Não consigo expressar com palavras, o que foi a visita desse pessoal do
Terreiro Grande, no Rio de Janeiro nesse último fim de semana. Foi realmente
algo inexplicável.
Confesso que comprei o disco, porque ouvi muitos comentários. Porém, sem a
menor expectativa porque não achava que ainda poderia-se produzir algo com a
qualidade que esse pessoal produziu. Claro que, nem preciso dizer que a
surpresa foi enorme, logo nos primeiro minutos do disco rolando. Melhor que
isso, fiquei espantado.
Como qualquer carioca eu também tenho meu pé atrás com os paulistas quando o
assunto é samba. Aqui no Rio nós sabemos que o negócio de São Paulo é fazer
dinheiro, não samba. Mas sou obrigado a reconhecer que esse pessoal do Terreiro
me fez começar a prestar mais atenção nos fatos reais. O Rio já não anda mais
com essa bola toda. Os grandes mestres são cariocas, nasceram aqui, mas esses
caras me provaram que há muito tempo, nós cariocas, não sabemos o que é um bom
samba de verdade. Não tô dizendo que não existe, mas sim que é muito difícil de
se ver.
Voltando ao final de semana. Pela primeira vez fui à Paquetá. Engraçado que o
que me fez ir à Paquetá pela primeira vez, não foi a insistência do meu vô,que
sempre quis levar toda família pra Paquetá e comprou uma casa lá há alguns
anos, mas sim a presença dos tais paulistas que tanto tenho ouvido falar por
aqui nas rodas e bares do Rio. Cheguei lá, a roda já estava formada. O samba,
maravilhoso, como no disco. Fiquei surpreso ao ver algumas figuras por ali.
Pedro Amorim, que tem fama de ser um cara um tanto quanto intolerante, Ana
Rabello, filha de Paulo César Pinheiro e Luciana Rabello, seu irmão Julião,
Áurea Maria, filha de Manacéa, Alfredo Del Penho e outras personalidades, que
não estou acostumado a ver em rodas de samba mesmo. Só de chôro. Esse pessoal
estava visivelmente feliz em estar ali. O samba foi algo muito especial.
Repertório muito diversificado e com muita novidade. Coisa linda de ver e
ouvir. A volta na barca, foi muito bacana.
O pessoal que poderia estar bem cansado, já que boa parte dos músicos ficou
exposto ao sol de Paquetá, tocando sem parar, veio cantando de lá até a Praça
XV. Esses caras tratam o samba com muito respeito.
Mas eu queria mais. Então também fui prestigiá-los no Trapiche Gamboa, que é
uma das poucas casas aqui no Rio que trazem algo de qualidade. E pasmei ao
constatar que o samba ainda conseguiu ser melhor que o de Paquetá. E dessa vez,
ví outras coisas muito interessantes. Estavam presentes muita gente da música.
Tinha gente do Casuarina, do Semente, o pessoal do Choro na Feira, Teresa
Cristina, Pedro Paulo Malta, Miúcha, Jards Macalé e outra vez, o Pedro Amorim,
com a mesma roupa que estava usando em Paquetá e com varas de pescar na mão, o
que me faz pensar que ele veio direto de lá para o Trapiche, só para mais uma
vez, prestigiar o samba do pessoal. Isso é muito curioso. Uma espécie de
unanimidade estava pairando no ar. parece que todos estavam surpresos com o que
estavam vendo. Ví várias pessoas se perguntando: "A quanto tempo não vemos nada
parecido com isso aqui no Rio?" Ví a Teresa Cristina cantando do lado de fora,
como mera espectadora em uma legítima roda de samba. Ví o
Pedro Paulo Malta, ficar calado diante daquilo. Ví gente de grupo muito
famoso aqui no Rio, nem se atrever a ficar perto da roda. Ví verso de
improviso, como nunca ví por aqui. Ví o Pedro Miranda se arriscar a mandar um
versinho e ficar perdido no meio do pessoal. Ví a Cristina Buarque feliz numa
roda, como nunca havia visto. Ví esse pessoal de São Paulo, com uma humildade
fora do comum, tratando todos com o maior respeito. Ví uma das melhores rodas
de samba da minha vida e estou angustiado porque não sei quando eu poderei ver
isso outra vez.
Não sei. Talvez isso seja o prenúncio de novos tempos para o samba. Tomara!
Uma coisa eu preciso dizer: Duvido que qualquer carioca que presenciou esse
evento vá dizer que samba só existe no Rio de Janeiro. Eu já fui porta voz
desse discurso. Hoje não tenho mais coragem pra sustentar isso.
Lúcia, foi muito bacana o verso da Teresa tirando sarro do Flamengo, mas o
verso do Pedrinho Miranda deixou a desejar.
Renê
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