Sou mais Cartola interpretando alvorada com sua voz e uma caixinha de fósforo, 
do que todos os grupos juntos com seus cavacos e banjos acompanhando 
orquestralmente. A raiz do samba,  e de qualquer outra música - principalmente 
as de origem africana, é o rítmo, ou melhor: sua célula rítmica (que alguns 
também chamam de clave rítmica). Por exemplo:
  tác tác ta taaaah tác tác toureirourei rou
  tác tác ta taaaah tác tác toureirourei rou
  tác tác ta taaaah tác tác toureirourei rou

  Á propósito, brincadeira não: o batuque do candomblé tem muito mais a ver com 
o samba do que muita gente imagina, e mais, vou pegar um gancho em outro 
assunto que está sendo debatido aqui na tribuna (talvez meio verdinho ainda): a 
utilização do candomblé (uma religião que tem todo um contexto histórico na 
sociedade brasileira) como fonte de uma gozação (por mais inocente que seja), 
infelizmente é o reflexo de uma mentalidade inconscientemente preconceituosa.
  Aqui em Salvador, as crianças da escola pública Edvaldo Brandão no Bairro 
pobre (não é humilde não é pobre: p-o-b-r-e)Cajazeiras, aprendem sobre os 
orixás. A escola possui imagens de vários santos pregadas na parede, da mesma 
forma que elementos do chamado "folclore tradicional" (Será que tão ensinando 
vudu pras crianças, ou é uma forma de ampliarem o conhecimento delas?). Ás 
vezes eu leio depoimentos sobre preconceito e acho puro panfletarismo. Não 
existe só racismo não. Existem preconceitos sociais, muitas vezes mais graves, 
sendo praticado e sofrido por pessoas da mesma raça (sem contar nos 
preconceitos religiosos...).
  Perdi a conta de quantas vezes em ensaios, eu que sou branco, ouvi da boca de 
músicos negros a seguinte pérola:
  "Toca essa porra direito! Eu sou racista mesmo: Não gosto de branco "
  Se fosse o caso de registrar B. O. por causa disso... Tenho mais o que 
fazer...
   
  O que eu acho é o seguinte: Essa idéia de tentar conduzir a música por esse 
ou aquele caminho já nasceu morta. Música (e a arte) são um patrimônio livre, 
comum. É como a língua de uma nação, é uma coisa viva incontrolável. Por mais 
que se imponha uma "evolução" ela segue o seu ruma sozinha. Esse negócio de 
certo e errado, sei não viu... pra mim tudo tem seu espaço, desde Noel Rosa a 
Tati Quebra-Barraco e citar frases como: ah! tal mistura deu certo tal mistura 
deu errado, cuidado, isso pode virar uma grande armadilha. Já participei de 
rodas de choro e de samba que foram uma porcaria, e já assisti a baile funk sem 
DJ, com puta músicos fazendo todos os sons de sintetizadores em instrumentos 
convencionais, sem pedais e efeitos, apenas bateria, baixo, e três violões. Se 
eu tivesse que me atrever a afirmar alguma coisa (ainda assim consciente de que 
minha palavra não é a final), diria o seguinte: o importante é a qualidade com 
que tocam a música, seja ela qual for.
  E essa visão de que cavaquinho e banjo são indispensáveis (realmente, pra mim 
é importante que não mude, senão não compro pão, nem pago luz, pois sou 
cavaquinhista), mas já foram feitas algumas coisas muito interessantes com 
pandeiro, surdo, tamborim - executando células rítmicas sambistas - sem esses 
dois instrumentos. No mais, é isso aí...
  Além de terem introduzido outros (olha a guitarra da banda do Dudu Nobre 
aí...). Aqui em Salvador tem gente que diz que Armandinho não é músico (por que 
não lê partitura) e não toca choro. Realmente. Ele toca de tudo. Mas dizer que 
ele não toca choro...
  
