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-----Mensagem original-----
De: Giovanni R. Martins <[EMAIL PROTECTED]>
Para: Recipient list suppressed <Recipient list suppressed>
Data: Quinta-feira, 9 de Setembro de 1999 14:25
Assunto: A Crise Financeira tem Jeito? [2]
A CRISE FINANCEIRA TEM JEITO?
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- Ladislau Dowbor
- Parte 2/3 -
Nao ha nada de muito misterioso nisto. Herman Daly resumiu o
problema de forma simples ao dizer que "competition is
self-eliminating": "A competicao eh o que mantem os lucros em nivel
normal, e os recursos alocados de forma apropriada. Mas a competicao
envolve ganhar e perder, e ambos tem a tendencia a serem
cumulativos. Os ganhadores do ano passado encontrarao maior
facilidade para serem os ganhadores deste ano. Os ganhadores tendem
a crescer, e os perdedores a desaparecer. Com o tempo muitas firmas
se tornam poucas firmas, a competicao sofre erosao, e o poder de
monopolio aumenta."
O que eh realmente este novo capitalismo de mega-empresas onde o
mecanismo de mercado eh cada vez mais anemico? E o que ha de mercado
na fortuna pessoal de 60 bilhoes de dolares de Bill Gates? Nao ha
nenhuma opcao de mercado da minha parte quando utilizo o
microsoft-word, pois sou forcado a utilizar o programa que os outros
usam, o programa dominante, sob pena de nao me comunicar. Os dolares
iniciais de Bill Gates resultaram sem duvida de criatividade e
iniciativa, inclusive a de se lancar contra o gigante IBM, mas os 60
bilhoes hoje se renovam atraves de uma cobranca de pedagio que tem
origem na sua posicao dominante, e nao em novas contribuicoes
produtivas.
A posicao dominante hoje se constroi, no caso das mega-empresas
mundiais, atraves de impressionantes esforcos de alavancagem
financeira, da articulacao de apoios de politicos, de recurso a
grandes empresas de servicos juridicos - eh a guerra juridica com a
Apple que permitiu a Gates copiar o que hoje eh o Windows, e nao a
concorrencia de mercado -, e de gigantescas campanhas de midia.
Eh importante rever hoje, na linha destes novos mecanismos, o que ha
por tras desta impressionante simplificacao da realidade que eh o
conceito de "forcas do mercado". Esta expressao nos da a impressao
de que haveria um mecanismo impessoal e objetivo, uma lei a que
todos estariam submetidos. Hoje as mega-empresas mundiais fazem a
lei, as forcas de mercado tem nome e endereco, e a mao se tornou
perfeitamente visivel.
O novo papel da midia e da comunicacao em geral eh exemplar. O
norteamericano medio le provavelmente alguns poucos livros durante a
sua vida, mas a avaliacao eh de que assiste a uma media de 150 mil
mensagens publicitarias na televisao. Segundo o Relatorio sobre o
Desenvolvimento Humano 1998, das Nacoes Unidas, "as estimativas mais
conservadoras situam o investimento global em publicidade na casa de
435 bilhoes de dolares". Este bombardeamento ideologico,
naturalmente, pouco tem a ver com informacao util sobre os produtos:
trata-se de gerar a presenca mental da marca, de criar atitudes
consumistas e de assegurar a formacao de uma cultura centrada na
aceitacao passiva do mundo tal como eh, organizado por forcas
externas que nao dependem de nos, como realidade natural. Trata-se
de um mundo que nao so domina, mas domina os instrumentos de
informacao que sobre ele temos. E aproveita este dominio para nos
informar que nao esta nos manipulando, porque nos, o cliente, somos
o rei. Com o mesmo argumento, ha pouco tempo, se colocava a mulher
no fogao e no tanque, para ser a rainha.
Ate um tempo atras, consideravamos os meios de comunicacao como
passivos em termos de mecanismos economicos: refletiam a realidade,
ou sobre ela circulavam informacao. Hoje os instrumentos de
dominacao cultural se tornaram centrais na propria reproducao do
modelo economico. Quando compramos um Cebion por 8 reais, pagando
pela caixinha, pelas borbulhas coloridas e pela imagem dezenas de
vezes a mais do que custam os miligramas de acido ascorbico
(vitamina C) que o produto contem, houve uma inversao profunda de
todo o sistema. Eh a imagem que pagamos, ou, como estas empresas o
definem, pagamos os "intangiveis". A Nike, explicando como um tenis
cuja producao fisica custou menos de 10 dolares eh vendido a 100
dolares, responde candidamente: "nos nao vendemos tenis, vendemos
emocoes." O principal elemento gerador de lucro ja nao eh o produto,
mas o feito de dominacao cultural conseguido junto ao consumidor.
