Extraído da Revista CARTA CAPITAL
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/2007/09/462/maria-rita-do-morro
Edição 462
Maria Rita do morro
por Editoria de Cultura
A tal da MPB virou uma coisa altamente elitizada, propõe a cantora Maria
Rita. O tema tabu, evitado pela maioria de seus pares, é o norte de
lançamento do álbum Samba Meu
É um dilema para mim, me incomoda essa história de MPB ter se elitizado, de
dizerem MPB é música de rico. Porque fraciona incrivelmente o mercado, e
não é verdade, não é realista.
Ciente da clausura em que vive a outrora orgulhosamente batizada música
popular brasileira, ela se alia ao que talvez seja um modismo atual, de uma
leva de intérpretes identificados com a MPB de extração universitária (como
Marisa Monte e Roberta Sá) que abraçaram o samba como veio de expressão.
Maria Rita, no entanto, radicaliza a opção. Mais da metade do repertório de
Samba Meu é ocupada por canções compostas por Arlindo Cruz, Serginho Meriti
e outros nomes egressos do núcleo conhecido como Fundo de Quintal,
geralmente desprezado pela nata da MPB e seus admiradores.
A filha de Elis Regina e Cesar Camargo Mariano adiciona ao trio jazzístico
testado nos dois discos anteriores farta instrumentação de samba. A produção
é de Leandro Sapucahy, um sambista carioca tradicional que tocou com
Marcelo D2 e no disco de estréia adotou temática e vestimentas do hip-hop.
Os sambas, ao mesmo tempo simples e sofisticados, são quase sempre inéditos
(a pungente Trajetória foi gravada em 1997 por Elza Soares, uma sambista do
morro que há décadas peleja na determinação de cruzar a ponte samba-MPB).
Aos sambas de fundo de quintal tipo anos 80, Maria Rita soma uma e outra
referência pinçada dos trabalhos de Paulinho da Viola e Gonzaguinha na
década de 70.
Outro bloco do disco é dedicado a canções de autores novos, e não
necessariamente sambistas. É o caso das duas fortes canções do híbrido
compositor Edu Krieger, Novo Amor (gravada simultaneamente por Roberta Sá) e
Maria do Socorro. Filho do maestro erudito Edino Krieger, ele acaba de
lançar um disco em que coexistem pop, rock, samba e erudição (Novo Amor, um
choro, faz pensar de longe em Villa-Lobos).
Outro caso é o da dramática faixa-título, do novato Rodrigo Bittencourt,
assim definido por Maria: É um menino de Bangu, um roqueiro, mais pop. Ele
diz que não é sambista. No entanto, escreveu versos como o meu samba vai te
acordar do sono, usados na abertura do CD da moça da MPB que luta para ser
popular. POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES
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