Artur de Bem <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
  ">Não dá a impressão que tudo começou aí?"

Dá a impressão que era um ritual de candomblé...
Só tem percussão.. não tem nenhum cavaquinho, banjo....

calma... brincadeira...


-----MENSAGEM ORIGINAL-----
De: "Raphael Oliveira" 
Enviada em: Qui, 31 Ago 2006 16:29:36
Assunto: Res: Re: Re: [S-C] Raiz do Samba


> Amigos, 
> Desculpem me meter na conversa mais eu ouso discordar do dicionario.
> Entendo que o buraco e bem mais embaixo do que se refere o autor ... Vou 
> reproduzir dois trechos de colunas do Sr. Nei
> Lopes que não falam exatamente do assunto mais dão uma ideia da profundidade 
> do asunto. Alias Nei Lopes é o Cara.
> 
> Um forte Abraço
> Raphael SãoGonça
>
>==============================================
> O samba carioca, embora nascido de um amálgama de ritmos predominantemente 
> africanos - como, aliás, toda a música popular afro-americana, do sul dos 
> Estados Unidos ao Prata - sempre teve admiradores e cultores entre as camadas 
> mais abastadas e epidermicamente menos pigmentadas da sociedade. Admiração e 
> culto esses que, no contexto da bossa-nova, fora do esquema "banquinho e 
> violão" e graças à tríade piano-baixo-bateria, propiciou a saudável fusão 
> entre ele e o jazz, que já se ensaiava nos antropofágicos "bibaburiba" 
> ("bebop w're bop") do trombonista Raul de Barros, cantados em coro pelos 
> animados músicos das gafieiras. 
>
>A bendita fusão levada a efeito pelos Tamba, Zimbo, Jongo e outros trios, de 
>nomes africanizados ou não, coube a eles mais por questão de espaço. Afinal, 
>seu palco era o das exíguas boites ("caixotes, caixinhas", em francês), 
>ambientes também freqüentados por muita gente boa e amante do bom samba. 
>
>Foi aí, e nos bailes dos clubes da classe média, que se gerou o "sambalanço", 
>hoje experimentando um renascimento animador. E foi assim que surgiram, 
>firmaram-se ou reapareceram grandes compositores de samba não negros e nem "do 
>morro" e com curso ginasial, como Denis Brean, Hianto de Almeida, João Roberto 
>Kelly, Macedo Netto, Luiz Reis, Luiz Antônio (coronel do Exército brasileiro), 
>presentes no repertório inicial da Elza Soares que hoje a intelligentzia quer 
>pop-roquizar. E vieram também Ed Lincoln, Sílvio César, Orlann Divo etc. 
>
>Pois é... O tempo das fusões naturais e saudáveis já passou! Agora, vendo o 
>mercantilismo das escolas de samba e a omissão oficial abortarem ou inanirem 
>os talentos das comunidades negras; vendo a truculência da globalização one 
>way ditar a norma de extermínio segundo a qual "preto bom só preto pop"; 
>agora, vendo os netos de Jonjoca, Mário Reis, Castro Barbosa e João Petra de 
>Barros empunharem a bandeira (às vezes reducionista e imobilizadora) do "samba 
>de raiz", a gente olha pra trás. E aí vê que a influência do jazz, primo do 
>samba, não era má influência e, sim, uma saudável troca de águas e forças 
>vitais entre dois caudalosos rios intercomunicantes. Preto no branco! -- digo 
>eu. "Ebony and ivory", diria o crítico bobinho e colonizado.
> 
>================================================
>
>descrição de uma reunião festiva de milhares de negros, que aconteceu no Campo 
>de Santana, em 1808, parece que em honra da corte portuguesa recém-chegada ao 
>Brasil. O texto, de um viajante inglês, está lá no livro de Mary Karasch, A 
