Não subscreveria todo este artigo na íntegra, mas sim a maior parte.
JLV
A boa-música no underground
Por: Alexandre Aranha <http://www.poppycorn.com.br/colunista.php?cid=4>
http://www.poppycorn.com.br/artigo.php?tid=77
Música sempre foi música. A música implica um todo harmônico, um
desencadear de sons e ritmos seqüenciados que permitem ao interlocutor
distinguir tal som do ruído, do barulho. O coração da música é o ritmo.
Sem esta “alma” o encontro de notas é desagradável e a percussão
torna-se um bater sem sentido. É este espírito que confere beleza
inenarrável tanto a uma bateria de escola de samba quanto a um piano solo.
A música sempre comportou definições, inspiradas na variação rítmica e
em sua forma melodiosa, seja o jazz, a bossa nova, o samba, o pop, o
rock e por aí vai. Ainda dentro destes gêneros a música comportou
díades, sendo que a mais discutida, e talvez hoje a mais relevante, seja
a erudita-popular. De princípio algumas distinções são importantes pela
confusão que hoje tem se estabelecido entre música-popular e
música-de-massa, e entre música-protesto e música-conformação. Estas são
quatro categorias distintas que formam pares, propositalmente invertidos
com o objetivo de confundir. Música-popular é necessariamente
música-protesto e música-de-massa é música-conformação. Música-popular é
aquela que emana do povo, como uma resposta (ou seja, uma anti-cultura)
ao modo de vida que lhes é imposto. Necessariamente é música-protesto,
independente de cunho político, pois vai de encontro ao que é
culturalmente determinado de cima para baixo, unilateralmente.
Música-de-massa é a cultura oficial, por isso é necessariamente
música-conformação (é um dos mecanismos de controle social). Não preciso
lembrar que a música feita espontaneamente, como a música-popular é de
fato mais bonita, rica e conquista mais adeptos pois trata da realidade
da forma que ela é, numa forma tão múltipla que só pode ser obtida
artisticamente e não intencionalmente programada (ainda que
subjetivamente). Bom, pondo um fim nos blá-blá-blás, vamos verificar
esta confusão num resgate breve.
Excetuando-se os clássicos (como Mozart, Bach, Wagner...) que sempre
foram unanimemente eruditos, nas épocas diversas, boa parte dos gêneros
hoje mais conhecidos surgiu como música-popular. Sem cair nos longos
regastes históricos (ou correríamos o risco de passar por Gil Vicente e
seu cancioneiro) podemos lembrar sucintamente que estes estilos surgiram
como forma de contestação e que de fato produziram música de qualidade,
verdadeiras obras de arte.
O século XX foi o grande berço dos ritmos contemporâneos. Um dos
momentos decisivos foi o seu início, com o surgimento do jazz, como
resgate da luta dos negros contra o preconceito nos Estados Unidos e o
nascimento do rock (pelos idos de 55), que encontrava nas pueris
melodias de Chuck Berry sua expressão. Embora sem conteúdos políticos,
Berry, ex-presidiário, colocava nas ruas a voz dos não-eruditos. O rock
mostraria todo sua força de contestação a partir dos anos 60 e 70
(dispensável comentar).
No Brasil não foi diferente. Aqui, a “voz do morro” cantava e encantava
no rádio (à mesma época do jazz americano) nas melodias de Ary Barroso e
Noel Rosa. A “poesia do malandro” mostrava no samba sua gentil
declaração de amor à vida. Por volta da década de 30 se dá um dos
encontros mais frutíferos da música brasileira: o do samba com o jazz:
de dois estilos genuinamente populares, nasce a bossa nova, que embora
contasse com alguns músicos de formação européia e clássica, sempre
esteve bem mais próxima do “morro de Dna. Zica” que das escolas eruditas
do Velho Mundo.
