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From: Giovanni R. Martins <[EMAIL PROTECTED]>
To: <Recipient list suppressed>
Sent: Wednesday, January 12, 2000 2:00 PM
Subject: A Banaliza��o da Mis�ria


Correio Braziliense, 09 de janeiro de 2000.


                     A BANALIZA��O DA MIS�RIA
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                                            - Emir Sader

Na �ltima semana do ano, o Jornal Nacional da TV Globo apresentou
uma reportagem sobre crian�as trabalhando nas planta��es de baba�u
no Maranh�o.

Cenas infelizmente usuais na nossa realidade, menos na m�dia, por�m,
dada a banaliza��o da mis�ria que acomete o pa�s, tornam-se cenas
relativamente costumeiras tamb�m na m�dia.

Trinta mil crian�as trabalhando nas piores condi��es poss�veis. Nas
imagens exibidas, sentadas em torno de suas m�es, sujeitavam fac�es
com a perna, enquanto golpeavam a sua l�mina com as m�os at� quebrar
o baba�u. A m�e de uma delas dizia que as que estudam chegam ao
quarto ano e seguem repetindo-o porque n�o existe, nas proximidades,
escola para seguirem os estudos.

Na cena final, um menino de tr�s anos (sic), interrompendo seu
trabalho, reclamava, chorando: "M�e, eu quero ir embora". Antes,
perguntada sobre o que queria, uma menina sequer diz que gostaria de
estudar ou de brincar, mas de trabalhar em algo menos duro.
Relatados os sal�rios de fome, esses explorados, considerando-se o
or�amento miser�vel das fam�lias, representam uma porcentagem n�o
desprez�vel na sua estrat�gia de sobreviv�ncia.

Cenas pungentes, diante das quais um desavisado poderia supor que
ningu�m menos que o presidente da Rep�blica interviria no mesmo dia,
diante da escandalosa e urgente situa��o. Que, se n�o se dispusesse
a mudar radicalmente a condi��o das trinta mil crian�as de que o
Brasil soubera a exist�ncia, pelo menos tomasse medidas em rela��o
�quelas cujos rostos haviam sido incorporados obrigatoriamente �
mente dos que ainda mant�m viva a capacidade de se indignar.

Ou que, pelo menos, o seu ministro da Educa��o chamaria a imprensa
para anunciar as provid�ncias que permitissem tirar aquelas crian�as
do trabalho e lev�-las � escola, imediatamente.

Ou ent�o que o ministro da Sa�de, indignado, anunciasse medidas que
dessem um m�nimo de exist�ncia sanitariamente digna para aquelas
crian�as, do mesmo pa�s que os filhos e netos dele.

Ou que o secret�rio de Direitos Humanos corresse a fazer um
pronunciamento sobre aquela brutal viola��o dos direitos elementares
dos seres mais fragilizados da nossa sociedade, antes que organismos
internacionais publicassem mais um relat�rio condenando a situa��o
do trabalho infantil e escravo no Brasil.

Ou que o ministro da Fazenda afirmasse que, apesar das dificuldades
por que passa o pa�s, se dispensaria a compra de alguns guardanapos
das toalhas de linho compradas para o enxoval presidencial, para
atender �queles meninos, apesar das incomodidades que isso poderia
provocar no Pal�cio do Planalto.

Ou que a encarregada do Comunidade Solid�ria anunciasse que algum
programa, justamente para aten��o daqueles meninos, estava no prelo,
na depend�ncia da parceria de algum empres�rio do setor financeiro.

Ou que o presidente do Banco Central anunciasse que, apesar da
situa��o das crian�as do Maranh�o, n�o se modificaria o vi�s da taxa
de juros, com o que, confirmando a previs�o do ministro da Fazenda,
l� por 2015, - quando aquela menina de tr�s anos, se sobrevivente,
estaria chegando � maioridade - a mis�ria seria reduzida pela
metade, se nenhuma outra surpresa externa ocorresse como, por
exemplo, que a R�ssia entrasse em fal�ncia, que a Argentina tivesse
que decretar morat�ria ou que a situa��o de ingovernabilidade n�o
fosse resolvida na Col�mbia.

Ou ainda, que o ministro de Rela��es Exteriores se apressasse a
prevenir as grandes pot�ncias e entidades internacionais que se
tratava de um fen�meno em extin��o no Brasil, que n�o poderia
provocar sua caracteriza��o como doping.

Ou que o ministro de Ci�ncia e Tecnologia viesse imediatamente dizer
que aquela situa��o vergonhosa s� era poss�vel devido � baixa
qualifica��o da m�o-de-obra do pa�s, resultado da entrada
precipitada daquelas crian�as no mercado de trabalho, respons�veis,
assim, pelo custo Brasil, que, logo que as reformas fossem aprovadas
no Congresso, seria resolvido.

Ou que pelo menos o presidente do Banco Mundial afirmasse que a
culpa n�o � deles, mas dos governos que aplicaram as pol�ticas do
FMI e da entidade que ele dirige ao p� da letra, sem levar em conta
as particularidades de regi�es como o Maranh�o.

Ou que a governadora do Maranh�o, sens�vel como toda mulher que
adere � vida pol�tica, viesse imediatamente deslindar
responsabilidades, tanto de seu governo, como da sua fam�lia e, em
particular de seu pai, que sempre fizeram tudo que estava a seu
alcance para superar situa��es infames como aquela.

N�o aconteceu nada, nem sequer no reino impune das palavras. Em
suma, a banaliza��o da mis�ria est� decretada neste pa�s, assumida
oficialmente pelo presidente da Rep�blica, desde que afirmou - sem
conseq��ncias penais -,que h� milh�es de "inimpreg�veis" neste pa�s,
diante dos quais ele, pelo menos, diz n�o ter nada a fazer.

Al�m disso, o presidente estava ocupado organizando o convescote no
Forte de Copacabana, de onde assistiria ao espet�culo pirot�cnico da
passagem do ano, em meio a ministros, embaixadores, governadores e
esposas. Desligado do Brasil real, o presidente talvez sequer tenha
consci�ncia dos motivos que o tornaram objeto da maior vaia dirigida
a um governante na hist�ria do Brasil: Copacabana vaia em coro,
maravilhosamente ocupada por tr�s milh�es de pessoas, enquanto no
palanque oficial reinava um clima misto de baile da Ilha Fiscal e de
ren�ncia de Fulg�ncio Batista naquele r�veillon de 1958/59 em
Havana. Apavorada diante da massividade dos apupos, a comitiva
presidencial se sentiu em p�nico n�o suficientemente retratado pela
grande imprensa quando, diante da inevitabilidade de sair da festa
de carro - dada a impossibilidade de sairem todos de helic�ptero -,
o trajeto, em que n�o foram poupados um segundo pelo povo, pareceu,
ao casal presidencial e a seus ministros, uma eternidade.

Restaria, num pa�s digno, num governo n�o devorado pela podrid�o
moral, a ren�ncia e a entrega ao povo da possibilidade de escolher
um outro caminho, um outro governo, em que a mis�ria de trinta mil
seja um problema dos 160 milh�es, que possam confiar em seus
governantes para resolv�-lo.

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Emir Sader � Soci�logo.



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