>vida dos negros no Rio de Janeiro (Cia. das Letras, 2000) e é o seguinte: 
>
>"Em frente avançavam os grupos das várias nações africanas, para o campo de 
>Sant'Anna, o teatro de destino da festança e da algazarra. Ali estavam os 
>nativos de Moçambique e Quilumana, de Cabinda, Luanda, Benguela e Angola [...] 
>A densa população do campo de Sant'Anna estava subdividida em círculos amplos, 
>formados cada um por trezentos a quatrocentos negros, homens e mulheres.Dentro 
>desses círculos, os dançarinos moviam-se ao som da música que também estava 
>ali estacionada; e não sei qual a mais admirável, se a energia dos dançarinos, 
>ou a dos músicos. Podiam-se ver as bochechas de um atleta de Angola prontas a 
>arrebentar pelo esforço de produzir um som hediondo de uma cabaça, enquanto 
>outro executante dava golpes tão abundantes e pesados no tímpano que somente a 
>natureza impenetrável do couro de um boi poderia resistir-lhes. Um 
>mestre-de-cerimônias, vestido como um curandeiro, dirigia a dança; mas era 
>para estimular, não para refrear, a alegria turbulenta que prevalecia
 co
m supremo domínio. Oito ou dez figurantes iam e vinham no meio do círculo, de 
forma a exibir a divina compleição humana em todas as variedades concebíveis de 
contorções e gesticulações. Logo, dois ou três que estavam no meio da multidão 
pareciam achar que a animação não era suficiente, e com um grito agudo ou uma 
canção, corriam para dentro do círculo e entravam na dança. Os músicos tocavam 
uma música mais alta e mais destoante; os dançarinos, reforçados pelos 
auxiliares mencionados, ganhavam nova animação; os auxiliares pareciam envoltos 
em todo o furor de demônios; os gritos de aprovação e as palmas redobravam; 
cada observador participava do espírito sibilino que animava os dançarinos e os 
músicos; o firmamento ressoava com o entusiasmo selvagem das [sic] clãs 
negras..." 
>
>Não dá a impressão que tudo começou aí?
>
>================================================ 
>
>----- Original Message ----- 
>From: "Artur de Bem" 
>To: 
>Sent: Thursday, August 31, 2006 3:58 PM
>Subject: Res: Re: [S-C] Raiz do Samba
>
>> Bagunço mais ainda...
>> 
>> Lá ele diz que surgiu em 1850 nas emediações da Praça XI, Pedra do Sal, etc, 
>> Rio de Janeiro.
>> Fala que as festas eram nas casas das Tias Bahianas.
>> E cita o "semba"...
>> 
>> Ai ai ai q confusão...
>> 
>> 
>> -----MENSAGEM ORIGINAL-----
>> De: Jorge Moraes 
>> Enviada em: Qui, 31 Ago 2006 15:24:10
>> Assunto: Res: Re: [S-C] Raiz do Samba
>> 
>> 
>>>Oi, Artur! Oi, Cícero! Vale a pena conhecer o verbete sobre samba no 
>>>Dicionário Cravo Albin de Música Popular rasileira: 
>>>http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?tabela=T_FORM_C&nome=Samba
>>> Abraços, Jorge
>>> Artur de Bem escreveu: Então eu vo mais fundo, a raiz do samba é o semba, 
>>> lá da África.
>>>
>>>E não dos índios!!!
>>>
>>>-----MENSAGEM ORIGINAL-----
>>>De: "Cicero Soares" 
>>>Enviada em: Qui, 31 Ago 2006 11:55:26
>>>Assunto: Res: Re: Re: [S-C] Novo DVD da Beth Carvalho
>>>
>>>>>From: "Caio Pontual" 
>>>>
>>>>>O Samba carioca tem mais é que se dar ao valor, e manter suas raízes, sem
>>> 
>>>>>timbales.
>>>>
>>>>É uma contradição, já que os timbales são justamente as raízes do samba...
>>>>
>>>>Cícero
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