Já na segunda metade do século o rock ganhava força, expandia-se pelo
mundo (isto nos anos 60 e 70). Também é desnecessário citar quaisquer
nomes. Aqui pelo Brasil, o movimento deu suas caras, imortalizando
roqueiros tupiniquins, mais tardiamente, já pela década de 80. Trazendo
toda esta reflexão aqui para o Brasil, hoje, é impossível falar em
música-popular sem lembrar o movimento Hip Hop, que retrata de forma
peculiar a realidade racista e opressiva brasileira em suas mais
diversas expressões: no grafite, no brake e no Rap, onde MV Bill é uma
das principais figuras. Mas ainda me pergunto: que movimento é este que
transforma música-popular em /cult/ ao mesmo tempo em que afirma que
tudo que é popular é ruim?
A resposta não pode cair na falastrice nem no equívoco. Música-popular
não é sinônimo de música-de-massa, ao contrário, os termos são
antônimos, como já foi mostrado no segundo parágrafo. Aqui reafirmo:
música-popular é sempre música-protesto, mesmo que não contenha palavras
de ordem ou mensagem política (a melhor expressão disto é Chuck Berry).
A forma de contestação pode ser sutil ou agressiva, mas sempre haverá
contestação pela forma com que a música-popular é feita - não é oficial,
está na contra-corrente. Hoje querem criar esta confusão, impondo a
música-de-massa como expressão popular o que é obviamente uma inverdade
pela artificialidade e má-qualidade desta “arte”. Daí, decorre a falsa
sensação de que o que é popular não é bom e cria-se a associação da mais
genuína música popular à classe, à elegância, à sofisticação, em suma, à
elite, fazendo com que toda esta cultura que foi devolvida para cima,
trabalhada brilhantemente seja separada como cultura para poucos. Este
movimento enfrentado pela música é cômico e controverso. O próprio Hip
Hop, que encontra ainda dificuldades de divulgação por ser
explicitamente agressivo com relação ao que pensa (não roda abertamente
na grande mídia), vai sendo gradativamente absorvido pela cultura
oficial, ou como explicar a explosão de Eminem aqui? Estaria o nosso
inglês assim tão fluente? O Hip Hop que é o movimento popular de maior
expressão hoje ainda tenta resistir bravamente. Assim, dentro desta
lógica, muitas bandas “feras” foram “domesticadas”. Engrossando este
coro, as gravadoras se negam a lançar determinados artistas no Brasil:
“- Não há mercado para tais lançamentos”. O resultado é um exílio da
boa-música no exterior ou no “underground”. Quem gosta do jazz
contemporâneo sabe da imensa dificuldade em se conseguir trabalhos de
artistas estrangeiros lançados no Brasil (ou seja, a preços acessíveis)
ou mesmo de músicos nacionais, assim como quem curte o bom o velho
rock’n roll não pode negar que boa parte das melhores bandas encontra-se
no cenário alternativo, onde os trabalhos lançados raramente chegam ao
grande público oferecendo estouro de vendas.
O que me preocupa é que por trás de tudo isto soa a voz da velha tese:
“o povo não gosta do que é bom”. Será? Somente este tipo de pensamento
pode justificar aberrações como a carreira de Robson Miguel: músico
brasileiro solicitadíssimo na Europa e quase um desconhecido em seu
país. Para quem não sabe, Robson é cafuzo e trabalhou como engraxate na
infância, o que não impede que sua música e técnica sejam excepcionais.
Saído do seio do povo, Robson é considerado um dos dez maiores
violonistas de todos os tempos, tem contrato com gravadoras na Espanha e
Alemanha. Mescla jazz, samba, flamenco, ritmos africanos e tudo mais o
que lhe aprouver.
Tudo isto só nos faz concluir que a arte está escondida do povo que a
criou com tanta maestria e agora se vê obrigado a escolher dentro de uma
série limitada, onde as opções não oferecem muitas variações. É a
negação da riqueza à cultura popular, negando-lhe a riqueza de
influências. Mas o povo é tinhoso. Abre os buracos. Ainda há bons
músicos aqui e fora. E como! A urgência está em procurá-los e
divulgá-los. Fazer música-protesto hoje é fazer Boa Música.
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