Caro Wellington,

não tenho erudição suficiente para meter o bico nessa conversa, mas gostei muito de 
sua mensagem. Vou guardar e reler depois de refletir melhor, é muito informação para o 
meu caminhãozinho carregar tudo de uma só vez.

E a despeito de tudo isso, parabéns pela iniciativa !

Abs,

Estêvão

----- Original Message -----
From: Wellington Diniz
Sent: 1/9/2006 12:21:42 PM
To: [email protected]
Subject: [S-C] quem veio primeiro

> Caríssimos, tentarei ser o mais breve possível, já sabedor da dificuldade de ser 
> conciso. O assunto é espinhoso e carece de espaço.Em minha modesta opinião a Música 
> Popular Brasileira têm suas origens nos índios pré-cabralinos. Contudo, a pesquisa 
> historiográfica é praticamente impossível, pois não há documentação para tanto. Já 
> na carta de Pero Vaz de Caminha há referências de festejos entre a tripulação das 
> naus de Cabral com os indígenas brasileiros, festejos regados à música e dança. Com 
> a chegada dos primeiros lotes de negros, por volta de 1532, começa esta louca 
> mistura entre elementos indígenas, que para alguns não é relevante, negros e 
> europeus. Ao que parece o batuque dos negros das senzalas, e é o que defende Ricardo 
> Cravo Albin, associados às palmas do indígena inicia esse lento processo de 
> amálgama. Em 1549 começa a aportar em terras tupiniquins os jesuítas que irão 
> introduzi
 r novos elementos:o instrumental europeu, o cantochão adaptado e os autos teatrais. 
Estes 
>  elementos serão importantíssimos na formação da Música Brasileira. Com relação ao 
> batuque é de extrema dificuldade, senão impossível, determinar suas características 
> enquanto genêro. Uma coisa, no entanto, parece líquida e certa: sua associação com 
> dança, música, comida, bebida, dádivas e deuses. Havia uma confusão entre batuque e 
> lundu, que é grafado de várias maneiras, na mentalidade branca. Todos os tambores 
> negros são ditos batuque ou lundu. Os tambores são emblemáticos na formação da 
> Música Brasileira, pois eles são os instrumentos musicais da celebração afro, 
> criando uma ligação inelutável com a África. Com esta zona enevoada entre o batuque 
> e o lundu, normalmente o lundu era tido como uma outra dança negra. Contudo, há a 
> questão do lundu dança e lundu canção. Em várias obras de Rugendas podemos ver 
> brancos tocando violão enquanto os negros dançam uma espécie de "f
 andango". E alguns historiadores dizem que esta dança representada é o lundu. Após 
isto nos vem a famosa m
>  odinha e suas polêmicas. Seria ela brasileira ou portuguesa? Erudita ou popular? 
> Para citar as duas mais famosas. O fato é que parece que a modinha foi o primeiro 
> genêro urbano, independentemente de ser erudito ou popular, luso ou brasileiro. No 
> início do século XIX, com a vinda da corte portuguesa para o Brasil dois, fatores 
> impulsionaram e difundiram as modinhas e lunduns, gêneros, que vindos do século 
> XVIII, aparecem incontestes na primeira metade do século XIX. Estes dois fatores 
> foram: o piano trazido na bagagem real e o surgimento entre nós das primeiras 
> editoras de partituras. Vale ressaltar, ao lado destes dois fatores, o teatro de 
> revista, nas três últimas décadas do século XIX, como um terceiro fator para a 
> entronização de nossa Música Popular. Mário de Andrade chega mesmo a dizer que o 
> caso do piano é dos mais curiosos, pois a introdução deste instrumento com sua 
> capacidade completa de solar e acompanhar seria
 mesmo lógica e necessária, pois sua função primordial 
>  foi profanar nossa música e produzir nossos primeiros virtuoses, criando, com isto, 
> uma pianolatria nascida de interesses financeiros. Evidentemente os arroubos pueris 
> de nosso bardo da paulicéia desvairada devem ser lidos dentro de um contexto 
> cultural onde a busca de uma suposta nacionalidade estava calcada em pressupostos 
> que hoje já não encontram eco. Por volta de 1844 nos chegam as danças européias - 
> polca, valsa, schottisch, mazurca e a habanera. Aqui começa de fato a gestação do 
> choro, do maxixe e do tango brasileiro. O Choro, em seus primórdios, não era um 
> gênero. Era antes uma forma brejeira de interpretar aludidos ritmos que aqui 
> chegaram. Os músicos populares do Rio de Janeiro por volta de 1870 imprimiam um 
> caráter bastante peculiar aos ritmos europeus, sobretudo a polca, que aportaram nas 
