Meu caro Eduardo,

As pessoas gostam do barulho que as músicas emitem, no seu íntimo elas pouco se 
importam se quem está tocando tem ou não formação musical, se existe realmente 
alguém tocando, por que os computadores estão tomando também o lugar dos 
músicos, elas não se importam se a letra da música fala de uma "motinha", se 
fala que "Daku é bom", que "um tapinha não dói", "se a mulher do cara" 
enfeitou-lhe a cabeça e o deixou por causa do outro, as pessoas querem na 
verdade balançar o corpo e se sentir parte de alguma coisa, essa coisa é a 
moda, tem moda da música, da televisão, é a falta de identidade própria, é 
falta de filosofia na escola e em casa, é a falta da construção do ser humano 
em si, é falta de questionamento sobre "quem sou eu, o que gosto? Qual o meu 
papel na sociedade? Acho que o que indigna as pessoas é essa impotência total 
de pelo menos mudar um pouco os rumos das coisas...
Essas pessoas não são culpadas por serem assim. É a informação que cada um tem 
a oportunidade de ter, não acho que o Caio recrimina essas pessoas por gostarem 
disso, não é uma questão de classe social também, você muito bem exemplificou 
sobre o sertanejo universitário que é a moda, e acho que é aí que encontramos o 
primeiro fio da meada. As pessoas têm necessidade de estar atualizadas com as 
tendências, aí a industria fonográfica, os meios de comunicação de massa, 
elegem, de tempos em tempos, novos ídolos para serem consumidos e dizem que 
eles estão na moda, há pouco tempo, víamos nas ruas um monte de moças com 
flores de crochet no cabelo por causa da Íris do Big Brother, tem também as 
roupinhas colegiais do Lastimável Rebelde que corroeu o cérebro de crianças e 
adolescentes de uma forma devastadora. Por exemplo, uma pessoa que não tem 
acesso à TV fechada, é obrigado a engolir a programação da TV aberta que com 
raras exceções apresenta algo realmente interessante e construtivo. 
Tenho um filho de 5 anos de idade que já tem um senso crítico muito apurado, 
mas apresento a ele uma outra forma de ver o mundo, que ele é uma pessoa única 
em suas formas de agir e pensar. Desde pequeno, ao invés de comprar os CD's da 
Xuxa, comprava o Palavra Cantada, CD's de folclore de músicas infantis e 
construtivistas, ele gosta de ouvir o samba e o rock que eu ouço, ele gosta de 
ouvir O Chico que eu ouço, ser perder a identidade infantil, ele mesmo propõe o 
repertório que ele quer ouvir e ninguém tira isso dele mais, por mais que os 
coleguinhas dele façam tudo que ele não faz. Não posso dizer que estou certa, 
mas acredito estar num caminho mais promissor porque pouco a pouco estou 
construindo um ser humano que tem a capacidade de enxergar e escolher ser o que 
quiser. Enfim, é uma questão muito complicada e vai muito além do que possamos 
imaginar. Mas é isso aí, cada um dentro de seus conceitos, sem ser é lógico, 
irracional a ponto de nem ao menos ouvir e respeitar a opinião e os conceitos 
de todos. O importante é não ser preconceituosos a ponto de nos excluir do 
mundo e nos tornar antipáticos perante as pessoas que não têm o mesmo 
pensamento.
Um Grande abraço a todos...

-----Mensagem original-----
De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de Eduardo S. Martins
Enviada em: terça-feira, 12 de junho de 2007 23:27
Para: caioapf
Cc: tribuna
Assunto: Re: [S-C] Sobre o Brega (ainda)

Carolina, eu insisto na leitura do livro "Quem manipula quem? - Poder e massas 
na indústria da cultura e da comunicação no Brasil", de Ciro Marcondes e 
Juvenal Rodrigues filho, muito esclarecedor a respeito deste tema. Eu tinha uma 
vizinha cujo quintal dava na janela do meu apartamento e que me atualizava com 
as novidas das paradas, Bruno & Marrone, Calipso, Latino, Éguinha Pocotó, Tati 
Quebra Barraco, o melhor do rodeio, pra mim era uma tortura, mas não acho que 
se trate de uma pessoa manipulada pela mídia, ela gosta mesmo daquelas músicas, 
razão pela qual não nos cabe a pretensão de sermos a vanguarda que vai instruir 
o povo a ouvir aquilo que nós definimos como "música de qualidade". Isso é 
ilusão.
abs.
Eduardo Martins

> 
> 
> ----- Original Message ----- 
> From: "Carolina Machado SEMAD" <[EMAIL PROTECTED]>
 
> 
> Grande Caio,
> 
> Assino em baixo em relação ao seu ponto de vista. É lógico que cada um tem 
> liberdade para escolher o que gosta, mas acredito que gosto se discute sim. 
> Temos a obrigação de respeitar sempre; por mais ridículo que possa parecer, 
> mas que é desanimador, isso é. A solução para isso seria a longo prazo e 
> cuidando da formação musical de nossas crianças, porque elas repetem o que 
> os pais ouvem e nós temos a responsabilidade de mostrar algo a mais. A 
> oferta de porcarias no mercado é absurda e o consumo idem. As massas 
> infelizmente consomem o que os meios de massa oferecem, num loop 
> interminável de consumo inútil e perigoso, me pergunto até onde iremos com 
> esse furacão...


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