"Finalmente, este negócio da "filosofia da vida capitalista" é meio bater em rótulos superados. Nenhum país comunista teve, jamais, liberdade de criação artística. Neles, a repressão era prévia, na criação. No capitalismo é posterior, na comercialização. É quase a mesma bosta, só que no capitalismo sempre restam os meios alternativos de divulgação. No comunismo, só resta pegar um avião e fugir para outro país."
Ney, por favor só não confunda comunismo com ditadura. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Repressão na criação tivemos no Brasil (e das piores) e o país nunca foi comunista. O sentido em que coloquei o capitalismo foi menos como filosofia política, mais pelo lado econômico. São rótulos, concordo, mas é a visão de lucro que norteia nossa produção fonográfica de massa. Espero seu comentário paralelo... Aquele abraço, Gabriel Gomes -----Mensagem original----- De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de Ney Gastal Enviada em: quarta-feira, 13 de junho de 2007 13:18 Para: [email protected] Assunto: Re: Re: [S-C] Re:Artistas X Mídia X Público > > Não há programação pra todos os gostos não. Quando eu quero ouvir um > samba, só tenho uma rádio e tenho que dar sorte de tocar, duas se contar um > programa no fim de semana. As rádios com programação alternativa geralmente > não tem sinal bom, a qualidade das transmissões é inferior devido à falta de > recursos. Mas o problema não é esse. Não toca música erudita na televisão, > não aparece nas revistas, os espetáculos, quando têm são caros e pouco > divulgados. E dentro da filosofia de vida capitalista em que vivemos, isso > não é interessante para o consumidor, o consumidor quer porpurinas, fogos, > luzes ou qualquer coisa que ofusque sua capacidade de avaliar suas reais > necessidades e que alimente seu ego. *>>> Bueno, cada um de nós vai falar basicamente da realidade do lugar onde vive e conhece melhor. Por mais que se viaje, nossa visão sobre outras cidades sempre é meio falha. Aqui em Porto Alegre há um espaço relativamente bom nas rádios para samba, há espaço para música gaúcha, há espaço para música erudita. E não apenas nas emissoras públicas, mas também nas privadas. Claro, o domínio é da música importada, e, no caso da brasileira, daquela rotulada de "MPB", que poderíamos definir como Música Popular Burguesa. Mas resta espaço para todos os gêneros. Espetáculos de música erudita estão sempre (literalmente) lotados. E a TV (e aqui falo no nível nacional, principalmente na rede pública e - claro, neste caso há limitações - nos canais fechados) até que dá um bom espaço para a música erudita. As lojas de disco, estas sim, não tem espaço para ela, nem os sites de torrents na Internet. Aliás, um bom lugar para divulgar tudo isso - samba, choro e o que mais quiserem - é entupir estes locais com boa música brasileira para baixar, para conhecimento do mundo. Infelizmente, a maioria deles tem predominantemente nossa música mais comercial. Finalmente, este negócio da "filosofia da vida capitalista" é meio bater em rótulos superados. Nenhum país comunista teve, jamais, liberdade de criação artística. Neles, a repressão era prévia, na criação. No capitalismo é posterior, na comercialização. É quase a mesma bosta, só que no capitalismo sempre restam os meios alternativos de divulgação. No comunismo, só resta pegar um avião e fugir para outro país. Quem ficava se submetia, e olhem a bosta do panorama artístico da União Soviética enquanto existiu, afora os produtos "para exportação" (sinfônicas e ballets) que mantinha em gira pelo mundo. Enfim, o problema não é de regime, mas do comportamento de quem se abanca no poder, representando seja lá que ideologia for.* Outro ponto que você levantou é muito interessante, o do comodismo. O > brasileiro é notoriamente acomodado (generalizando da forma mais burra > possível). Mas acredito que isso tudo seja parte de um processo contínuo de > alienação em massa, e aí entra o papel da mídia comercial, sobrevivente, ao > meu ver, devido nível de educação da nossa população. *>>> Não, você não está fazendo uma "generalização burra". Não mais, pelo menos, do que qualquer generalização e as fazemos as dúzias, todos os dias. Na verdade, como todo país tropical e quente (e ainda mais de formação católica, onde a recompesa é prometida para depois), somos acomodados mesmo. Mas indolência física e acomodação social não são desculpas para