Encaminho o texto de Marcello Tod para postagem na lista.

 

 

Abraços. Sonia Palhares (BsB-DF)



> Tribuneiros, escrevi ha algumas semanas o artigo abaixo e não sei porque foi
> recusado pela tribuna. Sou compositor, jornalista e pesquisador musical,
> portanto me jugo com cabedal suficiente para opinar, porém não me foi dado
> esse direito, então resolvi tomar a liberdade de mandar o texto com cópia
> para os tribuneiros que opinaram sobre o assunto, desculpem pela invasão,
> mas é para o caso dele ser recusado sumariamente outra vez, a exemplo do que
> acontecia na época de censura, pelo menos os que se manifestaram sobre o
> tema, receberão. Abraços!
> Segue o artigo:
> 
> ______________________
> 
> A colocação é perfeita, Gilberto. Temos duas ou mais situações, até.
> O cidadão e o profissional.

>
> Se o cidadão cometeu algum erro, por covardia, por inocência ou mesmo má fé,
> é uma coisa.

>
> Se o profissional consegue ter um trabalho de qualidade e cumprir suas
> atribuições com exatidão é outra.
> 
> Não estou aqui pra julgar, condenar, nem defender. Quero fazer apenas uma
> análise fria dos fatos de que se tem notícia.
> 
> Certa vez vi uma matéria sobre os erros do saudoso goleiro Barbosa, da
> seleção brasileira, na final da copa do mundo de 1950, no Maracanã, em que
> se dizia não haver prisão perpétua no Brasil e que o único brasileiro
> condenado perpetuamente foi ele, por ter ficado eternamente marcado por dois
> deslizes em um único jogo, em meio a uma vida profissional de extrema
> retidão. Barbosa, dali pra frente teve prejuízos enormes no andamento da
> carreira e morreu sem jamais ter sido perdoado pela crônica e pelos
> torcedores.
> 
> Simonal também foi condenado à perpetuidade. Caiu no ostracismo de um país
> em que a memória já não é das melhores e que não conhece ou respeita a sua
> história. Artistas saem da mídia com muita facilidade pelos modismos e
> imposições de mercado e muitos morrem de fome, imagine no caso dele em que
> se juntam imposição da mídia x modismos x história x intolerância dos
> homens. Uma pátria onde se pode cometer milhões de acertos e um erro. Sempre
> se há de ficar marcado eternamente por aquele erro.
> 
> Costumo dizer que não se ouve Simonal pra prestigiar o dedurador, se é que
> ele o foi efetivamente, não cabe julgar isso aqui.
> Da mesma forma que se sabe da postura de outros artistas com relação a opção
> sexual, vícios, drogas, fumo, bebida e eles não deixam de ter público, pois
> não se compra um CD, um DVD, frequenta-se shows para vê-los cometerem esses
> atos que "atentem contra a moral e os bons costumes" e sim para vê-los e
> ouvi-los cantarem.

>
> Sabe-se, por exemplo, que um médico é casado, mas amante de várias mulheres,
> na vida pessoal, pega todas as enfermeiras do plantão. Será que ele deixa de
> ser médico por causa desse desvio de caráter?

>
> Um jogador de futebol, fora do campo, comete excessos, brigas, confusões,
> frequenta baladas não recomendáveis para a profissão, os bad-boys, como se
> disse tempos atrás. Porém, dentro de campo ele tem um retrospecto favorável.
> O técnico deve pensar: "vou convocar esse jogador aqui que não é tão bom
> quanto o outro, mas pelo menos é bem comportado" ou melhor pensar: "quero o
> cara pra comer a bola e não pra comer a minha filha, então é ele que joga
> porque é o melhor!"?
> 
> Enfim, a ditadura ocorreu em dezenas de países. A injeção de ânimo,
> estrutura e verba para manter a ditadura deveu-se basicamente pelos
> interesses de uma nação que culturalmente tem muito pouco a nos ensinar. Na
> maioria dos países onde ocorreu esse tipo de manifestação, a repressão, pelo
> menos oficialmente, acabou há mais de 20 anos, no caso do Brasil, vamos indo
> pra 25 anos.

>
> A Anistia chegou em 1979, portanto 30 anos.

>
> Com ela, foram anistiados os exilados políticos, que foram para fora,
> estudaram, tiveram alguns ótima formação e no retorno puderam desenvolver
> seu trabalho com dignidade e alguns chegaram a ser deputados, senadores,
> prefeitos, governadores, parlamentares, artistas de sucesso, presidente!!! e
> até ministros, afastados ou não por corrupção, mas isso não vem ao caso. Com
> a anistia, tivemos de volta Caetano, Vandré, Chico, Taiguara, Gil, Oduvaldo,
> Gláuber, Sergio Ricardo e tantos outros que, anistiados, conseguiram nos
> brindar com suas belas obras, sem mais retaliações da censura prévia ou
> extirpação da sua manifestação popular, cultural, histórica, de protesto.

>
> Com a anistia, a imprensa falada, eletrônica e escrita pode ter mais
> liberdade, deixaram de haver páginas em branco nos jornais, códigos de aviso
> nos meios da notícia, logotipos, receitas culinárias fora de sessão,
> linguagem subliminar, notícias incompletas, ausentes ou truncadas.

>
> Com a anistia, os falecidos durante o regime, de um lado ou de outro também
> foram perdoados, hoje muitos são lembrados como heróis, cultuados, ganharam
> nomes de ruas, bairros, prédios, cidades e seus herdeiros foram até
> indenizados pelos desvelos do passado.

>
> Com a anistia, até os torturadores foram perdoados, deixaram de responder
> pelos seus atos, se tornaram cidadãos responsáveis e voltaram a ser
> policiais de bem, defendendo a vida e os direitos dos cidadãos. Hoje a
> maioria não está mais na ativa e goza, ou seus herdeiros gozam de justas
> pensão e/ou aposentadoria.

>
> Uma escritora de Curitiba, chamada Tereza Urban, certa vez disse em uma
> entrevista: "ninguém é pessoa de bem numa ditadura".
> Todos, os bons e os maus, os geraldinos e arquibaldos, os humilhados e
> oprimidos, os humilhadores e opressores foram perdoados.
> 
> Menos Simonal. Morreu, mas ainda vive em nome e história, não pela linda
> obra, pelo invejável talento, mas por ainda não ter sido anistiado, nem
> julgado, condenado direto ao ostracismo, sem passar pelo banco dos réus e
> relegado eternamente e perpetuamente a uma prisão sem muros, sem grades e
> sem cárcere. Pior talvez que uma prisão física.
> 
> Mas há um atenuante. Diziam que ele era bom de bola. No céu estão dezenas de
> astros da bola que gostavam dele. E tenho certeza, na hora de dividir o time
> pra pelada, Simonal e Barbosa conseguem vaga vitalícia entre os titulares.
> Ou será que ficam de fora da brincadeira e ficam os dois sozinhos brincando
> de disputa de pênaltis enquanto os outros se divertem?
> 
> Saliento que não estou aqui nem pra defender, nem pra julgar. Mas ponderar
> friamente pode, não pode? Ou corro o risco de ser mal interpretado e também
> ser condenado à pena perpétua por essas poucas palavras?
> 
> Todos nós somos passíveis de erros e garanto que nenhum de nós quer ficar
> sem trabalho, passar fome, ficar esquecido pela sociedade, não ter condição
> de criar os filhos por algum erro. E sim, gostaríamos todos de sermos bem
> lembrados pelos acertos.
> 
> Abraços aos tribuneiros!
> Marcello Tod


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