> plagas tupiniquins desde 1844, introduzindo elementos mais dolentes, que mais tarde 
> seriam catalogados como síncopes. Tal interpr
 etação estava assentada na flauta, nos cavaquinh
>  os e nos violões. Tinhorão (1997) em seu livro Música Popular: Um Tema em Debate 
> nos fornece detalhes preciosos de como se deu a origem e o desenvolvimento deste que 
> seria um gênero fundamental dentro da Música Popular Brasileira. O autor afirma 
> peremptoriamente que “originalmente o choro não constituía um gênero caracterizado 
> de música popular, mas uma maneira de tocar, estendendo-se o nome às festas em que 
> se reuniam os pequenos conjuntos de flauta, violão e cavaquinho” (p. 111).
>       A história do choro se confunde com as camadas populares. Segundo o estudioso 
> Tinhorão os chorões saíram da baixa classe média. Citando o livro de Alexandre 
> Gonçalves Pinto, chorão e boêmio, O Choro: reminiscência dos chorões antigos, 
> Tinhorão cita a existência de mais de 280 biografias e notícias sobre velhos 
> chorões. Define, ainda, já que não eram profissionais da música, as respectivas 
> profissões de 128 deles. Salienta o autor que a grande maioria, 122, eram 
> funcionários públicos dos mais variados órgãos. Sendo os Correios e Telégrafos o 
> maior fornecedor com 44 representantes, vindo logo em seguida as bandas das 
> corporações militares, tendo cedido inclusive o célebre Anacleto de Medeiros. Um 
> aspecto interessante de se sublinhar é a gama variada de convites para que os 
> chorões animassem festas, onde os mesmos se fartavam à mesa. Em uma época em que a 
> música era veiculada apenas ao vivo, já qu
 e não havia gravações nem rádio e muito menos televisão, este grupos se tornavam i
>  ndispensáveis para um bom “rega bofe”. 
> A principal característica do choro em sua gênese, era o improviso. O conjunto de 
> choro, como dito anteriormente, era formado pela flauta, que cuidava do solo, pelo 
> cavaquinho, responsável pela harmonia, e pelo violão que fazia a “baixaria” em um 
> contraponto sistematicamente modulatório. Sendo assim, depois de exposto o tema, 
> cada instrumentista saia improvisando, em verdadeiros duelos testando a musicalidade 
> dos componentes. Neste período o maior nome do choro foi sem dúvida Joaquim Antônio 
> Calado, cuja virtuosidade na flauta rompeu fronteiras e ajudou a semear o que viria 
> a ser o gênero Choro. Desta fase de fixação participou também a maestrina Chiquinha 
> Gonzaga tendo, inclusive, composto um tango característico nomeado Só no Choro. A 
> partir de 1880 o choro se torna cada vez mais popular e se espalha de maneira 
> frenética e consistente. Além de começar, a partir desta data, a se delinear 
> enquanto gênero malicioso e formal
 mente começar a tomar o aspecto definitivo do rondó. S
>  e em seu princípio a forma do “choro” era basicamente a da canção (A-B-A), como por 
> exemplo Flor Amorosa de Callado, em seu desenvolvimento vai se tornando um pouco 
> mais complexo com a adoção do trio com um Da Capo, para em seguida adotar a terceira 
> seção com uma coda ao fim, já se assemelhando ao nosso A-B-A-C-A, cuja forma é hoje 
> a mais conhecida e utilizada, tendo esta forma Rondó se bronzeado com a malemolência 
> da ginga brasileira  caracterizando o choro formalmente.
> No aspecto harmônico vale ressaltar a imensa facilidade que o choro vai modulando em 
> uma infindável passagem para tons homônimos, vizinhos, afastados, pelos círculo das 
> quintas para sempre voltar, de maneira orgânica, ao tom de origem. No tocante ao 
> ritmo é impecável a riqueza gerada pela variação de figuras a princípio simples. Há 
> um uso sistemático de todas as síncopes, seja a característica, a entre tempos, a 
> entre compassos, a anacrústica, enfim, uma caudalosa sucessão de síncopes que geram 
> um efeito de “rubato” quase que impossível de se grafar na tradicional notação 
> ocidental, sendo, portanto, salutar tentar apreender a noção rítmica oralmente, já 
> que ainda temos uma rica tradição oral das raízes do choro. Bem fico por aqui, senão 
> isto acaba se tornando um artigo. Muito há para ser dito. Espero que este breve 
> histórico, que findo no choro para não alongar muito, sirva para que esta tribuna s
 eja realmente um palco para discussões e não mero divulgador de shows, lançament
>  os etc. Abraços para todos. Wellington Diniz.
> 
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