A cultura do Recôncavo Baiano em geral é muito rica, pois reflete 
explicitamente várias influências da colonização européia. Estamos falando de 
coisas que chegaram aqui na época do descobrimento/colonização do Brasil. E 
isso tudo se misturou com a história de um povo que na época era "visitado" por 
gente de vários países. Portugal, Holanda, Espanha, Angola, e por aí vai...
É muito interessante fazer a seguinte comparação:
O perímetro da Baia de Guanabara é de aproximadamente 150 km, enquanto que o da 
Baía de Todos os Santos chega a mais ou menos 270 km (acabei de medir pelo 
Google Earth, qualquer erro culpem a reguinha do programa). Imagine quanta 
gente cabe na margem dessas duas Baías. Claro que em nenhum dos dois casos, 
temos 100% de ocupação das faixas de terras litorâneas, mas mesmo assim existe 
um universo muito grande de acontecimentos, incluem-se aí os culturais, que 
ocorreram ao longo dos séculos nesses dois lugares.
Além da extensão litorânea, soma-se aí os acontecimentos históricos que 
ocorreram intensivamente de 1500 pra cá. Joga tudo num caldeirão, tempera daqui 
e dali e chega-se ao panorama cultural dessas duas baías oceânicas.
Mas hoje em dia existe um fator, que simplesmente
pode ofucar tudo isso: a mídia!
Não é preciso ser nenhum gênio, pra perceber que dos 150 km de baía de 
guanabara não existem apenas o samba e o choro como manifestações culturais. 
Quantas e quantas formas de cultura simplesmente são desconhecidas do grande 
público apreciador de cultura (se é que esse rótulo é válido)? Se isso ocorre 
no RJ da sapucaí, que dirá na Bahia do trio elétrico! Uma das minhas maiores 
surpresas foi descubrir a viola caipira como um instrumento de samba. E a 
partir daí ver um ponto em comum entre a música caipira e o samba. Indo um 
pouco mais além, descobri a viola machete.
Ora, segundo Henrique Cazes, no Escola Moderna do Cavaquinho: "...além deste 
nome (cavaquinho), encontramos ainda, para o mesmo instrumento ou outros com 
ele relacionados, as designações de machinho, machim, MACHETE ou marchete, 
braguinha ou braguinho, cavaco, etc..."
O que pra mim está sendo uma descoberta, pra essa população é óbvio. Não é raro 
vc encontrar negros de olhos azuis-claros nessa região. Porque será? É só olhar 
os sobrenomes...
Se o cavaquinho é um instrumento português, e o Brasil é um país que recebeu 
uma migração maciça de Portugal (entre outros países), o samba não teria 
nenhuma influência disso? É um exercício mental gostoso... Eu faço direto... A 
cultura brasileira que está na mída não é nem uma ponta do iceberg, eu diria 
que é uma pedrinha de gelo que fica láááááá no alto da pontinha mais alta do 
iceberg. E ela não caiu lá de paraquedas. De jeito nenhum, é apenas uma bolha 
num caldeirão fervendo.
Indo mais longe, além da música-caipira/samba. Temos também um outro braço 
importantíssimo da cultura nordestina/brasileira: o forró.

Vejam o que Gil fala sobre tudo isso:
http://br.youtube.com/watch?v=EBgdB9--8u0

Assisti uma palestra aqui em Salvador, em que o próprio comenta que no sertão. 
É comum as pessoas falarem, "vou num samba na casa de fulano, na fazenda de 
sicrano", e quando se chega lá a música é o baião.

Se mexer muito nesse mato aí sai cada coelho que dá gosto!


Mestre Zé de Lelinha, pra mim, representa tudo isso.
Toda essa cultura, toda essa história.
Todo esse Brasil, que o Brasil não conhece
E quando descobre, fica mais rico.

Samba não é a voz do morro: é a voz de um país.
a descobrir...

Abs



Marcelo Neder









--- Em qui, 18/9/08, Caio Pontual <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:

> De: Caio Pontual <[EMAIL PROTECTED]>
> Assunto: Re: [S-C] "Morre" o Mestre Zé de Lelinha
> Para: [email protected]
> Data: Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008, 10:16
> Eu não conhecia essa versão do samba, me lembrou muito o
> miudinho, vcs. não 
> acham?
> Talvez esse seja mais um indício daquela velha discussão
> da origem do 
> samba....
> 
> Um abraço.
> Caio Pontual
> 
> 
> 
> ----- Original Message ----- 
> From: "Marcelo Neder"
> <[EMAIL PROTECTED]>
> To: <[email protected]>; "Petry
> Lordelo" <[EMAIL PROTECTED]>
> Sent: Wednesday, September 17, 2008 12:26 PM
> Subject: Re: [S-C] "Morre" o Mestre Zé de
> Lelinha
> 
> 
> A viola machete é um dos instrumentos mais ricos,
> complexos e desconhecidos 
> do grande público brasileiro. Carrega uma cultura das mais
> bonitas que é a 
> do samba chula. Infelizmente, as matrizes como o Mestre Zé
> de Lelinha não 
> são eternos e muitas vezes, seus conhecimentos morrem com
> eles. Fico muito 
> triste com essa notícia. O samba é muito mais amplo do
> que a maioria dos 
> sambistas brasileiros conhecem. Talvez a ponta do Iceberg.
> É preciso trazer 
> ao grande público toda a cultura do samba brasileiro.
> 
> Fiquem aqui com uma imagem do Mestre Zé de Lelinha em
> ação:
> http://br.youtube.com/watch?v=ou5DyJ211fM
> 
> Salve Mestre Zé da Lelinha
> 
> 
> Abs
> 
> 
> Marcelo Neder
> 
> --- Em seg, 15/9/08, Petry Lordelo
> <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> 
> > De: Petry Lordelo <[EMAIL PROTECTED]>
> > Assunto: [S-C] "Morre" o Mestre Zé de
> Lelinha
> > Para: [email protected]
> > Data: Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008, 11:06
> > Camaradas,
> >
> > Nos deixou, em corpo, aos 86 anos, na madrugada deste
> > domingo, o Mestre José Vitório dos Reis, mais
> conhecido
> > como Zé de Lelinha, a mais antiga referência, ainda
> viva,
> > da viola machete do samba chula do Recôncavo da
> Bahia.
> > Que a sua memória e os seus saberes sigam sendo
> > preservados...
> > Vibra-sons de alegria,
> >
> > Petry Lordelo




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