CORREIO BRAZILIENSE
Brasília, quarta-feira, 10 de junho de 2009

Obituário
Raul de Barros, trombonista




Da Redação

Durante décadas, ele foi o dono dos salões. No trombone, Raul de Barros criou 
as orquestras para balançar todos ao som da gafieira. Montou a primeira em 
1950, na Rádio Nacional. Um dos crooners: o então desconhecido Cauby Peixoto. 
Dono de um som limpo, estilo gingado e brilhante, o instrumentista, regente e 
compositor Raul de Barros morreu ontem, aos 93 anos, de insuficiência renal e 
enfisema pulmonar, em Itaboraí, região metropolitana do Rio. Deixou legado 
marcado pelo improviso em choros como Na glória e Pororó-pororó. Em Brasília, 
ele esteve em 2002 em show no Clube do Choro.

— A convite de Juscelino Kubitschek, vim tocar no lançamento da pedra 
fundamental. Depois, voltei para a inauguração da nova capital. No Palácio da 
Alvorada, JK chegou para mim e perguntou se não era muito complicado tocar 
trombone. Aí respondi: “Excelência, complicado deve ser comandar o Brasil”, 
contou em entrevista ao repórter Irlam Rocha Lima.

Considerado Rei da Gafieira, Raul de Barros começou nas pistas da periferia do 
Rio. Aprendeu trombone com Eugênio Zanata e sax com Ivo Coutinho. Optou pelo 
primeiro. Hábil no instrumento, construiu carreira com mais de 48 discos 
gravados. Diziam que ele extravasava a personalidade no trombone, espécie de 
espelho da sua personalidade. Cruzou o mundo com a alegria contagiante dos 
salões e, na memória afetiva, guardava a lembrança de ter tocado com Louis 
Armstrong, no Festival de Arte Negra do Senegal, em 1974.

— A gente já se conhecia. Anos antes, tínhamos tocado juntos no Teatro 
Municipal, no Rio de Janeiro. Tanto no Brasil como em Nova York, Armstrong, a 
quem tanto admirei, foi muito simpático comigo. Outro que sempre me tratou com 
atenção foi Ray Conniff. Toquei com suas orquestras algumas vezes, inclusive em 
show aberto ao público na Cinelândia, lembrou Raul.

Apresentando-se esporadicamente, sobretudo no Rio e em São Paulo, mantinha 
repertório de pérolas que não deixava ninguém parado. Na glória (de Raul e Ary 
dos Santos), Doce de coco (Jacob do Bandolim), Ela disse-me assim (Lupicínio 
Rodrigues), Piston de gafieira (Billy Blanco) e Copacabana (Alberto Ribeiro e 
Braguinha) não faltavam nos shows. Pelos artistas que foram acompanhados por 
esse ás do instrumento, a exemplo de Ary Barroso e Pixinguinha,era chamado de 
Raul do Trombone.

— Participei de praticamente de todos os programas da Rádio Nacional. O de 
César Alencar, do Paulo Gracindo, do Trem da alegria, acompanhando Francisco 
Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Emilinha, Marlene, Dalva de Oliveira, as 
irmãs Dircinha e Linda Bastista. Fui também contratado da TV Globo. Quem me 
levou para a televisão foi o Maurício Shermann. Fui integrar a orquestra da 
Globo, regida pelo maestro Simon Butman.

Dono dessa rica história, Raul morreu pobre e esquecido. Deixou vivência 
surpreendente nesse país sem memória.
http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_85.htm

De:[email protected]

Para:"Sonia Palhares Marinho" [email protected]

Cópia:[email protected]

Data:Tue, 9 Jun 2009 20:46:57 -0300 (Hora oficial do Brasil)

Assunto:Re: [S-C] Morre Raul de Barros (O Globo Online)

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