Brasília, sábado, 15 de novembro de 2008

CADERNO C



Entrevista - Sérgio Mamberti

Convocado para assumir a direção da Funarte, com posse marcada para 
segunda-feira, o ator adianta o que será sua missão à frente do terceiro cargo 
que ocupa no governo Lula


Ailton Magioli
Do Estado de Minas
Terceiro ator a assumir a presidência da Fundação Nacional de Arte (Funarte) no 
governo Lula – a posse está agendada para segunda-feira, às 17h, no Auditório 
Gilberto Freyre do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro – o paulista 
Sérgio Mamberti, de 69 anos, vai encontrar o órgão praticamente paralisado 
desde a saída, em outubro, de Celso Frateschi, que havia substituído, no ano 
passado, Antonio Grassi. Já trabalhando na execução orçamentária, até o final 
do mês ele deverá anunciar os integrantes da nova diretoria (música, artes 
visuais, artes cênicas e programas integrados), além do resultado dos últimos 
editais publicados pelo órgão. Militante cultural com destacada atuação nos 
meios artístico e político, a convite do então ministro Gilberto Gil, em 2003, 
Mamberti esteve à frente da Secretaria de Artes Cênicas do Ministério da 
Cultura, transferindo-se no ano seguinte para a Secretaria da Identidade e da 
Diversidade Cultural.

Apesar de guardar para a posse a apresentação das diretrizes que vão orientar 
as políticas públicas da Funarte nos próximos dois anos, Mamberti antecipou 
algumas de suas propostas, confirmando a disposição para o diálogo com a 
sociedade na construção das políticas de cultura. A presença do ator à frente 
do órgão, segundo representantes do MinC, representa uma aposta na 
reestruturação da Funarte, com o objetivo de consolidar seu campo de ação no 
território nacional, além de reafirmar sua relevância no cenário artístico 
brasileiro.


Hora de apaziguar os ânimos





A Funarte se tornou um problema para o atual governo, desde que Antônio Grassi 
deixou o órgão, substituído por Celso Frateschi, que também acabou saindo. De 
lá pra cá, ela ficou paralisada e a esperança recai sobre o senhor. O que 
pretende fazer para acalmar os ânimos no órgão?
Os ânimos realmente estavam acirrados, havia expectativa com a chegada do Celso 
na substituição abrupta do Grassi. Na verdade, quando chegamos ao Ministério da 
Cultura, a situação da Funarte era pior. Acho que o Grassi se dedicou 
longamente a restabelecer e revitalizar Funarte, conseguindo resultados 
palpáveis. Como houve a interrupção da gestão dele, veio o Celso para 
substituí-lo e houve incompatibilidade na relação entre ele e os funcionários. 
Respeito o Celso, sua história e trajetória, mas temos de olhar para frente. 
Venho incumbido pelo ministro Juca Ferreira de tentar reconstruir esse processo 
e avançar. O ministério reconhece a complexidade da Funarte, ainda não 
totalmente abarcada pela nossa gestão. O ministro Gil emprestou seu nome e 
carisma ao MinC. Hoje, somos o ministério que melhor executa na Esplanada, em 
torno de 98% dos projetos, além da projeção nacional e internacional, abrindo 
diálogo como a sociedade, todos os segmentos, e de termos construído políticas 
públicas. Nossa luta é no sentido da institucionalização do que foi 
conquistado, de consolidar a participação da sociedade na elaboração, regulação 
e fiscalização dessas políticas. O Conselho Nacional de Políticas Culturais, o 
Plano Nacional de Cultura, o Sistema Nacional de Cultura, os pontos de cultura, 
os trabalhos que a gente executa na área do audiovisual, a Secretaria da 
Identidade e da Diversidade Cultural que estou deixando. É um acúmulo, um 
somatório de ações bem-sucedidas que nos deixam devedores para corrigir o que 
ainda não conseguimos trabalhar como gostaríamos.

A recomendação do ministro Juca Ferreira é de que a Funarte troque a estrutura 
presidencial pela colegiada. O que acha da proposta?
A estrutura será a mesma, o presidente da Funarte estará lá, como o ministro no 
ministério. Mas adotamos uma administração compartilhada desde o MinC. Os 
núcleos de dirigentes e estratégico são uma instância colegiada no sentido de 
compartilhar decisões, comentar, criticar. Às vezes tudo demora um pouco, como 
as mudanças da Lei Rouanet. Preferimos que seja mesmo um pouco mais lento, mas 
que contemple esse leque de interesses e de representatividade que é a 
sociedade construída a partir dos fóruns, das câmaras setoriais – que agora vão 
se chamar colegiados setoriais –, dos grupos de trabalho. Nossas políticas são 
consensuais e o Conselho Nacional de Cultura hoje tem papel de criticar, 
analisar, sugerir e somar com a gente na participação efetiva da sociedade.