Quanto vale uma empresa que nao tem instalacoes significativas, nem
fabricas, nem estoques, mas formou na cabeca das pessoas o
sentimento de que terao a altura e a potencia de um Michael Jordan
se calcarem o mesmo tenis? A empresa vale, nos dizem cada vez mais,
o que as pessoas acham que vale. E vendem-se acoes no valor
correspondente. Formam-se assim fortunas em acoes baseadas sobre
valores imaginarios. A posse de acoes, por sua vez, nos confere um
status de rico, de bem sucedido. As pessoas compram acoes, que se
valorizam. Enquanto vai entrando dinheiro novo de novos poupadores,
o estoque de recursos aplicados aumenta, permitindo remuneracao, o
que aumenta as cotacoes e o volume global do que chamamos
curiosamente de papeis, que as pessoas vao acumulando como se fossem
efetivamente riqueza.
Ate onde pode ir este processo de levitacao? Vimos mais acima que
enquanto as trocas reais de bens e servicos estao situadas na faixa
de 25 bilhoes de dolares por dia, as trocas especulativas atingem
1,5 trilhoes, 60 vezes mais. A tecnologia transformou os papeis em
sinais magneticos, que se deslocam na velocidade da luz, e podem ser
aplicados instantaneamente em qualquer praca financeira do planeta.
Em outros termos, quando os valores eram representados por ouro,
havia limites na relacao entre a producao e a sua representacao
financeira, pois havia limites fisicos de disponibilidade de ouro.
Quando passamos para o dolar lastreado em dolar, havia o lastro das
disponibilidades de Fort Knox. Com a desvinculacao do dolar
relativamente ao seu lastro, em 1971, ficou apenas o papel, e a
confianca que o publico quisesse nele depositar. Hoje, nem o papel
eh necessario, e uma pessoa eh rica pelos sinais magneticos
inscritos em diversas maquinas no planeta.
Ate ha um certo tempo atras, podiamos dizer que estes sinais
magneticos tinham o lastro de um produto: o americano que tem
dinheiro na conta sabe que ha uma contrapartida em produto, o PIB
americano, que este dinheiro podera comprar. As grandes empresas de
especulacao financeira, os chamados investidores institucionais, no
entanto, acharam ridiculo limitar o volume de papeis a sua base em
produtos. Porque nao deixar um grande comerciante de cafe da
Tanzania, por exemplo, vender o cafe que ira comprar no ano
seguinte, na proxima safra, desde ja, com um pequeno desagio?
Passa-se assim a comercializar o que sequer ainda produzimos, e
frequentemente o que sequer ainda foi plantado. Literalmente,
passamos a trocar papeis sobre bens que imaginamos que existirao no
futuro, gerando a imensa gama dos chamados derivativos. Nas reunioes
do Senado americano, em setembro de 1998, com Alan Greenspan e
Robert Rubin, respectivamente chefe do banco central norte-americano
e diretor do tesouro, a cifra estimada de recursos aplicados so nos
derivativos era de 30 trilhoes de dolares, mais do que a totalidade
do PIB mundial.
Evidentemente, nao ha limite, pois enquanto as pessoas estiverem
dispostas a acreditar que a producao continuara a se expandir, e a
confiar em papeis que representam uma riqueza que ainda nao
produzimos, o sistema se mantem. A imagem que podemos utilizar eh a
seguinte: se numa sala de conferencias uma pessoa vende, por
cinquenta centavos cada, vales para tomar um cafezinho, podemos
estimar que nem todos irao imediatamente trocar o seu vale por um
cafe. Vendo isto, o vendedor comeca a emitir mais vales do que o
cafe disponivel na casa, esperando que no futuro havera mais cafe.
Seguramente, o sistema pode funcionar. E se as pessoas acharem que
vale a pena estocar no bolso dezenas de vales para cafezinho, para
uso futuro, o vendedor podera passar a imprimir grandes volumes de
vales, despreocupando-se, ja que esta na alta financa, do ridiculo
cafezinho. O problema eh que se alguns comecarem a se interessar em
tomar concretamente o cafe, e descobrirem que ha muito mais vales do
que cafe disponivel, havera uma corrida para ver quem consegue
trocar o seu vale pelo produto concreto antes que o valor do vale
despenque. Nas bolsa, quando o valor do vale despenca mais de 10%,
suspende-se temporariamente o cafezinho.
No vale esta escrito "vale um cafe". O vendedor sabe que quanto mais
aumenta a diferenca entre o numero de cafes disponiveis e o numero
de vales emitidos, mais a operacao se torna arriscada. No entanto,
como ve que ha outros vendedores de vales que continuam vendendo, e
que o publico ainda nao esticou a sua credulidade ate o limite
maximo, oferecera mais papeis, pois de qualquer maneira o mercado se
expandira independentemente dele. E se expande porque nao ha
limites, nao ha mecanismo regulador.
(Aguarde a Parte 3/3)
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