Disse tudo, Marcelo .
Precisamos descobrir esse Brasil que o brasileiro não conhece.
Um abraço.
Caio Pontual
----- Original Message -----
From: "Marcelo Neder" <[EMAIL PROTECTED]>
To: <[email protected]>; "Caio Pontual" <[EMAIL PROTECTED]>
Sent: Thursday, September 18, 2008 12:06 PM
Subject: Re: [S-C] "Morre" o Mestre Zé de Lelinha
A cultura do Recôncavo Baiano em geral é muito rica, pois reflete
explicitamente várias influências da colonização européia. Estamos falando
de coisas que chegaram aqui na época do descobrimento/colonização do Brasil.
E isso tudo se misturou com a história de um povo que na época era
"visitado" por gente de vários países. Portugal, Holanda, Espanha, Angola, e
por aí vai...
É muito interessante fazer a seguinte comparação:
O perímetro da Baia de Guanabara é de aproximadamente 150 km, enquanto que o
da Baía de Todos os Santos chega a mais ou menos 270 km (acabei de medir
pelo Google Earth, qualquer erro culpem a reguinha do programa). Imagine
quanta gente cabe na margem dessas duas Baías. Claro que em nenhum dos dois
casos, temos 100% de ocupação das faixas de terras litorâneas, mas mesmo
assim existe um universo muito grande de acontecimentos, incluem-se aí os
culturais, que ocorreram ao longo dos séculos nesses dois lugares.
Além da extensão litorânea, soma-se aí os acontecimentos históricos que
ocorreram intensivamente de 1500 pra cá. Joga tudo num caldeirão, tempera
daqui e dali e chega-se ao panorama cultural dessas duas baías oceânicas.
Mas hoje em dia existe um fator, que simplesmente
pode ofucar tudo isso: a mídia!
Não é preciso ser nenhum gênio, pra perceber que dos 150 km de baía de
guanabara não existem apenas o samba e o choro como manifestações culturais.
Quantas e quantas formas de cultura simplesmente são desconhecidas do grande
público apreciador de cultura (se é que esse rótulo é válido)? Se isso
ocorre no RJ da sapucaí, que dirá na Bahia do trio elétrico! Uma das minhas
maiores surpresas foi descubrir a viola caipira como um instrumento de
samba. E a partir daí ver um ponto em comum entre a música caipira e o
samba. Indo um pouco mais além, descobri a viola machete.
Ora, segundo Henrique Cazes, no Escola Moderna do Cavaquinho: "...além deste
nome (cavaquinho), encontramos ainda, para o mesmo instrumento ou outros com
ele relacionados, as designações de machinho, machim, MACHETE ou marchete,
braguinha ou braguinho, cavaco, etc..."
O que pra mim está sendo uma descoberta, pra essa população é óbvio. Não é
raro vc encontrar negros de olhos azuis-claros nessa região. Porque será? É
só olhar os sobrenomes...
Se o cavaquinho é um instrumento português, e o Brasil é um país que recebeu
uma migração maciça de Portugal (entre outros países), o samba não teria
nenhuma influência disso? É um exercício mental gostoso... Eu faço direto...
A cultura brasileira que está na mída não é nem uma ponta do iceberg, eu
diria que é uma pedrinha de gelo que fica láááááá no alto da pontinha mais
alta do iceberg. E ela não caiu lá de paraquedas. De jeito nenhum, é apenas
uma bolha num caldeirão fervendo.
Indo mais longe, além da música-caipira/samba. Temos também um outro braço
importantíssimo da cultura nordestina/brasileira: o forró.
Vejam o que Gil fala sobre tudo isso:
http://br.youtube.com/watch?v=EBgdB9--8u0
Assisti uma palestra aqui em Salvador, em que o próprio comenta que no
sertão. É comum as pessoas falarem, "vou num samba na casa de fulano, na
fazenda de sicrano", e quando se chega lá a música é o baião.
Se mexer muito nesse mato aí sai cada coelho que dá gosto!
Mestre Zé de Lelinha, pra mim, representa tudo isso.
Toda essa cultura, toda essa história.
Todo esse Brasil, que o Brasil não conhece
E quando descobre, fica mais rico.
Samba não é a voz do morro: é a voz de um país.
a descobrir...
Abs
Marcelo Neder
--- Em qui, 18/9/08, Caio Pontual <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
De: Caio Pontual <[EMAIL PROTECTED]>
Assunto: Re: [S-C] "Morre" o Mestre Zé de Lelinha
Para: [email protected]
Data: Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008, 10:16
Eu não conhecia essa versão do samba, me lembrou muito o
miudinho, vcs. não
acham?
Talvez esse seja mais um indício daquela velha discussão
da origem do
samba....
Um abraço.
Caio Pontual
----- Original Message -----
From: "Marcelo Neder"
<[EMAIL PROTECTED]>
To: <[email protected]>; "Petry
Lordelo" <[EMAIL PROTECTED]>
Sent: Wednesday, September 17, 2008 12:26 PM
Subject: Re: [S-C] "Morre" o Mestre Zé de
Lelinha
A viola machete é um dos instrumentos mais ricos,
complexos e desconhecidos
do grande público brasileiro. Carrega uma cultura das mais
bonitas que é a
do samba chula. Infelizmente, as matrizes como o Mestre Zé
de Lelinha não
são eternos e muitas vezes, seus conhecimentos morrem com
eles. Fico muito
triste com essa notícia. O samba é muito mais amplo do
que a maioria dos
sambistas brasileiros conhecem. Talvez a ponta do Iceberg.
É preciso trazer
ao grande público toda a cultura do samba brasileiro.
Fiquem aqui com uma imagem do Mestre Zé de Lelinha em
ação:
http://br.youtube.com/watch?v=ou5DyJ211fM
Salve Mestre Zé da Lelinha
Abs
Marcelo Neder
--- Em seg, 15/9/08, Petry Lordelo
<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> De: Petry Lordelo <[EMAIL PROTECTED]>
> Assunto: [S-C] "Morre" o Mestre Zé de
Lelinha
> Para: [email protected]
> Data: Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008, 11:06
> Camaradas,
>
> Nos deixou, em corpo, aos 86 anos, na madrugada deste
> domingo, o Mestre José Vitório dos Reis, mais
conhecido
> como Zé de Lelinha, a mais antiga referência, ainda
viva,
> da viola machete do samba chula do Recôncavo da
Bahia.
> Que a sua memória e os seus saberes sigam sendo
> preservados...
> Vibra-sons de alegria,
>
> Petry Lordelo
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