Outra proposta do ministro é de ampliar a atuação da Funarte no país, 
fortalecendo as diretorias, e trabalhar de forma compartilhada, além de criar 
um conselho administrativo. O que acha?
Não diria um conselho administrativo, estamos procurando o formato ideal para 
ele e, a princípio, nos inspiramos no conselho do Iphan (Instituto do 
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e em outros conselhos de órgãos 
federais, para criar uma instância também de fora, que contribua para as 
soluções. Tudo isso enriquece a proposta. Estou confiante principalmente por 
isso, ninguém tem vara de condão. Tenho larga experiência em todos os campos em 
que vamos trabalhar. Saio de uma estrutura de 30 pessoas da secretaria que eu 
ocupava para uma de praticamente 600 pessoas. A Funarte é grande, tem pessoal 
em Brasília e no Rio, além das regionais de Minas Gerais, São Paulo e do Recife.

Como conhecido do governo – antes da Funarte, passou por duas secretarias –, o 
senhor sabe que um dos maiores problemas do setor é a falta de verbas. Como 
enfrentar o problema?
Essa frente de luta, vamos dizer de complementação e implementação 
institucional de tudo que a gente tem feito, passa pelo financiamento da 
cultura. Estamos lançando a campanha Todos pela Cultura, que apoiará o projeto 
de emenda constitucional que institui os 2% do orçamento da União para o setor, 
dos deputados Fátima Bezerra, Paulo Rubens Santiago, Gilmar Machado e Iara 
Bernardes. Estamos também em ofensiva com a frente parlamentar de apoio à 
cultura para a aprovação de emendas. A idéia é uma ação para sensibilizar os 
parlamentares para manter a emenda como está. Temos uma perspectiva otimista de 
preservar algo em torno de R$ 300 milhões para a Funarte, mas a realidade é 
que, entre custeio e a atividade fim, tivemos apenas R$ 20 milhões. A Funarte 
não sobrevive com isso, ela faz parcerias com a Petrobras e outras estatais, 
que investem em prêmios e editais. Tudo isso foi minimizado, mas a gente queria 
uma institucionalização para evitar que ficasse na eterna sazonalidade. Aquela 
história de não saber quando vem o dinheiro.

Que perspectivas o senhor vê nas mudanças previstas da Lei Rouanet?
As propostas que o ministro tem estão sendo recebidas com entusiasmo. Serão 
correções. Entre as considerações do ministro, está o Estado se tornar 
concorrente do produtor. Ele citou o caso de São Paulo que, via Oscipes, 
financia políticas com o dinheiro da Lei Rouanet, o que muitas vezes não se 
divulga. As empresas costumam dizer que investem em cultura, o que não é 
verdade porque o dinheiro não é delas, é do ministério, é renúncia. Temos de 
tornar pública a presença do Estado em relação nessas políticas. Como lembrou o 
ministro, ele não pode se isentar dessa crítica da administração cultural do 
Estado, já que grande parte das políticas do MinC se dá via Lei Rouanet. Temos 
de direcionar os recursos da lei para a sociedade, para que ela usufrua esses 
valores em seus próprios projetos. A idéia é que parte do dinheiro seja 
direcionado de tal forma dos recursos de incentivo, de renúncia, que, sendo 
aprovado, você já tenha seu projeto garantido por um fundo. Estamos mexendo no 
Fundo Nacional de Cultura para criar um mecanismo menos vulnerável. Quanto mais 
a empresa investir, mais isenção ela terá. Hoje já tem isenção de 100%, mas 
passará a ser apenas para quem realmente fizer investimento que beneficie a 
sociedade. Esse talvez seja o aspecto mais polêmico, de as pessoas receberem 
dos patrocinadores a resposta. Vamos procurar comprometer os investidores a 
cumprir seu papel no mecenato. Não se pode fazer mecenato com dinheiro do 
governo. As propostas estão sendo debatidas com a sociedade, mas o consenso é 
que vai determinar as mudanças.

O fim das caravanas do Projeto Pixinguinha foi criticado pela classe musical, 
em especial do autor e curador do projeto, Hermínio Bello de Carvalho. Como 
pretende conciliar mais esse problema?
Ter o Hermínio Bello perto da gente é uma solução (risos). O Hermínio é um 
velho amigo, uma pessoa que respeito e tenho certeza que vamos rever isso. Este 
ano já não tem como refazer porque o edital já foi julgado. Vamos ver o que 
pode ser corrigido e melhorado para as futuras edições, com maior fidelidade ao 
espírito do Pixinguinha. E certamente até enriquecidas de novas sugestões.



http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_54.htm
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