Oi, Gabriel.
Na verdade, não discordamos muito. Você deu mais ênfase a um ponto, eu a
outro. Mas o problema tem muitos aspectos. Para ficar num tamanho decente,
super-simplifiquei.
Queria esclarecer duas coisas, que acho não ficaram bem explicadas.
1. Ser simples não é ruim. Acho até uma virtude. Dei o exemplo do Caymmi. Há
outros. Talvez "simplório" seja um termo melhor.
2. Minha preocupação não é com a educação musical. É com a cultura em geral,
a falta de (e o desprezo a) uma base de conhecimentos que permita à pessoa
evoluir e adquirir ainda mais conhecimentis. Mais uma vez, o problema é
muito amplo, estou super-resumindo.
Vamos ficar no caso da programação das rádios, um ponto que você levantou
bem. Você conhece alguma emissora boa de música, no nível da rádio JB do Rio
ou da Eldorado de São Paulo nos tempos citados? Parece que há uma emissora
desse tipo em Santos, embora um pouco puxada demais para a música americana,
rádio Atlântica, eu acho. Será que há outras?:
Abraços.
Mário
----- Original Message -----
From: "Gabriel Gomes" <[EMAIL PROTECTED]>
To: "Mario Fernandes" <[EMAIL PROTECTED]>; "SANDRA FARÁ"
<[EMAIL PROTECTED]>; "Tribuna Samba-Choro" <[email protected]>
Sent: Friday, September 01, 2006 8:56 AM
Subject: RES: [S-C] O samba da Bahia
Mário, vou discordar um pouco de você.
Apesar de existirem as tais fórmulas, acredito que não seja a simplicidade e
falta de lirismo que leva as pessoas a gostarem desse tipo de "música". O
que acontece é uma espécie de lavagem cerebral coletiva conseguida as custas
de muito jabá.
Funciona assim: a música toca umas 20 vezes (estou chutando, não sei se é
isso) por dia em cada emissora de rádio. No fim de semana o
grupo/cantor/cantora aparece em todos os programas populares (Faustão, Gugu,
Sabadaço, etc...). Sem contar outros meios de divulgação.
Não acredito que seja necessário nenhum conhecimento para gostar de música
boa. Essa educação musical que muitos falam, deve impreterivelmente passar
por estudo musical ou mesmo lingüístico. Acredito que o grande problema seja
a falta de acesso à boa música.
Quer ver? Coloque na vitrola o Carinhoso ou Rosa de Pixinguinha. Todo mundo
sabe a letra (mesmo que mais ou menos). São letras difíceis. As harmonias
então... e isso não impede que gostem da música.
Repare que há alguns anos o que se ouvia nas rádios eram músicos do nível de
Chico, Caetano, Gilberto Gil, Jobim , João Gilberto, não dá pra citar nem
uma fração. O que se tinha de mais popular (a simplicidade musical da época)
eram do nível de Roberto e Erasmo. Experimente voltar ainda mais no tempo e
verá que os artistas que tocavam nas rádios são exatamente aqueles mestres
que tanto reverenciamos atualmente.
As pessoas naquela época não tinham mais educação musical do que hoje. O que
faz com que sejamos privilegiados é o fato de que, um dia, alguém nos
apresentou à música boa. Um dia tivemos a oportunidade de conhecer outras
freguesias musicais, deixando o reino da bestialidade e massificação
cultural.
Abraços,
Gabriel Gomes
-----Mensagem original-----
De: [EMAIL PROTECTED]
[mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de Mario Fernandes
Enviada em: quinta-feira, 31 de agosto de 2006 16:48
Para: SANDRA FARÁ; Tribuna Samba-Choro
Assunto: Re: [S-C] O samba da Bahia
Vou meter minha colher na história.
É preciso não esquecer que boa parte da música popular de hoje em dia é
produzida exclusivamente como bem de consumo. Ou seja, faz parte de um
esquema comercial destinado a obter renda por meio da venda de discos,
ingressos para shows, etc.
Para atingir o maior número possível de consumidores, precisa ser muito
simplificada. Existem fórmulas que facilitam esse acesso. O exagero do uso
de vogais e a ausência de palavras é um recurso do gênero. O consumidor
dessa música não está interessado em usar a inteligência. Ele reage a
estímulos. E faz parte das fórmulas fornecer este estímulo.
Outro fator importante é a redução cada vez maior no vocabulário da maioria
das pessoas. Elas simplesmente não entendem palavras supostamente
corriqueiras. Como passar o conceito de orvalho a quem não sabe -- e, muitas
vezes, nunca viu nem vai ver -- o que é o orvalho?
Não estou dizendo que ser simples seja ruim. Notem, por exemplo, a evolução
das letras do Dorival Caymmi. Ele está cada vez mais simples. E o resultado,
quase sempre, é bom.
Vai ainda a questão do gosto, uma coisa pessoal. Eu, por exemplo, tenho
catapora com esses novos conjuntos eletrificados de chorinho. Entendo,
instrumentos elétricos são muito mais práticos. Mas, para o meu ouvido, o
que sai de um cavaquinho elétrico não chega aos pés de um cavaco de pau.
Vou contar uma história. A professora de música de minha neta de oito anos,
que está na segunda série, está usado duas músicas populares -- A Banda
(Chico Buarque) e o Samba de Uma Nota Só (Antonio Carlos Jobim/Newton
Mendonça) em suas aulas, ao lado das canções infantis mais tradicionais.
Outro dia, estava dando uma mão para a mocinha, com uma vizinha de 15 anos
perto. Toquei no computador o Samba de Uma Nota Só numa versão instrumental
(do próprio Jobim, no primeiro Lp que ele gravou nos Estados Unidos, The
Composer of Desafinado Plays, com o Edison Machado na bateria). A mocinha
ficou espantada. Nunca tinha ouvido algo semelhante. Pediu para ouvir com a
letra. Só tinha uma versão bem jazzística, com a Leny Andrade. A mocinha
detestou.Notei que ela não entendia toda a letra, Com A Banda, foi ainda
pior, apesar de ela ter gostado muito do ritmo.
Bom, as harmonias do maestro Jobim não são fáceis -- embora em muitos casos
as melodias o sejam. Mas me pergunto, às vezes. Gostar de música não seria
um conhecimento adquirido? Uma pessoa que não tenha a base de conhecimentos
necessária, inclusive do idioma, vai conseguir aproveitar nossos sambas,
choros e etcéteras? Até que ponto somos privilegiados?
Obviamente, super-simplifiquei. Mas é isso. Gostaria de ter uma maneira de
dar a mais gente acesso ao mesmo prazer que sinto com a música. Mas está
difícil. Parece que cada vez mais.
Abraços.
Mário
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