falta de interesse, de curiosidade. O sujeito pode passar o dia inteiro em uma rede coçando o saco ou lendo. E, se ler, pode abrir uma revista Caras ou um livro. E, se abrir um livro, pode ser de auto-ajuda ou de... o mundo inteiro de conhecimento. Quer dizer, faça o que você fizer, aja como agir, sempre existem as opções conformista e a de inquietude. Na Espanha, tudo fecha para o almoço (até alguns restaurantes, estou falando sério) e só abre depois do meio da tarde, para que todos possam fazer "a siesta". E, no entando, as pessoas são inquietas, curiosas, compram mais livros que no Brasil, que é muito maior e tem muito mais gente. Já no México, com o mesmo hábito de horário da Espanha, a situação é quase pior que a nossa. Cultura é inquietude e vontade de conhecer, perceber que as coisas podem sempre ser mais amplas. Quer ver? Aqui é uma lista de samba e choro, onde muita gente gosta de ressaltar que estes gêneros são superiores - por exemplo - ao regionalismo das duplas caipiras. Participo de outras listas. Em uma, desta coisa nebulosa rotulada como MPB, há muita gente que acha samba puro inferior. E noutra, de música erudita, a posição dominante é que toda música popular é (será que exagero no registro das opiniões que leio por lá?) inferior. Ora raios, por que este comportamento de matilha, de quadrilha, de grupo, ainda sobrevive em nosso cérebro intolerante? Levando mais longe, por que o turista francês foi morto no Rio só por ser homossexual? Por que os que pensam diferente de nós são, sempre, de uma ou de outra forma, tachados como errados, inferiores ou simplesmente desprezíveis? Por que sempre achamos que nosso grupo é melhor - e não apenas diferente - do que os outros?* Calma, não venham me apedrejar, nem empurrar outra vez aquele livro... > Quando falo em educação é educação cultural. Educar não é só ensinar a > língua, matemática e mais meia dúzia de matérias. Educar é estimular o > desenvolvimento, desafiar, é apresentar opções e ensinar a fazer escolhas, é > fornecer uma base para que a pessoa possa desenvolver seu caráter, formar > suas opiniões. Aí entra o papel da música, do cinema, do teatro, da > literatura, enfim, da arte... *>>> Perdi esta parte, não sei a que livro você está se referindo. Concordo com tudo o que você escreve neste parágrafo, mas a grande dificuldade está justamente ali, registrada no ponto "ensinar a fazer escolhas". Pouquíssima gente consegue fazer isto. A maioria absoluta quer mesmo é ensinar a pensar igual, limitando-se a transmitir regras e conceitos, em vez de conhecimentos para que cada um tire suas próprias conclusões. Minha irmã, professora de Biologia, foi uma vez concorrer a uma vaga num colégio católico, administrado pelos jesuítas. Ao final, restaram ela e uma outra candidata. A banca as entrevistou juntas e perguntou como ambas viam a questão do choque de conceitos entre criacionismo e evolucionismo. A outra candidata respondeu que respeitava os dois conceitos e que apresentaria ambos a seus alunos, mesmo que dando ênfase à teoria evolucionária. Minha irmã respondeu que era cientista e que iria ensinar apenas a teoria evolucionária. Então o padre (jesuíta, é bom lembrar) que chefiava a banca levantou e ali mesmo anunciou que ela estava contratada. E complementou: "Aqui é um colégio, as pessoas vem aqui para aprender a pensar e fazer suas escolhas. De religião falo eu em minhas aulas. A senhora está sendo contratada para ensinar ciência, e é isso que deve ensinar". Legal, não é? Cabeça aberta. Coisa raríssima.* Vou pegar seu exemplo para resumir um pouco do que estávamos discutindo > anteriormente. Eu não conheço a obra de Carmina Burana (anotei e vou > aprender um pouco mais depois). Comodismo? Talvez, apesar de não ter a > pretensão de saber tudo sobre música. Mas vejo pelo lado da oportunidade, > ninguém nunca chegou pra mim e disse, "Você conhece a Carmina? Ouve isso > aqui." Mas daí a dizer que a música dela é ruim é um absurdo. Dizer que não > faz sucesso porque o povo não gosta é outro. *>>> Sobre isso comentarei em paralelo, num post partricular. Agora estou com fome e vou almoçar sem revisar o que escrevi. Por favor, relevem erros. E, ah, alguém tem uma boa gravação da "Nau Catarineta"?* Aquele abraço, > Gabriel Gomes *Outro,* *Ney Gastal* _______________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta _______________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
