Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_112.htm
mpB
Arqueologia do samba
Cristina Buarque e Terreiro Grande lançam disco de canções antigas, com
inéditas de Candeia, Paulo da Portela, Manacéa e Chico Santana
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Teresa Albuquerque
Da equipe do Correio
Cristina Buarque abre um sorriso quando lembra do telefonema que recebeu em
2005, de um rapaz chamado Neco. Integrante de um tal Grêmio Recreativo
Tradição e Pesquisa Morro das Pedras, ele queria convidá-la para uma
homenagem ao portelense Alvaiade (1913-1981), que o grupo faria em São
Paulo. A cantora, que se dizia aposentada, topou. E voltou ao Rio
animadíssima com a rapaziada que conheceu por lá. É porque o lance deles
não tem cara de trabalho. O que eles gostam de fazer, e eu também, é sentar
numa mesa de bar e cantar. Estou cansada é de palco, de microfone, conta
ela, que acabou gravando com a turma o CD Cristina Buarque e Terreiro Grande
ao vivo, com nada menos do que 37 sambas. E ainda ficou música de fora.
Terreiro Grande é o novo nome do grupo paulista, que em dezembro de 2006
encerrou as atividades da agremiação Morro das Pedras, inaugurada em 2001.
Os 15 integrantes, a maioria na casa dos 30 anos, ganham a vida com outros
trabalhos (fora da música) e, quando se juntam, são capazes de tocar (bem)
por horas a fio. Uma vez, cheguei ao meio-dia e eles já estavam tocando. Só
pararam às 20h. E sem repetir música!, ri Cristina. Eles são animados e
conhecem muitas coisas.
Pois é, depois daquele primeiro encontro, para a homenagem a Alvaiade, eles
dividiram outras rodas de samba em São Paulo e Paquetá, no Rio. Nasceu uma
grande amizade, diz o percussionista Roberto Didio. Cristina tem um lado
forte de pesquisa, nós também. Trocamos informações, passamos para ela
algumas coisas que ela não conhecia, e vice-versa. Nos identificamos muito
no gosto musical.
Jeito manso, boa-praça, Cristina Buarque é respeitada pesquisadora meia
Lapa carioca vive atrás dela , mas, assim como a relação do Terreiro Grande
com a música, ela trata o trabalho de garimpagem com informalidade. Adoro,
mas não faço isso profissionalmente. Faço quando as pessoas me pedem, e
muita gente me dá coisas também. Não é que eu fique correndo atrás, há muita
troca, ressalta. E não é que os rapazes surpreenderam a veterana? Coisas
que eu mal lembrava, eles cantavam. Às vezes, mandava uma na roda achando
que não saberiam, uma pegadinha, e eles saíam cantando junto.
No ano passado, quando foi convidada para um show no Teatro Fecap, na
capital paulista, ela tratou logo de chamar a turma. Raridades pra lá e pra
cá, acabaram montando um repertório gigante, que entrou na roda e no disco
dividido em quatro blocos. Entre as 37 músicas, há algumas conhecidas,
como Esta melodia (Bubu da Portela e José Bispo), já gravada por Marisa
Monte; Quantas lágrimas (de Manacéa) e Você me abandonou (Alberto Lonato).
Várias tinham caído no esquecimento, como Perdão, meu bem (Cartola), e
quatro nunca haviam sido gravadas Tu me desprezas (Paulo da Portela),
Conselho da mamãe (Manacéa), Inspiração (Candeia) e Eu não sou do morro
(Francisco Santana).
Conselho da mamãe, por exemplo, foi descoberta pelos rapazes. Eu não sou do
morro, ela ouviu do próprio Chico Santana, em Oswaldo Cruz, reduto
portelense. Outra surpresa, para a cantora, foi a engraçada Confraternização
1, de Walter Rosa, cartão de boas-festas em forma de música, que cita uma
série de compositores, inclusive ele mesmo. Como não coube todo mundo, Rosa
escreveu Confraternização 2 e 3.
Faixas engatilhadas
No álbum, os 37 sambas só couberam porque entraram engatilhados, em quatro
faixas de aproximadamente 10, 30, 20 e 15 minutos.Roda de samba é assim
mesmo, você vai emendando as músicas. Uma hora pára um pouquinho, toma um
gole de cerveja e segue de novo, comenta Cristina. Aplausos, só no fim.
Além de transmitir naturalidade, é algo diferente, mostra independência,
completa Didio. É uma ousadia fazer um disco de quatro faixas, não?
No show de lançamento do álbum (a temporada começou na quinta e termina
hoje), no mesmo Teatro Fecap em que gravaram, eles ainda incluíram
bloquinhos de músicas que não tiveram espaço no disco. Entre elas, uns
amaxixados, uns sambas do Império Serrano em homenagem a Careca, o único
imperiano no Terreiro Grande; o resto é portelense e outros de
tristezuras, como ela brinca.
Animado com o projeto, 100% independente, Roberto Didio ressalta que o
trabalho não tem caráter saudosista (há elementos contemporâneos, basta
observar a formação instrumental) e que é altamente profissional, apesar
de os integrantes terem outros ofícios. Nada contra quem vive de música. Só
não aconteceu conosco e, dessa forma, ganhamos certa autonomia, de fazer
quando e como queremos.
Cristina gosta dessa despreocupação. Eles não tocam lendo cifras, por
exemplo. Um músico profissional faz questão de escrever para não errar, para
todo mundo tocar o mesmo acorde, sabe? Tem aquele negócio de ler, parar,
corrigir, voltar
Com eles, não. No ensaio, você canta uma vez cada música e
está pronto. Cansada de palco, de microfone, ele quer mais é fazer isto:
sentar à mesa, cantar e se divertir. Mesmo que o trabalho dure oito horas.
CRISTINA BUARQUE E TERREIRO GRANDE AO VIVO
Disco independente, com 37 sambas gravados pela cantora e o grupo paulista
no Teatro Fecap, em São Paulo. Distribuição: Tratore (www.tratore.com.br).
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