Vou meter minha colher na história.

É preciso não esquecer que boa parte da música popular de hoje em dia é produzida exclusivamente como bem de consumo. Ou seja, faz parte de um esquema comercial destinado a obter renda por meio da venda de discos, ingressos para shows, etc.

Para atingir o maior número possível de consumidores, precisa ser muito simplificada. Existem fórmulas que facilitam esse acesso. O exagero do uso de vogais e a ausência de palavras é um recurso do gênero. O consumidor dessa música não está interessado em usar a inteligência. Ele reage a estímulos. E faz parte das fórmulas fornecer este estímulo.

Outro fator importante é a redução cada vez maior no vocabulário da maioria das pessoas. Elas simplesmente não entendem palavras supostamente corriqueiras. Como passar o conceito de orvalho a quem não sabe -- e, muitas vezes, nunca viu nem vai ver -- o que é o orvalho?

Não estou dizendo que ser simples seja ruim. Notem, por exemplo, a evolução das letras do Dorival Caymmi. Ele está cada vez mais simples. E o resultado, quase sempre, é bom.

Vai ainda a questão do gosto, uma coisa pessoal. Eu, por exemplo, tenho catapora com esses novos conjuntos eletrificados de chorinho. Entendo, instrumentos elétricos são muito mais práticos. Mas, para o meu ouvido, o que sai de um cavaquinho elétrico não chega aos pés de um cavaco de pau.

Vou contar uma história. A professora de música de minha neta de oito anos, que está na segunda série, está usado duas músicas populares -- A Banda (Chico Buarque) e o Samba de Uma Nota Só (Antonio Carlos Jobim/Newton Mendonça) em suas aulas, ao lado das canções infantis mais tradicionais.

Outro dia, estava dando uma mão para a mocinha, com uma vizinha de 15 anos perto. Toquei no computador o Samba de Uma Nota Só numa versão instrumental (do próprio Jobim, no primeiro Lp que ele gravou nos Estados Unidos, The Composer of Desafinado Plays, com o Edison Machado na bateria). A mocinha ficou espantada. Nunca tinha ouvido algo semelhante. Pediu para ouvir com a letra. Só tinha uma versão bem jazzística, com a Leny Andrade. A mocinha detestou.Notei que ela não entendia toda a letra, Com A Banda, foi ainda pior, apesar de ela ter gostado muito do ritmo.

Bom, as harmonias do maestro Jobim não são fáceis -- embora em muitos casos as melodias o sejam. Mas me pergunto, às vezes. Gostar de música não seria um conhecimento adquirido? Uma pessoa que não tenha a base de conhecimentos necessária, inclusive do idioma, vai conseguir aproveitar nossos sambas, choros e etcéteras? Até que ponto somos privilegiados?

Obviamente, super-simplifiquei. Mas é isso. Gostaria de ter uma maneira de dar a mais gente acesso ao mesmo prazer que sinto com a música. Mas está difícil. Parece que cada vez mais.

Abraços.

Mário


----- Original Message ----- From: "SANDRA FARÁ" <[EMAIL PROTECTED]>
To: "Tribuna Samba-Choro" <[email protected]>
Sent: Thursday, August 31, 2006 12:50 PM
Subject: RES: [S-C] O samba da Bahia


Caros tribuneiros,
Toda essa conversa sobre axé , me lembrou um texto curioso e
equivocadamente atribuído à Luís Fernando Veríssimo, mas cujo autor é Vítor
Trucco.
Sem querer ofender aos amantes de pagodes e axés, acho que contempla um
pouco aqueles que são mais exigentes quanto a qualidade daquilo que ouvem.
Reproduzo uma parte do texto abaixo (acredito que muitos de vocês já devam
conhecer):
     "Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele
papo de
"experimenta, depois quando você quiser é só parar..." e eu fui na dele.
Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", da terra, que
não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó e em
seguida um do Leandro e Leonardo.
Achei legal, uma coisa bem brasileira. Mas a parada foi ficando mais
pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de
"amigo" e acabei comprando pela primeira vez.
Lembro que cheguei na loja e pedi: " Me dá um CD do Zezé de Camargo e
Luciano."
Era o princípio de tudo! Logo resolvi experimentar algo diferente e ele me
ofereceu um CD de Axé. Ele dizia que era para relaxar; sabe, coisa leve...
Banda Eva, Cheiro de Amor, Netinho, etc. Com o tempo, meu amigo foi me
oferecendo coisas piores: o Tchan,Companhia do Pagode e muito mais. Após o
uso contínuo, eu já não queria saber de coisas leves, eu queria algo mais
pesado, mais desafiador,que me fizesse mexer os quadris como eu nunca havia
mexido antes."

Aos mais curiosos, posso enviar em pvt o texto na íntegra.
Um abraço ,
Sandra.


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