. Esse bando de criminosos est� t�o manchado de sangue como
os repugnantes fan�ticos Taleban. Ap�s a tomada de Kunduz, no ano 88, vi na
Cordilheira mulheres com os seios decepados por essa esc�ria humana e com os
rostos desfigurados por �cido sulf�rico. Haviam sido mutiladas pelas hordas da
Hesbe-i-Islami e da Jamiat-e-Islami por n�o usarem o tchadari, exibindo o
rosto.
O disparate cultural e
hist�rico �, acrescentarei, parte da campanha midi�tica comandada pela
desinforma��o que chega dos EUA. Apenas tr�s exemplos. Bagram, apresentada como
alvo militar priorit�rio, � o polo de uma �rea que encerra fabulosos tesouros
arqueol�gicos da desaparecida civiliza��o Kuchana que foi ponte entre Roma e a
China no s�culo III.
Kandahar, a Alexandria
Arachosia dos Maced�nios, nunca desempenhou a fun��o de capital religiosa do
pa�s. Foi, sim, a primeira capital do Estado afeg�o, quando este foi fundado no
s�culo XVIII por Ahmad Sha Durrani, criador de um imp�rio que ent�o ia da �ndia
� P�rsia, do atual Uzbequist�o ao Sinkiang chin�s. Herat, cujo bombardeamento �
anunciado alegremente, est� semeada de monumentos maravilhosos e foi, durante
s�culos, uma das mais belas e civilizadas cidades do
mundo.
� �til recordar essas
evid�ncias, porque o hoje atrasad�ssimo Afeganist�o desempenhou durante dois
mil�nios um papel important�ssimo na hist�ria, como ber�o ou terra de
implanta��o de algumas das grandes civiliza��es.
Protestar contra a guerra
criminosa desencadeada contra as suas popula��es pelo sistema imperial dos EUA
(com a cumplicidade ativa do Reino Unido e mais distanciada dos demais Estados
ricos da Terra) � um dever para quantos continuam a defender nesta crise
planet�ria valores que permitiram o avan�o do homem rumo a um futuro compat�vel
com as suas aspira��es e melhores potencialidades. Esta guerra norte-americana �
um ato de barb�rie.
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