O mundo contempor�neo exige que pensemos mas priva-nos frequentemente das condi��es para pensar

Boaventura Sousa Santos

Porqu� Pensar?
Publicado na Vis�o em 23 de Agosto de 2001
 


O mundo contempor�neo exige que pensemos mas priva-nos frequentemente das condi��es para pensar.

Recentemente, os cientistas sociais do CEDEC, um prestigiado centro de investiga��o sociol�gica do Brasil, propuseram-me que, juntamente com eles, tentasse responder � pergunta: porqu� pensar? O interesse espec�fico deles era encontrar raz�es e caminhos para pensar o Brasil mas queriam encontr�-los a partir de uma reflex�o mais geral sobre porqu� e como pensar as sociedades dos nossos dias e a nossa exist�ncia pessoal nelas. A pergunta soa necessariamente estranha num tempo em que tanto se fala da sociedade de informa��o e do conhecimento, a qual conota o triunfo do esfor�o mental sobre o esfor�o f�sico, num tempo que se diz auto-reflexivo, em que os indiv�duos se assumem cada vez mais como sujeitos aut�nomos, senhores das suas escolhas, capazes de usar a reflex�o para alterarem, tanto os processos de trabalho, como as traject�rias de vida. A verdade � que, num tempo que parece exigir o pensamento activo de todos n�s, s�o muitos, talvez a grande maioria da popula��o mundial, que n�o t�m condi��es para pensar pelas mais variadas raz�es: porque est�o demasiado subnutridos para terem sequer energia para pensar; porque vivem um quotidiano t�o cansativo e absorvente que n�o lhes deixa tempo para pensar; porque na �nsia de fruir a sociedade de consumo, pensam que parar para pensar seria um desperd�cio; porque acreditam que os meios de comunica��o social e as elites pol�ticas e culturais pensam por eles tudo o que h� a pensar. Por isso, aceitei o repto e eis algumas das respostas que propus para a pergunta: porqu� pensar?

 

Primeira resposta: porque as condi��es que destroem a capacidade ou a disponibilidade de pensar destroem tamb�m a vida, a qualidade de vida e sobretudo a felicidade. Vivemos num mundo que tanto esgota as pessoas pelo trabalho como pela falta dele. Crescentemente, o bem estar m�nimo � obtido � custa de fortes doses de medicaliza��o.

 

Segunda resposta: porque n�o podemos confiar em quem pensa por n�s. Nunca como hoje o pensamento p�blico esteve t�o ligado a interesses minorit�rios mas poderosos que avaliam a sociedade — quer pelo que mostram dela, quer pelo que ocultam — em fun��o dos benef�cios que podem colher dela. Promovem o conformismo (a aceita��o do que existe), o situacionismo (a celebra��o do que existe) e o cinismo (o conformismo com m� consci�ncia).

 

Terceira resposta: porque nem tudo est� pensado. O poss�vel, por ter mais energia, � mais rico que o real. Por isso, n�o � leg�timo reduzir o real ao que existe. H� alternativas e o importante � que o pensar que os permite ver seja o mesmo que os permite avaliar. S� assim poderemos distinguir as boas das m�s alternativas.

 

Quarta resposta: porque pensar n�o � tudo. A lucidez das nossas ac��es pressup�e que elas sejam pensadas, mas se forem s� pensadas nunca ser�o ac��es. � preciso agir e sentir porque o pensamento s� � �til a quem n�o se fica pelo pensar. Aqueles que se arrogam a s� pensar, passam a vida a espalhar a morte no que escrevem, a mesma morte que est� dentro deles.

 

Quinta resposta: porque as ac��es l�cidas n�o conduzem sempre a resultados l�cidos. Quantas causas nobres terminaram em crimes hediondos? De quantas boas ac��es est� o inferno cheio? O lado mais positivo do mundo em que vivemos reside em que aqueles que o querem mudar para melhor n�o dispensam ter raz�es para o que fazem e para o que � feito em nome deles.

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